

MILLENNIUM



STIEG LARSSON

OS HOMENS QUE NO AMAVAM AS MULHERES

Traduo
Paulo Neves

4 reimpresso


http://groups.google.com.br/group/digitalsource

Esta obra foi digitalizada pelo grupo Digital Source para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefcio de sua leitura queles que no podem compr-la 
ou queles que necessitam de meios eletrnicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a sua troca por qualquer contraprestao  totalmente condenvel 
em qualquer circunstncia. A generosidade e a humildade  a marca da distribuio, portanto distribua este livro livremente.
     Aps sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim voc estar incentivando o autor e a publicao de novas obras.
    
Copyright  2005 by Stieg Larsson

Ttulo original sueco 
Mn som hatar kvinnor

Traduzido da edio francesa (Les hommes qui n'aimaient pas les femmes)

Capa
Retina 78

Preparao
Maria Ceclia Caropreso

Reviso 
Marise S. Leal 
Carmen S. da Costa 

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Larsson, Stieg, 1954-2004
    Os homens que no amavam as mulheres / Stieg Larsson ; traduo Paulo Neves,  So Paulo : Companhia das Letras, 2008.  (Millennium ; 1)
Ttulo original : Man som hatar kvinnor. 
ISBN 978-85-359-1524-8
1. Fico policial e de mistrio (Literatura sueca) 2. Romance sueco I. Ttulo. II. Srie.
08-08796 CDD-839.737

ndice para catlogo sistemtico:
1. Romances : Literatura sueca 839.737

[2009]
Todos os direitos desta edio reservados 
EDITORA SCHWARCZ LTDA.
Rua Bandeira Paulista 702 cj. 
32 04532-002  So Paulo  SP 
Telefone (11) 3707-3500 Fax (11) 3707-3501 
www.companhiadasletras.com.br
    
   SUMRIO
    
    
    Prlogo: sexta-feira 1 de novembro
    
    I.         Incitao (20 de dezembro a 3 de janeiro)
    II.         Anlise das consequncias (3 de janeiro a 17 de maro)
    III.         Fuses (16 de maio a 14 de julho)
    IV.         Takeover hostil (11 de julho a 30 de dezembro)
    
Eplogo  acerto de contas: quinta-feira 27 de novembro a tera-feira 30 de dezembro
    
   PRLOGO
   SEXTA-FEIRA 1 DE NOVEMBRO
    
    
    Acontecia todos os anos, quase como um ritual. O homem que recebia a flor festejava naquele dia seus oitenta e dois anos. Ele abriu o envelope e retirou o papel 
de presente do embrulho. Depois pegou o telefone e digitou o nmero de um ex-inspetor de polcia que desde sua aposentadoria instalara-se na Dalecarlia, perto do 
lago Siljan. Os dois homens no s tinham a mesma idade mas haviam nascido no mesmo dia  o que, nessas circunstncias, parecia irnico. O inspetor sabia que receberia 
esse telefonema aps a passagem do carteiro por volta das onze da manh, e tomava seu caf enquanto aguardava. Nesse ano, o telefone tocou s dez e meia. Ele atendeu 
e foi direto ao assunto.
     Ela chegou, suponho. E ento, qual  a flor deste ano?
     No fao a menor idia. Vou mandar identific-la. Uma flor branca.
     Nenhuma carta, como sempre?
     No. Apenas a flor. A moldura  a mesma do ano passado. Uma dessas molduras baratas do tipo faa-voc-mesmo.
     Selo do correio?
     Estocolmo.
     Escrita?
     Como sempre, maisculas de imprensa. Letras retas e bem traadas.
    Haviam esgotado o assunto e ficaram em silncio durante quase um minuto. O inspetor aposentado inclinou-se para trs na cadeira da cozinha e aspirou seu cachimbo. 
Sabia muito bem que no se esperava dele uma pergunta concisa ou um comentrio perspicaz que lanassem uma nova luz sobre o caso. Essa poca acabara havia anos, 
e a conversa entre os dois homens idosos tinha o carter de um ritual em torno de um mistrio que ningum mais no mundo, a no ser eles, estava disposto a resolver.
    
    
    O nome latino da planta era Leptospermum rubinette (Myrtaceae). Uma planta de mato, relativamente comum, com folhas pequenas que lembram as da urze, e uma flor 
branca de dois centmetros com cinco ptalas. Comprimento total: cerca de dez centmetros.
    Era encontrada no mato e nas regies montanhosas da Austrlia, onde brotava sob a forma de grossos tufos de erva. L, chamavam-na desert snow. Mais tarde, uma 
especialista do jardim botnico de Uppsala constataria se tratar de uma planta rara, muito pouco cultivada na Sucia. Em seu relatrio, a botnica escreveu que a 
planta era aparentada da murta de apartamento, seguidamente confundida com sua prima bem mais comum, a Leptospermum scoparium, abundante na Nova Zelndia. Segundo 
a especialista, a diferena consistia num nmero restrito de microscpicos pontos rosados na extremidade das ptalas, que davam  flor uma leve tonalidade rsea.
    De maneira geral, a rubinette era uma flor particularmente insignificante. No tinha valor comercial nem virtudes medicinais conhecidas, e no era alucingena. 
No comestvel, inutilizvel como condimento e desprovida de propriedade colorante. Contudo, tinha certa importncia para os aborgenes da Austrlia, que, por tradio, 
consideravam sagradas a regio e a flora ao redor de Ayers Rock. Assim, a nica finalidade dessa flor parecia ser valorizar agradavelmente o entorno com sua beleza 
caprichosa.
    Em seu relatrio, a botnica de Uppsala constatava que, se na Austrlia a desert snow era pouco difundida, na Escandinvia, ento, era rarssima. Ela prpria 
nunca vira nenhum exemplar, mas, por informaes obtidas com alguns colegas, sabia de tentativas de introduo da planta num jardim em Gteborg, e no se exclua 
a possibilidade de que jardineiros amadores e fanticos da botnica a cultivassem em pequenas estufas pessoais. A principal dificuldade de sua aclimatao na Sucia 
era que ela exigia um clima suave e seco, e devia passar os seis meses do inverno protegida. Os solos calcrios no lhe convinham e ela necessitava de uma irrigao 
subterrnea, diretamente absorvida pela raiz. Exigia conhecimento e habilidade no cultivo.
    
    
    Em tese, o fato de essa planta ser rara na Sucia devia facilitar o rastreamento da origem desse exemplar, mas, concretamente, era uma tarefa impossvel. No 
existiam nem registros a consultar nem licenas a examinar. Ningum sabia quantos horticultores amadores podiam ter importado aleatoriamente uma planta to difcil 
 poucas pessoas ou at mesmo centenas de apaixonados por flores podiam ter tido acesso s sementes e s plantas. Qualquer jardineiro poderia t-las comprado de 
um colega sem nota fiscal, ou por correspondncia, ou de algum jardim botnico na Europa. Ela podia at mesmo ter entrado na Sucia com algum que estivesse retornando 
de uma viagem  Austrlia. Ou seja, identificar esses cultivadores entre os milhes de suecos proprietrios de uma pequena estufa ou de um vaso de flores no peitoril 
da janela era uma tarefa destinada ao fracasso.
    Ela no passava de mais um nmero na srie de flores inexplicveis que chegavam todos os anos, sempre num grande envelope acolchoado, no dia 1 de novembro. 
A espcie mudava de ano para ano, mas eram sempre flores lindas e em geral bastante raras. Como sempre, a flor estava prensada em um vidro, cuidadosamente fixada 
sobre papel de desenho e emoldurada no formato 29 por 16.
    
    
    O mistrio dessas flores nunca fora divulgado  imprensa e s era conhecido por um crculo limitado. Trs dcadas antes, a chegada anual da flor fora objeto 
de anlises  do laboratrio criminolgico do Estado, de peritos em impresses digitais e grafologistas, de criminologistas formados e de um certo nmero de familiares 
e amigos do destinatrio. Agora, os atores desse drama no eram mais que trs: o velho heri aniversariante, o policial aposentado e, naturalmente, a pessoa desconhecida 
que enviava o presente. Como pelo menos os dois primeiros haviam atingido uma idade mais que respeitvel, chegava o momento de se preparar para a inelutvel diminuio, 
em breve, desse crculo de iniciados.
    O policial aposentado era um veterano fortalecido pela profisso. Nunca esquecera sua primeira ocorrncia: a deteno de um bbado  um mecnico ferrovirio 
, violento e disposto a colocar sua vida ou a de qualquer um em jogo. Ao longo de sua carreira, o policial pusera na priso gatunos, homens que batiam na mulher, 
vigaristas, ladres de carro e motoristas embriagados. Confrontara-se com assaltantes, ladres, traficantes, estupradores e um dinamitador com uma certa dose de 
problemas mentais. Participara de nove inquritos sobre crimes e assassinatos. Em cinco deles, o prprio culpado, atormentado pelo remorso, chamara a polcia para 
confessar o assassinato da mulher, do irmo ou de algum outro familiar. Trs casos haviam exigido investigaes; dois tiveram seu desfecho depois de alguns dias 
e um, com o auxlio da Polcia Federal, passados dois anos.
    O nono inqurito no tinha bases policiais slidas, isto , os investigadores sabiam quem era o assassino, mas as provas eram to insignificantes que o procurador 
decidiu deixar o caso em suspenso. Para grande prejuzo do inspetor, o caso acabou prescrevendo. No todo, porm, ele deixara atrs de si uma carreira impressionante 
e, claro, deveria se sentir satisfeito pelo trabalho realizado.
    Mas ele no estava nada satisfeito.
    Para o inspetor, o caso das flores secas era um espinho que continuava encravado  o inqurito frustrante, jamais resolvido, ao qual indiscutivelmente dedicara 
mais tempo.
    A situao era duplamente absurda porque, aps milhares de horas de reflexo, tanto em servio como em seu tempo livre, ele no estava sequer seguro de ter havido 
um crime.
    Os dois homens sabiam que a pessoa que colara a flor seca utilizara luvas, porm no havia impresses nem na moldura nem no vidro. Sabiam que era impossvel 
descobrir o remetente. Sabiam que a moldura era vendida em lojas de fotografias ou em papelarias do mundo inteiro. Simplesmente no havia como seguir a menor pista. 
E o selo do correio sempre mudava; com mais frequncia era de Estocolmo, mas trs vezes foi de Londres, duas de Paris, duas de Copenhague, uma de Madri, uma de Bonn 
e uma vez, a mais intrigante, de Pensacola, nos Estados Unidos. Enquanto todas as outras cidades eram capitais, Pensacola era um nome to desconhecido que o inspetor 
foi obrigado a procurar a cidade num atlas.

* * *
    Depois de desligar o telefone, o homem que festejava seus oitenta e dois anos permaneceu imvel por um longo momento, contemplando a bela mas insignificante 
flor cujo nome ainda no conhecia. Em seguida ergueu os olhos para a parede acima da escrivaninha. Havia ali quarenta e trs flores penduradas, prensadas sob o vidro 
e emolduradas, formando quatro fileiras de dez flores e uma fileira inacabada de quatro. Na fileira superior, faltava um quadro. O nmero 9 estava vazio. A desert 
snow ia ser o nmero 44.
    Pela primeira vez, no entanto, ocorreu algo que quebrou a rotina de todos aqueles anos. De repente, de forma inesperada, ele comeou a chorar. Ele mesmo se surpreendeu 
com essa sbita efuso sentimental depois de quase quarenta anos.
    

   I.         INCITAO
             20 DE DEZEMBRO A 3 DE JANEIRO
    



Na Sucia, 18% das mulheres foram ameaadas por um homem pelo menos uma vez na vida.
    
   1.         SEXTA-FEIRA 20 DE DEZEMBRO
    
    
    O processo estava definitivamente encerrado e tudo que podia ser dito fora dito. Ele no duvidara um s instante que seria declarado culpado. A sentena fora 
pronunciada s dez da manh desta sexta-feira e agora no restava seno ouvir a opinio dos jornalistas que aguardavam no corredor do tribunal.
    Mikael Blomkvist os viu pela fresta da porta e deteve-se alguns segundos. No tinha vontade de discutir o veredicto cuja cpia acabava de obter, mas as perguntas 
eram inevitveis e ele sabia  melhor que ningum  que elas deviam ser feitas e que era preciso respond-las. Eis o que  ser um criminoso, pensou. Do outro lado 
do microfone. Endireitou-se, pouco  vontade, e tentou sorrir. Os reprteres o receberam e o cumprimentaram gentilmente, um pouco constrangidos.
     Vejamos... Aftonbladet, Expressen, TT, TV4 e... voc de onde ?... Ah, sim, Dagens Industri. Parece que virei uma celebridade  constatou Mikael Blomkvist.
     Uma declarao, por favor, Super-Blomkvist!  disparou o enviado de um dos jornais vespertinos.
    Mikael Blomkvist, cujo nome completo era Carl Mikael Blomkvist, forou-se a no levantar os olhos para o cu como fazia todas as vezes que ouvia esse apelido. 
Certa vez, vinte anos antes, quando tinha vinte e trs anos e iniciava-se na profisso de jornalista como substituto de frias de vero, Mikael Blomkvist descobrira 
por acaso uma gangue de assaltantes de bancos, autores de cinco aes violentas muito noticiadas naqueles ltimos dois anos. Tratava-se, com toda a certeza, do mesmo 
grupo; sua especialidade era chegar de carro em cidades pequenas e assaltar um ou dois bancos com preciso militar. Usavam mscaras de borracha dos personagens de 
Walt Disney e foram batizados  segundo uma lgica policial no de todo absurda  de o Bando do Pato Donald. Os jornais, porm, preferiram cham-los de os Irmos 
Metralha, apelido um pouco mais srio, j que em duas ocasies haviam disparado, sem escrpulos, tiros de advertncia, sem se importar com a segurana das pessoas, 
ameaando transeuntes e curiosos.
    O sexto ataque  mo armada ocorreu num banco de stergtland, em pleno vero. Um reprter da rdio local achava-se no banco no momento do assalto e reagiu de 
acordo com as regras da profisso. Assim que os assaltantes deixaram o banco, ele correu at uma cabine telefnica e se comunicou com a rdio para transmitir ao 
vivo a informao.
    Mikael Blomkvist passava alguns dias com uma amiga na casa de campo dos pais dela, no muito distante de Katrineholm. Quando a polcia o interrogou, ele no 
soube dizer exatamente por que fizera a ligao, mas no momento em que escutava as informaes no rdio lembrou-se de quatro sujeitos numa casa de veraneio a poucas 
centenas de metros dali. J os vira dois dias antes, quando passeava com a amiga: os sujeitos jogavam badminton no jardim.
    Ele vira apenas quatro jovens louros e atlticos, de bermuda e peito nu, visivelmente adeptos do body-building, mas algo nesses jogadores de badminton o fizera 
olhar uma segunda vez  talvez porque jogassem, sob um sol escaldante, com uma energia e uma violncia espantosas. No parecia um jogo, e isso chamara a ateno 
de Mikael.
    No havia nenhum motivo racional para suspeitar que aqueles homens fossem os assaltantes do banco; no entanto, depois do flash na rdio, Mikael Blomkvist saiu 
para dar uma volta e se posicionou numa colina com vista para a casa, de onde constatou que tudo ali parecia vazio at o momento. Depois de uns quarenta minutos, 
ele viu o grupo chegar num Volvo e estacionar. Pareciam apressados, cada um carregava uma sacola, o que apenas podia significar que eles haviam sado para tomar 
banho em algum lugar. Mas um deles voltou ao carro e pegou um objeto, que se apressou a cobrir com o bluso do abrigo. Mesmo de seu posto de observao relativamente 
afastado, Mikael viu que se tratava de um rifle AK4, do tipo dos que ele mesmo manipulara havia no muito tempo durante seu ano de servio militar. Foi o que o levou 
a chamar a polcia e a relatar suas observaes. Comearam ento trs dias de uma intensa vigilncia da casa, com Mikael na primeira fila, sustentado por copiosos 
honorrios de freelance pagos por um dos jornais vespertinos. A polcia montou seu quartel-general num trailer estacionado no terreno da casa de campo onde Mikael 
passava frias.
    O caso dos Irmos Metralha deu a Mikael a incontestvel condio de vedete, que ele tanto necessitava como jornalista iniciante. O reverso da celebridade foi 
que o outro jornal vespertino no pde deixar de dar a manchete: "Super-Blomkvist resolve o mistrio dos Metralha". O texto gozador, escrito por uma redatora no 
muito jovem, continha vrias referncias ao heri dos romances juvenis de Astrid Lindgren. Para completar, o jornal ilustrava o artigo com uma foto no muito clara, 
em que Mikael, de boca aberta e dedo indicador erguido, parecia dar instrues a um policial de uniforme. Na realidade, o que ele indicava nesse momento eram os 
sanitrios no fundo do jardim.
    
    
    A partir desse dia, para seu grande desespero, seus colegas jornalistas passaram a cham-lo de Super-Blomkvist. Era um apelido pronunciado com um toque malicioso, 
nunca maldoso, mas tambm nunca verdadeiramente carinhoso. Ele no tinha nada contra a pobre Astrid Lindgren  adorava seus livros e as aventuras de seu jovem heri 
detetive , porm detestava o apelido. Haviam sido necessrios vrios anos e mritos jornalsticos bem mais consistentes para que o apelido comeasse a se diluir, 
e Mikael ainda hoje se contraa toda vez que o chamavam de Super-Blomkvist.
    Assim, armou um sorriso tranquilo e olhou o enviado do jornal vespertino bem nos olhos.
     Voc s precisa inventar alguma coisa. No  o que costuma fazer quando escreve?
    O tom no era spero. Todos se conheciam um pouco, e os crticos mais ferrenhos de Mikael no tinham vindo. Ele j havia trabalhado com um dos rapazes que estavam 
ali; quanto  moa da Tv4, por pouco no transara com ela numa festa anos antes.
     Eles no acreditaram em voc  constatou o Dagens Industri, que parecia ter enviado um foca.
     Pode-se dizer que sim  reconheceu Mikael. Dificilmente poderia responder outra coisa.
     Como est se sentindo?
    Apesar da gravidade da situao, nem Mikael nem os jornalistas credenciados puderam deixar de esboar um sorriso ao ouvir a pergunta. Mikael trocou um olhar 
com a moa da TV4. Como est se sentindo? Pergunta que os jornalistas srios dizem ser a nica que os reprteres esportivos sabem fazer ao Esportista Sem Flego 
que cruzou a linha de chegada. Mas ele voltou a ficar srio.
      evidente que s posso lamentar que o tribunal no tenha chegado a outras concluses  respondeu um tanto formal.
     Trs meses de priso e cento e cinquenta mil coroas por perdas e danos. No  pouco  disse a moa da TV4.
     Sobreviverei.
     Voc pretende se desculpar com Wennerstrm, apertar-lhe a mo?
     No, nem imagino uma coisa dessas. Minha opinio sobre a moralidade do senhor Wennerstrm nos negcios no mudou muito.
     Ento continua afirmando que ele  um escroque?  perguntou vivamente o Dagens Industri.
    Uma declarao acompanhada de uma manchete potencialmente devastadora anunciava-se por trs da pergunta, e Mikael poderia ter pisado na casca de banana se o 
reprter no tivesse assinalado o perigo ao avanar o microfone com demasiada pressa. Ele refletiu sobre a resposta por alguns segundos.
    O tribunal acabara de concluir que Mikael Blomkvist caluniara o financista Hans-Erik Wennerstrm. Ele fora condenado por difamao. O processo terminara e Mikael 
no pretendia recorrer. Mas o que aconteceria se, por imprudncia, reiterasse suas acusaes ao sair da sala do tribunal? Decidiu que no tinha vontade de saber.
     Julguei ter tido boas razes para publicar as informaes de que eu dispunha. A opinio do tribunal foi outra e evidentemente sou obrigado a aceitar que o 
processo siga seu curso. Agora vamos discutir esse julgamento a fundo na redao da revista antes de decidir o que faremos. No posso dizer mais nada.
     Mas voc est esquecendo que ns, como jornalistas, devemos ter como provar nossas afirmaes  disse a moa da TV4 com um tom de voz levemente custico. Ponto 
difcil de contestar. Eles haviam sido amigos. Ela exibia um rosto neutro, mas Mikael teve a impresso de vislumbrar uma sombra de decepo em seus olhos.
    Ainda durante alguns dolorosos minutos, Mikael Blomkvist respondeu s perguntas. A que pairava no ar e que nenhum reprter decidia-se a fazer  talvez porque 
de to incompreensvel se tornava incmoda  era como Mikael pudera escrever um texto to sem substncia. Os reprteres ali presentes, com exceo do foca do Dagens 
Industri, eram todos veteranos, com grande experincia profissional. Para eles, a resposta a essa pergunta achava-se alm do limite do compreensvel.
    A moa da TV4 pediu que ele ficasse em frente  porta do Palcio de Justia e fez suas perguntas  parte, diante da cmera. Ela foi mais amvel do que ele merecia, 
e Mikael deu declaraes suficientes para satisfazer a todos os jornalistas. O caso renderia grandes manchetes  era inevitvel , mas ele se forou a pr na cabea 
que no se tratava, de modo algum, do maior acontecimento do ano na mdia. Quando os reprteres conseguiram o que queriam, foram embora para suas respectivas redaes.
    
    
    Tinha a inteno de voltar a p para casa, mas ventava muito naquele dia de dezembro e ele sentia frio. Ao sair sozinho do Palcio de Justia, viu William Borg 
descer de um carro no qual permanecera durante a entrevista. Seus olhares se cruzaram, William Borg exibia um grande sorriso.
     Valeu a pena vir at aqui para v-lo com esse documento na mo. Mikael no respondeu. William Borg e Mikael Blomkvist se conheciam havia quinze anos. Durante 
algum tempo trabalharam juntos como jornalistas substitutos na seo de economia de um dirio matutino. Talvez pela falta de qumica entre os dois, esse perodo 
estabelecera uma hostilidade permanente entre eles. Aos olhos de Mikael, Borg era um jornalista execrvel, um sujeito fatigante e vingativo, de esprito curto, que 
aborrecia os que estavam a sua volta com gracejos imbecis e que insinuava desprezo pelos jornalistas mais velhos, portanto mais experientes. Borg parecia ter particular 
averso por jornalistas mulheres de uma certa idade. Eles discutiram uma primeira vez, depois outras, at que suas diferenas adquiriram um carter profundamente 
pessoal.
    No decorrer dos anos, Mikael e Borg haviam se cruzado com regularidade, mas s se indispuseram de fato no final dos anos 1990. Mikael escrevera um livro sobre 
jornalismo econmico e extrara mais de uma citao absurda dos artigos assinados por Borg. Segundo Mikael, Borg era um presunoso que entendera de maneira errada 
a maior parte das informaes e elevara s nuvens empresas "pontocom" que no tardariam a sucumbir. Borg no gostou da crtica de Mikael e, quando se encontraram 
por acaso num bar em Sder, por pouco no chegaram s vias de fato. Borg abandonara o jornalismo e agora trabalhava como relaes-pblicas, recebendo um salrio 
consideravelmente mais alto, numa empresa que, para completar, pertencia  esfera de interesses do industrial Hans-Erik Wennerstrm.
    Eles se encararam por um bom tempo antes de Mikael virar as costas e ir embora. Vir ao Palcio com a nica finalidade de tirar um sarro era bem tpico de Borg.
    Mikael tinha comeado a caminhar quando o 40 chegou e ele subiu no nibus, antes de mais nada para sair dali. Desceu em Fridhemsplan e ficou indeciso no abrigo 
de nibus, sempre segurando na mo a cpia de sua sentena. Decidiu enfim ir a p at o caf Anna, ao lado da garagem da delegacia.
    Menos de um minuto depois de pedir um caff latte e um sanduche, o noticirio do meio-dia comeou pelo rdio. O assunto foi o terceiro, depois de um atentado 
suicida em Jerusalm e da notcia de que o governo formara uma comisso de inqurito para investigar aparentes cartis ilcitos na construo civil.
    
O jornalista Mikael Blomkvist, da revista Millennium, foi condenado nesta sexta-feira a trs meses de priso por difamao contra o industrial Hans-Erik Wennerstrm. 
Num artigo sobre o suposto caso Minos, que h alguns meses chocou a opinio pblica, Blomkvist acusava Wennerstrm de ter desviado fundos sociais, destinados a investimentos 
industriais na Polnia, para o trfico de armas. Mikael Blomkvist tambm foi condenado a pagar cento e cinquenta mil coroas por perdas e danos. O advogado de Wennerstrm, 
Bertil Camnermarker, disse que seu cliente estava satisfeito com a sentena. "Trata-se de um caso de difamao particularmente grave", declarou.
    
    A sentena ocupava vinte e seis pginas. Ela apresentava as razes pelas quais Mikael fora julgado culpado em quinze pontos, por difamao agravada contra o 
financista Hans-Erik Wennerstrm. Mikael constatou que cada uma das acusaes que o condenavam custava dez mil coroas e seis dias de priso. Sem contar as custas 
do processo e suas prprias custas com advogado. Ele no tinha sequer a coragem de comear a refletir sobre o tamanho da conta, mas tambm dizia a si mesmo que podia 
ter sido pior; o tribunal o inocentara em sete itens.
    A medida que lia o enunciado da sentena, uma sensao de peso cada vez mais desagradvel ia se instalando em seu estmago. Ficou surpreso com isso. Desde o 
incio do processo, sabia que s um milagre o livraria da condenao. No tinha a menor dvida a respeito e acostumara-se com a idia. Permanecera com o esprito 
relativamente tranquilo durante os dois dias em que transcorrera o julgamento, e por onze dias esperou, sem sentir nada de especial, que o tribunal acabasse de refletir 
e formulasse o texto que ele segurava na mo. Mas s agora, encerrado o julgamento,  que o mal-estar se insinuara.
    Mordeu um pedao do sanduche, mas o po pareceu inchar dentro de sua boca. Teve dificuldade de engolir e o cuspiu no prato.
    Era a primeira vez que Mikael Blomkvist era condenado por um delito  a primeira vez que se via acusado de alguma coisa ou chamado a comparecer em juzo. Pensando 
bem, a sentena era insignificante. Um delito peso-pena. Afinal, no se tratava de roubo  mo armada, de assassinato ou estupro. Mas, do ponto de vista financeiro, 
a condenao teria consequncias. A Millennium no era nenhum carro-chefe do mundo da mdia, nem dotada de recursos ilimitados  a revista atuava com uma estreita 
margem de lucro , mas a condenao tambm no era uma catstrofe. O problema  que Mikael era ao mesmo tempo um dos acionistas da Millennium e, estupidamente, redator 
e editor responsvel pela publicao. Ele pretendia tirar do prprio bolso as cento e cinquenta mil coroas por perdas e danos, o que reduziria a zero sua poupana. 
A revista se encarregaria dos custos judiciais. Navegando com perspiccia, dava para seguir em frente.
    Ocorreu-lhe vender o apartamento, mas essa hiptese ficou atravessada em sua garganta. No final dos felizes anos 1980, numa poca em que tinha emprego fixo e 
um salrio relativamente alto, adquirira um imvel. Visitou uma poro de apartamentos e recusou todos, at encontrar uma gua-furtada de sessenta e cinco metros 
quadrados, bem no comeo da Bellmansgatan. O ex-proprietrio havia comeado a transform-la em algo habitvel, mas fora contratado por uma empresa de informtica 
no exterior e Mikael adquiriu seu projeto de reforma por um preo irrisrio.
    Mikael no quis plantas desenhadas por arquitetos, preferiu ele mesmo terminar as obras, reservando dinheiro para a cozinha e o banheiro, e deixando o resto 
como estava. Em vez de substituir o piso e instalar divisrias para criar dois ambientes, poliu o assoalho, passou cal nas grosseiras paredes originais e cobriu 
os defeitos mais graves com algumas aquarelas de Emanuel Bernstone. O resultado foi um loft arejado, com um quarto atrs de uma estante de livros, um canto para 
refeies e uma sala com uma pequena cozinha americana. O apartamento tinha duas janelas de mansarda e outra triangular com vista para os telhados, para as guas 
do Riddarfjarden e para a cidade velha. Ele at podia avistar uma ponta do Slussen e do pao municipal. Levando em conta os preos de mercado, agora ele no podia 
mais pagar um apartamento como aquele, por isso tinha muita vontade de conserv-lo.
    Mas o risco de perder o apartamento no era nada comparado  enorme bofetada profissional que sofrera, cujos danos levaria algum tempo para reparar, supondo 
que fossem reparveis.
    Era uma questo de confiana. Num futuro prximo, muitos redatores hesitariam em publicar artigos em sua revista. Ele ainda tinha amigos capazes de entender 
que fora vtima do azar e das circunstncias, mas no poderia mais se dar ao luxo de cometer o menor erro.
    O mais doloroso, porm, era a humilhao.
    Tivera todos os trunfos na mo, mas perdera para uma espcie de gangster vestido de Armani. Um especulador safado. Um yuppie defendido por um advogado do jet-set 
que passou o processo inteiro rindo.
    Como as coisas tinham dado to errado?
    
    
    O caso Wennestrm, no entanto, comeara de forma bastante promissora um ano e meio antes na cabine de um veleiro Mlar-30 amarelo, numa noite de So Joo. Tudo 
porque o acaso fizera um ex-colega seu jornalista, na poca relaes-pblicas da prefeitura, alugar um Scampi, sem muito refletir, para impressionar a mais recente 
namorada, levando-a a um cruzeiro romntico de alguns dias pelo arquiplago de Estocolmo. A garota, que tinha vindo de Hallstahammar para estudar em Estocolmo, aps 
certa resistncia, concordou em ir, mas com a condio de que sua irm e o namorado dela tambm fossem. O problema  que os trs nunca tinham estado num veleiro, 
e o relaes-pblicas era um marujo mais entusiasmado que experiente. Trs dias antes da partida, desesperado, ele chamou Mikael e o convenceu a ser o quinto tripulante, 
por ter mais experincia que ele em navegao.
    A princpio reticente, Mikael acabou cedendo diante da oportunidade de ter pela frente alguns dias de descanso no arquiplago e da anunciada perspectiva de boa 
comida e companhia agradvel. As promessas se revelaram falsas, e o cruzeiro acabou sendo uma catstrofe que superou seus piores pesadelos. Eles haviam navegado, 
a menos de dez ns, de Bulland at o estreito de Furusund  bonito,  verdade, mas pouco excitante , o que no impediu que a namorada do relaes-pblicas enjoasse 
desde o incio. Sua irm brigou com o namorado e ningum mostrava o menor interesse em aprender o mnimo que fosse de navegao. Logo ficou evidente que esperavam 
que Mikael fizesse o barco funcionar, enquanto eles se limitavam a dar conselhos bem-intencionados porm totalmente inteis. Aps a primeira noite ancorado numa 
enseada de ngs, ele estava decidido a descer em Furusund e pegar o primeiro nibus de volta para casa. Somente as splicas desesperadas do relaes-pblicas o 
convenceram a permanecer a bordo.
    Na manh seguinte, por volta do meio-dia, cedo ainda para que encontrassem alguns lugares, eles atracaram ao cais dos visitantes em Arholma. Prepararam uma refeio 
e tinham acabado de comer quando Mikael avistou um M-30 com casco de polister entrando na enseada com apenas a vela mestra. O barco deu uma volta tranquila enquanto 
seu piloto procurava uma vaga no cais. Mikael deu uma olhada ao redor e constatou que o espao entre o seu Scampi e um iate a estibordo era provavelmente o nico 
lugar disponvel, suficiente e na medida exata, para o estreito M-30. Foi at a proa e agitou o brao; o piloto do M-30 ergueu a mo em sinal de agradecimento e 
virou em direo ao cais. Um solitrio que no usa o motor para atracar, observou Mikael. Ele ouviu o rudo da corrente da ncora e, segundos depois, a vela mestra 
foi arriada, enquanto o piloto saltava de um lado a outro para manter o leme em posio e, ao mesmo tempo, preparar a ancoragem na proa.
    Mikael saltou para o cais e estendeu a mo para oferecer ajuda. O recm-chegado corrigiu a rota uma ltima vez e o barco veio com seu impulso colocar-se suavemente 
ao longo do Scampi. No momento em que o piloto lanou a amarra a Mikael, eles se reconheceram e sorriram, encantados.
     Ol, Robban  disse Mikael.  Se utilizasse o motor, evitaria arranhar outros barcos no porto.
     Ol, Micke. Eu disse a mim mesmo que conhecia esse cara. Sabe, eu teria usado o motor se tivesse conseguido faz-lo funcionar. Essa droga pifou h dois dias 
perto de Rdga.
    Apertaram-se as mos por cima da amurada.
    Uma eternidade antes, no colgio de Kungsholmen nos anos 1970, Mikael Blomkvist e Robert Lindberg haviam sido companheiros, e at mesmo muito bons amigos. Como 
acontece com frequncia entre velhos colegas de escola, a amizade acabou depois da concluso do secundrio. Cada um seguiu seu caminho e eles se viram raras vezes 
nos vinte anos seguintes. O ltimo encontro antes deste, inesperado, no cais de Arholma, ocorrera sete ou oito anos atrs. Agora os dois se examinavam com curiosidade. 
Robert estava bronzeado, com cabelos emaranhados e uma barba de quinze dias.
    De repente, Mikael recobrou o nimo. Quando o relaes-pblicas e seu bando de imbecis partiram para danar em volta do mastro de so Joo erguido diante do 
armazm, do outro lado da ilha, ele ficou na cabine do M-30 batendo papo com seu velho companheiro de colgio, em volta do tradicional arenque regado a aquavita.
    
    
     noite, em dado momento, depois de muitos tragos e de terem desistido de lutar contra os tristemente famosos mosquitos de Arholma e irem se refugiar na cabine, 
a conversa se transformou numa altercao amistosa sobre a moralidade e a tica no mundo dos negcios. Os dois tinham escolhido carreiras que, de um modo ou de outro, 
estavam focalizadas nas finanas do pas. Robert Lindberg passara do colgio aos estudos de comrcio e depois ao mundo financeiro. Mikael Blomkvist cursara a faculdade 
de jornalismo e dedicara grande parte de sua vida a denunciar negcios duvidosos justamente do mundo financeiro. A conversa girava em torno da imoralidade de alguns 
pra-quedas dourados (as famosas indenizaes milionrias de demisso) surgidos ao longo dos anos 1990. Depois de ter valentemente defendido alguns dos mais espetaculares, 
Lindberg acabou admitindo, a contragosto, que no mundo das finanas provavelmente havia alguns especuladores corruptos disfarados. Ele ficou srio de repente e 
olhou Mikael bem nos olhos.
     J que voc  jornalista investigativo e vasculha delitos econmicos, por que no escreve alguma coisa sobre Hans-Erik Wennerstrm?
     No sabia que havia algo a escrever sobre ele.
     Pelo amor de Deus, que espcie de bisbilhoteiro voc ? Ento no conhece o programa CAI?
     Bem, era uma espcie de programa de apoio, nos anos 1990, para reabilitar a indstria dos ex-pases do Leste Europeu. Foi extinto h alguns anos. Nunca escrevi 
nada a respeito.
     Isso, CAI, Comit de Apoio Industrial. O projeto tinha o aval do governo, e a tramia era gerenciada por representantes de uma dezena de grandes empresas suecas. 
O CAI obteve garantias do Estado para uma srie de projetos firmados em acordos com os governos da Polnia e dos pases blticos. A confederao operria participava, 
para garantir que o movimento operrio dos pases do Leste Europeu se fortalecesse graas ao modelo sueco. Na teoria, o projeto significava um apoio baseado no princpio 
de ajuda ao desenvolvimento, e supostamente oferecia aos regimes do Leste Europeu uma possibilidade de sanear suas economias. Na prtica, equivalia a conceder subvenes 
do Estado para que empresas suecas estabelecessem parcerias com empresas do Leste Europeu. Lembra daquele ministro cristo cretino? Era um defensor ardoroso do CAI. 
Falava-se de construir uma fbrica de papel na Cracvia, de restabelecer a indstria metalrgica em Riga, de montar uma usina de cimento em Tallinn, e por a afora. 
O dinheiro era distribudo pelo conselho do CAI, exclusivamente formado por pesos pesados do mundo financeiro e industrial.
     Ou seja, dinheiro do contribuinte?
     Cerca de cinquenta por cento eram subvenes do Estado, o resto vinha dos bancos e da indstria. Mas no se pode realmente falar de uma atividade desinteressada. 
Os bancos e as empresas contavam com um lucro consistente, caso contrrio no teriam por que se lanar no negcio.
     Qual era o montante desses fundos?
     Espere um minuto, escute. O CAI era constitudo principalmente por empresas suecas slidas, desejosas de penetrar no mercado do Leste Europeu. Empresas de 
peso, como ABB, Skanska e outras do gnero. Nada de capital especulativo, se entende o que quero dizer.
     Voc est dizendo que a Skanska no faz especulao? Como explicar ento a demisso de seu diretor-executivo, depois que um de seus rapazes perdeu meio bilho 
especulando com ttulos de curto prazo? E como no rir de seus negcios imobilirios histricos em Londres e Oslo?
     Sim, claro, h cretinos em todas as empresas do mundo, mas voc sabe o que estou querendo dizer. Trata-se de empresas que pelo menos produzem alguma coisa. 
A coluna vertebral da indstria sueca, como se diz.
     E Wennestrm, onde ele entra no esquema?
     Wennerstrm  o curinga da histria. Ou seja, um cara surgido do nada, sem nenhum passado na indstria pesada e que, na realidade, nada tem a ver com esse 
meio. Mas ele acumulou uma fortuna colossal na Bolsa e investiu em empresas estveis. Entrou, por assim dizer, pela porta de servio.
    Mikael tornou a encher seu copo com a aquavita Reimersholms e inclinou-se para trs na cadeira, refletindo sobre o que sabia a respeito de Wennerstrm. Era magro. 
Nascido na regio do Norrland, onde criou uma empresa de investimentos nos anos 1970, juntou algum dinheiro e se transferiu para Estocolmo, fazendo ali uma carreira 
fulgurante nos gloriosos anos 1980. Criou o Wennerstrmgruppen, rebatizado de Wennerstrm Group quando foram abertos os escritrios de Londres e Nova York, e quando 
nos jornais a empresa comeou a ser mencionada no mesmo nvel que a Beijer. Negociando com aes, participaes e operaes rpidas, passou a figurar na imprensa 
VIP como um dos novos bilionrios suecos, proprietrio de um loft em Strandwgen, de uma suntuosa residncia de vero em Vrmd e de um iate de vinte e trs metros, 
comprado de uma ex-estrela do tnis em decadncia. Um calculista esperto, certamente, mas os anos 1980 foram sobretudo a dcada dos calculistas e dos especuladores 
imobilirios, e Wennerstrm no se destacou mais que os outros. Pelo contrrio, permaneceu de certo modo  sombra dos figures. No tinha a lbia de um Stenbeck 
nem se exibia na imprensa como Barnevik. Desprezando os bens imobilirios, focalizou seu interesse em investimentos macios no ex-bloco do Leste Europeu. Quando, 
nos anos 1990, a bolha murchou e os empresrios foram obrigados, um aps outro, a recolher seus pra-quedas dourados, as empresas de Wennerstrm continuaram em timo 
estado. Nenhuma sombra de escndalo. A Swedish success story, foi assim que o Financial Times resumiu seu caso.
     Foi em 1992 que Wennerstrm, de repente, recorreu ao CAI. Ele precisava de ajuda financeira. Apresentou um projeto que aparentemente atendia gente interessada 
na Polnia: tratava-se de estabelecer um setor de fabricao de embalagens para a indstria alimentcia.
     Quer dizer, uma fbrica de latas de conserva?
     No exatamente, mas algo do tipo. No fao a menor idia das pessoas que ele conhecia no CAI, mas saiu de l com sessenta milhes de coroas no bolso, sem problema.
     A histria comea a me interessar. Deixe-me adivinhar: ningum mais voltou a ver a cor desse dinheiro.
     Errado  disse Robert Lindberg.
    E sorriu como quem sabe das coisas, antes de beber as ltimas gotas de sua aquavita.
     O que se passou depois foi o clssico em matria de balano financeiro. Wennerstrm de fato montou uma fbrica de embalagens na Polnia, mais precisamente 
em Lodz. A empresa chamava-se Minos. O CAI recebeu alguns relatrios entusiasmados em 1993. E ento, em 1994, a Minos faliu de repente.
    
    
    Robert Lindberg bateu o copo vazio na mesa, com um golpe seco, para sublinhar a que ponto a empresa afundara.
     O problema do CAI  que no havia procedimentos bem definidos para avaliar os relatrios sobre os projetos. Lembre-se do esprito da poca. Todo mundo estava 
otimista com a queda do muro de Berlim. Iam introduzir a democracia, a ameaa de uma guerra nuclear no existia mais e os bolchevistas se tornavam verdadeiros capitalistas 
da noite para o dia. O governo queria ancorar a democracia no Leste Europeu. Todos os capitalistas desejavam contribuir para a construo da nova Europa.
     Eu nunca soube de capitalistas propensos  caridade.
     Acredite, era o sonho tropical de todo capitalista. Agora a Rssia e os pases do Leste Europeu so os maiores mercados depois da China. Os industriais no 
hesitavam em ajudar o governo, sobretudo quando as empresas s precisavam contribuir com uma parte nfima dos gastos. Somando tudo, o CAI abocanhou mais de trinta 
bilhes de coroas do contribuinte. O dinheiro voltaria sob a forma de ganhos futuros. No papel, o CAI era uma iniciativa governamental, mas a influncia da indstria 
era to grande que, na prtica, o conselho do CAI desfrutava de uma completa liberdade de ao.
     Entendo. Mas h material para um artigo tambm sobre esse ponto?
     Calma. Quando os projetos comearam, no havia problema de financiamento. A Sucia ainda no conhecia o choque das taxas de juros. O governo estava feliz de 
poder pedir, atravs do CAI, uma contribuio sueca importante em favor da democracia do Leste Europeu.
     Era um governo de direita.
     No misture poltica com isso. Trata-se de dinheiro, e pouco importa saber se so os socialistas ou os moderados que indicam os ministros. Ento, com os cofres 
cheios, surgiram os problemas de cmbio, e em seguida aqueles novos democratas imbecis  lembra-se da Nova Democracia?  comearam a se lamentar, achando que faltava 
transparncia s atividades do CAI. Um deles confundiu o CAI com a Swedish International Development Authority, imaginando um projeto de desenvolvimento para boas 
obras, como a ajuda  Tanznia. Na primavera de 1994, uma comisso foi encarregada de investigar o CAI. A essa altura, j se faziam crticas a vrios projetos, mas 
um dos primeiros a ser investigados foi o da Minos.
     E Wennerstrm no conseguiu justificar a utilizao dos fundos.
     Pelo contrrio. Wennerstrm apresentou um excelente relatrio financeiro, mostrando que mais de cinquenta e quatro milhes de coroas haviam sido investidas 
na Minos. Mas alegou que os problemas estruturais de um pas a reboque como a Polnia eram grandes demais para que uma fbrica de embalagens moderna pudesse dar 
certo, e ela acabou desbancada pela concorrncia de um projeto alemo similar. Os alemes estavam comprando tudo no bloco do Leste Europeu.
     Voc disse que ele obteve sessenta milhes de coroas.
     Isso mesmo. O dinheiro do CAI funcionava na forma de emprstimos sem juros. A idia, evidentemente, era que as empresas reembolsassem uma parte depois de alguns 
anos. Mas a Minos faliu e o projeto fracassou. Wennerstrm no podia ser responsabilizado.  aqui que entram as garantias do Estado: a dvida de Wennerstrm foi 
apagada. Ele simplesmente no precisou reembolsar o dinheiro perdido na falncia da Minos e conseguiu demonstrar que perdera a mesma quantia do prprio bolso.
     Deixa eu ver se entendi bem toda essa histria. Alm de fornecer bilhes do contribuinte, o governo oferecia diplomatas para abrir portas. A indstria recebia 
o dinheiro e o utilizava para investir em joint ventures que lhe permitiam, em seguida, acumular um lucro recorde. Em outras palavras, as negociatas de sempre. Alguns 
enchem os bolsos enquanto outros pagam a conta, e conhecemos bem os atores dessa pea.
     Meu Deus, como voc  cnico! Os emprstimos deviam ser devolvidos ao Estado.
     Voc disse que no corriam juros. Isso significa que os contribuintes no receberam nenhum dividendo pelo que pagaram. Wennerstrm obteve sessenta milhes 
e investiu cinquenta e quatro. O que fez com os outros seis milhes?
     No momento em que ficou evidente que os projetos do CAI passariam a ser controlados, Wennerstrm enviou um cheque de seis milhes para reembolsar a diferena. 
Assim o caso estava resolvido do ponto de vista jurdico.
    
    
    Robert Lindberg calou-se e lanou um olhar inquieto a Mikael.
     Wennerstrm certamente desviou um pouco de dinheiro do CAI, mas, comparado ao meio bilho que desapareceu da Skanska ou  histria do pra-quedas dourado de 
um bilho do diretor da ABB  coisas que realmente revoltaram as pessoas , no me parece um caso realmente digno de uma reportagem  constatou Mikael.  Os leitores, 
hoje, esto fartos de textos sobre especuladores incompetentes da Bolsa, mesmo aqueles que operam com fundos pblicos. H algo mais na sua histria?
     Ela est apenas comeando.
     Como voc ficou sabendo desses negcios do Wennerstrm na Polnia?
     Eu trabalhei no Banco do Comrcio nos anos 1990. Adivinhe quem conduziu as investigaes como representante do banco no CAI?
     Entendo. Continue.
     Bem... resumindo: o CAI recebeu uma explicao de Wennerstrm. Documentos foram redigidos. O dinheiro restante foi reembolsado. Esse retorno de seis milhes 
foi esperto. Se algum chega na sua casa insistindo em te dar um saco de milho, voc diz que aquele  um bom sujeito, no  mesmo?
     Vamos aos fatos.
     Mas, meu velho, o fato  exatamente esse. O CAI ficou satisfeito com o relatrio do Wennerstrm. O investimento fracassou, mas no havia nada a dizer sobre 
a maneira como fora conduzido. Examinamos faturas, transferncias e um monte de papelada. Tudo estava minuciosamente justificado. Eu acreditei. Meu chefe acreditou. 
O CAI acreditou e o governo nada teve a acrescentar.
     E onde  que a coisa tropea?
     A histria entra agora na sua fase sensvel  disse Lindberg com um tom de voz subitamente fnebre.  Levando em conta que voc  jornalista, o que vou dizer 
agora  off the record.
     Espere a. Voc no pode comear a me contar falcatruas e depois me dizer que no posso divulg-las.
     Claro que posso. Tudo que contei at agora  de conhecimento pblico. Voc mesmo pode consultar o relatrio, se quiser. Concordo que escreva sobre o resto 
da histria  que ainda no contei , mas quero ser tratado como fonte annima.
     Ah, melhor assim, porque, na terminologia habitual, off the record significa que obtive uma informao confidencial, mas que no tenho o direito de escrever 
sobre ela.
     Pouco importa a terminologia. Escreva o que quiser, contanto que eu seja sua fonte annima. Estamos de acordo?
     Claro  respondeu Mikael.
    Considerando o que houve depois, sua resposta foi naturalmente um erro.
     Bem, esse caso Minos aconteceu h dez anos, logo aps a queda do Muro e quando os bolcheviques comearam a virar capitalistas frequentveis. Eu era um dos 
que investigavam Wennerstrm, e sempre tive uma puta impresso de que toda a histria estava mal contada.
     E por que no disse nada na poca?
     Discuti com o meu chefe. A questo  que no havia nada de slido. Todos os papis estavam em ordem. Nada mais fiz que pr minha assinatura no final do relatrio. 
Mas em seguida, sempre que eu topava com o nome de Wennerstrm na imprensa, Minos me vinha  lembrana.
     E a?
     Acontece que alguns anos mais tarde, em meados dos anos 1990, meu banco fez alguns negcios com Wennerstrm. Na verdade, altos negcios. E a coisa no foi 
muito bem.
     Ele roubou vocs?
     No, eu no diria isso. As duas partes lucraram. Tratava-se de... No sei bem como explicar.  que agora comeo a falar do homem que me contratou e isso no 
me agrada. Mas a impresso que ficou  a impresso geral e duradoura, como dizem  no foi nada positiva. Na mdia, Wennerstrm  apresentado como um considervel 
orculo da economia.  disso que ele vive.  seu capital de confiana.
     Entendo o que quer dizer.
     Eu tinha a impresso de que o sujeito era simplesmente um blefe. Que no tinha nenhum dom especial para as finanas. Ao contrrio, achei-o de uma estupidez 
assombrosa em certas reas, embora estivesse cercado de alguns jovens tubares de fato astutos como conselheiros. Eu o detestava cordialmente.
     Continue.
     H cerca de um ano, fui  Polnia por outro motivo. Nossa delegao jantou com alguns investidores de Lodz e na minha mesa estava o prefeito. Discutimos sobre 
o quanto era difcil repor a economia da Polnia nos trilhos et cetera, e mencionei o projeto Minos. O prefeito me pareceu totalmente perplexo por um momento  como 
se nunca tivesse ouvido falar de Minos , depois lembrou que era um pequeno negcio de merda que dera em nada. Despachou o assunto com um sorrisinho, dizendo que 
 reproduzo exatamente suas palavras  se isso fosse tudo que os investidores suecos sabiam fazer, nosso pas entraria em falncia rapidamente. Est me acompanhando?
     Essa declarao revela que o prefeito de Lodz  um homem sensato. Mas continue.
     Essa declarao, como voc diz, no parou de me azucrinar. No dia seguinte, eu tinha uma reunio de manh, mas estava com a tarde livre. S para remexer na 
merda, resolvi visitar, numa pequena aldeia perto de Lodz, a fbrica abandonada da Minos, situada dentro de uma granja com latrinas no ptio. A grande fbrica Minos 
era um depsito arruinado prestes a desabar, um velho hangar com telhas onduladas, montado pelo Exrcito Vermelho nos anos 1950. Encontrei um guarda no local que 
falava algumas palavras em alemo, e soube que um de seus primos trabalhara na fbrica. O primo morava quase ali ao lado e fomos at a casa dele. O guarda serviu 
de intrprete. Est interessado em ouvir o que ele disse?
      bvio que sim.
     A Minos comeou a funcionar n outono de 1992. Ela tinha quinze empregados, quando muito, na maior parte mulheres velhas. O salrio equivalia a cento e cinquenta 
coroas por ms. No comeo no havia mquinas, os empregados se ocupavam fazendo a limpeza do local. No incio de outubro chegaram trs mquinas de cartonagem compradas 
em Portugal. Estavam velhas, deterioradas e totalmente ultrapassadas. No ferro-velho, no valeriam mais que algumas notas de mil. Funcionavam,  verdade, mas pifavam 
a todo instante. Evidentemente no havia peas de reposio, de modo que a Minos sofria de eternas paradas de produo. Em geral era um empregado que consertava 
as mquinas, como podia.
     Agora est comeando a parecer uma matria de verdade  reconheceu Mikael.  O que a Minos fabricava realmente?
     Em 1992 e na primeira metade de 1993, as clssicas embalagens de sabo em p, caixas de ovos e coisas do gnero. Depois passaram a produzir sacos de papel. 
Mas sempre faltava matria-prima e o volume de produo era mnimo.
     Nada que correspondesse a um investimento gigantesco.
     Fiz as contas. O custo total do aluguel em dois anos equivale a quinze mil coroas. Os salrios podem ter chegado a cento e cinquenta mil no mximo  e estou 
sendo generoso. Compra de mquinas e meios de transporte... uma caminhonete que entregava as caixas de ovos... vamos pr uns duzentos e cinquenta mil. Mais taxas 
de autorizao, alguns custos de viagem  aparentemente, s uma pessoa veio da Sucia algumas vezes para visitar a aldeia. Digamos que todo o negcio custou menos 
de um milho. Num dia do vero de 1993, o contramestre foi at a fbrica, anunciou que ela seria fechada e, algum tempo depois, um caminho hngaro recolheu e levou 
embora a maquinaria. Bye-bye, Minos.
    
    
    Durante o processo, Mikael recordara vrias vezes essa noite de So Joo.
    De modo geral, a conversa transcorrera como uma discusso entre dois colegas, em tom de camaradagem, exatamente como nos tempos de colgio. Adolescentes, eles 
haviam compartilhado os fardos que se carrega nessa idade. Adultos, eram na verdade estranhos um para o outro, seres totalmente diferentes. Durante a noitada, Mikael 
refletiu que no conseguia de fato se lembrar do que os havia aproximado no colgio. Lembrava-se de Robert como um rapaz taciturno e reservado, tmido ao extremo 
com as meninas. Adulto, ele era... bem, um talentoso alpinista do universo bancrio. Para Mikael, no havia dvida que seu colega tinha opinies diametralmente opostas 
 sua prpria concepo de mundo.
    Mikael quase nunca bebia a ponto de se embriagar, mas esse encontro fortuito transformara um cruzeiro malsucedido numa noitada agradvel, em que o nvel da garrafa 
de aquavita se aproximava aos poucos do fundo. Justamente porque a conversa teve esse tom ginasiano, de incio ele no levou a srio o relato de Robert sobre Wennerstrm, 
mas no final seus instintos jornalsticos despertaram. De repente, escutava atentamente a histria de Robert, e as objees naturais apareceram.
     Espere um pouco  disse Mikael.  Wennerstrm  uma estrela entre os investidores da Bolsa. Se no estou enganado, ele deve ser bilionrio...
     O capital do Grupo Wennerstrm  de cerca de duzentos bilhes. Voc deve estar querendo saber por que um bilionrio roubaria as pessoas por uns magros cinquenta 
milhes, quase um dinheiro de bolso.
     O que quero saber antes de mais nada  por que ele arriscaria tudo com uma fraude to evidente.
     No sei se se pode dizer que se trata de uma fraude evidente, j que o conselho do CM, os representantes dos bancos, o governo e os auditores do Parlamento 
aceitaram as contas apresentadas por Wennerstrm.
     Mesmo assim  uma soma ridcula.
     Certo. Mas veja: o Grupo Wennerstrm  uma empresa de investimentos que lida com qualquer coisa que possa dar lucro a curto prazo  imveis, ttulos, opes, 
moedas... Wennerstrm entrou em contato com o CAI em 1992, no momento em que o mercado estava a ponto de atingir o fundo. Lembra do outono de 1992?
     E acha que posso esquecer? Eu tinha feito emprstimos a taxas variveis para comprar meu apartamento, quando os juros do Banco da Sucia atingiram quinhentos 
por cento em outubro. Tive que arcar com juros de dezenove por cento durante um ano.
     No foi fcil!  disse Robert sorrindo.  Tambm perdi um bocado naquele ano. E Hans-Erik Wennerstrm  como todos os outros no mercado  enfrentava os mesmos 
problemas. A empresa tinha bilhes aplicados em contratos de diferentes tipos, mas muito pouca liquidez. E a fica impossvel conseguir facilmente novos emprstimos. 
Numa situao dessas, em geral se vendem alguns imveis para lamber as feridas  s que em 1992 no havia ningum para comprar imveis.
     Cash-flow problem.
     Exatamente. E Wennerstrm no era o nico a enfrentar esse tipo de problema. Qualquer homem de negcios...
     No diga homem de negcios. Chame como quiser, mas qualific-los de homens de negcios  ofender uma categoria profissional sria.
     ... qualquer investidor da Bolsa, ento, tinha cash-flow problems... Considere as coisas assim: Wennerstrm obteve sessenta milhes de coroas. Devolveu seis, 
e somente depois de trs anos. Os gastos com a Minos dificilmente ultrapassaram um milho. Mas os juros de sessenta milhes durante trs anos representam uma boa 
quantia. Dependendo da maneira como foi investido, o dinheiro do CAI pode ter sido dobrado ou multiplicado por dez. E a no estamos mais falando de bagatelas. A 
propsito, um brinde ao nosso encontro!
    
   2.         SEXTA-FEIRA 20 DE DEZEMBRO
    
    
    Dragan Armanskij tinha cinquenta e seis anos e nascera na Crocia. Seu pai era um judeu armnio da Bielo-Rssia. A me, uma muulmana bsnia de ascendncia grega. 
Como ela  que se encarregara de sua educao cultural, na idade adulta ele se viu includo no grande grupo que a mdia define como muulmanos. Estranhamente, os 
servios de imigrao o registraram como srvio. O passaporte estabelecia que ele era cidado sueco, e a foto mostrava um rosto quadrado com poderosas mandbulas, 
um fundo de barba escuro e cabelos grisalhos nas tmporas. Frequentemente chamavam-no de rabe, embora no houvesse a menor gota de sangue rabe em seu passado. 
Por outro lado, era um autntico cruzamento do tipo que os aficionados por biologia racial descreveriam, sem a menor hesitao, como matria humana inferior.
    Seu rosto lembrava vagamente o de um gangster de filme americano. Na realidade, ele no era um traficante de drogas nem um assassino mafioso; era um economista 
de talento que comeara como assistente da Milton Security no incio dos anos 1970, e trs dcadas mais tarde chefiava todas as operaes como diretor-executivo.
    O interesse por questes de segurana crescera aos poucos at se transformar em fascnio. Era como um jogo de estratgia  identificar situaes de ameaa, desenvolver 
contra-estratgias e sempre se antecipar aos espies industriais, aos vigaristas e aos fraudadores. Tudo comeou quando descobriu a maneira como tinha se dado um 
engenhoso golpe contra um cliente, com o auxlio de uma contabilidade sutilmente maquiada. Conseguiu apontar, num grupo de umas doze pessoas, quem estava por trs 
da manipulao, e hoje, decorridos trinta anos, lembra-se de como ficou surpreso ao se dar conta de que o desvio s ocorrera porque a empresa em questo omitira 
alguns pontos nos processos de segurana. Desde ento, passou de simples contador a responsvel pelo desenvolvimento da empresa, e mais tarde a especialista em crimes 
financeiros. Cinco anos depois, j fazia parte da direo e, passados dez anos, tornou-se  no sem alguma relutncia  diretor-executivo. Agora a relutncia havia 
muito se acalmara. Durante seus anos de chefia, tinha transformado a Milton Security numa das empresas de segurana mais competentes e mais consultadas da Sucia.
    A Milton Security contava com trezentos e oitenta funcionrios trabalhando em tempo integral e com mais de trezentos freelancers, remunerados por tarefa. Uma 
pequena empresa, portanto, se comparada com a Falck ou com a Svensk Bevakningstjnts, o Servio de Proteo Sueco. Quando Armanskij entrou na empresa, ela ainda 
se chamava Companhia de Vigilncia Geral Johan Fredrik Milton e sua clientela era formada por centros comerciais que tinham necessidade de controladores e seguranas 
musculosos. Sob sua direo, a empresa passou a se chamar Milton Security, nome mais propcio para um ambiente internacional, e investiu em tecnologia de ponta. 
Houve uma renovao de pessoal; guardas-noturnos em fim de carreira, fetichistas do uniforme e estudantes apenas interessados em bicos foram substitudos por pessoas 
mais competentes. Armanskij contratou ex-policiais j de uma certa idade como chefes de operaes, cientistas polticos especializados em terrorismo internacional, 
em proteo pessoal e em espionagem industrial e, principalmente, tcnicos em telecomunicaes e informtica. A empresa deixou Solna e a periferia para se instalar 
em prdios mais prestigiosos do Slussen, no centro de Estocolmo.
    No comeo dos anos 1990, a Milton Security estava pronta para oferecer um novo tipo de sistema de segurana a um crculo exclusivo de clientes, sobretudo empresas 
de mdio porte com volume de negcios extremamente elevado, e novos-ricos  astros do rock em evidncia, investidores da Bolsa e chefes de empresas "pontocom". Grande 
parte da atividade estava centrada na oferta de proteo pessoal e solues de segurana para empresas suecas no exterior, sobretudo no Oriente Mdio. Essas atividades 
representavam atualmente cerca de setenta por cento do volume de negcios. Durante o reinado de Armanskij, o volume de negcios passou de quarenta milhes de coroas 
para cerca de dois bilhes. Vender segurana era um ramo extremamente lucrativo.
    A atividade estava distribuda em trs reas principais: consultoria em segurana, que consistia na identificao de perigos possveis ou imaginados; medidas 
preventivas, que em geral consistiam na instalao de cmeras de vigilncia custosas, alarmes contra roubo ou incndio, sistemas eletrnicos de bloqueio e equipamentos 
de informtica; e, por fim, a proteo pessoal de indivduos ou empresas que se julgavam vtimas de ameaas, reais ou imaginrias. Este ltimo mercado mais que quadruplicara 
na ltima dcada, e nos ltimos anos surgira um novo tipo de clientela: mulheres ricas querendo proteger-se de um ex-namorado ou marido, ou de molestadores desconhecidos 
que as teriam visto na televiso e se teriam fixado em sua blusa colante ou no batom de seus lbios. Alm disso, a Milton Security trabalhava em parceria com empresas 
que gozavam da mesma boa reputao que ela em outros pases europeus e nos Estados Unidos, encarregando-se da segurana de personalidades internacionais em visita 
 Sucia, como uma clebre atriz americana em filmagem durante dois meses em Trollhttan, cujo agente achou que seu status exigia que ela estivesse acompanhada de 
seguranas em seus rarssimos passeios em volta do hotel.
    Uma quarta rea, bem mais restrita, que ocupava apenas alguns funcionrios de tempo em tempo, era constituda pelas chamadas IP, isto , as investigaes pessoais. 
Armanskij no era um adepto incondicional desse setor de atividade. Alm de ser menos lucrativo, era um ramo delicado, que exigia do funcionrio mais discernimento 
e habilidade do que conhecimento em tcnica de telecomunicaes ou em instalao discreta de aparelhos de vigilncia. As investigaes pessoais eram aceitveis quando 
se tratava de simples informaes sobre a solvncia de algum, de verificar o currculo de um futuro colaborador ou a conduta de um empregado suspeito de deixar 
vazar informaes sobre sua empresa ou de se entregar a uma atividade criminosa.
    Nesses casos, as IP caam no mbito operativo.
    Mas a toda hora os clientes vinham lhe apresentar problemas de ordem pessoal que tendiam a trazer consequncias indesejadas. Quero saber quem  o vagabundo com 
quem minha filha est saindo... Acho que minha mulher est me traindo... O rapaz  legal, mas est se envolvendo com ms companhias... Esto me chantageando... Na 
maioria das vezes, Armanskij respondia com um no categrico. Se a filha era maior de idade, ela tinha o direito de sair com o vagabundo que quisesse, e na sua opinio 
a infidelidade devia ser resolvida entre os cnjuges. Por trs de todas essas demandas, havia armadilhas dissimuladas que podiam potencialmente conduzir a escndalos 
e causar problemas jurdicos para a Milton Security, razo pela qual Dragan Armanskij exercia um controle rigoroso sobre essas misses, que, alm do mais, s geravam 
rendimentos modestos no volume total de negcios da empresa.
    
    
    O assunto desta manh, por azar, era justamente uma investigao pessoal, e Dragan Armanskij arrumou o vinco da cala antes de se inclinar para trs na sua confortvel 
poltrona do escritrio. Com ceticismo, contemplou Lisbeth Salander, sua colaboradora trinta e dois anos mais jovem, e pela milsima vez constatou que ningum parecia 
mais mal instalada que ela numa prestigiosa empresa de segurana. Seu ceticismo era ao mesmo tempo refletido e irracional. Aos olhos de Armanskij, Lisbeth Salander 
era indiscutivelmente a researcher mais competente que ele encontrara em todos os seus anos naquele ramo. Durante os quatro anos em que trabalhava para ele, Lisbeth 
Salander no havia falhado em uma nica misso nem produzido um s relatrio medocre.
    Ao contrrio, o que ela realizava podia ser classificado como fora de srie. Armanskij estava convencido de que Lisbeth Salander possua um dom nico. Qualquer 
um era capaz de obter informaes bancrias ou efetuar um controle fiscal, mas Salander tinha imaginao e trazia sempre algo mais do que era esperado. Ele realmente 
nunca entendeu como ela conseguia; s vezes sua capacidade de obter informaes parecia magia pura. Familiarizada ao extremo com os arquivos administrativos, ela 
sabia desencavar as informaes mais obscuras. Tinha sobretudo a capacidade de se infiltrar na pele da pessoa investigada. Se houvesse merda a revelar, atingia o 
alvo como um mssil programado.
    Sem dvida, ela possua o dom.
    Seus relatrios podiam se revelar uma verdadeira catstrofe para a pessoa detectada por seu radar. Armanskij nunca se esqueceu de uma misso que uma vez lhe 
dera, uma investigao de rotina sobre um pesquisador da indstria farmacutica que estava prestes a se associar a uma empresa. O trabalho, que devia durar uma semana, 
prolongava-se. Depois de quatro semanas de silncio e de vrias chamadas que ela ignorou, Salander apareceu com um relatrio especificando que o objeto da pesquisa 
era a pedofilia. Duas vezes, pelo menos, o sujeito recorrera a uma prostituta de treze anos em Tallinn, e havia indcios de que estava interessado na filha menor 
de idade da companheira com quem vivia.
    Salander tinha qualidades que em alguns momentos levavam Armanskij  beira do desespero. Quando descobriu que o homem era pedfilo, ela no telefonou para avisar 
Armanskij, no correu at seu escritrio para terem uma conversa. Ao contrrio: sem indicar por uma palavra sequer que o relatrio continha informaes explosivas 
de propores quase nucleares, colocou-o certa noite sobre a mesa, no momento em que Armanskij se preparava para deixar o escritrio e voltar para casa. Ele levou 
consigo o relatrio e s o abriu mais tarde, no momento em que, finalmente descontrado, dividia uma garrafa de vinho com a mulher diante da tev, na sua casa de 
campo em Liding.
    Como sempre, o relatrio era de uma mincia quase cientfica, com notas de rodap, citaes e indicaes exatas das fontes. As primeiras pginas reconstituam 
o passado do objeto, sua formao, carreira e situao econmica. Somente na pgina 24, num pargrafo intermedirio,  que Salander soltava a bomba das escapadas 
a Tallinn, no mesmo tom objetivo utilizado para dizer que ele morava numa casa de campo em Sollentuna e que dirigia um Volvo azul-marinho. Para sustentar suas afirmaes, 
ela remetia a um anexo volumoso, com fotografias da menor de idade em companhia do objeto. A foto fora tirada no corredor de um hotel em Tallinn e a mo dele estava 
debaixo da blusa da menina. Alm disso, Lisbeth Salander conseguira, no se sabe como, encontrar a menina e convenc-la a prestar um depoimento detalhado, gravado 
em fita cassete.
    O relatrio desencadeou exatamente o caos que Armanskij queria evitar. Para comear, ele foi obrigado a tomar dois comprimidos que o mdico receitara para sua 
lcera de estmago. Depois, convocou o pesquisador farmacutico para uma conversa sinistra e breve. Para terminar  e apesar dos veementes desmentidos deste , viu-se 
obrigado a transmitir imediatamente as informaes  polcia. O que significava que a Milton Security corria o risco de se envolver num processo de acusaes e contra-acusaes. 
Se o dossi no fosse aceito ou se o homem fosse absolvido, a empresa podia ser processada por difamao. Desastre total!
    
    No entanto, no era a surpreendente falta de emoo em Lisbeth Salander que mais o perturbava. A poca exigia investimento na imagem, e a imagem da Milton era 
a de uma estabilidade conservadora. E Lisbeth Salander correspondia to pouco a essa imagem quanto uma escavadeira num salo nutico.
    Armanskij teve dificuldade de se habituar ao fato de seu melhor co de caa ser uma jovem plida, de uma magreza anorxica, com cabelos quase raspados e piercings 
no nariz e nas sobrancelhas. Tinha a tatuagem de uma vespa no pescoo e uma faixa tatuada ao redor do bceps do brao esquerdo. Nas poucas vezes em que Lisbeth usara 
uma regata, Armanskji constatara que ela tambm tinha uma tatuagem maior na omoplata, representando um drago. Originalmente ruiva, tingira os cabelos de preto. 
Parecia estar sempre chegando de uma semana de farra na companhia de uma banda de heavy-metal.
    Ela no sofria de distrbios alimentares  Armanskij estava convencido disso. Ao contrrio, parecia consumir qualquer tipo de comida. Simplesmente nascera magra, 
com uma ossatura fina que indicava um aspecto frgil e delicado de menina, com mos pequenas, tornozelos estreitos e seios que mal despontavam sob as roupas. Tinha 
vinte e quatro anos, mas parecia ter catorze.
    A boca era larga, o nariz pequeno e as mas do rosto altas, o que lhe dava um vago ar oriental. Tinha movimentos rpidos e aracndeos, e quando trabalhava no 
computador seus dedos voavam excitados sobre as teclas. O corpo no se prestava a uma carreira de modelo, mas, com uma maquiagem adequada, um primeiro plano de seu 
rosto no faria m figura num cartaz publicitrio. Embora s vezes passasse nos lbios um repugnante batom preto, e apesar das tatuagens e dos piercings, ela era... 
digamos... atraente. De um modo totalmente incompreensvel.
    O fato de Lisbeth Salander trabalhar para Dragan Armanskij era, em si, assombroso. Ela no era o tipo de mulher com quem ele cruzava habitualmente, muito menos 
a quem pensaria oferecer trabalho.
    Ele lhe oferecera um emprego no escritrio depois que Holger Palmgren, um advogado semi-aposentado que cuidava dos assuntos pessoais do velho J. F. Milton, os 
informara que Lisbeth Salander era uma moa perspicaz, apesar do seu comportamento um pouco perturbado. Palmgren pedira que Armanskij desse uma oportunidade  menina, 
o que ele prometera, a contragosto. Palmgren era desses homens que um no s faz redobrar esforos, de modo que o mais simples era dizer sim imediatamente. Armanskij 
sabia que Palmgren se encarregava de crianas problemticas e de outras insignificncias sociais do gnero, mas que possua, apesar de tudo, um bom julgamento.
    Ele se arrependeu no instante em que viu Lisbeth Salander.
    Ela no s parecia perturbada  aos olhos dele, ela era o prprio sinnimo da perturbao  como tambm abandonara a escola e no tinha nenhum tipo de estudo 
superior.
    Nos primeiros meses, ela trabalhou em tempo integral, ou melhor, quase em tempo integral; s de vez em quando aparecia no trabalho. Preparava o caf, cuidava 
da correspondncia e tirava fotocpias. O problema  que no dava a mnima para os horrios normais do escritrio ou os mtodos de trabalho.
    Em compensao, tinha uma grande capacidade de irritar os funcionrios. Era chamada de a moa de dois neurnios, um para respirar, o outro para se manter de 
p. Nunca falava de si mesma. Os colegas que tentavam iniciar uma conversa raramente obtinham uma resposta e logo desistiam. As tentativas de brincar com ela nunca 
davam certo  ou porque contemplava o gracejador com grandes olhos inexpressivos, ou porque reagia com uma irritao manifesta.
    Logo ganhou a reputao de irascvel, de mudar drasticamente de humor se enfiasse na cabea que algum estava zombando dela, comportamento bastante comum num 
ambiente de trabalho. Sua atitude no encorajava confidncias nem amizade, e ela rapidamente se tornou um fenmeno ocasional que vagava como um gato perdido pelos 
corredores da Milton. Consideravam-na totalmente irrecupervel.
    Depois de um ms de confuses ininterruptas, Armanskij chamou-a  sua sala com a inteno de despedi-la. Ela ouviu passivamente a enumerao de seus erros, sem 
objees e sem sequer levantar a sobrancelha. Ele terminou por dizer que ela no tinha a atitude correta, e estava a ponto de lhe sugerir outro emprego, no qual 
soubessem tirar proveito da sua competncia, quando foi interrompido no meio de uma frase. Pela primeira vez, ela no falou apenas com palavras esparsas.
     Olha, se  um criado que o senhor quer, procure algum na agncia de empregos temporrios. Quanto a mim, posso descobrir qualquer coisa sobre qualquer pessoa, 
e se quer me usar apenas para separar a correspondncia, ento o senhor  um idiota.
    Armanskij ainda lembrava o quanto ficou mudo de clera e de surpresa, enquanto ela continuava, sem prestar ateno nele.
     H na sua empresa um sujeito que dedicou trs semanas a escrever um relatrio completamente nulo sobre esse yuppie que esto pensando em recrutar como presidente 
do conselho administrativo de uma "pontocom", o senhor sabe do que estou falando. Fotocopiei ontem  noite o relatrio de merda dele e, se no estou enganada,  
esse que est a na sua mesa.
    Armanskij ps os olhos no relatrio e, o que no era de seu feitio, elevou o tom de voz.
     Voc no est autorizada a ler relatrios confidenciais.
     Provavelmente no, mas as rotinas de segurana na sua empresa deixam um pouco a desejar. Segundo suas instrues, ele mesmo deve tirar a fotocpia, mas ele 
me passou o relatrio antes de sair para o almoo. Alis, h algumas semanas o relatrio anterior que ele tinha feito ficou esquecido na cantina.
     Como assim, esquecido?  exclamou Armanskij, chocado.
     No se preocupe. Guardei-o no cofre dele.
     Ele te passou a combinao do seu cofre pessoal?  perguntou Armanskij, sufocado.
     No exatamente. Mas anotou num papel que deixa sobre sua mesa de trabalho, com a senha do computador. Mas o ponto aonde quero chegar  que o relatrio que 
ele fez, esse seu detetive particular de araque, no tem o menor valor. Ele no descobriu que o cara tem dvidas monumentais, que cheira coca mais que um aspirador, 
e que sua companheira precisou se refugiar no SOS-Mulheres porque ele a espancou.
    Depois, silncio. Armanskij no disse nada durante alguns minutos, distrado em folhear o relatrio. Ele era apresentado com competncia, escrito numa prosa 
compreensvel e carregada de referncias, fontes e declaraes de amigos e conhecidos do objeto. Por fim, levantou os olhos e pronunciou duas palavras:
     Prove isso.
     Quanto tempo me d?
     Trs dias. Se no conseguir provar suas afirmaes at sexta-feira ao meio-dia, est despedida.
    
    
    Trs dias depois, ela entregou um relatrio com referncias de fontes igualmente explcitas, que transformavam o agradvel jovem yuppie numa pessoa no confivel. 
Armanskij leu o relatrio vrias vezes durante o fim de semana e passou parte da segunda-feira numa contraverificao pouco entusiasmada de algumas daquelas afirmaes. 
Antes mesmo de comear o controle, sabia que as informaes se revelariam exatas.
    Armanskij estava perplexo e irritado consigo mesmo por t-la manifestamente julgado mal. Achou-a estpida, talvez at um pouco retardada. No esperava que uma 
menina que falhara nos estudos e que no tinha sequer notas no final do colgio pudesse escrever um relatrio no somente correto do ponto de vista lingustico mas 
que apresentava tambm observaes e informaes que o faziam se perguntar como ela as tinha obtido.
    Ele sabia que ningum na Milton Security poderia conseguir um trecho do dirio confidencial de um mdico do SOS-Mulheres. Quando lhe perguntou como procedera, 
s obteve uma resposta evasiva. Ela disse que no pretendia queimar suas fontes. Aos poucos, ficou claro para Armanskij que Lisbeth Salander tambm no tinha a inteno 
de discutir seus mtodos de trabalho, nem com ele nem com qualquer pessoa. Isso o inquietou, mas no o bastante para resistir  tentao de p-la  prova.
    Refletiu sobre esse ponto durante alguns dias.
    Lembrou-se das palavras de Holger Palmgren quando a enviou. Todo mundo deve ter sua chance. Pensou em sua prpria educao muulmana, que lhe ensinara que o 
dever para com Deus era ajudar os excludos. Embora ele no acreditasse em Deus e nunca tivesse posto os ps numa mesquita desde a adolescncia, tinha a impresso 
de que Lisbeth Salander era algum que precisava de ajuda e de um apoio slido. Na verdade, ele no realizara muitas aes desse gnero em sua vida.

* * *
    Em vez de despedi-la, convocou Lisbeth Salander para uma conversa particular, na qual tentou entender qual era realmente o problema daquela moa complicada. 
Sua convico de que ela sofria de um distrbio srio se reforou, mas ele descobriu que por trs de seu perfil problemtico escondia-se uma pessoa inteligente. 
Achava-a frgil e complicada, mas tambm comeava  no sem espanto  a gostar dela.
    Nos meses seguintes, Armanskij ps Lisbeth Salander debaixo de suas asas. Se fosse sincero consigo mesmo, diria que se encarregava dela como de um pequeno projeto 
social. Dava-lhe tarefas de pesquisa simples e procurava instru-la sobre a melhor maneira de proceder. Ela escutava com pacincia, ia embora e realizava a misso 
totalmente  sua maneira. Ele pediu ao responsvel pelos servios tcnicos da Milton para dar-lhe um curso bsico de informtica; Salander permaneceu sem protestar 
em sua cadeira durante toda uma tarde, antes que o responsvel, um pouco deslumbrado, viesse relatar que ela parecia ter mais conhecimentos de informtica que a 
maioria dos funcionrios da empresa.
    Armanskij rapidamente percebeu que, apesar das conversas sobre plano de carreira, ofertas de desenvolvimento interno e outros meios de persuaso, Lisbeth Salander 
no tinha a inteno de se adaptar s rotinas da Milton. Isso o colocou diante de um dilema complicado.
    Ela continuava sendo um elemento de irritao para os colegas. Armanskij tinha conscincia de que no aceitaria tais horrios aleatrios de outro colaborador, 
e que numa situao normal lhe teria dado um ultimato, exigindo uma mudana. Imaginava tambm que, se desse um ultimato a Lisbeth Salander ou ameaasse despedi-la, 
ela apenas encolheria os ombros. Portanto, teria ou que se separar dela, ou aceitar que ela no funcionava como as pessoas normais.
    
    
    O maior problema para Armanskij, porm,  que ele no conseguia definir seus sentimentos em relao  moa. Ela era como uma comicho desconfortvel, repulsiva 
e atraente ao mesmo tempo. No se tratava de atrao sexual  pelo menos no de algum tipo que Armanskij quisesse reconhecer.
    As mulheres que ele cobiava eram geralmente louras e opulentas, com lbios carnudos que atiavam sua imaginao. Alm do mais, estava casado havia vinte anos 
com uma finlandesa chamada Ritva, que, mesmo tendo passado dos cinquenta, ainda satisfazia essas exigncias. Ele nunca fora infiel  digamos que vivera s alguns 
raros momentos que a mulher poderia interpretar mal se ficasse sabendo , tinha um casamento feliz e duas filhas da idade de Salander. Seja como for, no se interessava 
por meninas sem peito que de longe podiam ser confundidas com rapazes magricelas. No era seu estilo.
    No obstante, comeou a pegar-se em flagrante delito tendo sonhos acordados com Lisbeth Salander, e admitiu que no era totalmente indiferente  presena dela. 
Mas a atrao, dizia Armanskij a si mesmo, vinha do fato de Salander ser para ele uma criatura extica. Ele poderia ter se enamorado tambm do quadro de uma ninfa 
grega. Salander representava uma vida irreal que o fascinava mas que ele no podia compartilhar  e que de todo modo ela o impedia de compartilhar.
    Um dia, Armanskij estava no terrao de um caf na praa Stortorget, na cidade velha, quando Lisbeth Salander chegou e instalou-se numa mesa na outra ponta do 
terrao. Estava acompanhada de trs moas e de um rapaz, todos vestidos de forma semelhante. Armanskij a observou com curiosidade. Parecia to reservada como no 
escritrio, mesmo assim sorriu quando uma das moas, de cabelo roxo, lhe contou alguma coisa.
    Armanskij perguntou-se como Salander reagiria se ele chegasse ao escritrio com cabelos verdes, um jeans rasgado e um bluso de couro com rebites e pingentes. 
Seria aceito como um dos seus? Talvez  ela parecia aceitar tudo ao redor com um ar de tanto faz, no estou nem a , mas o mais provvel  que zombasse dele.
    Ela estava de costas e no olhou uma nica vez para o lado dele, parecendo ignorar que ele estivesse ali. Mas Armanskij sentiu-se estranhamente perturbado pela 
presena dela quando, passado um momento, levantou-se para sair de mansinho e ela virou a cabea, o mirou bem nos olhos, como se soubesse o tempo todo que ele estava 
ali e o tivesse sob vigilncia. Seu olhar o atingiu to de repente que ele o sentiu como um ataque; fingiu no v-la e deixou o terrao com passos rpidos. Ela no 
o chamou, mas o seguiu com os olhos, e esse olhar no cessou de arder em suas costas at ele dobrar a esquina.
    Ela raramente ria. Armanskij, no entanto, tinha a impresso de haver notado um abrandamento nela. Seu humor era seco e eventualmente acompanhado de um leve sorriso 
irnico.
    s vezes, Armanskij sentia-se to provocado pela falta de resposta emocional de Lisbeth Salander que tinha vontade de sacudi-la e abrir uma passagem nessa carapaa 
para conquistar sua amizade ou pelo menos seu respeito.
    Numa nica ocasio, quando fazia nove meses que ela trabalhava para ele, tentou discutir esses sentimentos com ela. Foi numa noite de dezembro, na festa de Natal 
da Milton Security, e dessa vez ele bebera bastante. Nada de inconveniente se passou  ele apenas tentou dizer que gostava muito dela. Sobretudo, quis explicar que 
tinha um instinto de proteo por ela e que, se um dia ela precisasse de alguma coisa, podia procur-lo com toda a confiana. Tentou mesmo abra-la  amigavelmente, 
 claro.
    Ela se desvencilhou desse abrao desajeitado e foi embora da festa. No apareceu mais no escritrio nem atendia o celular. Dragan Armanskij viveu sua ausncia 
como uma tortura  quase como uma punio pessoal. No tinha ningum com quem dividir seus sentimentos, e pela primeira vez compreendeu, com uma lucidez aterradora, 
o poder devastador que Lisbeth Salander tinha sobre ele.
    
    
    Trs semanas depois, numa noite de janeiro, quando Armanskij fazia hora extra para verificar o balancete do ano, Salander voltou. Entrou na sala suavemente como 
um fantasma e de sbito ele a percebeu junto  porta, observando-o dali da penumbra. No tinha a menor idia de quanto tempo fazia que ela estava ali.
     Quer caf?  ela perguntou, estendendo-lhe um copinho da mquina de caf expresso da cantina.
    Sem dizer uma palavra, ele pegou o copinho e sentiu ao mesmo tempo alvio e temor quando ela fechou a porta com a ponta do p e instalou-se na poltrona dos visitantes, 
olhando-o bem nos olhos. A seguir, fez a pergunta tabu de tal modo que ele nem pde despach-la com um gracejo nem contorn-la.
     Dragan, voc sente teso por mim?
    Armanskij ficou como que paralisado, refletindo como um louco sobre que resposta dar. Seu primeiro impulso foi negar, com ar ofendido. Depois, viu o olhar dela 
e entendeu que, pela primeira vez, ela perguntava alguma coisa. Uma pergunta sria e, se ele tentasse se safar com um gracejo, ela tomaria aquilo como um insulto 
pessoal. Ela queria falar com ele, e ele se perguntou h quanto tempo ela estava reunindo coragem para fazer essa pergunta. Depositando a caneta bem devagar sobre 
a mesa, ele se reclinou na poltrona e, por fim, conseguiu relaxar.
     O que a faz supor isso?  perguntou.
     A maneira como me olha e a maneira como no me olha. E s vezes em que esteve a ponto de estender a mo para me tocar e se conteve.
    Ele sorriu de repente.
     Eu tinha a impresso de que voc morderia a minha mo se eu tocasse um dedo em voc.
    Ela no sorriu. Esperava.
     Lisbeth, sou seu chefe e, mesmo que estivesse atrado por voc, nunca faria um gesto.
    Ela continuava esperando.
     Entre ns, sim, houve momentos em que me senti atrado. No consigo explicar, mas aconteceu. Por uma razo que eu mesmo no entendo, gosto imensamente de voc. 
Mas no  nada fsico.
     Melhor assim. Porque nunca haver nada entre ns.
    Armanskij soltou uma risada. Mesmo dando a informao mais negativa que um homem podia receber, Salander acabava de lhe falar, de certa maneira, com intimidade. 
Ele buscou as palavras apropriadas.
     Lisbeth, entendo que no esteja interessada em um velho com mais de cinquenta anos.
     No estou interessada num velho com mais de cinquenta anos que  meu chefe.  Ela ergueu a mo.  Espere, deixe-me falar. s vezes voc  tacanho e insuportvel 
com esse seu jeito de burocrata, mas o fato  que tambm  um homem atraente e... eu tambm posso me sentir... S que voc  meu chefe, eu conheci sua mulher, quero 
conservar esse emprego na firma, e a pior coisa que eu poderia fazer seria ter um caso com voc.
    Amanskij ficou em silncio, ele mal ousava respirar.
     Estou perfeitamente consciente do que fez por mim, e no sou uma ingrata. Aprecio de verdade que tenha passado por cima dos preconceitos e tenha me dado uma 
chance aqui. Mas no o quero como amante e voc no  meu pai.
    Ela se calou. Depois de um momento, Armanskij suspirou, desamparado.
     O que quer de mim ento?
     Quero continuar trabalhando para voc. Se acha isso conveniente. Ele assentiu com a cabea e em seguida respondeu com a maior franqueza possvel.
     Realmente, tenho muita vontade que trabalhe para mim. Mas tambm quero que sinta alguma forma de amizade e de confiana por mim.
    Ela concordou com a cabea.
     Voc no  uma pessoa que incite  amizade  ele disparou de repente. Ela se contraiu um pouco, porm ele prosseguiu, inexorvel.  Entendi que no quer que 
se envolvam com a sua vida e tentarei no fazer isso. Mas tudo bem se continuo a gostar de voc?
    Salander refletiu por um bom tempo. Sua resposta, ento, foi se levantar, contornar a mesa e abra-lo. Ele ficou paralisado. Somente quando ela o soltou, ele 
pegou sua mo.
     Podemos ser amigos?  ele perguntou. Ela concordou com a cabea mais uma vez.
    Foi a nica ocasio em que ela lhe mostrara ternura e a nica em que o tocara. Um momento de que Armanskij se lembrava sempre com emoo.
    Quatro anos haviam transcorrido agora, e ela quase nada revelara a Armanskij sobre sua vida pessoal ou sobre seu passado. Uma vez, ele direcionou a ela sua prpria 
competncia na arte da investigao. Teve tambm uma longa conversa com Holger Palmgren  que no pareceu surpreso de ouvi-lo , e o que acabou por saber em nada 
contribuiu para aumentar sua confiana. Nunca discutiu esse assunto com ela, nunca fez a menor aluso nem lhe deu a entender que vasculhara sua vida privada. Em 
vez disso, ocultou sua inquietao e reforou a vigilncia.
    
    
    Antes que essa memorvel noitada terminasse, Salander e Armanskij chegaram a um acordo. Ela passaria a trabalhar para ele como freelancer. Receberia um pequeno 
pagamento mensal fixo, quer realizasse ou no misses; os verdadeiros rendimentos viriam das faturas que apresentasse em cada misso. Trabalharia como bem entendesse; 
em contrapartida, ela se comprometeria a nunca fazer nada que prejudicasse ou criasse problemas para a Milton Security.
    De acordo com Armanskji, era uma soluo vantajosa para a empresa, para ele mesmo e para Salander. Ele restringiu o penoso servio das IP a um nico funcionrio 
fixo, um colaborador muito jovem que desempenhava corretamente as tarefas rotineiras e cuidava das informaes sobre solvncia. Todas as misses complicadas e duvidosas, 
ele reservou a Salander e a outros freelancers que  se as coisas sassem mal  eram seus prprios patres e pelos quais a Milton Security no precisava responder. 
Como ele lhe passava misses com frequncia, ela obtinha rendimentos confortveis. Rendimentos que at poderiam ser bem mais elevados, porm ela trabalhava somente 
quando tinha vontade, segundo o princpio de que, se Armanskij no gostasse, bastava dispens-la.
    Armanskij a aceitou tal como era, com a condio de que no devia se encontrar com os clientes. Quase nunca havia excees a essa regra, mas o caso que hoje 
se apresentava era, infelizmente, uma delas.
    
    
    Naquele dia, Lisbeth Salander vestia uma camiseta preta com uma imagem do E. T. exibindo dentes ferozes e as palavras I am also an alien. Usava saia preta com 
a bainha desfeita, uma jaqueta curta de couro tambm preta e ralada, cinto com rebites, botas Doc. Martens e meias com listas transversais vermelhas e verdes, subindo 
at os joelhos. A maquiagem indicava que talvez fosse daltnica. Ou seja, apresentava-se com o maior esmero.
    Armanskij suspirou e dirigiu o olhar  terceira pessoa presente na sala  um visitante de aspecto antiquado e culos com lentes espessas. O advogado Dirch Frode 
tinha sessenta e oito anos e insistira para se encontrar com o autor do relatrio, a fim de lhe fazer algumas perguntas. Armanskij tentou evitar o encontro recorrendo 
a falsos expedientes, dizendo que Salander estava gripada, que estava viajando e s voltas com outros trabalhos. Frode respondera despreocupadamente que no tinha 
pressa  o caso no era urgente e ele podia esperar mais alguns dias sem problema. Armanskij praguejou em voz baixa e no achou outra sada seno reuni-los. Agora 
Frode observava Lisbeth Salander com evidente fascnio. Salander respondeu com um olhar furioso, sua expresso indicando claramente que no nutria a menor simpatia 
por ele.
    Armanskij suspirou mais uma vez e olhou para o dossi que ela depositara em cima da mesa, com o ttulo Carl Mikael Blomkvist. O nome era acompanhado de um nmero 
de registro, meticulosamente escrito na capa. Ele pronunciou o nome em voz alta. Frode saiu de seu estado de enfeitiamento e voltou os olhos para Armanskij.
     Bem, o que pode me dizer sobre Mikael Blomkvist?  perguntou.
     Esta  a senhorita Salander, que redigiu o relatrio.  Armanskji hesitou um segundo e prosseguiu com um sorriso destinado a transmitir confiana a Frode, 
mas que sobretudo pedia desculpas desamparadas.  No se surpreenda com a juventude dela.  sem dvida nossa melhor investigadora.
     Estou certo disso  respondeu Frode com uma voz seca que indicava o contrrio.  Conte-me o que ela descobriu.
    Evidentemente o advogado no fazia a menor idia de que comportamento adotar com Lisbeth Salander e procurava pisar um terreno mais seguro dirigindo a pergunta 
a Armanskij, como se ela no estivesse na sala. Salander aproveitou a ocasio para fazer uma grande bola com seu chiclete. Antes que Armanskij tivesse tempo de responder, 
ela falou ao chefe como se Frode no existisse.
     Pode ver com o seu cliente se ele deseja a verso longa ou a resumida?
    Na mesma hora Frode percebeu a gafe que cometera. Seguiu-se um breve e penoso silncio, ento ele se virou para Lisbeth Salander e tentou corrigir o erro adotando 
um tom gentilmente paternal.
     Eu ficaria muito grato, senhorita, se pudesse me fazer um resumo do que descobriu.
    Salander parecia uma fera cruel das savanas espreitando Dirch Frode para devor-lo. Havia em seu olhar um dio to intenso e inesperado que Frode sentiu um arrepio 
nas costas. Rapidamente o rosto dela suavizou-se. Frode se perguntou se o que vira naquele olhar fora imaginao. Quando ela comeou a falar, seu tom de voz era 
o de um funcionrio de Estado.
     Antes de mais nada, permita-me dizer que essa misso no foi especialmente complicada, a no ser pelo fato de que a descrio das tarefas a cumprir era bastante 
vaga. O senhor queria que bisbilhotssemos por toda parte para descobrir tudo a respeito dele, mas esqueceu de indicar se buscava algo em particular. Razo pela 
qual chegamos a uma espcie de amostra de sua vida. O relatrio contm cento e noventa e trs pginas, mas cento e vinte so, na verdade, cpias de artigos que ele 
escreveu ou recortes de imprensa nos quais aparece. Blomkvist  uma figura pblica com poucos segredos e no tem muito a esconder.
     Mas ento ele tem segredos?  perguntou Frode.
     Todo mundo tem segredos  ela respondeu, imperturbvel.  Trata-se apenas de descobrir quais.
     Sou todo ouvidos.
     Mikael Blomkvist nasceu em 18 de janeiro de 1960, portanto logo completar quarenta e trs anos. Nasceu em Borlnge, mas nunca morou l. Seus pais, Kurt e 
Anita Blomkvist, tinham cerca de trinta e cinco anos quando ele nasceu; atualmente os dois so falecidos. O pai era instalador de mquinas e devia se deslocar bastante; 
a me nunca foi seno dona de casa, pelo que entendi. A famlia mudou-se para Estocolmo quando Mikael comeou a escola. Ele tem uma irm trs anos mais nova, ela 
se chama Annika e  advogada. Tem tambm tios e primos... E esse caf, vem ou no vem?
    A ltima frase era dirigida a Armanskij, que sem demora abriu a garrafa trmica que ele pedira para a reunio. Com um gesto, convidou Salander a continuar.
     Em 1966, portanto, a famlia se mudou para Estocolmo. Moravam em Lilla Essingen. Blomkvist cursou a escola primria e secundria em Bromma, depois fez o colegial 
em Kungsholmen. Suas notas de final de curso foram excelentes, encontrar cpias delas no dossi. Quando estava no colgio, fazia msica, tocava baixo num grupo 
de rock, os Bootstrap, que teve at um compacto tocado no rdio, no vero de 1979. Depois do colgio, trabalhou como vigia no metr, juntou dinheiro para viajar 
ao exterior. Esteve fora um ano, passeando principalmente pela sia  ndia, Tailndia e uma breve estadia na Austrlia. Comeou a estudar jornalismo em Estocolmo 
quando tinha vinte e um anos, mas interrompeu o curso ao cabo de um ano para prestar o servio militar no regimento de caadores, em Kiruna. Uma espcie de unidade 
de machos, da qual saiu com notas 10-9-9, o que  um bom resultado. Depois do servio militar, formou-se jornalista e comeou a trabalhar. At onde devo ir com os 
detalhes?
     Conte tudo que lhe parea essencial.
     Certo. Ele  sobretudo o tipo primeiro da classe. At hoje tem sido um jornalista talentoso. Nos anos 1980, fez uma srie de servios temporrios, primeiro 
na imprensa do interior, depois em Estocolmo. A lista est no dossi.
    Mas se tornou realmente conhecido com a histria dos Irmos Metralha  o bando de assaltantes que ele ajudou a prender.
     Super-Blomkvist.
     Ele detesta esse apelido, o que  compreensvel. Eu deixaria algum de olho roxo se me chamassem de Pppi Meialonga numa manchete de jornal.
    Ela lanou um olhar sombrio para Armanskij, que engoliu em seco. Mais de uma vez, ele pensara em Lisbeth Salander justamente como Pppi Meialonga, e felicitou-se 
por nunca haver soltado esse gracejo. Fez sinal para que ela prosseguisse, agitando o indicador no ar.
     Uma fonte diz que at ento ele queria ser reprter criminal, chegou mesmo a fazer um trabalho temporrio nessa seo num jornal vespertino, mas o que o tornou 
famoso foi sua atuao como investigador poltico e econmico. Trabalhou principalmente como freelancer e teve um nico emprego fixo num jornal vespertino, no final 
dos anos 1980. Pediu demisso em 1990, quando participou da criao da revista mensal Millennium. Ela comeou como zebra, sem um editor de peso que a bancasse. A 
tiragem aumentou, hoje est em torno de vinte e um mil exemplares. A redao est instalada na Gtgatan, a poucas ruas daqui.
     Uma publicao de esquerda.
     Tudo depende de como se define esquerda. A Millennium  tida como uma revista de crtica  sociedade, mas algo me diz que os anarquistas a vem como uma publicao 
pequeno-burguesa do mesmo filo da Arena ou da Ordfront, enquanto a Unio dos Estudantes Moderados provavelmente pensa que a redao  composta de bolchevistas. 
Nada indica que Blomkvist tenha exercido uma atividade poltica, mesmo durante a onda esquerdista do seu tempo de colgio. Quando estava na faculdade de jornalismo, 
viveu com uma militante sindicalista que hoje ocupa uma cadeira no Parlamento pelo partido da esquerda. O rtulo de esquerdista se deve sobretudo ao fato de ele 
ter se especializado, como jornalista econmico, em reportagens que revelaram a corrupo e negcios suspeitos no mundo empresarial. Ele fez algumas descries devastadoras 
de empresrios e polticos, sem dvida nenhuma bem merecidas, e est na origem de um bom nmero de demisses e processos jurdicos. O mais conhecido  o caso Arboga, 
que resultou na demisso forada de um poltico conservador e na sentena de um ano de priso dada a um ex-tesoureiro municipal, por desvio de verba. Denunciar delitos 
dificilmente pode ser considerado uma atitude de esquerda.
     Entendo o que quer dizer. E o que mais?
     Ele escreveu dois livros. Um sobre o caso Arboga e outro sobre jornalismo econmico, intitulado Os templrios e publicado h trs anos. No li, mas, a julgar 
pelas crticas, o livro  bastante controvertido e suscitou muitos debates na mdia.
     E quanto a dinheiro?
     Ele no  rico, mas no tem do que se queixar. Suas declaraes de renda esto anexadas ao dossi. Tem pouco mais de duzentas e cinquenta mil coroas no banco, 
aplicadas num plano de aposentadoria e num fundo de poupana. Dispe de cerca de cem mil coroas na conta corrente, que usa para as despesas normais, viagens et cetera. 
Possui um apartamento que comprou financiado e j terminou de pagar. Sessenta e cinco metros quadrados na Bellmansgatan. No fez emprstimos nem dvidas.
    Salander levantou um dedo.
     Ele possui ainda um outro bem: uma propriedade rural em Sandhamn.  uma cabana de vinte e cinco metros quadrados, que funciona como casa de frias, situada 
 beira-mar, na parte mais atraente da aldeia. Ao que parece foi comprada por um dos tios nos anos 1940, quando os simples mortais ainda podiam se oferecer esse 
tipo de coisa, e foi por causa da herana que a cabana passou a pertencer a Blomkvist. Ele e a irm dividiram os bens, ela ficou com o apartamento dos pais em Lilla 
Essingen e Mikael Blomkvist com a cabana. No sei quanto ela vale hoje, com certeza alguns milhes, mas ele no parece querer vend-la e vai para l com bastante 
frequncia.
     Seus rendimentos?
      co-proprietrio da Millennium, mas retira apenas doze mil coroas de salrio mensal. Compensa com atividades de freelancer; no final, a soma  varivel. Atingiu 
um pico h trs anos, quando recebeu muitas solicitaes da mdia, o que lhe rendeu cerca de quatrocentas e cinquenta mil coroas no ano. No ano passado, seus honorrios 
no foram alm de cento e vinte mil.
     Ele vai ter que pagar cento e cinquenta mil por perdas e danos, mais as custas do advogado e coisas desse tipo  constatou Frode.  Pode-se dizer que a soma 
ser elevada, sem esquecer que ele no ter rendimentos enquanto estiver cumprindo a pena de priso.
     O que significa que sair sem nada no bolso  observou Salander.
     Ele  honesto?  perguntou Dirch Frode.
     E o seu capital de confiana, por assim dizer. Ele insiste em se apresentar como um slido guardio da moral no mundo das empresas, e seguidamente  convidado 
a ir  televiso para comentar diversos casos.
     Certamente no restar muita coisa desse capital aps o julgamento de hoje  disse Frode com ar pensativo.
     No estou muito por dentro do que se exige de um jornalista, mas depois dessa bofetada certamente vai demorar muito at o Super-Blomkvist receber o Grande 
Prmio de Jornalismo. Ele se queimou magistralmente  constatou Salander com lucidez.  Mas se me permite uma reflexo pessoal...
    Armanskij abriu bem os olhos. Nos anos em que Lisbeth Salander vinha trabalhando para ele, nunca emitira a menor reflexo pessoal numa investigao sobre um 
indivduo. Para ela, contavam apenas os fatos brutos, mas hoje abria uma exceo.
     No competia  minha misso examinar o caso Wennerstrm, mas acompanhei o processo e confesso que fiquei perplexa. Todo o caso parece muito mal contado, e 
 totalmente... totalmente improvvel que Mikael Blomkvist publicasse algo a tal ponto sem fundamento.
    Salander coou o queixo. Frode parecia aguardar com pacincia. Armanskij se perguntou se estava enganado ou se Salander no sabia realmente como prosseguir. 
A Salander que ele conhecia nunca se mostrava indecisa nem hesitante. Por fim ela se decidiu.
     Isto ficar fora do relatrio... realmente no mergulhei no caso Wennerstrm, mas acho que o Super-Blomkvist... perdo, Mikael Blomkvist, caiu numa armadilha. 
Acho que h nessa histria algo bem diferente daquilo que a sentena indica.
    Dessa vez, foi Dirch Frode que se ergueu de repente na poltrona. O advogado examinou Salander com ateno e Armanskij notou que, pela primeira vez desde o incio 
da exposio, ele mostrava um interesse que ia alm da simples polidez. De incio, Armanskij achou que o caso Wennerstrm representava aparentemente algo bem preciso 
para Frode. Mas logo se corrigiu. Na verdade, o caso Wennerstrm no interessa a Frode  foi somente quando Salander insinuou que Blomkvist se deixou pegar que Frode 
reagiu.
     O que est querendo dizer exatamente?
     Simples especulao, mas estou convencida de que algum o enganou.
     E o que a faz supor isso?
     Tudo no passado de Blomkvist indica que ele  um jornalista muito prudente. Todas as revelaes passveis de controvrsia que ele fez sempre foram muito bem 
documentadas. Assisti a uma sesso do julgamento. Ele no forneceu argumentos contraditrios; pareceu ter abandonado a luta, o que no combina com seu carter. A 
acreditar no tribunal, ele fabricou uma histria sobre Wennerstrm sem nenhuma prova e a publicou como se fosse um jornalista camicase, e esse no  de modo algum 
o estilo de Blomkvist.
     O que aconteceu, na sua opinio?
     Posso apenas especular. Blomkvist acreditou na sua histria, mas algo aconteceu no caminho e a informao se revelou falsa. Isso significa que a fonte era 
algum em quem ele confiava, ou ento que algum deliberadamente lhe passou informaes erradas, o que me parece complicado e inverossmil. A alternativa pode ser 
ele ter sido exposto a uma ameaa to grave que preferiu jogar a toalha e passar por um imbecil incompetente em vez de entrar na luta. Mas, como eu disse, so s 
especulaes.
    
    
    Salander se preparava para prosseguir seu relato, quando Dirch Frode a interrompeu com um gesto. Ficou um momento silencioso tamborilando com a ponta dos dedos 
no brao da cadeira, antes de se voltar novamente para ela com alguma hesitao.
     Se quisssemos contrat-la para desvendar o caso Wennerstrm... quais seriam suas chances de descobrir alguma coisa?
     No sei dizer. Talvez no haja nada para descobrir.
     Mas aceitaria tentar? Ela encolheu os ombros.
     No cabe a mim decidir. Trabalho para Dragan Armanskij e  ele quem decide que tarefas deseja me atribuir. Depois, depende do tipo de informao que o senhor 
quer descobrir.
     Deixe-me pr as coisas assim... Presumo que esta conversa seja confidencial, no?  Armanskij assentiu com a cabea.  Nada sei sobre esse caso, mas sei, de 
forma incontestvel, que Wennerstrm foi desonesto em outros contextos. Esse caso teve um impacto enorme na vida de Mikael Blomkvist e eu gostaria de saber se suas 
especulaes poderiam conduzir a algum lugar.
    A conversa tomara um rumo inesperado e Armanskij imediatamente ficou alerta. O que Dirch Frode pedia era que a Milton Security aceitasse investigar um caso judicirio 
j julgado, no qual talvez tivesse ocorrido alguma forma de ameaa ilcita contra Mikael Blomkvist e no qual a Milton potencialmente se arriscava a entrar em coliso 
com o exrcito de advogados de Wennerstrm. Armanskij no estava nem um pouco tentado pela idia de lanar Lisbeth Salander em tal situao, como um mssil descontrolado.
    No se tratava apenas de preocupao com a tarefa. Salander j dissera claramente que no queria ver Armanskij desempenhando o papel de pai adotivo angustiado, 
e depois do acordo que fizeram ele evitava comportar-se como tal, mas interiormente nunca deixaria de se preocupar com ela. s vezes, surpreendia-se comparando Salander 
com as prprias filhas. Considerava-se um bom pai que no interferia inutilmente na vida das filhas, mas sabia que jamais aceitaria que elas se comportassem ou vivessem 
como Lisbeth Salander.
    No fundo do seu corao croata  ou bsnio, talvez, ou armnio , ele nunca conseguira se libertar de uma convico de que a vida de Salander era uma corrida 
rumo ao desastre. A seus olhos, ela se oferecia como vtima ideal para algum com ms intenes, e ele temia ser despertado uma manh com a notcia de que algum 
lhe fizera mal.
     O custo de uma investigao como essa pode ser muito alto  disse Armanskij com prudncia, para sondar a seriedade da proposta de Frode.
     Precisamos apenas fixar um teto  replicou Frode, perspicaz.  No estou pedindo o impossvel, mas  evidente que sua colaboradora, como voc afirmou,  competente.
     Salander?  disse Armanskij, erguendo uma sobrancelha em direo a ela.
     No tenho nenhum outro trabalho em andamento.
     Certo. Mas eu gostaria que chegssemos a um acordo sobre algumas formalidades. Vamos ouvir o resto do relatrio.
     No h muita coisa mais, exceto detalhes sobre a vida privada dele. Em 1986 casou-se com uma tal Monica Abrahamsson, e no mesmo ano tiveram uma filha chamada 
Pernilla, hoje com dezesseis anos. O casamento no durou muito, em 1991 eles se divorciaram. Abrahamsson voltou a se casar, mas parece que os dois continuam tendo 
boas relaes. A filha mora com a me e no v Blomkvist com muita frequncia.

* * *
    Frode pediu uma segunda xcara de caf e voltou-se outra vez para Salander.
     H pouco voc deu a entender que todo mundo tem segredos. Descobriu algum?
     Eu quis dizer que as pessoas tm coisas que consideram privadas e que no costumam expor. Blomkvist parece apreciar o convvio com as mulheres. Teve vrias 
histrias de amor e muitas ligaes ocasionais. Em suma, tem uma vida sexual intensa. No entanto, existe uma pessoa em sua vida j h muitos anos e o relacionamento 
deles  bastante incomum.
     Em que sentido?
     Ele tem um relacionamento sexual com Erika Berger, diretora da Millennium; filha da alta sociedade, de me sueca e pai belga radicado na Sucia. Berger e Blomkvist 
se conheceram na faculdade de jornalismo e desde ento tm uma ligao mais ou menos constante.
     No parece to incomum  observou Frode.
     Certamente no. Mas Erika Berger  casada com o artista plstico Lars Beckman, um sujeito ligeiramente famoso, que espalhou uma poro de instalaes horrorosas 
em lugares pblicos.
     Ou seja, ela  infiel.
     No. Beckman sabe do relacionamento deles.  um mnage  trois, aparentemente aceito pelas partes. s vezes ela dorme na casa de Blomkvist, s vezes na casa 
do marido. No sei bem como a coisa funciona, mas sem dvida foi o que fez acabar o casamento de Blomkvist e de Monica Abrahamsson.
    
   3.         SEXTA-FEIRA 20 DE DEZEMBRO 
   SBADO 21 DE DEZEMBRO
    
    
    
    Erika Berger levantou as sobrancelhas quando um Mikael Blomkvist visivelmente morto de frio chegou  redao j no final da tarde. O escritrio da Millennium 
ficava na Gtgatan, na parte alta da rua, um andar acima da sede do Greenpeace. O aluguel, na verdade, era um pouco superior aos recursos da revista, mas Erika, 
Mikael e Christer julgavam que deviam conservar o local.
    Ela olhou seu relgio: cinco e dez. J havia algum tempo que escurecera em Estocolmo. Achando que ele voltaria mais cedo, ela o esperara para o almoo.
     Desculpe o atraso  ele falou, antes que ela tivesse tempo de dizer alguma coisa.  Eu queria ficar sozinho, no estava com vontade de falar. Sa andando por 
a para pensar.
     Ouvi a sentena pelo rdio. Uma moa da TV4 telefonou, queria uma declarao minha.
     E o que voc disse?
     Mais ou menos o que j tnhamos decidido, que vamos estudar o veredicto detalhadamente antes de nos pronunciarmos. Ou seja, no disse nada. E a minha opinio 
continua a mesma: acho que no  uma boa estratgia nos colocarmos numa posio de fraqueza e perdermos o apoio da mdia. A tev deve abordar o assunto hoje  noite.
    Abatido, Blomkvist assentiu com a cabea.
     Como est se sentindo?
    Ele encolheu os ombros e deixou-se cair em sua poltrona preferida em frente  janela da sala de Erika. A pea era escassamente mobiliada: uma mesa de trabalho, 
uma estante funcional e mveis de escritrio baratos. Foram comprados na Ikea, com exceo de duas poltronas confortveis e extravagantes, e de uma pequena mesa 
baixa  uma concesso  minha educao, como ela costumava gracejar. Quando queria fazer uma pausa Erika geralmente se instalava numa das poltronas, com os ps recolhidos. 
Mikael olhava pela janela. Embaixo, na penumbra, pedestres apressados galopavam pela Gtgatan. A histeria das compras de Natal chegava  reta final.
     Suponho que vai passar  disse ele.  Mas neste momento  como se eu acabasse de levar uma tremenda surra.
     Sim,  mais ou menos isso, e o mesmo vale para todos ns. Janne Dahlman foi embora hoje de manh para casa.
     Imagino que ele no tinha iluses quanto  sentena.
     No  exatamente o homem mais otimista que eu j conheci. Mikael assentiu com a cabea. Janne Dahlman era secretrio de redao da Millennium havia nove meses. 
Entrou quando o caso Wennerstrm estava comeando e viu-se numa redao em crise. Mikael tentou lembrar a conversa que tiveram, ele e Erika, quando decidiram contrat-lo. 
Era um jovem competente, sua passagem pela TT o familiarizara com as assessorias de imprensa, e trabalhara como temporrio em jornais vespertinos e na rdio. Mas 
no era algum pronto para enfrentar tempestades. Durante o ano que terminava, Mikael se arrependeu vrias vezes de ter contratado Dahlman, que tinha uma tendncia 
profundamente irritante de ver tudo sob os aspectos mais negativos.
     Teve notcias do Christer?  perguntou Mikael sem desviar o olhar da rua.
    Christer Malm, responsvel pela ilustrao e diagramao da Millennium, era co-proprietrio da revista com Erika e Mikael, e no momento estava no exterior, viajando 
com o namorado.
     Ele telefonou, te mandou um abrao.
     Ele vai ter de ficar no meu lugar como editor.
     Espere a, Micke, voc deveria saber que um editor responsvel leva muitos socos no nariz, faz parte do jogo.
     Sim, eu sei. Mas acontece que eu  que redigi o texto que foi publicado na revista da qual eu sou o redator-chefe, ou, mais exatamente, o editor responsvel. 
Isso muda tudo. Isso se chama erro de avaliao.
    Erika Berger sentiu que a ansiedade que o acompanhara o dia todo estava a ponto de explodir. Antes do julgamento, nas ltimas semanas, Mikael Blomkvist estivera 
mal-humorado, mas ela no o sentira to tristonho e resignado como parecia estar agora, no momento da derrota. Ela contornou a mesa de trabalho, sentou-se de pernas 
abertas sobre os joelhos dele e passou os braos em volta de seu pescoo.
     Mikael, escute. Sabemos bem como tudo aconteceu. Sou to responsvel quanto voc. Temos que enfrentar essa tempestade.
     No h tempestade para enfrentar. Essa sentena significa que levei um tiro na nuca, que estou morto do ponto de vista da mdia. No posso continuar dirigindo 
a Millennium. A credibilidade da revista est em jogo,  preciso reduzir os prejuzos. Voc sabe to bem quanto eu.
     Se acha que pretendo deix-lo assumir o erro sozinho, ento voc nunca entendeu, nesses anos todos, como eu funciono.
     Sei exatamente como voc funciona, Ricky. Voc  de uma lealdade cega com seus colegas. Se pudesse se lanar contra os advogados de Wennerstrm, faria isso 
at tambm perder sua credibilidade. Precisamos ser mais inteligentes.
     E acha inteligente abandonar o navio como se eu tivesse te despedido?
     J falamos sobre isso centenas de vezes. Se a Millennium deve sobreviver, cabe a voc comandar. Christer  um cara timo, um sujeito que entende de fotografia 
e diagramao, mas enfrentar bilionrios no  o forte dele.  preciso que eu desaparea da Millennium por algum tempo como publisher, jornalista e membro da equipe; 
voc fica no meu lugar. Wennerstrm sabe que eu sei o que ele faz, e estou convencido de que, enquanto eu estiver ligado  revista, far o possvel para afund-la. 
No podemos permitir isso.
     Mas por que ento no contar o que se passou? Ou vai ou racha!
     Porque no podemos provar nada e porque neste momento no tenho credibilidade nenhuma. Wennerstrm ganhou esse round. Ponto final.
     Est bem, eu despeo voc. E o que vai fazer em seguida?
     Preciso de um tempo, s isso. Estou completamente esgotado, entrei de cabea na parede, como se diz. Vou cuidar de mim durante algum tempo. Depois veremos.
    Erika estreitou Mikael com fora nos braos e encostou a cabea no peito dele. Ficaram em silncio por alguns minutos.
     Quer companhia esta noite?  ela perguntou. Mikael assentiu com a cabea.
     Eu j tinha avisado Lars que dormiria na sua casa hoje.
    
    
    A nica fonte de luz do quarto era a iluminao da rua que entrava pela janela. Erika adormecera pouco depois das duas da manh e Mikael, ainda acordado, observava 
o perfil dela na penumbra. A colcha a cobria at a cintura e ele observou os seios erguendo-se e abaixando-se num ritmo lento. Estava apaziguado e a bola de angstia 
no estmago se dissolvera. Erika produzia esse efeito nele, sempre fora assim. E ele sabia que produzia exatamente o mesmo efeito nela.
    Vinte anos, pensou. Fazia vinte anos que ele e Erika mantinham uma ligao. E ele esperava que continuassem fazendo amor por mais vinte anos ainda. Pelo menos. 
Nunca haviam tentado a srio esconder essa relao, mesmo quando ela criou situaes um pouco ambguas com os outros. Ele sabia que as pessoas em volta falavam e 
faziam perguntas, s quais tanto Erika quanto ele davam respostas evasivas, sem se preocupar com os comentrios.
    Conheceram-se numa festa na casa de amigos comuns. Ambos estavam no segundo ano da faculdade de jornalismo e cada um, na poca, tinha um parceiro regular. De 
incio foi s uma paquera divertida, se  que as lembranas eram exatas. Depois, levaram mais longe o jogo de seduo mtua e, antes de se separar, trocaram os nmeros 
de telefone. Os dois sabiam que iam se reencontrar na cama e, menos de uma semana depois, executaram esse plano sem que os respectivos parceiros soubessem.
    Mikael tinha certeza de que no se tratava de amor  pelo menos no do amor tradicional, que acaba num domiclio comum, em compromissos comuns, rvore de Natal 
e crianas. Algumas vezes, nos anos 1980, chegaram a pensar em alugar um apartamento juntos. Mikael teria gostado. Mas Erika sempre desistia no ltimo instante, 
argumentando que no daria certo e que no deviam arriscar destruir sua relao se apaixonando um pelo outro.
    Sabiam que a relao se baseava no sexo, e Mikael vrias vezes se perguntou se era possvel sentir mais desejo por uma mulher do que o que sentia por Erika. 
A relao funcionava como uma verdadeira droga.
    s vezes viam-se com tanta frequncia que tinham a impresso de ser um casal; outras vezes transcorriam semanas, meses, entre cada encontro. Mas, como os alcolatras 
atrados pela prateleira de bebidas aps um perodo de abstinncia, retornavam sempre um para o outro em busca de mais.
    A coisa, evidentemente, no funcionava. Uma relao como essa s podia ser uma fonte de dor. Erika e ele haviam deixado pelo caminho promessas no cumpridas 
e ligaes frustradas  o prprio casamento de Mikael acabou porque ele no conseguiu se manter afastado de Erika. Nunca mentiu  mulher sobre a existncia desse 
caso, mas ela pensou que, com o casamento e o nascimento da filha, ele terminaria. Alm do mais, praticamente na mesma poca, Erika se casou com Lars Beckman. Mikael 
tambm pensou que o caso terminaria e, nos primeiros anos do casamento dela, ele e Erika s se viram profissionalmente. A veio a Millennium e, menos de uma semana 
depois, todas as resolues vieram abaixo quando, no final de um dia de trabalho, os dois fizeram amor selvagemente em cima da mesa de Erika. Seguiu-se um perodo 
difcil, no qual Mikael queria viver com a famlia e ver a filha crescer, ao mesmo tempo que, contra a vontade, era atrado para Erika como se no conseguisse mais 
comandar seus atos. O que, evidentemente, era s uma questo de fora de vontade, como Lisbeth Salander bem percebeu: foi essa perptua infidelidade que levou Monica 
a querer acabar com o casamento.
    O estranho  que Lars Beckman parecia aceitar totalmente a ligao deles. Erika sempre foi clara sobre sua relao com Mikael e imediatamente informou o marido 
quando os dois recomearam. Talvez s uma alma de artista pudesse suportar isso, um artista voltado  sua criao, ou talvez voltado somente a si mesmo, que no 
reagia quando sua mulher dormia na casa de outro homem ou at mesmo interrompia as frias para passar uma semana com o amante na cabana em Sandhamn. Mikael no gostava 
muito de Lars e nunca entendeu por que Erika havia se ligado a ele. Mas apreciava que Lars aceitasse que ela pudesse amar dois homens ao mesmo tempo.
    Ele suspeitava que Lars considerava que a ligao da mulher trazia uma excitao extra ao casamento. Mas nunca abordou esse assunto com Erika.
    
    
    Mikael no conseguia dormir e por volta das quatro da manh levantou-se. Instalou-se na cozinha e mais uma vez leu o veredicto do comeo ao fim.
    A leitura do dossi lhe permitia enxergar com mais clareza, e ele percebia o quanto o encontro em Arholma tinha a ver com o destino. Nunca conseguiu descobrir 
se Robert Lindberg revelara a fraude de Wennerstrm apenas como uma boa histria durante uma conversa entre dois tragos, ou se a inteno fora de fato faz-la vir 
a pblico.
    Espontaneamente, Mikael pendia a favor da primeira possibilidade, mas tambm era possvel imaginar que Robert, por razes altamente particulares ou profissionais, 
desejasse atingir Wennerstrm e aproveitou a oportunidade de ter um jornalista disposto a escut-lo numa cabine fechada. Robert talvez tivesse bebido um pouco, o 
que no o impediu de cravar os olhos em Mikael no instante decisivo da histria, quando evocou as palavras mgicas que o transformariam numa fonte annima. Com isso, 
Robert tinha a certeza de que Mikael podia divulgar o que quisesse, mas nunca se permitiria revelar o nome de seu informante.
    No entanto Mikael estava certo de uma coisa: se o encontro em Arholma tinha sido organizado por um conspirador com o objetivo de atrair sua ateno, a atuao 
de Robert fora perfeita. S que o encontro em Arholma acontecera por puro acaso.
    Robert no tinha a menor idia da extenso do desprezo de Mikael por gente como Hans-Erik Wennerstrm. Depois de anos de observao, Mikael estava convencido 
de que no havia um nico diretor de banco ou dono de empresa clebre que no fosse tambm um escroque.
    Mikael nunca ouvira falar de Lisbeth Salander e ignorava completamente o relatrio que ela fizera naquele dia, mas, se o tivesse lido, teria balanado a cabea 
em concordncia quando ela afirmou que a averso dele pelos tubares das finanas no era um mero acesso de radicalismo de esquerda. Mikael no era um desinteressado 
de poltica, mas encarava os ismos polticos com a maior desconfiana. Na nica eleio em que votou  as legislativas de 1982 , escolhera sem muita convico os 
socialdemocratas simplesmente porque para ele nada podia ser pior do que mais trs anos com um moderado como Gsta Bohman nas finanas, um centrista como Thorbjrn 
Flldin e um liberal como Ola Ullsten no comando do governo. Assim, votou em Olof Palme sem grande entusiasmo, para depois deparar com o assassinato do primeiro-ministro, 
o escndalo da venda de armas de Bofors em Om e as intrigas srdidas de Ebbe Carlsson no inqurito sobre o assassinato de Olof Palme.
    O desprezo de Mikael pelos jornalistas econmicos se devia a algo to elementar, a seus olhos, como a moral. Para ele era uma equao simples. Um diretor de 
banco que perde algumas centenas de milhes em especulaes tresloucadas no deveria permanecer no cargo. Um empresrio que monta firmas fictcias para seus negcios 
pessoais devia ser preso. Um proprietrio de imveis que obriga jovens a pagar, sem nota, o aluguel de um quarto com banheiro no quintal devia ser pendurado pelos 
ps no pelourinho.
    Mikael Blomkvist acreditava que a misso do jornalista econmico era investigar e desmascarar os tubares financeiros capazes de provocar crises de juros e de 
especular com o dinheiro do pequeno poupador. Acreditava que sua verdadeira misso jornalstica era investigar os donos de empresa com o mesmo zelo implacvel que 
os jornalistas polticos vigiam o menor passo em falso de ministros e parlamentares. Jamais ocorreria a um jornalista poltico transformar em cone um chefe de partido, 
e Mikael tinha dificuldade em entender por que tantos jornalistas econmicos, dos mais importantes veculos do pas, estavam prontos a elevar medocres arrivistas 
 categoria de vedetes do showbiz.
    
    
    Essa atitude um tanto atpica no jornalismo econmico o levou a ter, mais de uma vez, conflitos abertos com colegas, entre os quais William Borg, que virou seu 
inimigo ferrenho. Mikael erguera a cabea e criticara os colegas, acusando-os de no cumprir sua misso e de fazer o jogo dos arrivistas financeiros. O papel de 
crtico da sociedade certamente dera a Mikael algum status e o transformara no arroz-de-festa das cmeras de tev  era sempre convidado a dar sua opinio quando 
se sabia que algum empresrio se safara de dificuldades com um pra-quedas no valor de alguns bilhes , porm isso tambm lhe angariava um crculo fiel de inimigos 
jurados.
    Mikael bem podia imaginar que algumas redaes haviam estourado champanhe naquela noite.
    Erika tinha a mesma postura que ele diante do papel do jornalista, e desde que se formaram os dois se divertiam juntos pensando numa publicao com esse perfil.
    Mikael no podia imaginar um chefe melhor do que Erika. Perfeita organizadora, ela transmitia calor e confiana aos funcionrios, mas ao mesmo tempo no temia 
o confronto e sabia se mostrar intratvel quando necessrio. Sua sensibilidade se exacerbava sobretudo na hora de tomar decises sobre o contedo da edio que estava 
sendo preparada. Ela e Mikael tinham muitas vezes opinies contrrias e os dois s vezes discutiam abertamente, mas nutriam uma confiana inabalvel um pelo outro 
e formavam uma equipe imbatvel. Ele fazia a coleta, ela encaixotava e vendia.
    A Millennium era uma criao dos dois, mas nunca teria existido sem a capacidade de Erika de levantar um financiamento. Um filho de operrio e uma filha de burgus 
reunidos. Erika dispunha de uma boa herana. De incio, lanou mo de seus recursos e convenceu o pai e amigos a investir quantias considerveis no projeto.
    Muitas vezes Mikael se perguntou por que Erika apostara na Millennium.  verdade que ela era acionista  majoritria  e diretora de sua prpria revista, o que 
lhe dava prestgio e uma liberdade editorial que ela no teria em nenhum outro local de trabalho. Diferentemente de Mikael, ela se encaminhara para a tev depois 
da faculdade de jornalismo. Tinha coragem, apresentava-se com competncia diante da cmera e sabia se afirmar entre os concorrentes. Possua, alm disso, bons contatos 
no governo. Se tivesse continuado, certamente teria alcanado um cargo de direo na tev, com um salrio muito alto. Mas preferiu abandonar tudo e apostar na Millennium, 
um projeto de alto risco iniciado em instalaes precrias no bairro de Midsom-markransen, mas que deu suficientemente certo para se transferir, poucos anos depois, 
para salas mais amplas e agradveis na Gtgatan, a dois passos do centro da cidade, no Sdermalm.
    Erika tambm convencera Christer Malm a se associar  revista; celebridade do mundo gay, exibicionista nas horas vagas, aparecia de vez em quando nas colunas 
sociais em companhia do namorado. O interesse da mdia voltou-se para ele quando passou a viver com Arnold Magnusson, conhecido por Arn, um ator de teatro que s 
se revelou verdadeiramente ao desempenhar o prprio papel num reality show na tev. A vida de Christer e Arn virou ento um folhetim na mdia.
    Aos trinta e seis anos, Christer Malm, fotgrafo profissional e designer muito requisitado, sabia dar  Millennium um padro grfico moderno e atraente. Seu 
escritrio ficava no mesmo andar que a redao da Millennium, e ele cuidava da diagramao em tempo parcial, uma semana por ms.
    Alm desses trs, a Millennium contava com dois colaboradores fixos, trs em tempo parcial e um temporrio. Era o tipo de publicao que estava sempre no vermelho, 
porm muito prestigiosa e na qual os colaboradores adoravam trabalhar.
    A Millennium no era um negcio lucrativo, mas havia conseguido equilibrar suas despesas, e tanto a tiragem quanto as receitas publicitrias no cessavam de 
aumentar. At o momento, a revista mantinha a imagem de um produto com estilo editorial franco e confivel.
    Provavelmente agora as coisas iam mudar. Mikael lia o breve comunicado que ele e Erika haviam escrito algumas horas antes e que logo se transformou num despacho 
da agncia de notcias TT veiculado nas pginas da Aftonbladet, na internet.
CONDENADO NA JUSTIA, MIKAEL BLOMKVIST ABANDONA A MILLENNIUM
    
Estocolmo (TT). O jornalista Mikael Blomkvist deixa o cargo de editor responsvel da revista mensal Millennium, anuncia Erika Berger, diretora e acionista majoritria.
Mikael Blomkvist deixa a Millennium por deciso prpria. Esgotado aps o perodo dramtico que acaba de viver, ele precisa de um descanso, diz Erika, que assume 
o cargo de editora responsvel da publicao.
Mikael Blomkvist foi um dos criadores da Millennium em 1990. Segundo Erika Berger, o caso Wennerstrm no dever interferir no futuro da revista.
"A Millennium sair normalmente no ms que vem", ela acrescenta. "Mikael Blomkvist teve um papel fundamental no desenvolvimento da revista, mas agora vamos virar 
a pgina. Considero o caso Wennerstrm como uma sucesso de circunstncias infelizes e lamento os dissabores causados a Hans-Erik Wennerstrm."
No foi possvel encontrar Mikael Blomkvist para obter seu depoimento.
    
     Acho isso terrvel  dissera Erika aps enviar por e-mail o comunicado de imprensa.  A maioria das pessoas vai concluir que voc  um cretino incompetente 
e que eu no passo de uma puta que aproveita a ocasio para te acertar um tiro pelas costas.
     Considerando todos os outros boatos que circulam, pelo menos nossos amigos tero algo de novo com que se divertir  tentou gracejar Mikael. Mas Erika no achou 
graa.
     No tenho um plano B, mas acho que estamos cometendo um erro.
      a nica soluo  replicou Mikael.  Se a revista quebrar a cara, todos os nossos esforos tero sido inteis. Voc sabe que a partir de agora vamos perder 
muitas receitas. Alis, qual foi a deciso daquela empresa de informtica?
    Ela suspirou.
     Hoje de manh eles comunicaram que no vo anunciar na edio de janeiro.
     E, no por acaso, Wennerstrm detm muitas cotas dessa empresa.
     Podemos cortejar outros anunciantes. Por mais que Wennerstrm seja um figuro das finanas, ele no possui tudo neste mundo, e ns tambm temos nossos contatos.
    Mikael estreitou Erika no peito.
     Um dia vamos torpedear Hans-Erik Wennerstrm a ponto de fazer tremer Wall Street. Mas no hoje. A Millennium deve sair do campo minado. No podemos nos arriscar 
a perder a confiana que alguns depositam em ns.
     Eu sei, eu sei, mas vou ser vista como a bruxa de planto e voc ficar numa pior se dermos a entender que houve um rompimento entre ns.
     Eu, voc e Ricky confiamos um no outro, temos uma chance. Precisamos tocar o barco, e chegou a hora de eu me retirar.
    Ela reconheceu, a contragosto, que havia uma triste lgica nessa concluso.

   4.         SEGUNDA-FEIRA 23 DE DEZEMBRO 
                    QUINTA-FEIRA 26 DE DEZEMBRO
    
    
    Erika passou o fim de semana na casa de Mikael Blomkvist. Praticamente s saram da cama para ir ao banheiro e comer alguma coisa, mas nem por isso ficaram o 
tempo todo fazendo amor; passaram horas um junto do outro, discutindo o futuro e pesando consequncias, possibilidades e probabilidades. Na segunda-feira de manh 
 faltavam dois dias para o Natal , Erika beijou Mikael, despediu-se com um "at breve" e voltou para a casa do marido.
    Mikael comeou a segunda-feira lavando a loua e pondo um pouco de ordem no apartamento, depois foi caminhando at a redao, para recolher seus papis no escritrio. 
No tinha a menor inteno de romper com a revista, mas acabou convencendo Erika que durante algum tempo era importante separar Mikael Blomkvist da Millennium. A 
partir de agora, ele trabalharia no seu apartamento da Bellmansgatan.
    Estava sozinho na redao, fechada por causa do Natal e com os funcionrios de folga. Selecionava alguns papis e livros para pr numa pasta quando o telefone 
tocou.
     Gostaria de falar com Mikael Blomkvist  disse uma voz desconhecida mas cheia de expectativa na outra ponta da linha.
      ele.
     Sinto muito perturb-lo na vspera de Natal. Meu nome  Dirch Frode.  Instintivamente, Mikael anotou o nome e a hora.  Sou advogado e represento um cliente 
que gostaria muito de conversar com o senhor.
     Bem, diga a seu cliente que ele mesmo me telefone.
     O que quero dizer  que ele gostaria de encontr-lo.
     Tudo bem, marque um encontro e mande-o vir at o meu escritrio. Mas seja rpido, pois estou esvaziando a mesa.
     Meu cliente gostaria muito que fosse encontr-lo na casa dele. Ele mora em Hedestad, so apenas trs horas de trem.
    Mikael parou de selecionar os papis. A imprensa tem a capacidade de atrair as pessoas mais malucas, detentoras das informaes mais absurdas. Todas as redaes 
do mundo recebem chamados de fanticos por vnis, graflogos, cientologistas, paranicos e outros tericos da grande conspirao.
    Um dia, Mikael ouvia uma conferncia do escritor Karl Alvar Nilsson, organizada pela universidade popular na poca do aniversrio do assassinato de Olof Palme. 
A conferncia era absolutamente sria e na platia se achavam Lennart Bodstrm e outros velhos amigos de Palme. Mas muitas pessoas comuns tambm compareceram, entre 
elas uma mulher de uns quarenta anos, que se apoderou do microfone quando chegou o inevitvel momento das perguntas. Com exceo da voz baixa, como num cochicho, 
nada fazia prever uma sequncia interessante, e ningum ficou especialmente surpreso quando a mulher comeou sua interveno anunciando: "Sei quem matou Olof Palme". 
Os que estavam  mesa responderam, com uma ponta de ironia, que, se ela possua aquela informao to decisiva, seria do maior interesse comunic-la  comisso de 
inqurito. Ao que ela vivamente retrucou, num murmrio quase inaudvel: "No posso,  perigoso demais!".
    Mikael se perguntou se Dirch Frode tambm no seria um desses profetas ansiosos por revelar a existncia de um hospital psiquitrico secreto, onde a Polcia 
Federal se dedicava a experimentos de controle mental.
     No atendo em domiclio  respondeu secamente.
     Nesse caso, espero convenc-lo a abrir uma exceo. Meu cliente tem mais de oitenta anos e vir a Estocolmo representa para ele uma viagem penosa. Se o senhor 
insiste, creio que poderamos encontrar outra soluo, mas, para ser bem franco, seria prefervel que tivesse a gentileza de...
     Quem  o seu cliente?
     Algum de quem o senhor nunca deve ter ouvido falar na sua profisso, imagino: Henrik Vanger.
    Mikael fez um movimento para trs, surpreso. Henrik Vanger  claro que ouvira falar dele. Grande industrial e ex-diretor administrativo do grupo Vanger, um imprio 
cujos negcios eram serrarias, florestas, minas, fbricas de ao, empresas metalrgicas e txteis, produo e exportao. Henrik Vanger fora um dos grandes de seu 
tempo, com a reputao de um honesto patriarca  antiga que no se curvava diante da tempestade. Fazia parte dos fundamentos da vida econmica sueca, bravo seguidor 
da velha escola, ao lado dos Matts Carlgren, de MoDo e de Hans Werthen, da antiga Electrolux. A coluna vertebral da indstria democrtica sueca, por assim dizer.
    O grupo Vanger, ainda hoje uma empresa familiar, fora sacudido nos ltimos vinte e cinco anos por reestruturaes, catstrofes na Bolsa, crises de juros, concorrncia 
asitica, declnio das exportaes e outros problemas que, somados, relegaram Vanger ao peloto da rabeira. A empresa agora era dirigida por Martin Vanger, cujo 
nome Mikael associava a um sujeito gordo de cabelos fofos que ele vira na televiso, mas que na verdade no conhecia. Fazia bem uns vinte anos que Henrik Vanger 
estava fora de circuito e Mikael ignorava que ainda estivesse vivo.
     Por que Henrik Vanger quer me ver?
     Sinto muito. Sou o advogado de Vanger h muitos anos, mas cabe a ele contar o que deseja. Por outro lado, posso adiantar que Henrik Vanger gostaria de discutir 
com o senhor um possvel trabalho.
     Um trabalho? No tenho nenhuma inteno de passar a trabalhar para as empresas Vanger. Esto precisando de um assessor de imprensa?
     No se trata em absoluto desse tipo de trabalho. No sei como me exprimir... tudo que posso dizer  que Henrik Vanger est particularmente interessado em v-lo 
e consult-lo sobre um assunto particular.
     O senhor no poderia ser mais direto?
     Peo que me perdoe. Mas me diga: existe alguma possibilidade de o senhor fazer uma visita a Hedestad? Claro que reembolsaremos sua viagem e lhe daremos uma 
remunerao razovel.
     Seu telefonema chega numa pssima hora. Estou bastante ocupado... e suponho que viu as notcias sobre mim nesses ltimos dias.
     O caso Wennerstrm?  e Dirch Frode deixou escapar um risinho abafado na outra ponta da linha.  Sim, ele teve o mrito de interessar bastante o pblico. Mas, 
para dizer a verdade, foi justamente a publicidade em torno desse processo que atraiu a ateno de Henrik Vanger para o senhor.
     E mesmo? E quando  que Henrik Vanger gostaria que eu fosse visit-lo?  quis saber Mikael.
     O mais cedo possvel. Amanh  noite  vspera de Natal e suponho que o senhor no esteja livre. Mas que tal 26 de dezembro? Ou um dos dias seguintes?
     Ento  urgente mesmo. Sinto muito, mas se no me der uma pista aceitvel da finalidade da visita...
     Eu lhe garanto que o convite  totalmente srio. Henrik Vanger gostaria de consult-lo, ao senhor e no a uma outra pessoa. Gostaria de lhe propor um trabalho 
como freelancer, se isso lhe interessa. Quanto a mim, sou apenas um intermedirio. Cabe a ele explicar do que se trata.
      um dos chamados mais estranhos que j recebi. Vou pensar no assunto. Como posso contat-lo?
    
    
    Aps desligar o telefone, Mikael ficou contemplando a desordem em sua mesa. No conseguia entender por que Henrik Vanger desejava encontr-lo. Uma viagem a Hedestad 
no lhe despertava nenhum entusiasmo, mas o advogado Frode conseguira despertar sua curiosidade.
    Ligou o computador, conectou-se no www.google.com e digitou "empresas Vanger". Centenas de pginas estavam disponveis. Embora o grupo Vanger agora andasse a 
reboque, ele figurava praticamente todos os dias na mdia. Salvou uma dzia de artigos de anlise do grupo e passou em seguida s pesquisas sobre Dirch Frode, Henrik 
Vanger e Martin Vanger.
    Martin Vanger aparecia com frequncia, na qualidade de atual diretor do grupo. O advogado Dirch Frode estava aposentado, era membro da Associao de golfe de 
Hedestad e seu nome estava associado ao Rotary. Henrik Vanger s era encontrado em textos ligados ao grupo Vanger, com uma nica exceo. Dois anos antes, o Hedestads-Kuriren, 
jornal local, celebrara o octogsimo aniversrio do ex-magnata da indstria e o jornalista traara um breve perfil dele. Mikael imprimiu alguns textos que pareciam 
conter informaes slidas e constituiu assim um dossi de umas cinquenta pginas. Depois terminou de arrumar sua mesa, encheu as pastas e foi para casa. No fazia 
a menor idia de quando iria voltar.
    
    
    Lisbeth Salander passava a vspera de Natal na casa de sade de Appelviken, em Upplands-Vsby. Trouxera de presente um frasco de gua-de-toalete Dior e um bolo 
ingls comprado na Ahlens. Ela contemplava a mulher de quarenta e cinco anos que, com dedos inbeis, tentava desfazer o lao do embrulho. Havia ternura nos olhos 
de Salander, embora sempre lhe causasse espanto que aquela mulher estranha diante dela pudesse ser sua me. Por mais que tentasse, no conseguia encontrar a menor 
semelhana fsica ou de personalidade.
    A me por fim abandonou seus esforos e olhou o embrulho com ar desamparado. Ela no estava num de seus bons dias. Lisbeth Salander empurrou a tesoura que estava 
bem  vista em cima da mesa e a me se iluminou como se despertasse de repente.
     Voc deve me achar uma estpida.
     No, mame. Voc no  estpida. A vida  que  injusta.
     Tem visto sua irm?
     Falei com ela h pouco tempo.
     Ela nunca vem me ver.
     Eu sei, mame. Ela tambm no vem me ver.
     Voc trabalha?
     Sim, mame. Estou me virando bem.
     Est morando onde? Eu nem sei onde voc mora.
     Moro no nosso antigo apartamento da Lundagatan. Estou ali h muitos anos. Paguei as contas atrasadas.
     Quem sabe no vero vou visitar voc.
     Claro. No vero.
    A me acabou abrindo a embalagem e aspirou o perfume, deliciada.
     Obrigada, Camilla  disse.
     Lisbeth. Sou a Lisbeth. Camilla  a minha irm.
    A me pareceu incomodada. Lisbeth Salander props que elas fossem at a sala de tev.

* * *
    Os programas Disney de Natal eram retransmitidos a toda hora na televiso quando Mikael Blomkvist passou para ver sua filha Pernilla na casa da ex-mulher Monica 
e do novo marido dela, em Sollentuna. Trazia presentes para Pernilla; aps discutir o assunto com Monica, eles concordaram em dar  filha um iPod, um MP3-player 
bastante caro e no maior que uma caixa de fsforos, capaz de abrigar toda a sua volumosa coleo de discos.
    Pai e filha passaram uma hora juntos no quarto dela, no andar de cima. Mikael e a me de Pernilla se divorciaram quando ela tinha somente cinco anos, e dois 
anos depois ela ganhara um novo pai. Mikael no havia de modo algum evitado o contato; Pernilla ia visit-lo algumas vezes por ms e todo ano, durante as frias, 
passava temporadas de uma semana na cabana de Sandhamn. Monica nunca tentou impedir que os dois se encontrassem, e Pernilla nada tinha contra rever o pai  ao contrrio, 
os dias que eles passavam juntos costumavam ser bons momentos. Ainda assim, Mikael deixou a filha decidir em que medida desejava v-lo, sobretudo depois que Monica 
voltou a se casar. Houve alguns anos, no incio da adolescncia, em que o contato praticamente cessou e Pernilla s havia pedido para voltar a v-lo com mais frequncia 
nos ltimos dois anos.
    A filha acompanhara o processo convicta de que Mikael afirmava a verdade: ele era inocente mas no podia provar.
    Ela falou de um eventual namorado no colgio e o surpreendeu ao revelar que se tornara membro de uma Igreja local e que se considerava uma devota. Mikael se 
absteve de qualquer comentrio.
    Foi convidado para jantar, mas recusou a oferta; j combinara com a irm passar a vspera de Natal com ela e a famlia no subrbio yuppie de Stket.
    De manh, tambm fora convidado a passar o Natal com Erika e o marido em Saltsjbaden. Recusou o convite com polidez, certo de que havia sem dvida um limite 
na boa vontade de Lars para com os dramas triangulares, e ele no tinha vontade nenhuma de descobrir at onde ia esse limite. De acordo com Erika, a proposta partira 
do prprio marido, e ela criticou sua timidez em participar dos jogos de um trio. Mikael rira  Erika sabia que ele era um heterossexual inflexvel e que o convite 
no era a srio , mas a deciso de no festejar o Natal na companhia do marido da amante era irrevogvel.
    Em vez disso, ele foi bater  porta da irm Annika Blomkvist, agora Annika Giannini. O marido de origem italiana, os dois filhos e vrios outros membros da famlia 
do marido cortavam naquele momento o peru de Natal. Annika cursara direito sem a menor vontade, depois trabalhara alguns anos como estagiria no tribunal e como 
substituta de promotor, antes de abrir seu prprio escritrio de advocacia, associada a alguns amigos e numa sala com vista para o bairro de Kungsholmen. Especializou-se 
em direito de famlia e, sem que Mikael percebesse, sua irm mais nova comeou a aparecer nas pginas das revistas e em debates da televiso como feminista clebre 
e advogada dos direitos da mulher. Defendia com frequncia mulheres ameaadas ou importunadas por ex-maridos ou ex-namorados.
    Quando Mikael a ajudava a preparar o caf, ela ps a mo em seu brao e lhe perguntou como ele estava.
     Nunca me senti to por baixo, se quer saber.
     Da prxima vez arranje um advogado de verdade  disse ela.
     Acho que nesse caso nem o melhor advogado do mundo mudaria a situao.
     O que realmente aconteceu?
     Depois eu conto, maninha.
    Ela o abraou com ternura e deu-lhe um beijo na bochecha antes de voltarem para junto dos outros com o bolo e o caf.
    Por volta das sete da noite, Mikael se desculpou e pediu licena para utilizar o telefone na cozinha. Chamou Dirch Frode e ouviu sua voz na outra ponta da linha, 
com uma algazarra de vozes ao fundo.
     Feliz Natal!  saudou Frode.  Ento, decidiu?
     No tenho nada de especial para fazer e o senhor conseguiu despertar minha curiosidade. Irei no dia 26, se lhe convm.
     Perfeito. No sabe o quanto sua deciso me alegra. Desculpe-me, mas estou cercado de filhos e netos e mal consigo ouvir o que diz. Posso ligar amanh para 
marcar uma hora?
    
    
    Mikael Blomkvist se arrependeu da deciso antes mesmo que a noite terminasse, mas como agora lhe parecia muito complicado voltar atrs, na manh do dia 26 instalou-se 
num trem rumo ao Norte. Mikael tinha carteira de habilitao, porm nunca se dera o trabalho de comprar um carro.
    Frode tinha razo, a viagem era curta. Ele passou por Uppsala, depois percorreu as pequenas cidades industriais espalhadas ao longo da costa. Hedestad era uma 
das menores, a pouco mais de uma hora ao norte de Gvle.
    Durante a noite houvera fortes precipitaes de neve, mas o cu limpara e o ar estava gelado quando ele desceu na estao. Mikael logo percebeu que suas roupas 
no estavam adequadas ao inverno rigoroso do Norrland. Dirch Frode o identificou imediatamente, o acolheu com simpatia na plataforma e o fez entrar depressa no interior 
aquecido de um Mercedes. Na cidade, o trabalho de desobstruo da neve era intenso, e Frode manobrou com prudncia entre as grandes escavadeiras. A neve criava um 
contraste extico com Estocolmo, teriam dito em outro pas, embora no houvesse mais de trs horas de distncia at a capital e seus enfeites de Natal na cidade 
velha. Mikael olhava furtivamente o advogado: um rosto anguloso, cabelos brancos bem curtos, culos de lentes grossas sobre um nariz volumoso.
      a primeira vez que vem a Hedestad?  perguntou Frode. Mikael assentiu com a cabea.
      um velho burgo industrial. No muito grande, tem apenas oitenta mil habitantes. Mas as pessoas gostam daqui. Henrik mora em Hedeby, na parte antiga, a aldeia, 
como  chamada. Fica logo na entrada sul da cidade.
     O senhor tambm mora aqui?  perguntou Mikael.
     Atualmente, sim. Nasci em Skane, mas comecei a trabalhar para Vanger logo depois que me formei, em 1962. Especializei-me em direito comercial e, com o passar 
dos anos, Henrik e eu nos tornamos amigos. Hoje estou aposentado, mas Henrik continua sendo meu cliente, o nico. Ele tambm est aposentado e no precisa dos meus 
servios com muita frequncia.
     A no ser para aliciar jornalistas de m reputao.
     No se subestime. Voc no  o nico que perdeu uma parada contra Hans-Erik Wennerstrm.
    Mikael olhou Frode de soslaio, no sabendo muito bem como interpretar essa observao.
     Esse convite tem algo a ver com Wennerstrm?  perguntou.
     No  respondeu Frode.  Henrik Vanger no faz parte exatamente do crculo de amigos de Wennerstrm, e ele acompanhou o processo com grande interesse.  para 
um caso bem diferente que ele deseja v-lo.
     Sobre o qual o senhor no quer me falar.
     Sobre o qual no me cabe falar. Ajeitamos as coisas de modo que possa passar a noite na casa de Henrik Vanger. Se no lhe convm, podemos fazer uma reserva 
no Grande Hotel da cidade.
     Bem,  possvel que eu volte a Estocolmo de trem esta noite.
    Na entrada de Hedeby, a aldeia, a escavadeira de neve ainda no havia passado, e Frode fez o carro avanar por trilhas congeladas deixadas pelas rodas. Havia 
ali um pequeno ncleo de velhas casas de madeira, no estilo das antigas aglomeraes mineiras ao longo do golfo de Botnia. Ao redor viam-se manses modernas maiores. 
A aldeia comeava em terra firme e, cruzando uma ponte, prosseguia numa ilha de relevo acidentado  Hedebyn. No lado do continente, uma igrejinha de pedra pintada 
de branco erguia-se junto  ponte e defronte cintilava um velho cartaz luminoso anunciando Pes e doces. Caf Susanne. Depois de atravessar a ponte, Frode continuou 
por mais uma centena de metros at entrar numa esplanada diante de uma casa de pedra. A casa era pequena demais para ser qualificada de solar, embora fosse maior 
que as outras construes, e tratava-se, evidentemente, dos domnios senhoriais.
     Eis a casa Vanger  disse Dirch Frode.  Antigamente havia muita animao, mas hoje apenas Henrik e uma governanta moram aqui. E no  por falta de quartos 
de hspedes.
    Desceram do carro. Frode apontou com o dedo para o norte.
     A tradio exige que quem dirige o grupo Vanger more aqui, mas Martin Vanger, o sobrinho-neto de Henrik, queria algo mais moderno e mandou construir uma manso 
na ponta do promontrio.
    Mikael olhou ao redor e se perguntou que loucura o fizera aceitar o convite do advogado Frode. Prometeu-se tentar a qualquer preo voltar a Estocolmo naquela 
mesma noite. Uma escada de pedra conduzia at a entrada e, antes que tivessem tempo de chegar, a porta se abriu. Mikael reconheceu prontamente Henrik Vanger, cujas 
fotos vira na internet.
    As fotos o mostravam mais jovem, mas ele parecia surpreendentemente vigoroso para os seus oitenta e dois anos; um corpo musculoso, rosto severo e de traos marcantes, 
grossos cabelos grisalhos penteados para trs, provando que seus genes no o destinavam  calvcie. Vestia uma cala escura cuidadosamente passada, camisa branca 
e uma malha marrom um tanto gasta. Tinha um bigode estreito e usava culos com armao de metal.
     Sou Henrik Vanger  ele se apresentou.  Obrigado por ter concordado em vir me ver.
     Bom dia. Admito que achei o convite surpreendente.
     Vamos entrar. Mandei preparar um quarto de hspedes. Quer descansar um pouco? Passaremos  mesa mais tarde. Esta  Anna Nygren, que lhe prestar os servios 
necessrios.
    Mikael cumprimentou com um breve aperto de mo uma mulher de uns sessenta anos. Ela pegou seu sobretudo para pendur-lo num cabide e props que ele usasse pantufas 
para proteger os ps das correntes de ar do cho.
    Mikael agradeceu e voltou-se para Henrik Vanger:
     No estou certo se ficarei at o almoo. Depende um pouco do objetivo deste encontro.
    Henrik Vanger trocou um olhar com Dirch Frode. Havia uma conivncia entre os dois que Mikael no conseguiu entender bem.
     Bem, vou deix-los agora  disse Frode.  Preciso voltar para casa e impor um pouco de disciplina antes que meus netos destruam tudo.
    E, dirigindo-se a Mikael:
     Moro  direita, do outro lado da ponte. Daqui at l so cinco minutos a p; passando a padaria,  a terceira casa do lado da praia. Se precisar de mim, telefone.
    Mikael ps a mo no bolso e acionou um gravador. Virei paranico?, pensou. No tinha a menor idia do que Henrik Vanger queria, mas, depois do que acontecera 
com Hans-Erik Wennerstrm, fazia questo de ter evidncias precisas de todas as coisas estranhas que se passassem a sua volta, e esse inesperado convite a Hedestad 
pertencia, definitivamente, a tal categoria.
    O ex-industrial bateu no ombro de Dirch Frode para se despedir e fechou a porta de entrada, antes de se voltar para Mikael.
     Ento irei diretamente ao que interessa. No se trata de um jogo. Gostaria de falar com voc, mas o assunto exige uma longa conversa. Peo-lhe que escute o 
que tenho a dizer e depois decida. O senhor  jornalista e eu gostaria de contrat-lo para um trabalho. Anna serviu o caf no meu escritrio, no andar de cima.
    
    
    Henrik Vanger indicou o caminho e Mikael o acompanhou. Entraram num gabinete comprido, de cerca de quarenta metros quadrados, situado na extremidade da casa. 
Uma das paredes estava coberta por prateleiras de livros, dez metros de comprimento do cho ao teto, numa mistura curiosa de romances, biografias, livros de histria, 
manuais de comrcio e de pesca, folhas de ofcio encadernadas. Os livros estavam dispostos sem uma classificao aparente, mas pareciam ser consultados com regularidade, 
e Mikael concluiu que Henrik Vanger era um homem que lia. No lado oposto, havia uma mesa de carvalho escuro, posicionada de modo a deixar um espao livre entre a 
cadeira e a parede, e nela estava pendurada uma coleo bastante considervel de flores emolduradas e meticulosamente alinhadas.
    Pela janela ao fundo, Henrik Vanger podia contemplar a ponte e a igreja. Havia um sof, poltronas e uma mesa baixa sobre a qual Anna dispusera xcaras, uma garrafa 
trmica e biscoitos caseiros.
    Com um gesto, Henrik Vanger convidou Mikael a se sentar, gesto que Mikael fingiu no perceber, o que lhe permitiu observar um pouco mais o ambiente. Primeiro 
notou a biblioteca, depois a parede com os quadros. A mesa estava arrumada, com exceo de alguns papis empilhados. Numa das pontas havia uma foto emoldurada de 
uma menina bonita e morena, de olhos inteligentes. Uma mocinha que vai causar estragos, pensou Mikael. Parecia uma foto de primeira comunho, descolorida, que dava 
a impresso de estar ali havia muitos anos. Mikael percebeu, de repente, que Henrik Vanger o observava.
     Lembra-se dela, Mikael?  perguntou.
     Como assim?  Mikael levantou as sobrancelhas.
     Sim, voc a conheceu. Alis, voc j esteve neste escritrio. Mikael olhou ao redor e negou com a cabea.
     No? Como poderia se lembrar? Conheci seu pai. Contratei Kurt Blomkvist em vrias ocasies nos anos 1950 e 1960, para instalar mquinas e cuidar da manuteno. 
Era um homem talentoso. Tentei convenc-lo a prosseguir os estudos e a ser engenheiro. E voc... voc esteve aqui no vero de 1963, quando renovamos o maquinrio 
da fbrica de papel aqui em Hedestad. Como foi difcil achar um alojamento para sua famlia, solucionamos o problema instalando vocs numa pequena casa de madeira 
do outro lado da estrada, que pode ser vista dessa janela.
    Henrik Vanger se aproximou da mesa e pegou o retrato.
     Esta  Harriet Vanger, a neta do meu irmo Richard. Ela brincou com voc mais de uma vez naquele vero. Voc ia completar, ou talvez j tivesse, trs anos, 
no lembro bem. Na poca ela tinha doze.
     Desculpe, mas no me lembro de nada do que o senhor diz, do que voc diz, se me permite trat-lo assim.
     Naturalmente. Posso entender que no se lembre, mas eu me lembro muito bem de voc correndo por todos os lados, com Harriet nos seus calcanhares. Eu ouvia 
voc chorar quando tropeava em alguma coisa. Lembro que dei um brinquedo de presente para voc, um trator de metal amarelo, que eu mesmo tive quando era garoto, 
e que voc recebeu com um entusiasmo incrvel. Acho que foi por causa da cor.
    Mikael sentiu um arrepio gelado. De fato, ele se lembrava do trator amarelo. Quando cresceu, o trator continuou enfeitando uma prateleira do seu quarto.
     Lembra? Lembra desse brinquedo?
     Lembro. E talvez voc fique feliz de saber que esse trator ainda existe, no Museu do Brinquedo em Estocolmo. H uns dez anos, fiz a doao quando eles procuravam 
brinquedos antigos.
      mesmo?  Henrik Vanger riu, encantado.  Deixe-me mostrar... O velho foi buscar um lbum de fotografias numa das prateleiras baixas da estante. Mikael notou 
que ele tinha dificuldade de se inclinar e que foi obrigado a se apoiar na prateleira para se reerguer. Henrik Vanger fez sinal para que Mikael se sentasse no sof 
enquanto ele mesmo folheava o lbum. Ele parecia saber o que procurava e, quando encontrou, depositou o lbum sobre a mesa baixa. Mostrou uma foto de amador, em 
preto-e-branco, na base da qual se percebia a sombra do fotgrafo. No primeiro plano, um garotinho louro olhava para a objetiva com ar perturbado e um pouco inquieto.
      voc naquele vero. Seus pais aparecem ao fundo, nas cadeiras de jardim. Harriet est um pouco encoberta pela sua me, e o rapaz  esquerda de seu pai  
o irmo de Harriet, Martin Vanger, que atualmente dirige o grupo.
    Mikael no teve nenhuma dificuldade em reconhecer seus pais. A me, visivelmente grvida  a irm de Mikael estava a caminho. Contemplou a foto, no sabendo 
bem o que pensar, enquanto Henrik Vanger servia o caf e lhe oferecia o prato com biscoitos.
     Sei que seu pai morreu. E sua me, ainda est viva?
     No  disse Mikael.  Morreu h trs anos.
     Era uma mulher agradvel. Lembro muito bem dela.
     Mas estou certo de que no me chamou aqui para falar dos meus pais e dos bons velhos tempos.
     Tem razo. H vrios dias venho preparando o que vou lhe dizer, mas agora que voc finalmente est diante de mim no sei por onde comear. Bem, voc sabe que 
houve um tempo em que tive uma grande influncia sobre a indstria sueca e o mercado de trabalho. Hoje sou um velho que no deveria tardar a morrer, e a morte  
talvez um ponto de partida bastante conveniente para esta conversa.
    Mikael tomou um gole de caf. Um autntico caf fervido e amargo do Norrland, pensou, perguntando-se aonde aquilo tudo ia levar.
     Sofro de lombalgia, no consigo mais fazer grandes caminhadas. Um dia voc tambm ver que a fora acaba nos faltando, mas no sou hipocondraco nem senil. 
Tampouco obcecado pela morte, porm estou na idade em que devo aceitar que meu tempo est chegando ao fim. H um momento em que se tem vontade de fazer um balano 
e resolver o que ficou inacabado. Entende o que quero dizer?
    Mikael assentiu com a cabea. Henrik Vanger falava com voz clara e firme, e Mikael j conclura que o velho no era nem senil nem irracional.
     O que me intriga  a razo pela qual estou aqui  ele repetiu.
     Pedi que viesse porque gostaria que me ajudasse nesse balano de que falei. Tenho algumas questes que precisam ser resolvidas.
     E por que eu? Quero dizer... por que imagina que posso ajud-lo?
      que no momento em que eu estava pensando em chamar algum, seu nome comeou a aparecer no caso Wennerstrm. Eu sabia quem voc era. E tambm porque subiu 
nos meus joelhos quando era um garotinho.
    Ele agitou a mo como para apagar suas palavras.
     No me entenda mal. No espero que me ajude por razes sentimentais. Quis apenas explicar por que tive o impulso de procur-lo.
    Mikael sorriu afavelmente.
     Bem, no tenho a menor lembrana desses joelhos. Mas como soube quem eu era? Afinal, isso aconteceu no comeo dos anos 1960.
     Desculpe, no me expliquei bem. Voc foi para Estocolmo quando seu pai assumiu o cargo de chefe de seo na Zarinder. Era uma das muitas empresas do grupo 
Vanger e fui eu que lhe arranjei esse emprego. Ele no tinha diploma, mas eu sabia o quanto valia. Encontrei seu pai vrias vezes quando tinha assuntos a tratar 
na Zarinder. Talvez no fssemos amigos ntimos, mas sempre ficvamos um bom tempo conversando. A ltima vez que o vi foi um ano antes de sua morte, e ele me disse 
que voc havia entrado na faculdade de jornalismo. Estava muito orgulhoso. Depois voc ficou famoso no pas com aquela histria da gangue  Super-Blomkvist e tudo 
aquilo. Acompanhei sua carreira e li muitos artigos que escreveu ao longo dos anos. Leio a Millennium com bastante frequncia.
     Certo, entendo. Mas o que quer exatamente que eu faa?
    
    
    Henrik Vanger examinou suas mos por um breve instante e tomou um gole de caf, como se precisasse de uma pequena pausa antes de entrar no assunto.
     Mikael, antes de chegar aos detalhes, eu gostaria que fizssemos um acordo. Que voc fizesse duas coisas por mim. Uma  um pretexto e a outra  o meu verdadeiro 
pedido.
     Que espcie de acordo?
     Vou contar uma histria em duas partes. Uma parte fala da famlia Vanger:  o pretexto. E uma histria longa e sombria, mas tentarei me ater  estrita verdade. 
A outra parte da histria envolve o meu verdadeiro pedido. Acho que em alguns momentos interpretar meu relato como... loucura. O que desejo  que escute minha histria 
at o fim  meu pedido e minha oferta  antes de tomar a deciso de aceitar ou no o trabalho.
    Mikael suspirou. Evidentemente, Henrik Vanger no pretendia expor seu pedido de maneira breve e concisa, para que ele pudesse embarcar no trem da tarde. Mikael 
tinha certeza de que, se chamasse Dirch Frode e lhe pedisse para lev-lo  estao, o motor do carro se recusaria a pegar por causa do frio.
    O velho devia ter dedicado muito tempo pensando num meio de amarr-lo. Mikael sentia como encenao tudo o que se passara desde que entrou naquela casa; a comear 
pela surpresa de ficar sabendo que j estivera com Henrik Vanger quando criana, depois a foto de seus pais no lbum e a nfase no fato de seu pai e Henrik Vanger 
terem sido amigos; depois, ainda, quando o velho o lisonjeou ao contar ter acompanhado sua carreira  distncia ao longo dos anos... No todo certamente havia um 
fundo de verdade, mas se tratava tambm de psicologia das mais elementares. Em outras palavras: Henrik Vanger era um bom manipulador, habituado havia anos a lidar 
com pessoas inflexveis atrs das portas fechadas das salas de negociao. No por acaso ele se tornara um dos mais eminentes magnatas da indstria sueca.
    Mikael concluiu que Henrik Vanger queria que ele fizesse algo que, com certeza, no tinha a menor vontade de fazer. Restava descobrir do que se tratava e em 
seguida dizer no. Quem sabe, a tempo ainda de pegar o trem da tarde.
     Sinto muito, senhor Vanger, sem acordo  respondeu Mikael, olhando seu relgio.  Estou aqui h vinte minutos e lhe dou mais trinta para me contar o que deseja. 
Depois pego um txi e volto para casa.
    Por um instante, Henrik Vanger abandonou seu papel de patriarca benevolente e Mikael entreviu o dono de empresas ameaador, do tempo de seus amplos poderes, 
que acabava de sofrer um revs ou que era obrigado a se haver com um funcionrio recalcitrante. Sua boca contraiu-se rapidamente num sorriso severo.
     Entendo.
      simples. No h necessidade de tantos rodeios. Diga o que quer que eu faa e sem dvida vou poder julgar se quero ou no fazer.
     Voc quer dizer que, se eu no conseguir convenc-lo em trinta minutos, tampouco conseguirei em trinta dias?
      mais ou menos isso.
     Mas a verdade  que meu relato  longo e complicado.
     Abrevie e simplifique.  o que fazemos no jornalismo. Vinte e nove minutos.
    Henrik Vanger ergueu uma das mos.
     Est bem, entendi. Mas tambm no exagere, por favor. O fato  que preciso de algum dotado de esprito crtico que saiba fazer pesquisas, e que seja igualmente 
ntegro. Acho que voc  tudo isso, e no o estou adulando. Um bom jornalista deve possuir minimamente essas qualidades, e li seu livro Os templrios com grande 
interesse. Sou bastante honesto quando digo que escolhi voc porque conheci seu pai e porque sei quem voc . Se entendi bem, voc foi licenciado da Millennium depois 
do caso Wennerstrm  ou decidiu afastar-se por conta prpria. Isso significa que por ora no tem emprego, e no  preciso ser muito inteligente para entender que 
provavelmente seu dinheiro est curto.
     O que lhe permite tirar proveito da minha situao, no  o que est querendo dizer?
     Talvez. Mas no pretendo mentir nem inventar falsos pretextos, Mikael. Estou muito velho para esse tipo de coisa. Se no gosta do que eu disse, basta cair 
fora. E ento terei que procurar outra pessoa que aceite trabalhar para mim.
     Est bem, em que consiste esse trabalho que quer me oferecer?
     O que voc sabe sobre a famlia Vanger? Mikael afastou as mos.
     Mais ou menos o que tive tempo de ler na internet depois do telefonema de Frode na segunda-feira. O grupo Vanger chegou a ser, na sua poca, um dos grupos 
industriais mais importantes da Sucia, hoje a empresa est consideravelmente enfraquecida, Martin Vanger  o diretor-executivo. Bem, sei mais duas ou trs coisas 
alm disso, mas aonde est querendo chegar?
     Martin...  um bom sujeito, mas no fundo s gosta de navegar com vento fraco. Deixa muito a desejar como diretor-executivo de um grupo em crise. Ele quer modernizar 
e especializar, o que  razovel, porm tem dificuldade de transmitir suas idias e mais ainda de financi-las. H vinte e cinco anos, o grupo Vanger era um concorrente 
srio do imprio Wallenberg. Tnhamos cerca de quarenta mil funcionrios na Sucia. Produzamos emprego e rendimentos ao pas inteiro. Hoje a maior parte desses 
empregos deslocou-se para a Coria ou para o Brasil. Atualmente, temos pouco mais de dez mil funcionrios e dentro de um ano ou dois  se Martin no conseguir decolar 
 cairemos para cinco mil funcionrios, essencialmente em pequenas manufaturas. Ou seja, o grupo Vanger est a ponto de ser relegado a lixo da histria.
    Mikael concordou, balanando a cabea. O que Henrik Vanger contava era aproximadamente o que ele conclura aps a pesquisa em seu computador.
     O grupo Vanger continua sendo uma das raras empresas familiares do pas, com uns trinta membros da famlia como acionistas mais ou menos minoritrios. Isso 
foi sempre a fora do grupo, mas tambm nossa maior fraqueza.
    Henrik Vanger fez uma pausa retrica e ento passou a falar com mais intensidade na voz.
     Mikael, faa perguntas depois, mas quero que acredite na minha palavra quando digo que detesto a maioria dos membros da minha famlia. Ela  principalmente 
formada por trapaceiros, aproveitadores, fanfarres e incapazes. Dirigi o grupo durante trinta e cinco anos, praticamente sempre envolvido em lutas implacveis com 
os demais membros da famlia. Eles  que eram os meus piores inimigos, no os concorrentes. Fez uma pausa.
     Eu disse que desejo contrat-lo para que faa duas coisas. Gostaria que escrevesse uma crnica ou uma biografia da famlia Vanger. Para simplificar, digamos 
a minha biografia. O resultado no ser um texto a ser lido numa igreja, mas uma histria de dio, disputas familiares e cobia imensurveis. Porei  sua disposio 
todos os meus dirios ntimos e meus arquivos. Ter livre acesso aos meus pensamentos mais secretos e poder publicar exatamente toda a merda que encontrar, sem 
restrio. Acho que essa histria far de Shakespeare um mero divertidor do grande pblico.
     E qual a finalidade disso?
     Por que quero publicar uma histria de escndalos sobre a famlia Vanger? Ou qual  minha motivao para pedir que escreva essa histria?
     As duas coisas.
     Sinceramente, pouco me importa saber se o livro ser publicado ou no. Mas acho que essa histria merece ser escrita, nem que seja num nico exemplar, que 
voc depositar na Biblioteca Real. Quero minha histria acessvel  posteridade quando eu estiver morto. Minha motivao  a mais simples que se pode imaginar  
vingana.
     E de quem voc quer se vingar?
     Voc no  obrigado a acreditar em mim, mas tentei ser um homem honesto, mesmo sendo um capitalista e um dirigente industrial. Tenho orgulho de que meu nome 
esteja associado a um homem que cumpriu sua palavra e suas promessas. Nunca me envolvi em jogos polticos. Nunca tive problemas para negociar com os sindicatos. 
E mesmo um socialdemocrata inveterado como Tage Erlander me respeitava. A meu ver, tratava-se de uma questo de tica; eu era responsvel pelo ganha-po de milhares 
de pessoas e cuidava dos meus empregados.  curioso, Martin tem a mesma atitude, embora seja um tipo de homem bem diferente. Ele tambm tentou agir de maneira correta. 
Talvez nem sempre tenhamos sido bem-sucedidos, mas de modo geral me envergonho de poucas coisas. Infelizmente, Martin e eu somos excees em nossa famlia  prosseguiu 
Henrik Vanger.  H muitas razes que explicam por que o grupo Vanger est hoje  beira da bancarrota, mas uma das mais importantes  a avidez de curto prazo de 
muitos membros da famlia. Se aceitar esse trabalho, explicarei direitinho como eles levaram o grupo a afundar. 
    Mikael refletiu por um instante.
     O.k. Mas tambm no vou mentir. Escrever um livro como esse exigir meses de trabalho. No tenho vontade nem fora para isso.
     Acho que posso convenc-lo.
     Duvido. Mas voc disse que h duas coisas que deseja que eu faa. Acabou de me dar o pretexto. Qual  o objetivo real?
    
    
    Henrik Vanger levantou-se, mais uma vez com dificuldade, e foi buscar na mesa a fotografia de Harriet Vanger. Colocou-a na frente de Mikael.
     Se desejo que escreva uma biografia da famlia Vanger,  porque quero que trace um panorama das pessoas com olhos de jornalista.  tambm um pretexto para 
esquadrinhar a histria da famlia. O que desejo realmente  que me resolva um mistrio. Esse  o seu trabalho.
     Um mistrio?
     Harriet, como eu disse, era a neta do meu irmo Richard, filha do filho dele. ramos cinco irmos. Richard o mais velho, nascido em 1907, e eu o mais novo, 
nascido em 1920. No entendo como Deus pde produzir um grupo de irmos que...
    Durante alguns segundos, Henrik Vanger perdeu o fio da meada e pareceu mergulhar nos prprios pensamentos. Depois virou-se para Mikael com uma nova resoluo 
na voz.
     Deixe-me falar um pouco do meu irmo Richard Vanger.  tambm uma amostra da crnica que quero que escreva.
    Serviu-se de caf e ofereceu a Mikael uma segunda xcara.
     Em 1924, com dezessete anos, Richard era um nacionalista fantico. Antisemita notrio, aderiu  Liga nacional-socialista sueca pela liberdade, um dos primeiros 
grupos nazistas suecos.  fascinante como os nazistas sempre conseguem colocar a palavra "liberdade" em sua propaganda, no  mesmo?
    Henrik Vanger pegou outro lbum de fotografias e o folheou at encontrar a pgina buscada.
     Aqui est Richard na companhia de Birger Furugard, um veterinrio que rapidamente passou a liderar o chamado Movimento de Furugard, principal grupo nazista 
dos anos 1930. Mas Richard no permaneceu nele. Um ano mais tarde, aderiu  SFKO, organizao de luta fascista sueca. Ali conheceu Per Engdahl e outros indivduos 
que ao longo dos anos haveriam de ser a vergonha da nao.
    Virou uma pgina do lbum. Richard Vanger de uniforme.
     Em 1927, ele se juntou ao Exrcito, contra a vontade do nosso pai, e durante os anos 1930 aderiu  maior parte dos grupos nazistas do pas. Voc poder encontrar 
seu nome na lista de membros at mesmo do menor grupo de conspirao. Em 1933 foi fundado o Movimento de Lindholm, isto , o Partido Operrio Nacional-socialista. 
Voc est um pouco familiarizado com a histria do nazismo sueco?
     No sou historiador, mas li alguns livros.
     Bem, a Segunda Guerra comeou em 1939 e a Guerra de Inverno da Finlndia em 1940. Muitos ativistas do Movimento de Lindholm se engajaram como voluntrios a 
favor da Finlndia. Richard estava entre eles; era capito do Exrcito sueco. Foi morto em 1940, pouco antes do acordo de paz com a Unio sovitica. O movimento 
nazista o transformou num mrtir e seu nome foi dado a um grupo de luta. Ainda hoje, alguns fanticos se renem num cemitrio de Estocolmo no dia do aniversrio 
da morte de Richard Vanger para homenage-lo.
     Entendo.
     Em 1926, quando tinha dezenove anos, ele frequentava uma certa Margareta, filha de um professor de Falun. Viam-se em contextos polticos e tiveram uma ligao 
da qual nasceu um filho, Gottfried, em 1927. Richard se casou com Margareta quando seu filho nasceu. Durante a primeira metade dos anos 1930, meu irmo instalou 
a mulher e o filho aqui em Hedestad, enquanto eu servia no regimento de Gvle. Ele ocupava quase todo o seu tempo com viagens de propaganda pr-nazismo. Em 1936, 
teve um srio atrito com meu pai. O resultado  que meu pai retirou toda a ajuda financeira a Richard, que a seguir foi obrigado a se manter sozinho. Ele se mudou 
para Estocolmo com a famlia, onde viveram em relativa pobreza.
     Ele no tinha seu prprio dinheiro?
     A parte que lhe cabia no grupo estava bloqueada. No podia ser vendida fora da famlia.  preciso tambm dizer que Richard, em casa, era um tirano brutal. 
Batia na mulher e maltratava o filho. Gottfried era uma criana submissa e humilhada. Tinha treze anos quando Richard morreu na guerra; acho que foi o dia mais feliz 
da vida de Gottfried. Meu pai se compadeceu da viva e do neto e os chamou de volta a Hedestad, alojando-os num apartamento e cuidando para que Margareta tivesse 
uma existncia decente. Se Richard representava o lado sombrio e fantico da famlia, Gottfried representava seu lado preguioso. Quando completou dezoito anos, 
eu me encarreguei dele, afinal, era filho do meu falecido irmo, ainda que a diferena de idade entre ns no fosse grande. Eu era apenas sete anos mais velho que 
meu sobrinho, mas j estava na direo do grupo e era evidente que assumiria o comando depois do meu pai, enquanto Gottfried era praticamente considerado um intruso 
na famlia.
    Henrik Vanger refletiu por um momento.
     Meu pai no sabia muito bem como se comportar com o neto e fui eu que insisti para que cuidssemos dele. Arranjei-lhe trabalho no grupo, isso depois da guerra. 
Sem dvida ele tentou desempenhar honestamente suas tarefas, mas tinha dificuldade em se concentrar. Era um cabea-tonta, charmoso e festeiro, sempre s voltas com 
mulheres, e havia pocas em que bebia muito. Eu no sabia definir meus sentimentos por ele... no era um incapaz, mas estava longe de ser confivel, e muitas vezes 
me decepcionou profundamente. Com os anos tornou-se alcolatra e, em 1965, morreu afogado num acidente. Aconteceu aqui, na outra extremidade da ilha, onde construra 
uma cabana para a qual se retirava seguidamente a fim de beber.
     Ento ele  o pai de Harriet e de Martin?  perguntou Mikael, apontando para o retrato sobre a mesa baixa. A contragosto, foi obrigado a reconhecer que o relato 
do velho o interessava.
     Exatamente. No fim dos anos 1940, Gottfried conheceu uma mulher chamada Isabella Koenig, uma jovem alem que havia chegado  Sucia depois da guerra. Isabella 
era uma mulher linda, to linda como Greta Garbo ou Ingrid Bergman. Sem dvida Harriet herdou genes mais de Isabella que de Gottfried. Como voc pode ver na foto, 
ela j era muito bonita com apenas catorze anos.
    Imitando Henrik Vanger, Mikael contemplou a foto.
     Mas deixe-me prosseguir. Isabella nasceu em 1928 e ainda est viva. Tinha onze anos quando estourou a guerra, e voc bem pode imaginar o que era ser adolescente 
em Berlim com a aviao aliada despejando bombas sobre a cidade. Imagino que, quando desembarcou na Sucia, ela teve a impresso de estar chegando ao paraso. Infelizmente, 
tinha muitos vcios em comum com Gottfried: era esbanjadora e vivia o tempo todo em festas; ela e Gottfried mais pareciam companheiros de bebida que marido e mulher. 
Viajava sem parar, na Sucia e no exterior, e de maneira geral no tinha o menor senso de responsabilidade. O que evidentemente afetou os filhos. Martin nasceu em 
1948 e Harriet em 1950. A infncia deles foi catica, com uma me que a toda hora os abandonava e um pai que afundava no alcoolismo. Em 1958 resolvi intervir. Gottfried 
e Isabella moravam em Hedestad e forcei-os a se mudar para c. Eu estava comeando a ficar cansado daquilo e decidi romper aquele crculo infernal. Martin e Harriet 
viviam ao deus-dar. Henrik Vanger olhou seu relgio.
     Meus trinta minutos se esgotaram, mas estou chegando ao final da histria. Concede-me alguns minutos mais?
    Mikael balanou a cabea e falou:
     Continue.
     Vou ser breve ento. Eu no tinha filhos, um contraste considervel com os outros irmos e membros da famlia, que pareciam obcecados pela necessidade estpida 
de perpetuar a linhagem. Gottfried e Isabella vieram morar aqui, mas o casamento comeou a se desfazer. Depois de um ano, Gottfried se instalou em sua cabana, onde 
passava longos perodos sozinho, s retornando  casa de Isabella quando estava muito frio. Acabei me encarregando de Martin e de Harriet. Em mais de um aspecto 
eles passaram a ser os filhos que nunca tive. Martin era... Para dizer a verdade, houve um momento em sua juventude em que temi que seguisse as pegadas do pai. Era 
indolente, introvertido e hipocondraco, mas tambm podia ser charmoso e entusiasta. Passou por alguns anos difceis na adolescncia, mas se endireitou ao comear 
a universidade. Ele... bem, apesar de tudo ele  o diretor-executivo do que resta do grupo Vanger, o que deve ser encarado como um saldo razovel.
     E Harriet?  perguntou Mikael.
     Harriet tornou-se a menina dos meus olhos. Tentei dar a ela segurana e, a partir da, confiana em si mesma. Ns dois nos entendamos muito bem. Considerava-a 
como filha e ela passou a ser mais prxima de mim que dos prprios pais. Entenda, Harriet era uma menina muito especial. Introvertida como o irmo, na adolescncia 
teve uma atrao romntica pela religio, o que a distinguia de todos os outros membros da famlia. Mas tambm tinha talentos evidentes e uma inteligncia rara. 
Um grande senso moral e uma grande honestidade. Quando estava com catorze, quinze anos, eu tinha a certeza de que ela, mais do que o irmo e todos os primos e sobrinhos 
ao meu redor, seria um dia chamada para dirigir o grupo Vanger ou, pelo menos, para desempenhar algum papel central nele.
     E o que aconteceu?
     Chegamos agora  verdadeira razo pela qual eu gostaria de contrat-lo. Quero que descubra quem, na famlia, assassinou Harriet Vanger e h quase quarenta 
anos vem tentando me fazer mergulhar na loucura.

   5.         QUINTA-FEIRA 26 DE DEZEMBRO
    
    
    Pela primeira vez desde que Henrik Vanger iniciara seu monlogo, o velho conseguiu surpreender Mikael, que pediu mesmo que ele repetisse, para estar certo de 
ter ouvido bem. Nenhuma das informaes que colhera na internet sugeria que um assassinato tivesse ocorrido na famlia Vanger.
     Foi em 22 de setembro de 1966. Harriet tinha dezesseis anos e acabava de se classificar em primeiro lugar no colgio. Era um sbado e foi o pior dia da minha 
vida. Reconstitu o desenrolar dos acontecimentos tantas vezes que penso ser capaz de descrever minuto a minuto o que se passou naquele dia, exceto o mais importante.
    Fez um gesto com a mo, como se varresse o ar.
     Grande parte da famlia estava reunida aqui nesta casa. Era um daqueles terrveis jantares anuais de famlia, quando scios do grupo Vanger se reuniam para 
discutir negcios. Meu av criara essa tradio na sua poca, e o resultado, na maioria das vezes, eram reunies mais ou menos detestveis. A tradio chegou ao 
fim nos anos 1980, quando Martin decidiu, pura e simplesmente, que todas as discusses relativas  empresa ocorreriam nas reunies e nas assemblias regulares. Foi 
a melhor deciso que tomou na vida. Faz vinte anos que a famlia no se rene para esse tipo de encontro.
     Voc disse que Harriet foi assassinada...
     Espere. Deixe-me contar o que aconteceu. Era um sbado, portanto. Era tambm a Festa das Crianas, com um desfile organizado pelo clube de atletismo de Hedestad. 
Harriet foi  cidade, durante o dia, para assistir ao desfile com alguns colegas do colgio. Voltou um pouco depois das duas da tarde; o jantar estava previsto para 
as cinco e ela era esperada, como todos os outros jovens da famlia.
    Henrik Vanger levantou-se e foi at a janela. Fez um sinal para que Mikael o acompanhasse e apontou com um dedo:
     As duas e quinze, alguns minutos depois de Harriet ter chegado em casa, um acidente terrvel aconteceu ali na ponte. Um certo Gustav Aronsson, irmo de um 
proprietrio rural de stergarden, uma fazenda aqui da ilha, entrou de carro na ponte e colidiu de frente com um caminho-tanque que se dirigia  ilha para fornecer 
leo domstico. Nunca se chegou a estabelecer realmente como o acidente ocorreu, pois h boa visibilidade nos dois sentidos, mas ambos vinham muito depressa, e o 
que podia ter sido um acidente menor se transformou em uma catstrofe. O motorista do caminho tentou evitar a coliso girando instintivamente o volante. O caminho-tanque 
bateu na grade lateral e virou, ficando atravessado na ponte com a traseira em grande parte para fora da beirada... Uma barra de metal furou o tanque, e leo inflamvel 
comeou a vazar. Enquanto isso, Gustav Aronsson, prensado no carro e sofrendo terrivelmente, berrava sem parar. O motorista do caminho-tanque tambm se feriu, mas 
conseguiu sair da cabine.
    O velho fez uma pausa e voltou a se sentar.
     Na verdade, o acidente no teve relao alguma com Harriet. Mas, de certo modo, desempenhou seu papel. Pois foi um caos completo quando as pessoas correram 
para ajudar. Havia ameaa de incndio, e o alerta foi dado. A polcia, uma ambulncia, as primeiras pessoas aproximando-se depressa para socorrer, os bombeiros, 
jornalistas e curiosos acorreram na maior desordem ao local. Evidentemente, todos se amontoavam do lado do continente, enquanto na ilha fazamos o possvel para 
tirar Aronsson dos destroos, o que acabou sendo uma tarefa terrivelmente difcil. Ele estava prensado e seriamente ferido. Tentamos retir-lo das ferragens com 
a fora das mos, mas no adiantou. Era preciso usar uma serra. O problema  que no podamos fazer nada que produzisse fagulhas, estvamos no meio de um mar de 
leo ao lado de um caminho-tanque virado. Se ele explodisse, seria o nosso fim. Demorou algum tempo at chegarem reforos do continente; o caminho atravessado 
obstrua a ponte, e passar por cima do tanque era o mesmo que escalar uma bomba.
    Mikael teve a impresso de que o velho fazia um relato minuciosamente ensaiado e calculado com a inteno de captar seu interesse. E foi obrigado a admitir que 
Henrik Vanger era um excelente contador de histrias. Sabia cativar o ouvinte. No entanto, ele continuava sem ter a menor idia de que rumo a histria tomaria.
     O importante nesse acidente  que a ponte permaneceu fechada durante as vinte e quatro horas seguintes. S no fim da tarde de domingo  que conseguiram bombear 
o leo que restava no tanque, remover o caminho e reabrir a ponte para circulao. Durante essas vinte e quatro horas, a ilha esteve separada do mundo. O nico 
meio de se chegar ao continente era atravs de uma canoa dos bombeiros, mobilizada para transportar as pessoas do porto de recreio na ilha at o velho porto atrs 
da igreja. Durante vrias horas, o barco s foi utilizado pelos socorristas. S bem tarde no sbado,  noite,  que comearam a transportar os moradores. Entende 
o que isso significa?
    Mikael assentiu com a cabea.
     Suponho que alguma coisa aconteceu a Harriet na ilha e que o nmero de suspeitos se limita s pessoas que estavam aqui. Uma espcie de verso insular do mistrio 
do quarto fechado?
    Henrik Vanger deu um sorriso irnico.
     Mikael, voc no sabe o quanto tem razo. Eu tambm li Dorothy Sayers. Eis os fatos comprovados: Harriet chegou aqui por volta das duas e dez. Se contarmos 
tambm as crianas e os casais no casados, ao todo haviam chegado cerca de quarenta pessoas durante o dia. Contando empregados e moradores fixos, havia sessenta 
e quatro pessoas aqui ou nos arredores da casa. Alguns, os que pretendiam passar a noite, ocupavam-se em se instalar nas casas vizinhas ou nos quartos de hspedes. 
Harriet havia morado antes numa casa do outro lado da estrada, mas, como j contei, nem seu pai Gottfried nem sua me Isabella eram muito estveis, e percebi o quanto 
Harriet andava atormentada. No conseguia se concentrar nos estudos e, em 1964, quando completou catorze anos, fiz que viesse se instalar aqui em casa. Isabella 
certamente achou cmodo poder desembaraar-se dos cuidados que a filha representava. Harriet tinha um quarto no andar de cima, e passamos dois anos juntos. Assim, 
foi para c que ela veio naquele dia. Sabemos que trocou algumas palavras com Harald Vanger no ptio, ele  um dos meus irmos. Depois, subiu a escada e veio at 
aqui, a este cmodo, me dar um al. Disse que queria me contar alguma coisa. Outros membros da famlia estavam comigo nesse momento e no tive tempo para escut-la. 
Mas ela parecia to preocupada que prometi ir ao seu quarto sem demora. Ela concordou com a cabea e saiu por aquela porta. Foi a ltima vez que a vi. Um minuto 
mais tarde, houve o choque na ponte e o caos que se seguiu alterou todos os outros planos do dia.
     Como ela morreu?
     Espere. A coisa  mais complicada e devo contar a histria em ordem cronolgica. Quando ocorreu a coliso, as pessoas deixaram tudo o que estavam fazendo e 
se precipitaram ao local do acidente. Eu era... digamos que assumi a direo das operaes, no pensei em outra coisa nas horas seguintes. Sabemos que Harriet tambm 
foi at a ponte depois da coliso, vrias pessoas a viram, mas o risco de exploso me fez ordenar que todos que no estavam ajudando a retirar Aronsson dos destroos 
se afastassem. ramos somente cinco pessoas no local do acidente: eu e meu irmo Harald; Magnus Nilsson, espcie de empregado faz-tudo em minha casa; um operrio 
da serraria chamado Sixten Nordlander, que morava numa cabana junto ao porto de recreio; e um jovem chamado Jerker Aronsson. Este tinha dezesseis anos e eu devia 
t-lo mandado embora, mas era o sobrinho do Aronsson prensado dentro do carro e chegara de bicicleta um minuto ou dois aps o acidente; ele estava indo para a cidade. 
Por volta das vinte para as trs, Harriet estava na cozinha, aqui em casa. Bebeu um copo de leite e trocou algumas palavras com Astrid, a cozinheira. Juntas, elas 
ficaram olhando pela janela o que se passava na ponte. As cinco para as trs, Harriet atravessou o ptio. Foi vista, entre outros, pela me, Isabella, mas elas no 
se falaram. Um minuto depois, ela cruzou com Otto Falk, o pastor de Hedeby. Nessa poca, o presbitrio ficava onde hoje Martin Vanger tem a sua casa, do lado de 
c da ponte. O pastor, resfriado, fazia uma sesta quando a coliso ocorreu; no vira o acidente, acabavam de inform-lo e ele se dirigia apressado  ponte. Harriet 
o deteve no caminho, queria falar com ele, mas o pastor a interrompeu com um gesto de mo e prosseguiu em seu caminho. Otto Falk  a ltima pessoa que a viu viva.
     Como ela morreu?  repetiu Mikael.
     No sei  respondeu Henrik Vanger com um olhar atormentado.  S conseguimos retirar Aronsson do carro por volta das cinco da tarde (alis, mesmo gravemente 
ferido, ele sobreviveu) e as seis a ameaa de incndio j no existia. A ilha continuava isolada, mas as coisas comeavam a se acalmar. S nos demos conta da ausncia 
de Harriet no momento em que nos sentamos  mesa para um jantar tardio, s oito da noite. Enviei uma de suas primas para cham-la no quarto, mas ela voltou dizendo 
que no a encontrara. Isso no me deixou muito inquieto; achei que ela resolvera dar uma volta ou que no fora informada de que o jantar estava servido. E durante 
a noite estive ocupado com diversas disputas familiares. S na manh seguinte, porque Isabella a procurava,  que percebemos que ningum sabia onde ela estava e 
que ningum a vira desde a vspera.
    Ele abriu amplamente os braos.
     Desde esse dia, Harriet Vanger continua desaparecida, sem que haja o menor sinal dela.
     Desaparecida?  ecoou Mikael.
     Em todos esses anos no conseguimos descobrir nada, nem um fragmento microscpico dela.
     Mas, se ela desapareceu, ento no se pode afirmar que tenha sido assassinada.
     Entendo sua alegao. Meus pensamentos seguiram o mesmo caminho. Quando algum desaparece sem deixar sinal, quatro coisas podem ter acontecido. A pessoa resolveu 
desaparecer por livre e espontnea vontade e est escondida. Pode ter sofrido um acidente fatal. Pode ter se suicidado. E, por fim, pode ter sido vtima de um crime. 
Pesei todas as possibilidades.
     E por que acha que algum a matou?
     Porque  a nica concluso plausvel. Henrik Vanger levantou um dedo e continuou:
     No incio achei que ela tivesse fugido. Mas os dias se passaram e todos ns percebemos que no era esse o caso. Quero dizer: uma jovem de dezesseis anos que 
vivia num ambiente relativamente protegido, mesmo sendo esperta, como poderia se virar, se esconder e permanecer escondida sem ser descoberta? Onde conseguiria dinheiro? 
E, mesmo se arranjasse trabalho em algum lugar, precisaria de um documento de identidade e de um endereo.
    Levantou dois dedos.
     Meu segundo raciocnio, evidentemente,  que ela tenha sofrido um acidente. Faa-me um favor, abra a gaveta de cima da escrivaninha. Vai encontrar um mapa 
ali.
    Mikael fez o que ele pedia, depois abriu o mapa sobre a mesa baixa. Hedebyn, a ilha, era uma massa de terra irregular de cerca de trs quilmetros de comprimento 
e um e meio em sua parte mais larga. Um bom trecho da ilha era constitudo de floresta. As moradias se concentravam ao redor da ponte e do porto de recreio; na outra 
extremidade da ilha havia uma fazenda, stergarden, de onde o infeliz Aronsson iniciara seu trajeto de carro.
     Lembre que ela no deixou a ilha  sublinhou Henrik Vanger.  Aqui em Hedebyn pode-se morrer num acidente como em qualquer lugar do mundo. A pessoa pode ser 
atingida por um raio, embora naquele dia no tivesse desabado nenhuma tempestade. Pode ser pisoteada por um cavalo, cair num poo ou numa furna. Certamente h inmeras 
maneiras de se sofrer um acidente aqui. Refleti sobre tudo isso.
    Ele ergueu um terceiro dedo.
     Resta um problema, e equivale tambm  terceira possibilidade: que, contra todas as expectativas, ela tenha se suicidado. Mas ento o corpo teria sido encontrado 
em alguma parte desta rea to limitada.
    Henrik Vanger espalmou a mo no meio do mapa.

     Nos dias seguintes ao desaparecimento, organizamos uma batida, primeiro num sentido, depois no outro. Os homens vasculharam o menor fosso, a menor poro de 
mato, tudo que se assemelhasse a uma furna ou a um monte de terra. Examinamos cada construo, cada chamin, cada poo, cada granja, cada celeiro.
    O velho moveu a cabea e olhou para fora. Comeava a escurecer. Sua voz ficou mais baixa e mais intimista.
     No outono continuei procurando-a, depois que as buscas tinham se encerrado e todos j haviam desistido. Quando eu no estava ocupado com meu trabalho, percorria 
a ilha em todas as direes. O inverno chegou sem que tivssemos encontrado o menor sinal dela. Na primavera eu prossegui, mesmo sabendo que meus esforos eram irracionais. 
O vero chegou, contratei trs peritos em floresta, que reiniciaram as buscas com ces. Eles rastrearam sistematicamente cada metro quadrado da ilha. Eu comeava 
a considerar que algum podia ter feito mal a ela. Assim, eles buscavam uma espcie de cova onde a tivessem enterrado. Procuraram por trs meses. No encontramos 
o menor sinal de Harriet.  como se ela tivesse evaporado.
     H outras possibilidades  lembrou Mikael.
     Diga.
     Ela pode ter se afogado, acidental ou voluntariamente. Estamos numa ilha e a gua pode ocultar muitas coisas.
     E verdade. Mas no  muito provvel. Veja: se Harriet sofreu um acidente e se afogou, isso logicamente deve ter acontecido muito perto do povoado. Lembre que 
a confuso na ponte era o maior drama que Hedebyn vivia desde muitas dcadas, e seria estranho uma jovem de dezesseis anos escolher bem esse momento para ir passear 
do outro lado da ilha. Mais importante ainda  prosseguiu   que no h muitas correntes por aqui, e nessa poca do ano os ventos costumam soprar do norte e do 
nordeste. Qualquer coisa que casse na gua teria sido lanada  praia do lado da terra firme, onde h construes praticamente ao longo de toda a costa. Claro que 
pensamos nisso e investigamos todos os locais onde ela poderia ter cado na gua. Tambm contratei jovens de um clube de mergulho de Hedestad. Passaram o vero esquadrinhando 
o fundo do canal e das praias prximas... Nenhum sinal. Estou convencido de que ela no est no mar, seno a teramos encontrado.
     E se ela sofreu um acidente em outra parte? A ponte estava fechada,  verdade, mas a distncia entre a ilha e o continente no  grande. Ela pode ter atravessado 
a nado ou de barco.
     Era final de setembro, a gua estava muito fria. Se Harriet decidisse tomar banho no meio da confuso geral, teria sido vista e chamaria a ateno. Havia gente 
na ponte e, do lado da terra firme, duzentas ou trezentas pessoas observavam a cena.
     E um barco?
     Naquele dia havia exatamente treze barcos em Hedebyn. A maioria j havia deixado o mar. No porto de recreio, apenas dois estavam na gua. Havia sete barcos, 
cinco dos quais j trazidos para a praia. Abaixo do presbitrio, havia um bote recolhido em terra e um na gua. Todos esses barcos foram verificados e se achavam 
exatamente em seus respectivos lugares. Se ela tivesse feito a travessia a remo, teria sido obrigada a deixar a embarcao do outro lado.
    Henrik Vanger levantou um quarto dedo.
     S resta uma possibilidade verossmil, a de que Harriet desapareceu contra a sua vontade. Algum lhe fez mal e deu sumio no corpo.
    
    
    Lisbeth Salander passou a manh de Natal lendo o controvertido livro de Mikael Blomkvist sobre jornalismo econmico. O livro tinha duzentas e dez pginas e chamava-se 
Os templrios, com o subttulo O jornalismo econmico em questo. A capa, de design muito moderno, assinada por Christer Malm, representava a Bolsa de Estocolmo. 
Christer trabalhara no Photoshop e o observador levava algum tempo para perceber que o prdio flutuava livremente no ar. No havia fundo. Difcil imaginar uma capa 
mais explcita e eficaz para dar o tom do que viria a seguir.
    Salander constatou que Blomkvist tinha um estilo excelente. O livro era escrito de maneira direta e envolvente, e mesmo pessoas que no conheciam os meandros 
do jornalismo econmico podiam ler e tirar proveito. O tom era mordaz e sarcstico, mas sobretudo convincente.
    O primeiro captulo era uma espcie de declarao de guerra em que Blomkvist falava sem papas na lngua. Os analistas econmicos suecos haviam se tornado, nos 
ltimos anos, um grupo de lacaios incompetentes, que se julgavam importantes e no possuam o menor pensamento crtico. Mikael chegava a essa concluso depois de 
mostrar que os jornalistas econmicos se contentavam o tempo todo, e sem a menor objeo, em reproduzir as afirmaes transmitidas por dirigentes de empresas e especuladores 
da Bolsa  mesmo quando essas afirmaes eram claramente falaciosas e errneas. Esses jornalistas, portanto, ou eram ingnuos e crdulos que deviam ser demitidos 
de seus cargos, ou, pior, gente que traa deliberadamente sua misso jornalstica por no proceder a exames crticos e por no fornecer ao pblico uma informao 
correta. Blomkvist escrevia que muitas vezes se envergonhava de ser qualificado como jornalista econmico, pois se arriscava a ser confundido com pessoas que ele 
no considerava nem mesmo jornalistas.
    Blomkvist comparava as contribuies dos analistas econmicos com o trabalho dos jornalistas especializados em assuntos criminais ou dos correspondentes no exterior. 
Traava um panorama dos protestos que se levantariam se um jornalista jurdico de um grande jornal passasse a publicar, sem o menor senso crtico, afirmaes do 
promotor, dando-as automaticamente como verdicas, por exemplo, no processo de um assassinato, sem buscar as informaes da defesa e sem entrevistar a famlia da 
vtima, para formar uma idia do que seria plausvel ou no. Dizia que as mesmas regras deviam se aplicar aos jornalistas econmicos.
    O restante do livro trazia uma srie de provas que reforavam o discurso da introduo. Um longo captulo examinava declaraes sobre uma empresa "pontocom" 
em seis importantes jornais, bem como nas revistas Finanstidningen, Dagens Industri e no programa de tev A-ekonomi. Primeiro ele reproduzia essas citaes e depois 
acrescentava o que os reprteres tinham dito e escrito, antes de comparar com a situao real. Descrevendo o desenvolvimento da empresa, vrias vezes ele mencionava 
perguntas simples que um jornalista srio teria feito, mas que o grupo de especialistas da economia no fizera, numa clara omisso.
    Outro captulo abordava a privatizao da Telia  era a parte mais cmica e irnica do livro, na qual articulistas econmicos declaradamente citados eram reduzidos 
a p, entre os quais um certo William Borg, contra quem Mikael parecia sentir uma particular hostilidade. Outro captulo, mais no final do livro, comparava o nvel 
de competncia entre jornalistas econmicos suecos e estrangeiros. Blomkvist descrevia a maneira como jornalistas srios do Financial Times, The Economist e de alguns 
peridicos econmicos alemes haviam noticiado os mesmos assuntos em seus pases. A comparao no era muito favorvel aos jornalistas suecos. O ltimo captulo 
esboava uma proposta para corrigir essa lamentvel situao. A concluso do livro remetia de volta  introduo:

Se um reprter, no Parlamento, realizasse sua tarefa do mesmo modo, sustentando sem a menor crtica cada moo proposta, ainda que totalmente insensata, ou se um 
jornalista poltico carecesse de uma forma semelhante de julgamento, esse jornalista seria despedido ou pelo menos transferido a um servio no qual ele ou ela no 
pudesse causar prejuzos. No jornalismo econmico, porm, no  a misso jornalstica natural que prevalece, ou seja, oferecer aos leitores anlises crticas e um 
relato objetivo dos resultados. No, aqui se celebra o vigarista mais bem-sucedido. E  assim que o futuro da Sucia est sendo moldado, minando-se a ltima confiana 
ainda depositada nos jornalistas como categoria profissional.
    
    No havia rodeios. O tom era spero e Salander no teve dificuldade em entender o debate enfurecido que se seguiu tanto no Journalisten, o rgo da categoria, 
em alguns jornais de economia como tambm nos artigos de fundo das revistas especializadas. Mesmo que apenas um nmero pequeno de jornalistas econmicos tivesse 
sido mencionado no livro, Lisbeth Salander supunha que a corporao era bastante pequena para que todos soubessem exatamente quem era visado quando se citavam as 
diferentes publicaes. Blomkvist arranjara srios inimigos, o que se refletia tambm nas dezenas de comentrios que se alegravam de maneira maldosa com a sentena 
do caso Wennerstrm.
    Ela fechou o livro e observou a fotografia do autor na quarta capa. Mikael Blomkvist aparecia numa foto pequena. Uma mecha castanho-clara pendia displicentemente 
sobre a testa, como se uma rajada de vento tivesse passado bem na hora em que o fotgrafo acionou o boto da mquina, ou como se (o que era mais provvel) o ilustrador 
Christer Malm tivesse feito algum retoque. Ele olhava para a objetiva com um sorriso irnico e um olhar que certamente pretendia ser charmoso e travesso. Um cara 
bastante atraente. Tirado de circulao por trs meses de priso.
     Muito bem, Super-Blomkvist  disse ela em voz alta.  Voc s quis se divertir um pouco, no foi?

* * *
    Por volta do meio-dia, Lisbeth Salander ligou seu notebook e abriu o programa Eudora para passar um e-mail. Digitou uma nica e eloquente linha: 
    
[Vc tem tempo?]
    
    Assinou Wasp e enviou a mensagem para Praga_xyz_666@hotmail.com. Por precauo, passou pelo programa de encriptao PGP.
    Depois vestiu um jeans preto, botas de inverno, malha de gola alta, jaqueta escura, luvas, um gorro e um cachecol da mesma cor amarelo-plido. Tirou os anis 
das sobrancelhas e do nariz, passou nos lbios um batom cor-de-rosa e examinou-se no espelho do banheiro. Estava parecida com qualquer pessoa que fosse passear num 
domingo e achou que sua indumentria era uma camuflagem de combate adequada para uma incurso s linhas inimigas. Tomou o metr de Zinkensdamm na stermalmstorg 
e depois foi a p para a Strandvgen. Caminhou pelo canteiro central enquanto ia lendo o nmero dos prdios. Um pouco antes de chegar  ponte de Djurgarden, deteve-se 
e contemplou a porta que procurava. Atravessou a rua e esperou a alguns metros da entrada.
    Observou que a maioria das pessoas que havia sado para passear nesse dia frio de Natal andava no meio da rua; somente uns poucos utilizavam a calada diante 
dos prdios.
    Foi preciso esperar cerca de meia hora at que uma mulher j de uma certa idade se aproximasse, com uma bengala, vindo da Djurgarden. A mulher parou e lanou 
um olhar desconfiado a Salander, que sorriu amavelmente e cumprimentou-a com um breve movimento de cabea. A senhora com a bengala devolveu o cumprimento e pareceu 
tentar se lembrar de onde conhecia a jovem. Salander deu-lhe as costas e se afastou da porta com alguns passos, como se estivesse andando para l e para c  espera 
de algum. Quando se virou de novo, a senhora j estava diante da porta, digitando o cdigo de acesso com muita aplicao. Salander no teve dificuldade em v-la 
digitar 1260.
    Esperou mais cinco minutos antes de se aproximar da porta. Quando acionou o cdigo, a fechadura emitiu um estalo. Ela abriu a porta e olhou para dentro. No hall 
havia uma cmera de segurana, ela deu uma espiada e depois a ignorou; o modelo, vendido pela Milton Security, s era ativado em caso de arrombamento. No fundo, 
 esquerda, passando um elevador antigo, havia outra porta com um cdigo de segurana; ela testou 1260 e constatou que a combinao da porta de entrada era a mesma 
da porta de acesso ao subsolo e ao depsito de lixo. Que negligncia! Levou exatamente trs minutos para examinar o subsolo, onde localizou uma lavanderia destrancada 
e um local de triagem do lixo. Depois utilizou um conjunto de chaves falsas que havia pegado "emprestadas" do serralheiro da Milton para abrir uma porta trancada 
que dava para o que parecia ser a sala de reunies do condomnio. Bem ao fundo havia um local para jogos e passatempos. Por fim encontrou o que procurava  o quadro 
de luz do prdio. Examinou os relgios, os fusveis e as junes, tirou do bolso uma mquina fotogrfica digital, uma Canon do tamanho de um mao de cigarros. Tirou 
trs fotos do que a interessava.
    Ao sair, passou os olhos pela lista de nomes junto ao elevador e leu o do ltimo andar: Wennerstrm.
    Depois deixou o prdio e andou com passos rpidos at o Museu Nacional. Entrou na cafeteria para se aquecer e tomar um caf. Meia hora depois, retornou ao Sder 
e subiu ao seu apartamento.
    Ela recebera uma resposta de Praga_xyz_666@hotmail.com. Descriptografou-a em PGP, e a resposta lacnica formava simplesmente o nmero 20.
    
   6.         QUINTA-FEIRA 26 DE DEZEMBRO
    
    
    O prazo de trinta minutos fixado por Mikael Blomkvist fora amplamente ultrapassado. Eram quatro e meia e no havia mais como cogitar o trem da tarde. Mas Mikael 
ainda podia pegar o trem das nove e meia da noite. De p diante da janela, ele massageou a nuca enquanto contemplava a fachada iluminada da igreja do outro lado 
da ponte. Henrik Vanger mostrara-lhe um lbum de recortes com artigos sobre o acontecimento publicados tanto nos jornais da regio quanto na imprensa nacional. O 
interesse da mdia fora relativamente grande durante algum tempo  a filha de uma clebre famlia industrial desaparecida sem deixar vestgios era uma notcia e 
tanto. Mas, como o corpo no foi encontrado e as investigaes no avanaram, o interesse foi diminuindo. Embora o caso Harriet Vanger envolvesse uma ilustre famlia 
industrial, passados mais de trinta e seis anos era uma histria esquecida. A teoria preponderante nos artigos do final dos anos 1960 era de que ela se afogara e 
fora arrastada ao largo  uma tragdia que podia atingir qualquer famlia.
    Curiosamente, Mikael ficara fascinado com o relato do velho, mas, quando Henrik Vanger pediu uma pausa para ir ao banheiro, Mikael voltou a ficar ctico. No 
entanto o velho ainda no conclura a histria e Mikael prometera escut-lo at o fim.
     E o que aconteceu a ela, na sua opinio?  perguntou Mikael quando Henrik voltou.
     Normalmente, cerca de vinte e cinco pessoas tinham domiclio permanente aqui, mas por causa da reunio familiar havia umas sessenta pessoas na ilha naquele 
dia. Dessas, entre vinte e vinte e cinco podem ser excludas. Creio que um desses que restam, muito provavelmente algum da famlia, matou Harriet e escondeu o corpo.
      preciso levar em conta algumas coisas.
     Diga.
     Bem, uma, evidentemente,  que mesmo que algum tivesse escondido o corpo, ele teria sido descoberto se as buscas foram mesmo to minuciosas como voc disse.
     Para falar a verdade, as buscas foram ainda mais amplas do que descrevi. S quando comecei a pensar que Harriet podia ter sido vtima de um assassinato foi 
que me dei conta de que o corpo podia ter desaparecido de outras formas. No posso provar que o que digo  verdade, mas estamos dentro dos limites do possvel.
     Certo, continue.
     Harriet desapareceu por volta das trs da tarde. As cinco para as trs, o pastor Otto Falk a viu, quando se dirigia apressado ao local do acidente. Mais ou 
menos no mesmo instante, um fotgrafo do jornal local passou a tirar um grande nmero de fotos de todo o drama. Ns, isto , a polcia, examinamos essas fotos e 
constatamos que Harriet no aparecia em nenhuma delas; em compensao, todas as outras pessoas que moravam na ilha podiam ser vistas em pelo menos uma fotografia, 
com exceo das crianas muito pequenas.
    Henrik Vanger foi buscar outro lbum, que colocou sobre a mesa diante de Mikael.
     So as fotos daquele dia. A primeira foi tirada em Hedestad, durante o desfile das crianas. Pelo mesmo fotgrafo. Foi tirada  uma e quinze e nela Harriet 
aparece.
    A foto fora tirada do primeiro andar de uma casa e via-se uma rua por onde passava o desfile  caminhes com palhaos e meninas com maio de banho. Espectadores 
amontoavam-se na calada. Henrik Vanger mostrou uma pessoa na multido.
     Aqui est Harriet. Mais ou menos duas horas antes do desaparecimento, ela est na cidade com algumas colegas da escola.  sua ltima foto. Mas h outra interessante.
    Henrik folheou algumas pginas. O restante do lbum continha pouco mais de cento e oitenta fotos  seis rolos  da catstrofe na ponte. Depois de ouvido o relato, 
era quase desconfortvel ver tudo ali de repente, sob a forma de fotografias em preto-e-branco. O fotgrafo que imortalizara o caos do acidente era um bom profissional. 
Um grande nmero de imagens focalizava as atividades em torno do caminho-tanque tombado. Mikael no teve dificuldade de identificar um Henrik Vanger de quarenta 
e seis anos gesticulando, manchado de leo.
     Este  o meu irmo Harald.  Henrik indicou um homem em mangas de camisa meio inclinado para a frente e que apontava com o dedo alguma coisa nos destroos 
onde Aronsson estava esmagado.  Meu irmo Harald  um homem desagradvel, mas creio que se pode risc-lo da lista de suspeitos. Com exceo de um breve momento, 
quando foi obrigado a correr at a casa para trocar de sapato, esteve o tempo todo na ponte.
    As fotos se sucederam. Primeiro plano do caminho-tanque. Plano geral dos espectadores  beira d'agua. Detalhe do carro destroado de Aronsson. Panormicas. 
Fotos indiscretas com teleobjetiva.
     Esta foto  muito interessante  disse Henrik Vanger.  Pelo que calculamos, foi tirada entre 15h40 e 15h45, portanto quarenta e cinco minutos depois que Harriet 
foi vista pelo pastor Falk. Se observar nossa casa, a janela do meio, no primeiro andar,  a do quarto de Harriet. Aqui ela aparece aberta.
     Ento algum estava no quarto de Harriet nesse momento.
     Perguntei isso a todos; ningum admitiu ter aberto a janela.
     O que significa que foi Harriet mesmo que a abriu, e portanto estava viva naquele momento, ou que algum mentiu. Mas por que um assassino entraria no quarto 
dela para abrir a janela? E por que algum mentiria?
    Henrik Vanger balanou a cabea. Ele no tinha a resposta.
     Harriet desapareceu por volta das trs, ou um pouco depois. Essas fotos do uma idia do lugar onde as pessoas estavam naquela hora. Por isso posso riscar 
algumas da lista de suspeitos. Pela mesma razo, posso dizer que outras que no aparecem nas fotos na hora em questo devem ser acrescentadas  lista de suspeitos.
     Voc no respondeu  minha pergunta: como acha que o corpo desapareceu? Sei que j tem uma resposta: algum passe de mgica.
     H vrias maneiras bastante realistas de se fazer isso. Por volta das trs, o assassino age. Ele ou ela provavelmente no utilizou uma arma, seno teramos 
encontrado sinais de sangue. Suponho que Harriet foi estrangulada e que a coisa aconteceu aqui: atrs do muro do ptio, um lugar que o fotgrafo no pde ver e que 
forma um ngulo oposto em relao  casa. H um atalho dissimulado para quem vem do presbitrio a p para a casa, ltimo lugar onde ela foi vista. Hoje existe uma 
pequena plantao e um gramado nesse lugar, mas nos anos 1960 era um terreno coberto de saibro e usado como estacionamento de carros. Tudo o que o assassino precisava 
fazer era abrir o porta-malas e pr Harriet ali. Quando comeamos as buscas no dia seguinte, ningum imaginava que um crime tivesse sido cometido; nos concentramos 
nas praias, nas construes e na parte arborizada mais prxima do povoado.
     Ento ningum examinou os porta-malas.
     E, na noite seguinte, o assassino estava livre para pegar seu carro, atravessar a ponte e esconder o corpo em outro lugar.
    Mikael assentiu com a cabea.
     Nas barbas de todos os que participavam das buscas. Se foi o que aconteceu, trata-se de um canalha com muito sangue-frio.
    Henrik Vanger deixou escapar um riso amargo.
     Voc acaba de dar uma descrio perfeita de um grande nmero de membros da famlia Vanger.
    
    
    Eles continuaram a discusso durante o jantar, s seis. Anna serviu lebre assada com batatas e gelia de groselha. Henrik Vanger abriu uma garrafa de vinho tinto 
seco. Mikael ainda tinha tempo de pegar o ltimo trem. Sua inteno era encerrar a conversa.
     Reconheo que me contou uma histria fascinante. Mas no consigo realmente entender por que me contou.
     Eu j disse. Quero descobrir quem foi o canalha que matou minha jovem sobrinha.  para isso que quero contrat-lo.
     Mas por que agora? Henrik Vanger deps os talheres.
     Mikael, vai fazer trinta e sete anos que eu me consumo refletindo sobre o que aconteceu com Harriet. Com os anos, passei a usar cada vez mais meu tempo livre 
para procur-la.
    Calou-se, retirou os culos e contemplou uma mancha invisvel no copo. Depois levantou os olhos e disse a Mikael:
     Para ser bem honesto, o desaparecimento de Harriet foi o que me levou a abandonar progressivamente a direo do grupo. Perdi toda a motivao. Sabia que havia 
um assassino na minha famlia, e as especulaes e a busca da verdade se tornaram um peso para o meu trabalho. O pior  que o fardo no aliviou com o tempo; ao contrrio. 
Por volta de 1970, houve um perodo em que quis, sobretudo, ser deixado em paz. Nessa poca Martin entrou para o conselho administrativo e foi se encarregando aos 
poucos do meu trabalho. Em 1976 aposentei-me e Martin se tornou o diretor-executivo. Continuei participando do conselho administrativo, mas no fiz grande coisa 
depois dos meus cinquenta anos. Nos ltimos trinta e sete anos, no houve um dia em que eu no tivesse levantado hipteses sobre o desaparecimento de Harriet. Voc 
deve achar que isso beira a obsesso. Em todo caso,  o que pensam a maioria dos membros da nossa famlia. E eles provavelmente tm razo.
     O que aconteceu foi terrvel.
     Mais do que isso. Destruiu minha vida. E fui tomando cada vez mais conscincia disso  medida que o tempo passava. Voc... voc acha que se conhece bem?
     Acho que sim.
     Eu tambm. No consigo esquecer o que aconteceu. Mas minhas motivaes mudaram com os anos. No comeo era mais um sofrimento profundo, uma aflio. Queria 
encontr-la para pelo menos poder enterr-la. Tratava-se de reabilitar Harriet.
     O que mudou ento?
     Hoje se trata mais de descobrir o canalha que a matou. Mas o estranho  que quanto mais envelheo, mais isso se transformou numa espcie de hobby para mim.
     Hobby?
     Sim, a palavra cai bem. Depois que a investigao da polcia no deu em nada, continuei por conta prpria. Tentei proceder de maneira sistemtica e cientfica. 
Coletei todas as informaes que consegui encontrar: as fotos que voc viu, o inqurito policial, anotei tudo o que as pessoas me disseram ter feito naquele dia. 
Ou seja, dediquei quase metade da minha vida a coletar informaes relativas a um nico dia.
     Voc tem conscincia de que o prprio assassino, trinta e seis anos depois, j pode estar morto e enterrado?
     No acredito nisso.
    Mikael ergueu as sobrancelhas diante dessa declarao categrica.
     Vamos terminar a refeio e depois voltaremos ao meu escritrio. Resta um detalhe para eu completar minha histria. E  o mais desconcertante.
    
    
    Lisbeth Salander estacionou o Corolla automtico junto  estao ferroviria de Sundbyberg. Ela havia pegado emprestado o Toyota da frota de veculos da Milton 
Security. No pedira exatamente permisso, mas Armanskij tampouco nunca a proibira, de forma explcita, de utilizar os veculos da Milton. Cedo ou tarde, ela pensou, 
vou precisar de um carro. Possua apenas uma moto, uma Kawasaki 125 de segunda mo, que usava no vero. Durante o inverno, a moto ficava na garagem.
    Caminhou at a Hgklintavgen e tocou o interfone pontualmente s seis da tarde. A porta abriu depois de alguns segundos, ela subiu a escada at o primeiro andar 
e bateu na porta onde se lia o nome banal Svensson. No fazia a menor idia de quem era Svensson, nem mesmo se essa pessoa havia morado no apartamento.
     Oi, Praga  ela saudou.
     Wasp. Voc s aparece quando precisa de alguma coisa.
    O homem, que tinha trs anos mais que Lisbeth Salander, media um metro e oitenta e nove e pesava cento e cinquenta e dois quilos. Ela, que media um metro e cinquenta 
e quatro e pesava quarenta e dois quilos, sempre se sentia uma an ao lado de Praga. Como de costume, o apartamento estava na penumbra, s se entrevia a frouxa claridade 
de uma nica lmpada acesa no quarto que ele usava como escritrio. Cheirava a mofo.
      porque voc nunca toma banho e fede como um macaco que te chamam de Praga? Se um dia voc resolver sair  rua, eu te digo onde comprar sabo.
    Ele esboou um sorriso, mas no disse nada e fez a ela um sinal para acompanh-lo at a cozinha. Instalou-se  mesa sem acender a luz. A nica claridade vinha 
de um poste de iluminao pblica diante da janela.
     Tambm no sou muito chegada a limpeza domstica, mas quando caixas de leite vazias comeam a atrair moscas, eu junto tudo e jogo fora.
     Recebo uma penso por invalidez  ele disse.  Sou socialmente incompetente.
     E por isso que o Estado te deu uma moradia e rapidamente te esqueceu. Voc no tem medo que os vizinhos se queixem e chamem a inspeo sanitria? Desse jeito 
vai acabar num asilo de loucos.
     Tem alguma coisa para mim?
    Lisbeth Salander abriu o zper da jaqueta e tirou cinco mil coroas.
      tudo o que posso dar. Estou sacando dos meus fundos pessoais e no posso inclu-lo como dependente.
     O que voc quer?
     O cabo de que me falou dois meses atrs. Conseguiu faz-lo? Ele sorriu e ps um objeto sobre a mesa diante dela.
     Me explica como funciona.
    Durante uma hora, ela escutou com ateno. Depois testou o cabo. Praga podia ser socialmente incapaz, mas sem dvida nenhuma era um gnio.
    
    
    De volta a seu escritrio, Henrik Vanger esperou ter novamente a ateno de Mikael. Este consultou seu relgio.
     Voc comentou sobre um detalhe desconcertante. Henrik concordou com a cabea.
     Nasci num 1 de novembro. Quando Harriet tinha oito anos, ela me deu um quadro de presente de aniversrio. Uma flor prensada sob um vidro dentro de uma moldura 
simples.
    Henrik deu a volta ao redor da mesa e mostrou a primeira flor. Campnula. Emoldurada sem muita habilidade.
     Foi o primeiro quadro, que recebi em 1958. Ele mostrou o quadro seguinte.
     1959, rannculo. 1960, margarida. Passou a ser uma tradio. Ela preparava o quadro durante o vero e o guardava para o meu aniversrio. Sempre os pendurei 
aqui, nessa parede. Em 1966 ela desapareceu e a tradio foi interrompida.
    Henrik Vanger calou-se e mostrou uma lacuna no alinhamento dos quadros. Mikael sentiu os cabelos se eriarem na nuca. A parede inteira estava coberta de flores 
prensadas.
     Em 1967, um ano aps o desaparecimento dela, recebi esta flor no meu aniversrio. Uma violeta.
     Recebeu como?  perguntou Mikael em voz baixa.
     Num pequeno embrulho de presente dentro de um envelope enviado pelo correio. Postado em Estocolmo. Sem remetente. Nenhuma mensagem.
     Quer dizer que...  Mikael fez um gesto largo com a mo.
     Exatamente. No meu aniversrio, todo maldito ano! Entende o que sinto?  dirigido contra mim, como se o assassino quisesse me torturar. Mortifiquei-me com 
especulaes, dizendo a mim mesmo que Harriet foi eliminada por algum que talvez quisesse me atingir, a mim. Todos sabiam que Harriet e eu tnhamos uma relao 
especial e que eu a considerava como filha.
     O que quer que eu faa?  perguntou Mikael, com a voz de repente mais dura.
     
    
    Depois de deixar o Corolla na garagem do subsolo da Milton Security, Lisbeth Salander aproveitou para subir ao escritrio com a inteno de ir ao banheiro. Usou 
o carto com senha no elevador e foi direto para o segundo andar, sem passar pela entrada principal no primeiro, onde trabalhavam os que estavam de guarda. Ao sair 
do banheiro, pegou um caf na mquina de espressos que Dragan Armanskij por fim resolvera adquirir, ao entender que Lisbeth jamais prepararia bem um caf. Em seguida 
foi at sua sala e estendeu a jaqueta de couro no encosto de uma cadeira.
    Seu lugar de trabalho era um cubculo de dois metros por trs, atrs de uma divisria de vidro. Havia uma mesa com um computador Dell bastante antigo, uma cadeira 
giratria, um cesto de lixo, um telefone e uma estante com uma poro de listas telefnicas e trs blocos de notas no usados. As duas gavetas da mesa continham 
algumas canetas esferogrficas usadas, clipes de papel e um bloco. No parapeito da janela, um vaso com uma planta murcha de folhas castanhas e secas. Lisbeth Salander 
examinou a planta com ar pensativo, como se a visse pela primeira vez. Um momento depois, jogou-a decididamente no cesto de lixo.
    Ela quase nunca tinha o que fazer em seu escritrio e passava por ali no mais que umas seis vezes por ano, principalmente quando sentia necessidade de ficar 
a ss e de trabalhar num relatrio antes de entreg-lo. Dragan Armanskij insistira que ela tivesse seu prprio espao, acreditando que assim ela se sentiria parte 
da empresa, mesmo trabalhando como freelancer. Mas Lisbeth suspeitava que Armanskij queria mesmo era ficar de olho nela e acompanhar seus passos. De incio fora 
instalada em outro ponto do corredor, numa sala maior que deveria dividir com um colega, mas, como nunca estava presente, Armanskij acabou por lhe destinar esse 
cubculo, que no servia a ningum.
    Lisbeth Salander pegou o cabo que trouxera do apartamento de Praga. Depositou o objeto  sua frente, na mesa, e o contemplou, refletindo e mordendo o lbio inferior.
    Passava das onze da noite, ela estava sozinha no andar. Sentiu-se de repente muito cansada.
    Alguns minutos depois, levantou-se e foi at o fim do corredor, onde testou a porta da sala de Dragan Armanskij. Trancada. Olhou ao redor. A probabilidade de 
algum surgir no corredor  meia-noite daquele 26 de dezembro era quase zero. Abriu a porta com uma cpia do carto com a senha principal da empresa, pirateado alguns 
anos antes.
    O escritrio de Armanskij era amplo, com escrivaninha, cadeiras para visitantes e uma pequena mesa de reunio de oito lugares num canto. Limpeza impecvel. Fazia 
tempo que no revistava as coisas dele, mas j que estava ali... Passou uma hora no escritrio e coletou os ltimos dados do dossi de um provvel espio industrial, 
folheou um outro de colegas estpidos destacados para uma empresa onde agiam ladres bem organizados, e tomou conhecimento das medidas secretas adotadas para proteger 
uma cliente que temia que o filho fosse sequestrado pelo prprio pai.
    Ao terminar, recolocou todos os papis exatamente no mesmo lugar, trancou a porta do escritrio de Armanskij e voltou a p para sua casa na Lundagatan. Estava 
satisfeita com sua jornada.
    
    
    Mikael Blomkvist balanou de novo a cabea. Sentado atrs de sua escrivaninha, Henrik Vanger contemplava Mikael com olhos calmos, como se j estivesse preparado 
para todas as suas objees.
     No sei se algum dia descobriremos a verdade, mas no quero descer ao tmulo sem fazer ao menos uma ltima tentativa  disse o velho.  Gostaria de contrat-lo 
para que percorresse uma ltima vez todo o material reunido nessa investigao.
     Isso  totalmente insano  constatou Mikael.
     Por que insano?
     Ouvi com ateno, Henrik, entendo seu pesar, mas vou ser franco. O que voc me pede  uma perda de tempo e de dinheiro. Pede que eu solucione, como por magia, 
um mistrio que a polcia e investigadores experientes, dispondo de recursos bem mais completos, no encontraram em todos esses anos. Pede que eu solucione um crime 
quase quarenta anos depois de ele ter sido cometido. Como eu conseguiria?
     Ainda no falamos de seus honorrios  replicou Henrik Vanger.
     No vale  pena.
     Se recusar, no poderei for-lo. Mas escute o que ofereo. Dirch Frode j redigiu um contrato. Podemos discutir detalhes, porm o contrato  simples e a nica 
coisa que falta  sua assinatura.
     Henrik, isso no vai servir para nada. No posso resolver o enigma do desaparecimento de Harriet.
     O contrato no estipula isso. Tudo o que peo  que faa o melhor possvel. Se fracassar, ser a vontade de Deus ou, se no cr em Deus, do destino.
    Mikael suspirou. Comeava a se sentir cada vez menos  vontade e queria pr um ponto final na sua visita a Hedeby, mas mesmo assim cedeu.
     V l, diga.
     Quero que durante um ano more e trabalhe aqui em Hedeby. Quero que percorra toda a investigao sobre o desaparecimento de Harriet, documento aps documento. 
Quero que examine tudo com olhos novos, totalmente novos. Quero que questione todas as antigas concluses, como deve fazer um jornalista investigative Quero que 
examine o que eu mesmo, a polcia e outros investigadores podem ter deixado escapar.
     Est pedindo que eu abandone a minha vida e a minha carreira para me dedicar durante um ano a uma coisa que ser uma completa perda de tempo?
    Henrik Vanger sorriu.
     No que se refere  carreira, admita que por ora ela est bastante atravancada.
    Mikael no soube o que responder.
     Quero comprar um ano da sua vida, oferecer-lhe um trabalho. O salrio  superior a qualquer outra oferta que voc jamais receber. Pagarei duzentas mil coroas 
por ms, ou seja, dois milhes e quatrocentas mil coroas, se aceitar e permanecer por um ano.
    Mikael emudeceu de espanto.
     No tenho iluso. Sei que a probabilidade de xito  mnima, mas se, contra todas as expectativas, voc resolver o enigma, ofereo um bnus  emolumentos dobrados, 
isto , quatro milhes e oitocentas mil coroas. Sejamos generosos: cinco milhes para arredondar.
    Henrik Vanger cedeu o corpo para trs e inclinou de lado a cabea.
     Posso depositar o dinheiro na conta bancria de sua escolha, em qualquer lugar do mundo. Voc tambm pode receber o dinheiro em papel-moeda, numa valise, cabendo-lhe 
decidir se quer ou no declarar a soma ao fisco.
     No ... correto  gaguejou Mikael.
     E por qu?  perguntou Henrik calmamente.  Tenho mais de oitenta anos e continuo dono da minha cabea. Tenho uma imensa fortuna pessoal e disponho dela como 
quiser. No tenho filhos e no sinto a menor vontade de dar dinheiro a parentes que odeio. Meu testamento estipula que a maior parte do meu dinheiro ir para o World 
Wildlife Fund. Algumas poucas pessoas que me so prximas vo receber quantias merecidas  entre elas Anna, do andar de baixo.
    Mikael Blomkvist balanou negativamente a cabea.
     Tente me entender. Estou velho e em breve morrerei. S desejo uma coisa no mundo: uma resposta  questo que me atormenta h quase quatro dcadas. No acredito 
que acharei a resposta, mas possuo meios suficientes para fazer uma ltima tentativa. Diga-me o que h de extravagante em utilizar parte da minha fortuna para essa 
finalidade.  uma dvida para com Harriet. E tambm para comigo.
     Vai gastar vrios milhes de coroas para nada. Tudo o que preciso fazer  assinar o contrato e ficar numa boa durante um ano.
     Voc no far isso. Ao contrrio, trabalhar mais duro do que jamais trabalhou em toda a sua vida.
     Como pode ter certeza?
     Porque posso lhe oferecer algo que deseja mais do que qualquer outra coisa no mundo e que dinheiro nenhum conseguir comprar.
     O qu?
    Os olhos de Henrik Vanger se estreitaram.
     Posso lhe entregar Hans-Erik Wennerstrm. Posso provar que ele  um vigarista. Comeou sua carreira na minha empresa h trinta e cinco anos e posso lhe oferecer 
a cabea dele numa bandeja. Resolva esse mistrio e poder transformar a sua derrota no tribunal na reportagem do ano.
    
   7.         SEXTA-FEIRA 3 DE JANEIRO
    
    
    Erika estava de costas para Mikael. De p em frente  janela da casa dele, ela olhava a cidade velha. Eram nove da manh do dia 3 de janeiro. Toda a neve desaparecera 
com a chuva que cara durante as festas de fim de ano.
     Sempre gostei da vista da sua casa  ela disse.  S um apartamento como este poderia me fazer abandonar Saltsjbaden.
     Voc tem as chaves. Nada contra voc deixar seu condomnio classe A para vir morar aqui  disse Mikael. Ele fechou a mala e colocou-a na entrada. Erika voltou-se 
e olhou para ele com ar incrdulo.
     Isso no faz sentido!  disse.  Estamos na pior das crises e voc enche duas malas e vai embora para se instalar num fim de mundo.
     Em Hedestad. A algumas horas de trem. E no estou indo para sempre.
     Poderia ser tambm Ulan Bator! No entende que dar a impresso de estar fugindo com o rabo entre as pernas?
      exatamente o que estou fazendo. Sem esquecer que este ano tambm terei de cumprir uma pena de priso.
    Christer Malm estava sentado no sof de Mikael. Sentia-se pouco  vontade. Desde o comeo da Millennium, era a primeira vez que via Mikael e Erika divergindo 
tanto. Ao longo dos anos, os dois haviam se tornado inseparveis.
    Se eventualmente entravam em furiosas discusses, elas sempre se referiam a questes cujo ponto litigioso se dissolvia antes de carem nos braos um do outro 
e sarem para fazer um lanche. Ou irem para a cama. O ltimo outono no fora fcil, e agora era como se um abismo tivesse se aberto. Christer Malm se perguntou se 
assistia ao comeo do fim da Millennium.
     No tenho escolha  disse Mikael.  Ns no temos escolha. Atravessou a sala e foi sentar-se junto  mesa da cozinha. Erika balanou a cabea e sentou-se diante 
dele.
     E voc, Christer, o que pensa disso?  ela perguntou.
    Christer Malm afastou as mos. Ele esperava a pergunta, temendo o momento em que seria obrigado a tomar posio. Era o terceiro scio, mas os trs sabiam que 
a Millennium era Mikael e Erika. S lhe pediam conselho quando estavam realmente em desacordo.
     Com toda a franqueza  respondeu Christer , vocs dois sabem que o que eu penso no tem a menor importncia.
    Calou-se. Ele adorava criar imagens. Adorava trabalhar com formas grficas. Nunca se considerara um artista, mas sabia que era um designer de primeira. Em compensao, 
era uma nulidade quando se tratava de intrigas e decises polticas.
    Erika e Mikael se olharam. Ela, com uma clera fria. Ele, refletindo.
    No estou assistindo a uma discusso, pensou Christer, mas a um divrcio. Foi Mikael que rompeu o silncio.
     Bem, deixem-me expor os argumentos mais uma vez.  Ele fitou Erika.  Ir embora no significa que estou abandonando a Millennium. Trabalhamos duro demais para 
eu agora querer abandon-la.
     Mas no estar na redao, eu e Christer  que carregaremos o fardo. No entende que est se auto-exilando?
     Esse  o outro aspecto. Preciso dar um tempo, Erika. Estou fora de combate. Completamente estressado. Frias remuneradas em Hedestad talvez seja exatamente 
o que eu preciso.
     Toda essa histria  muito estranha, Mikael.  como se voc resolvesse ir trabalhar num circo.
     Eu sei. Mas me daro dois milhes e quatrocentos mil para ficar com a bunda numa cadeira por um ano, e no estarei inativo. Esse  o terceiro aspecto. O primeiro 
round contra Wennerstrm terminou e ele ganhou. O segundo j est em andamento: ele tentar afundar definitivamente a Millennium, pois sabe que, enquanto a revista 
existir, h pessoas na redao que sabem o que ele est fazendo.
     Sei muito bem disso.  o que venho constatando h seis meses nas receitas publicitrias, todo fim de ms.
     Exatamente. Por isso mesmo  que eu preciso me afastar da redao. Eu represento uma ameaa para ele. Ele fica paranico comigo. Enquanto eu permanecer, ele 
prosseguir na sua campanha. Ns agora temos que nos preparar para o terceiro round. Se quisermos ter uma chance mnima contra Wennerstrm, precisamos dar marcha 
a r e elaborar uma nova estratgia. Precisamos descobrir alguma coisa em que possamos bater firme. Ser o meu trabalho durante este ano.
     Eu entendo tudo isso  replicou Erika.  Mas por que simplesmente voc no tira frias? V viajar, pegar sol numa praia durante um ms, fazer uma pesquisa 
sobre a vida amorosa das espanholas. Relaxe, passe um tempo em Sandhamn olhando para o mar.
     E quando eu voltar nada ter mudado. Wennerstrm vai esmagar a Millennium. Voc sabe. A nica coisa capaz de det-lo  descobrirmos algo sobre ele que possa 
derrub-lo.
     E acha que descobrir isso em Hedestad?
     Verifiquei recortes de imprensa. Wennerstrm trabalhou para o grupo Vanger de 1969 a 1972. Fazia parte do estado-maior, responsvel pelos investimentos estratgicos. 
Saiu muito de repente. No se pode excluir a possibilidade de que Henrik Vanger saiba de fato alguma coisa sobre ele.
     Mas se Wennerstrm cometeu um delito h trinta anos, dificilmente isso poder ser provado hoje.
     Henrik Vanger prometeu contar tudo o que sabe. Ele  obcecado pela sobrinha desaparecida. Eu diria que nada mais no mundo lhe interessa e, se isso significa 
queimar Wennerstrm, acho que h muita chance de que o faa. Em todo caso, no podemos nos dar ao luxo de deixar escapar essa chance. Ele  o primeiro a se dizer 
disposto a revelar toda a merda sobre Wennerstrm.
     Mesmo que voc volte com provas de que Wennerstrm estrangulou a menina, no poderamos utiliz-las. No depois de tanto tempo. Ele nos massacraria no tribunal.
     Eu tambm pensei nisso, mas sinto muito: ele cursava a escola superior de comrcio quando ela desapareceu e no tinha nenhuma ligao com o grupo Vanger.  
Mikael fez uma pausa.  Erika, no vou deixar a Millennium, mas  importante que as pessoas tenham essa impresso. Voc e Christer devem continuar levando adiante 
a revista. Se puderem... se tiverem a possibilidade de propor um acordo de paz com Wennerstrm, proponham. No vo poder fazer isso se eu estiver na redao.
     Tudo bem, a situao est ruim, mas acho que voc est indo atrs de nada em Hedestad.
     Tem uma idia melhor para me propor? Erika encolheu os ombros.
     Deveramos buscar informantes. Retomar a investigao desde o incio. Sem cometer erros desta vez.
     Esquea, Ricky, o assunto est morto.
    Erika deixou a cabea pender sobre as mos em cima da mesa, num gesto de abandono. Quando voltou a falar, no incio teve dificuldade de olhar para Mikael.
     Estou muito irritada com voc. No por ter escrito o que escreveu, eu me envolvi no caso tanto quanto voc. E no por abandonar seu cargo de editor, essa  
uma deciso prudente na atual situao. No me importo que pensem que houve um conflito ou uma luta de poder entre ns. Entendo a lgica de fazer Wennerstrm supor 
que eu sou apenas uma figura inofensiva e que a ameaa  voc.
    Fez uma pausa e olhou diretamente nos olhos dele, com os dentes cerrados.
     Mas acho que est enganado. Wennerstrm no morder a isca. Continuar tentando afundar a Millennium. A nica diferena  que a partir de agora terei de enfrent-lo 
sozinha, e voc sabe o quanto  necessrio aqui na redao. Est certo, tambm quero levar adiante a guerra contra Wennerstrm, mas me incomoda voc abandonar o 
navio desse jeito, nos deixando no meio da tempestade.
    Mikael estendeu a mo e acariciou-lhe os cabelos.
     Voc no est sozinha. Pode contar com Christer e com o resto da redao.
     No com Janne Dahlman. Alis, por falar nele, acho que foi um erro contrat-lo.  competente, mas faz mais mal do que bem. No confio nele.
    Passou o outono inteiro com aquele sorriso falso nos lbios. No sei se apenas est esperando uma chance para pegar o seu lugar ou se simplesmente h uma incompatibilidade 
de humor entre ele e o resto da redao.
     Acho que voc tem razo  disse Mikael.
     E o que devo fazer? Demiti-lo?
     Erika, voc  a diretora e a principal acionista da Millennium. Se acha que deve demiti-lo, demita-o.
     Nunca demitimos ningum, Micke. E agora voc tambm joga para cima de mim essa deciso. No vejo mais graa em sair de manh para ir trabalhar.
    Nesse instante Christer Malm decidiu se levantar.
     Se quer pegar mesmo o trem, Mikael, precisamos ir.  Erika esboou um protesto, mas ele a interrompeu com um gesto de mo.  Espere, Erika, voc me perguntou 
o que eu pensava. Acho que  uma situao fodida. Mas se o que Mikael diz  verdade, ou seja, que no h outra sada, deixe que ele v, nem que seja s por ele mesmo. 
Devemos isso a ele.
    Tanto Mikael quanto Erika olharam Christer surpresos, enquanto este lanava um olhar aborrecido a Mikael.
     Vocs dois sabem que a Millennium  vocs. Sou scio, vocs sempre foram legais comigo, adoro a revista e tudo o mais, mas poderiam me substituir por qualquer 
outro designer sem o menor problema. Vocs me perguntaram o que eu penso e vou dizer. No que se refere a Janne Dahlman, sou da mesma opinio. Se est querendo demiti-lo, 
Erika, posso fazer isso no seu lugar. Precisamos apenas de um motivo razovel.
    Fez uma pausa antes de continuar.
     Concordo com voc, de fato pega mal Mikael desaparecer justamente agora. Mas acho que no temos muita escolha.  Olhou para Mikael.  Vou com voc at a estao. 
Erika e eu seguraremos as pontas at a sua volta.
    Mikael balanou devagar a cabea.
     Meu medo  que Mikael no volte  disse Erika em voz baixa.
    
    
    Dragan Armanskij despertou Lisbeth Salander ao cham-la ao telefone  uma e meia da tarde.
     O que ?  ela perguntou, meio dormindo. Sua boca estava com gosto de alcatro.
     A histria de Mikael Blomkvist. Acabo de falar com o nosso cliente, o senhor Frode.
     E a?
     Ele telefonou para dizer que podemos abandonar a investigao sobre Wennerstrm.
     Abandonar? Mas eu j comecei a trabalhar no caso.
     Entendo, mas Frode no est mais interessado.
     Assim, sem mais?
     Ele  quem decide. Se no quer continuar, pacincia.
     Havamos acertado uma remunerao.
     Voc trabalhou quanto tempo? Lisbeth Salander refletiu.
     Um pouco mais que trs dias completos.
     Acertamos um teto de quarenta mil coroas. Vou fazer uma fatura de dez mil; voc ficar com a metade, o que  razovel para trs dias desperdiados.  o preo 
que ele ter de pagar por ter iniciado o caso.
     E o que fao com o material que encontrei?
      alguma coisa importante? Ela refletiu um pouco.
     No.
     Frode no pediu um relatrio. Guarde o material em algum lugar, caso ele volte. Ou ento jogue fora. Tenho um outro trabalho para voc na semana que vem.
    Lisbeth Salander permaneceu um momento com o telefone na mo depois que Armanskij desligou. Foi at seu canto de trabalho na sala de estar e olhou as anotaes 
que espetara na parede e o monte de papis amontoados na escrivaninha. Sua coleta consistia principalmente de recortes da imprensa e textos copiados da internet. 
Pegou os papis e os enfiou numa gaveta da escrivaninha.
    Franziu as sobrancelhas. O estranho comportamento de Mikael Blomkvist na sala do tribunal lhe parecera um desafio interessante e Lisbeth Salander no gostava 
de interromper o que havia comeado. Todo mundo tem segredos. Trata-se apenas de descobrir quais so.
    
   II.         ANLISE DAS CONSEQUNCIAS 
         3 DE JANEIRO A 17 DE MARO
    
    
    
    

Na Sucia, 46% das mulheres sofreram violncia de um homem.
    
   8.         SEXTA-FEIRA 3 DE JANEIRO 
    DOMINGO 5 DE JANEIRO
    
    
    Quando Mikael Blomkvist desceu do trem em Hedestad pela segunda vez, o cu estava azul-pastel e o ar gelado. Um termmetro na fachada da estao indicava dezoito 
graus negativos. Mais uma vez ele usava sapatos pouco adaptados ao frio. Ao contrrio da visita anterior, o amvel advogado Frode no viera esper-lo com um carro 
aquecido. Mikael apenas dissera o dia em que chegaria, sem especificar o horrio do trem. Sups que haveria um nibus para a aldeia, mas no teve vontade de carregar 
duas malas pesadas e uma sacola atrs de um ponto de nibus. Dirigiu-se a um ponto de txi do outro lado da esplanada em frente  estao.
    Entre o Natal e o Ano-novo, as precipitaes de neve haviam sido violentas e as montanhas acumuladas ao longo do caminho provavam que o servio de desobstruo 
da prefeitura de Hedestad trabalhara sem parar. O motorista de txi, que a placa de identificao no pra-brisa dizia chamar-se Hussein, concordou com a cabea quando 
Mikael perguntou se o tempo causara muitos problemas. Com o mais puro sotaque do Norrland, contou que fora a pior tempestade de neve havia dcadas e que se arrependia 
de no ter tirado frias de inverno para passar o Natal na Grcia.
    Mikael indicou o caminho ao taxista at o ptio amplo em frente  casa de Henrik Vanger e, depois de subir com as malas at a entrada, olhou o carro desaparecendo 
em direo a Hedestad. Sentiu-se de repente muito s e indeciso. Erika talvez tivesse razo em dizer que todo esse projeto era insensato. Ouviu a porta se abrir 
s suas costas e se virou. Henrik Vanger estava ali, vestindo um espesso casaco de couro, calando botas forradas e tendo na cabea um bon com orelheiras. Mikael 
vestia apenas jeans e uma jaqueta leve de couro.
     J que vai morar aqui, primeiro precisa aprender a se vestir nesta poca do ano.  Apertaram-se as mos.  Tem certeza de que no quer ficar na casa principal? 
No? Ento vamos acomod-lo em sua nova moradia.
    Uma das exigncias nas negociaes com Henrik Vanger e Dirch Frode fora que Mikael pudesse morar num lugar onde ficasse independente e pudesse ir e vir  vontade. 
Henrik guiou Mikael em direo  ponte e abriu o porto de um ptio recentemente desobstrudo diante de uma pequena casa de madeira. No estava trancada, e o velho 
abriu a porta. Entraram num pequeno vestbulo, onde Mikael depositou as malas com um suspiro de alvio.
     Aqui est o que chamamos a casa dos convidados, onde hospedamos as pessoas que ficam por algum tempo. Foi aqui que voc e seus pais se instalaram em 1963. 
 uma das construes mais antigas do povoado, embora modernizada. Cuidei para que Gunnar Nilsson, o meu faz-tudo, pusesse o aquecimento para funcionar esta manh.
    A casa consistia em uma grande cozinha e dois pequenos quartos, ao todo uns cinquenta metros quadrados. A cozinha ocupava a metade da rea; moderna, tinha fogo 
eltrico, uma pequena geladeira, um balco com pia, e junto  parede que dava para o vestbulo havia tambm um velho aquecedor de metal fundido, no qual j ardia 
um bom fogo.
     S precisar usar esse aquecedor se fizer muito frio. H um ba com lenha no vestbulo e um pequeno depsito nos fundos da casa. Estava desativado desde o 
ltimo outono e voltamos a acend-lo esta manh para aquecer as paredes. Mas os aquecedores eltricos devero ser suficientes durante o dia. Evite apenas pr roupas 
em cima deles, para no provocar um incndio.
    Mikael assentiu com a cabea e olhou ao redor. Havia janelas em trs lados; da mesa da cozinha avistava-se a ponte a uns trinta metros. Alm da mesa, a cozinha 
era equipada com dois armrios, cadeiras, um antigo banco de madeira e uma prateleira com jornais. No alto da pilha, um nmero de Se, datado de 1967. Num canto prximo 
 mesa, um aparador podia servir de escrivaninha.
    A porta de entrada da cozinha ficava prxima ao aquecedor a lenha. Do outro lado, duas portas estreitas conduziam a dois pequenos cmodos. O da esquerda, mais 
prximo da parede externa, estava mobiliado com uma mesa de trabalho, uma cadeira e uma estante ao longo da parede. O outro cmodo, entre o vestbulo e o escritrio, 
era um quarto relativamente pequeno, com uma cama de casal bastante estreita, um criado-mudo e um armrio. Nas paredes havia alguns quadros com cenas da natureza. 
Os mveis e os papis de parede da casa estavam velhos e descoloridos, mas tudo cheirava a limpeza. O soalho fora cuidadosamente encerado. O quarto tinha outra porta, 
que levava diretamente ao vestbulo, onde um velho cubculo fora transformado em banheiro com ducha.
     A gua pode vir a ser um problema  disse Henrik.  Verificamos que est funcionando bem hoje de manh, mas como a tubulao  muito superficial, se o frio 
persistir, pode congelar. H um balde no vestbulo. Se for necessrio, v buscar gua na minha casa.
     Vou precisar de um telefone  disse Mikael.
     J fiz o pedido. Viro instalar depois de amanh. E ento, o que acha? Se mudar de opinio, pode se transferir para a casa principal quando quiser.
     Tudo vai correr bem  respondeu Mikael, longe de estar convencido de que a situao na qual se metera era razovel.
     timo. Ainda temos uma hora antes que escurea. Podemos dar uma volta para voc conhecer o povoado. Sugiro que use botas e meias grossas de l, que poder 
encontrar no armrio do vestbulo.
    Mikael aquiesceu, mas decidiu que no dia seguinte percorreria as lojas para comprar ceroulas e calados prprios para o inverno.
    
    
    O velho comeou o passeio explicando que o vizinho de Mikael do outro lado da estrada era Gunnar Nilsson, o empregado que Henrik insistia em chamar de seu faz-tudo. 
Mas Mikael logo entendeu que ele cuidava da manuteno das construes da ilha e tambm de vrias residncias em Hedestad.
     O pai dele, Magnus Nilsson, trabalhou do mesmo modo em minha casa nos anos 1960, e foi um dos que prestaram ajuda no dia do acidente na ponte. Magnus ainda 
est vivo, mas se aposentou e mora em Hedestad. Gunnar vive nessa casa com a mulher, chamada Helen. Os filhos partiram para viver sua vida.
    Henrik Vanger fez uma pausa e refletiu um momento antes de prosseguir.
     Mikael, a explicao oficial para sua presena aqui  que voc vai me ajudar a escrever a minha biografia. Isso permitir que voc investigue em todos os cantos 
e faa perguntas s pessoas. Mas a verdadeira misso  um assunto restrito a voc, a mim e a Dirch Frode. Somos os nicos que a conhecem.
     Entendo. E repito o que j disse:  uma perda de tempo. No vou poder resolver o enigma.
     Peo apenas que tente. Devemos, no entanto, prestar ateno ao que dizemos quando houver pessoas por perto.
     Tudo bem.
     Gunnar tem cinquenta e seis anos agora, portanto tinha dezenove quando Harriet desapareceu. H uma questo para a qual nunca obtive resposta: Harriet e Gunnar 
eram bons amigos e creio que houve uma espcie de flerte adolescente entre os dois. Em todo caso, ele estava bastante interessado nela. No dia do desaparecimento, 
Gunnar estava em Hedestad,  um dos que ficaram presos em terra por causa do acidente na ponte. Considerando-se a relao dos dois, evidentemente ele foi investigado 
com cuidado. A polcia verificou seu libi e ele  slido. Passou o dia com colegas e s voltou para c no comeo da noite.
     Imagino que voc tenha uma lista completa de quem estava na ilha e de quem fez o que durante o dia.
     Isso mesmo. Continuamos?
    Detiveram-se na subida, no cruzamento dos caminhos diante da casa Vanger, e Henrik indicou o porto de recreio.
     Toda a ilha de Hedeby pertence  famlia Vanger, ou, para ser mais preciso, a mim. A no ser pela fazenda de stergarden e algumas casas particulares aqui 
no povoado. As pequenas cabanas ali embaixo, onde antigamente ficava o porto de pesca, so propriedades privadas, mas funcionam como casas de veraneio e, de modo 
geral, permanecem desabitadas no inverno. A nica exceo  a cabana bem ali na ponta. Est vendo a fumaa da chamin?
    Mikael fez que sim com a cabea. J estava gelado at os ossos.
     Aquele barraco miservel est cheio de frestas, mas serve de habitao o ano todo. Quem mora ali  Eugen Norman. Tem sessenta e sete anos,  uma espcie de 
artista, pintor. Acho as pinturas dele um tanto kitsch, mas ele  bastante conhecido por suas paisagens.  um pouco o tipo excntrico da aldeia.
    Henrik guiou os passos de Mikael ao longo do caminho em direo ao promontrio, apontando cada uma das casas pelas quais passavam. O povoado tinha seis casas 
do lado oeste da estrada e quatro do lado do Leste Europeu. A primeira, muito prxima da casa dos convidados onde Mikael se instalara e defronte  casa Vanger, pertencia 
a Harald, irmo de Henrik. Era um sobrado retangular, de pedra, aparentemente abandonado. As cortinas nas janelas estavam corridas e meio metro de neve se acumulava 
no caminho que subia at a casa. Examinando mais de perto, porm, marcas de passos revelavam que algum pisara a neve entre a estrada e a porta.
     Harald  um misantropo. Nunca nos entendemos bem, eu e ele. Com exceo dos conflitos relacionados s empresas  ele  acionista , mal nos falamos nos ltimos 
sessenta anos.  mais velho que eu, tem noventa e dois anos e  o nico dos meus cinco irmos ainda vivo. Contarei os detalhes mais tarde, mas ele estudou medicina 
e trabalhou principalmente em Uppsala. Voltou a morar em Hedebyn ao completar setenta anos.
     Entendi que no gosta dele. No entanto so vizinhos.
     Acho-o detestvel e teria preferido que continuasse em Uppsala, mas a casa lhe pertence. Estou falando como um verdadeiro crpula, no?
     Fala apenas como algum que no gosta do seu irmo.
     Passei os primeiros vinte e cinco, trinta anos da minha vida desculpando pessoas como Harald apenas porque ramos da mesma famlia. Depois descobri que o parentesco 
no  uma garantia de amor e que eu tinha muito poucas razes para defender Harald.
    A casa seguinte pertencia a Isabella, a me de Harriet Vanger.
     Ela completar setenta e cinco este ano, continua sendo uma mulher vistosa e elegante.  a nica no povoado que fala com Harald e o visita de vez em quando, 
mas eles no tm muita coisa em comum.
     Como eram as relaes entre ela e Harriet?
     Boa pergunta. As mulheres tambm devem entrar no crculo de suspeitos. Eu disse a voc que muitas vezes ela no dava a menor ateno aos filhos. No sei muito 
bem, acho que ela at gostaria mas era incapaz de assumir responsabilidades. Harriet e ela no tinham intimidade, porm no eram inimigas. Isabella pode se mostrar 
um pouco insensvel, s vezes tambm  um pouco individualista. Voc vai entender o que estou querendo dizer quando a vir.
    A vizinha de Isabella era Cecilia Vanger, filha de Harald Vanger.
     Enquanto esteve casada, ela morou em Hedestad, mas h pouco mais de vinte anos separou-se do marido. A casa me pertence e propus a ela que viesse morar aqui. 
Cecilia  professora e  o oposto do pai em muitos aspectos. Posso acrescentar que ela e o pai se falam apenas o necessrio.
    
     Qual a idade dela?
     Nasceu em 1946. Tinha ento vinte anos quando Harriet desapareceu. E era uma das pessoas que estavam na ilha naquele dia.
    Refletiu por um momento.
     Cecilia pode parecer meio cabea-tonta, mas na realidade  bastante esperta. No a subestime. Se algum vier a descobrir o que voc est realmente fazendo 
aqui, ser ela. Eu diria que  um dos membros da famlia que mais aprecio.
     Isso significa que no suspeita dela?
     No chegaria a tanto. Gostaria que considerasse o caso sem a menor restrio, independentemente do que eu penso ou acredito.
    A casa ao lado da de Cecilia pertencia a Henrik Vanger, mas estava alugada a um casal de idade que trabalhara na direo do grupo Vanger. Como vieram morar na 
ilha nos anos 1980, nada tinham a ver, portanto, com o desaparecimento de Harriet. A casa seguinte era propriedade de Birger Vanger, o irmo de Cecilia. Estava vazia 
havia anos, desde que Birger se instalara numa manso moderna em Hedestad.
    Em sua maior parte, as construes ao longo da estrada eram slidas casas de pedra que datavam do comeo do sculo anterior. A ltima, porm, era de outro tipo, 
uma casa de arquitetura moderna, de tijolos brancos, portas e janelas escuras. Sua localizao era excelente. Mikael calculava que a vista do primeiro andar devia 
ser magnfica: o mar no Leste Europeu e Hedestad ao norte.
      aqui que mora Martin Vanger, o irmo de Harriet e atual diretor-executivo do grupo Vanger. Antigamente era aqui que o presbitrio estava situado, mas foi 
parcialmente destrudo por um incndio nos anos 1970 e Martin resolveu construir essa casa quando assumiu o comando.
    Bem ao fundo, do lado do Leste Europeu da estrada, morava Gerda Vanger, viva de Greger, um outro irmo de Henrik, e seu filho Alexander Vanger.
     Gerda  invlida, sofre de reumatismo. Alexander tem uma pequena participao no grupo Vanger, mas possui tambm alguns negcios prprios, restaurantes, por 
exemplo. Costuma passar vrios meses do ano em Barbada, nas Antilhas, onde investiu dinheiro no turismo.
    Entre a casa de Gerda e a de Henrik havia duas casas pequenas, vazias, utilizadas para hospedar membros da famlia em visita. Do outro lado da casa de Henrik, 
havia outra, alugada para um ex-empregado do grupo, agora aposentado, e sua mulher. Mas o casal passava o inverno na Espanha, e a casa estava desabitada.
    Voltaram ao cruzamento dos caminhos e o passeio terminou. Comeava a escurecer. Mikael tomou a iniciativa.
     Henrik, s posso voltar a dizer que nos lanamos numa aventura que no dar resultado, mas farei aquilo para o qual fui contratado. Escreverei sua biografia 
e, conforme me pediu, lerei o material sobre Harriet Vanger com o mximo de ateno e cuidado. Quero simplesmente que entenda que no sou detetive particular, portanto 
no deposite em mim esperanas sem fundamento.
     No espero nada. Como eu disse, quero apenas que seja feita uma ltima tentativa para descobrir a verdade.
     Ento, perfeito.
     Deito-me cedo  explicou Henrik.  Poder me encontrar depois do caf-da-manh e ao longo do dia. Vou preparar um local de trabalho aqui para voc, do qual 
poder dispor  vontade.
     No, obrigado. J tenho um lugar de trabalho na casa dos convidados e  l que tenho a inteno de trabalhar.
     Como quiser.
     Quando eu precisar de informaes, conversaremos no seu escritrio, mas no vou comear com perguntas j esta noite.
     Entendo.  O velho deixava transparecer uma timidez enganadora.
     Vou precisar de algumas semanas para ler todos os dossis. Trabalharemos em duas frentes: nos veremos algumas horas por dia, quando farei perguntas para coletar 
material para a biografia. Quando eu tiver perguntas sobre Harriet, virei discuti-las com voc.
     Parece razovel.
     Trabalharei com bastante liberdade, sem horrios fixos.
     Organize-se como quiser.
     Voc no deve ter esquecido que, dentro de alguns meses, vou precisar cumprir uma pena de priso. No sei ainda quando ser, mas no vou recorrer. O que significa 
que acontecer durante este ano.
    Henrik Vanger franziu o cenho.
     Isso  ruim. Teremos que achar uma soluo quando chegar o momento. Poderia pedir um sursis.
     Se tudo correr bem e eu j tiver elementos suficientes sobre a famlia, poderei trabalhar na priso. Mas vamos esquecer isso por enquanto. Outra coisa: continuo 
sendo scio da Millennium, que neste momento  uma revista em crise. Se acontecer algo que exija minha presena em Estocolmo, serei obrigado a deixar o que estou 
fazendo aqui para ir at l.
     No o contratei como escravo. Quero que trabalhe de forma racional e leve adiante a tarefa que lhe passei, mas  evidente que deve se organizar como bem entender, 
trabalhar de acordo com seus prprios mtodos. Se precisar licenciar-se, faa-o, mas se eu notar que est negligenciando o trabalho, considerarei como um rompimento 
de contrato.
    Mikael concordou com a cabea. Henrik Vanger olhava em direo  ponte. O homem era magro e Mikael de repente teve a impresso de que ele parecia um espantalho.
     No que se refere  Millennium, deveramos ter uma conversa sobre a crise, para ver se posso ser til de alguma forma.
     O melhor meio de ser til  entregar-me a cabea de Wennerstrm logo.
     Ah, no, essa no  a minha inteno.  O velho lanou um olhar severo a Mikael.  A nica razo pela qual aceitou minha proposta  que prometi desmascarar 
Wennerstrm. Se eu entreg-lo agora, poderia ficar tentado a abandonar o trabalho. Ter essa informao dentro de um ano.
     Henrik, perdoe-me falar assim cruamente, mas nada me garante que voc estar vivo daqui a um ano.
     Entendo. Vou falar com Dirch Frode e veremos como arranjar isso. Mas, no que se refere  Millennium, talvez eu possa intervir de outro modo. Pelo que entendi, 
o problema  que os anunciantes esto saindo.
    Mikael assentiu lentamente com a cabea antes de responder:
     Os anunciantes so o problema mais imediato, porm a crise  mais profunda. E uma questo de confiana. Pouco importa o nmero de anunciantes que temos se 
as pessoas no quiserem mais comprar a revista.
     Sim, entendo. Mas continuo sendo membro do conselho administrativo de um grupo importante, mesmo como membro passivo. Tambm temos necessidade de divulgar 
nossas informaes em algum lugar. Discutiremos isso mais tarde. Quer comer alguma coisa...?
     No. Vou me instalar na casa, fazer algumas compras e me familiarizar com o lugar. Amanh irei a Hedestad comprar roupas de inverno.
     Boa idia.
     Gostaria que transferisse os arquivos relativos a Harriet para minha casa.
     Eles devem ser manipulados...
     ... com o maior cuidado, imagino eu.

* * *
    Mikael retornou  casa dos convidados batendo os dentes. Um termmetro diante da janela indicava quinze graus negativos, e ele no lembrava de alguma vez ter 
sentido tanto frio como aps esse passeio de apenas meia hora.
    Ele dedicou a hora seguinte a se instalar na que haveria de ser a sua moradia naquele ano. Tirou as roupas da mala e as colocou no armrio do quarto. Artigos 
de toalete, no mvel do banheiro. A segunda bagagem era uma volumosa mala com rodinhas; dela tirou livros, CDs, um MP3, blocos de anotaes, um gravador Sanyo, uma 
mquina fotogrfica digital Minolta e vrios outros objetos que julgara indispensveis para um exlio de um ano.
    Distribuiu os livros e os CDs na estante da saleta de trabalho, ao lado de dois arquivos contendo documentos relativos  sua investigao sobre Hans-Erik Wennerstrm. 
O material no tinha valor, mas Mikael no conseguia se desembaraar dele. Como se os dois arquivos devessem se transformar, de uma maneira ou de outra, em elementos 
determinantes na continuao de sua carreira.
    Abriu por fim a bolsa e tirou de l o notebook, que ps sobre a mesa de trabalho. Depois deteve-se e olhou ao redor, com uma expresso estpida no rosto. Da 
vantagem da vida no campo! Acabava de perceber que no havia tomada para o cabo. No havia sequer uma entrada de telefone para ligar um velho modem.
    Mikael voltou  cozinha e, usando seu celular, ligou para a companhia telefnica Telia. Depois de insistir um pouco, conseguiu convencer algum a localizar o 
pedido que Henrik Vanger fizera para a casa dos convidados. Perguntou se a linha tinha capacidade para ADSL e responderam-lhe que era possvel atravs de um ponto 
retransmissor em Hedeby, mas que levaria alguns dias.
    
    
    Eram pouco mais de quatro da tarde quando Mikael terminou a arrumao. Ps as meias grossas de l, as botas e vestiu um pulver suplementar. Quando ia sair, 
deteve-se diante da porta: no lhe haviam dado as chaves da casa, e seu instinto de habitante de Estocolmo revoltava-se contra a idia de deixar a porta de entrada 
aberta. Voltou  cozinha e vasculhou as gavetas. Acabou por encontrar a chave pendurada num prego no guarda-comida.
    O termmetro descera a menos dezessete. Mikael atravessou a ponte com passos rpidos e subiu a encosta diante da igreja. O supermercado Konsum ficava a apenas 
trezentos metros. Encheu duas sacolas de papel com produtos bsicos, que transportou para casa. Antes de cruzar a ponte uma segunda vez, passou pelo Caf Susanne. 
Perguntou a uma mulher de cinquenta anos, atrs do balco, se ela era a Susanne do letreiro e apresentou-se dizendo que provavelmente viria com regularidade durante 
algum tempo. Era o nico fregus e Susanne ofereceu-lhe caf para acompanhar o sanduche que ele pediu. Mikael comprou tambm po e croissants. Pegou o Hedestads-Kuriren 
do mostrurio de jornais e instalou-se numa mesa, de onde avistava a ponte e a igreja, cuja fachada estava iluminada e parecia, na obscuridade, um carto de Natal. 
Quatro ou cinco minutos foram suficientes para ler o jornal. A nica informao interessante era um artigo curto que dizia que um representante da comunidade, Birger 
Vanger (liberal), queria investir no IT TechCent  um centro de desenvolvimento tecnolgico em Hedestad. Ficou ali por meia hora, at que o caf fechasse, s seis.
    
    
    s sete e meia, Mikael ligou para Erika, mas s obteve como resposta uma voz dizendo que o telefone procurado no estava disponvel. Sentou-se no banco da cozinha 
e tentou ler um romance, que, pelo que dizia a quarta capa, era a estria sensacional de uma adolescente feminista. O romance narrava as tentativas da autora de 
pr ordem em sua vida sexual durante uma viagem a Paris, e Mikael se perguntou se o chamariam de feminista se ele prprio escrevesse um romance com um vocabulrio 
de colegial sobre sua vida sexual. Provavelmente no. Uma das razes que levaram Mikael a comprar o livro era que o editor descrevia a estreante como "uma nova Carina 
Rydberg". Logo constatou que no era nada disso, nem no estilo nem no contedo. Fechou o livro e comeou a ler uma novela sobre Hopalong Cassidy numa Rekordmagasinet 
dos anos 1950.
    Cada meia hora era pontuada por um breve toque do sino da igreja. Havia luz nas janelas da casa de Gunnar Nilsson, o faz-tudo do outro lado da estrada, mas Mikael 
no distinguia ningum no interior. A casa de Harald Vanger estava mergulhada na escurido. Por volta das nove da noite, um carro atravessou a ponte e desapareceu 
em direo ao promontrio. Cerca de meia-noite, a iluminao da fachada da igreja se apagou. Aparentemente, resumiam-se a isso as distraes que Hedeby oferecia 
numa noite de sexta-feira naquele comeo de janeiro. O silncio era impressionante.
    Tentou falar com Erika mais uma vez, e ouviu uma voz pedindo que deixasse uma mensagem. Fez isso, depois apagou a luz e foi se deitar. Seu ltimo pensamento 
antes de dormir foi que corria o srio risco de enlouquecer com o isolamento em Hedeby.
    
    
    Despertar num silncio total foi completamente inusitado para ele. Mikael passou do sono profundo a um estado de viglia absoluta numa frao de segundos e em 
seguida permaneceu tranquilo, escutando. O frio reinava no cmodo. Virou a cabea e olhou o relgio que pusera num banquinho ao lado da cama: 7h08. Nunca acordava 
cedo e precisava de duas chamadas do despertador para levantar. Mas ali, despertado sem alarme, sentia-se repousado.
    Esquentou gua para o caf antes de tomar um banho, onde foi subitamente invadido pela sensao prazerosa da autocontemplao. Super-Blomkvist, o explorador 
das causas perdidas.
    Ao mais leve toque, o misturador passava de uma gua escaldante para uma gua gelada. No havia jornal para ler no caf-da-manh. A manteiga congelara e no 
havia fatiador de queijo na gaveta dos talheres. L fora, ainda estava tudo escuro. O termmetro indicava vinte e um graus negativos. Era um sbado.
    
    
    O ponto de nibus na aldeia Hedeby ficava diante do supermercado Konsum, e Mikael iniciou seu exlio indo s compras. Em Hedestad, desceu em frente  estao 
e foi at o centro da cidade para comprar calados de inverno, duas ceroulas, algumas camisas de flanela, uma jaqueta espessa, gorro de l e luvas forradas. Na Teknikbutiken, 
encontrou um pequeno aparelho de televiso com antena telescpica. O vendedor garantiu que na aldeia ele conseguiria captar pelo menos a rede nacional, e Mikael 
o fez prometer um reembolso caso no fosse verdade.
    Inscreveu-se na biblioteca e emprestou dois romances policiais de Elizabeth George. Numa papelaria, adquiriu canetas e blocos de notas. Comprou tambm uma mochila 
para carregar suas novas aquisies.
    Para terminar, comprou um mao de cigarros. Parara de fumar dez anos antes, mas tinha recadas episdicas e estava sentindo uma necessidade sbita de nicotina. 
Ps o mao no bolso da jaqueta sem abri-lo. A ltima visita foi a uma tica, onde procurou um produto de limpeza e encomendou novas lentes de contato.
    Aproximadamente s duas da tarde, j de volta  ilha, estava retirando as etiquetas das roupas, quando ouviu a porta de entrada ser aberta. Uma mulher loura 
de uns cinquenta anos bateu na porta da cozinha ao entrar. Trazia um po-de-l num prato.
     Bom dia, venho desejar as boas-vindas. Meu nome  Helen Nilsson, moro do outro lado da estrada. Somos vizinhos agora.
    Mikael apertou-lhe a mo e se apresentou.
     Sim, j vi voc na tev.  agradvel ver luz acesa  noite na casa dos convidados.
    Mikael preparou caf  ela primeiro o recusou, mas acabou sentando-se  mesa da cozinha. Olhou pela janela.
     A vem vindo Henrik com meu marido. Esto trazendo caixas para o senhor, acredito.
    Henrik Vanger e Gunnar Nilsson detiveram-se diante da casa com um carrinho de mo e Mikael saiu depressa para cumprimentar os dois homens e ajudar a carregar 
quatro pesadas caixas. Depuseram-nas no cho, ao lado do aquecedor a lenha. Mikael serviu mais xcaras de caf e cortou em fatias o po-de-l de Helen.
    Gunnar e Helen Nilsson eram pessoas simpticas. No pareciam muito curiosos de saber por que Mikael se achava em Hedestad  trabalhar para Henrik Vanger parecia-lhes 
uma explicao suficiente. Mikael constatou que os Nilsson e Henrik Vanger tratavam-se de maneira muito natural, sem distino entre patro e empregados. Falavam 
da aldeia e de quem construra a casa onde Mikael habitava. O casal corrigia Vanger quando sua memria falhava; este, por sua vez, contou com humor a vez em que 
Gunnar Nilsson, ao voltar para casa tarde da noite, avistou o retardado mental da aldeia tentando entrar pela janela da casa dos convidados, e ento perguntou ao 
pobre-coitado por que no entrava pela porta, que no estava trancada. Gunnar Nilsson observou com ceticismo o pequeno aparelho de televiso e convidou Mikael a 
ir  casa deles  noite, quando quisesse ver algum programa. Tinham uma parablica.
    Henrik Vanger ficou mais um momento depois que os Nilsson foram embora. O velho explicou que preferia deixar o prprio Mikael fazer uma seleo dos arquivos 
e que viria v-lo se surgisse um problema. Mikael agradeceu, certo de que seria melhor assim.
    Quando voltou a ficar a ss, Mikael levou as caixas para a saleta de trabalho e comeou a examinar seu contedo.
    
    
    As investigaes pessoais de Henrik Vanger sobre o desaparecimento de sua jovem sobrinha haviam sido feitas ao longo de trinta e seis anos. Mikael tinha dificuldade 
de determinar se o interesse devia-se a uma obsesso doentia ou se, com o passar do tempo, transformara-se num jogo intelectual. O certo  que o velho patriarca 
pusera mos  obra com a aplicao de um arquelogo amador. As pastas, enfileiradas, chegavam a quase sete metros.
    Vinte e seis arquivos compunham a base do inqurito policial sobre o desaparecimento de Harriet. Era difcil para Mikael imaginar que um desaparecimento "normal" 
produzisse um resultado to volumoso. Henrik Vanger provavelmente exercera bastante influncia para que a polcia de Hedestad seguisse todas as pistas, tanto as 
plausveis como as inconcebveis.
    Alm do inqurito policial, havias pastas com recortes de imprensa, lbuns de fotografias, mapas, suvenires, artigos de jornais sobre Hedestad e as empresas 
Vanger, o dirio ntimo de Harriet Vanger (relativamente pequeno), livros de escola, atestados de sade et cetera. Havia tambm uns quinze volumes encadernados, 
formato ofcio, de cem pginas cada um, que poderiam ser definidos como o dirio de bordo pessoal das investigaes de Henrik Vanger. Nesses papis o patriarca anotara, 
com letra cuidadosa, suas prprias reflexes, suas idias, suas pistas que no levaram a nada e suas observaes. Mikael folheou-os ao acaso. O texto era bem redigido 
e ele teve a impresso de que esses volumes eram cpias passadas a limpo de cadernos mais antigos. Para terminar, havia uns dez arquivos com material sobre diferentes 
membros da famlia Vanger; as pginas estavam datilografadas e haviam sido claramente redigidas por um longo perodo.
    Henrik Vanger conduzira a investigao contra a prpria famlia.
    Por volta das sete da noite, Mikael ouviu um miado alto e abriu a porta da entrada. Um gato ruivo, diante dele, entrou correndo em busca de calor.
     Eu te entendo  disse Mikael.
    O gato ficou algum tempo farejando tudo pela casa. Mikael despejou um pouco de leite numa travessa que o convidado no tardou a lamber. Depois o gato saltou 
para cima do banco e se enrolou, quieto, decidido a no sair dali.
    
    
    Passava das dez da noite quando Mikael conseguiu ter uma idia clara do material e dispor tudo nas prateleiras numa ordem compreensvel. Foi at a cozinha, esquentou 
gua para o caf e preparou dois sanduches. Ofereceu um pouco de presunto e pat de fgado ao gato. No comera de forma adequada durante o dia, mas sentia-se estranhamente 
pouco preocupado com a alimentao. Depois de comer, tirou o mao de cigarros do bolso da jaqueta e o abriu.
    Ouviu as mensagens do celular. Erika no chamara e ele tentou localiz-la. Novamente obteve como resposta apenas a secretria eletrnica.
    Uma das primeiras providncias de Mikael em sua investigao particular foi escanear o mapa de Hedebyn. Colocou o nome dos moradores em cada casa, enquanto 
ainda os tinha na memria aps a visita guiada por Henrik. Logo percebeu que o cl Vanger oferecia uma galeria de personagens to vasta que ele precisaria de tempo 
para se familiarizar com cada um.
    
    Um pouco antes da meia-noite, agasalhou-se, ps os calados novos e saiu para um passeio do outro lado da ponte. Tomou a estrada que costeava o canal abaixo 
da igreja. O gelo cobria o canal e o velho porto, mas ao longe podia-se ver uma faixa mais escura de gua livre. A iluminao da fachada da igreja se apagou nesse 
meio-tempo e ele ficou cercado pela escurido. O frio era intenso e o cu estrelado.
    De repente, Mikael sentiu-se muito deprimido. No conseguia entender como pudera se deixar convencer a aceitar aquele trabalho insensato. Erika tinha razo, 
era perda de tempo. Ele deveria estar em Estocolmo agora  na cama com Erika, por exemplo , preparando a ofensiva contra Hans-Erik Wennerstrm. Mas mesmo isso no 
o animava e ele no fazia a menor idia de como iniciar uma estratgia de ataque.
    Se no fosse to tarde, teria procurado Henrik Vanger para romper o contrato e voltar para casa. Do alto da colina da igreja, podia constatar que a casa Vanger 
j estava em silncio e com as luzes apagadas. Da igreja, via todas as moradias da ilha. A casa de Harald tambm estava s escuras, mas havia luz na de Cecilia e 
na manso de Martin na ponta do promontrio, e tambm uma lmpada acesa na casa alugada. Prximo ao porto de recreio, via-se luz na casa de Eugen Norman, o pintor 
que morava no barraco com frestas, cuja chamin expelia fagulhas. Tambm o andar superior do Caf Susanne estava iluminado e Mikael se perguntou se ela morava ali 
e, nesse caso, se vivia sozinha.
    
    
    Mikael dormiu at tarde no domingo e despertou, assustado, com um alarido irreal dominando toda a casa. Precisou de um segundo para se localizar e entender que 
eram os sinos chamando para a missa, e que portanto deviam ser quase onze horas. Ficou mais um pouco na cama, sem vontade de nada. Quando ouviu um miado exigente 
diante da porta, levantou-se e deixou o gato sair.
    Perto do meio-dia, tomou um banho e fez o desjejum. Entrou decididamente na saleta de trabalho e pegou o primeiro arquivo do inqurito policial. Depois hesitou. 
Da janela lateral da casa, avistou o letreiro do Caf Susanne, ps o arquivo na bolsa e vestiu a jaqueta. Ao chegar ao caf, viu que estava abarrotado de fregueses 
e ento teve a resposta a uma pergunta que lhe martelava a cabea: como um caf pode sobreviver num buraco como a aldeia de Hedeby? Susanne contava com os fiis 
que iam  igreja e com as refeies ligeiras aps os enterros e outras cerimnias.
    Optou por uma caminhada. Como o Konsum fechava aos domingos, andou mais umas centenas de metros pela estrada de Hedestad, onde comprou jornais na loja de convenincias 
de um posto de gasolina. Dedicou uma hora andando a p pela aldeia e se familiarizando com os arredores em terra firme. A rea mais prxima da igreja e diante do 
Konsum constitua o ncleo, com edificaes antigas, sobrados de pedra que Mikael julgou construdos nos anos 1910 ou 1920, alinhados para formar uma pequena rua. 
No comeo da via de acesso a Hedestad, erguiam-se pequenos prdios de apartamento para famlias com filhos e, mais adiante, junto  margem e do lado sul do supermercado, 
algumas manses. A aldeia Hedeby era sem dvida onde moravam as pessoas abastadas de Hedestad.
    Quando voltou a se aproximar da ponte, o Caf Susanne j no estava to cheio, mas a proprietria ainda limpava as mesas.
     Rush de domingo?  ele comentou ao entrar.
    Ela concordou com a cabea e ajeitou uma mecha de cabelos atrs da orelha.
     Bom dia, senhor Mikael.
     Lembra o meu nome?
     Difcil no lembrar  ela respondeu.  Eu o vi na tev, no julgamento antes do Natal.
    Mikael sentiu-se constrangido.
     Eles precisam ocupar os noticirios com alguma coisa  murmurou, apressando-se em direo  mesa de canto, de onde podia avistar a ponte. Quando seu olhar 
cruzou com o de Susanne, ela sorria.
    
    
    s trs da tarde, Susanne avisou que o caf ia fechar. Aps a afluncia de clientes depois da missa, raros fregueses apareceram. Mikael lera pouco mais de um 
quinto do primeiro arquivo do inqurito policial sobre o desaparecimento de Harriet. Tornou a fech-lo, ps o bloco de anotaes na bolsa e atravessou a ponte com 
passos rpidos, de volta para casa.
    O gato esperava junto  porta e Mikael olhou ao redor perguntando-se a quem pertencia aquele gato. Mesmo assim deixou que ele entrasse, afinal era alguma companhia.
    Tentou outra vez o celular de Erika, mas de novo caiu na secretria eletrnica. Ela estava certamente furiosa com ele. Poderia ter ligado direto para a redao 
ou para a casa dela, mas, teimoso como era, decidiu no fazer isso. J deixara mensagens suficientes. Preparou um caf, conduziu o gato ao banco da cozinha e abriu 
o arquivo em cima da mesa.
    Lia devagar, concentrando-se para no deixar escapar detalhes. Quando voltou a fechar o arquivo, tarde da noite, enchera vrias pginas do seu bloco com pontos 
de referncia e perguntas cuja resposta esperava encontrar nos arquivos seguintes. Tudo estava organizado em ordem cronolgica; no sabia ao certo se Henrik Vanger 
classificara assim ou se era esse o sistema da polcia nos anos 1960.
    A primeira folha era a fotocpia de um formulrio de declarao, preenchido  mo, do comissariado central da polcia de Hedestad. O agente que atendera o chamado 
assinara Ap Ryttinger, o que Mikael interpretou como "agente de planto". Henrik Vanger fora designado como declarante, seu endereo e nmero de telefone estavam 
anotados. O relatrio trazia a data: domingo, 23 de setembro de 1966, 11h 14. O texto era breve e seco:
    
    Chamado de Hrk Vanger inf. que sua sobrinha (?) Harriet Ulrika Vanger, nascida em 15 jan. 1950 (16 anos), desapareceu do seu domiclio na ilha Hedeby desde sbado 
 tarde. O declarante demonstra grande inquietao.
    
    s 11h20, uma nota estabelecia que P-014 (policial? patrulha? piloto de uma lancha?) fora despachado ao local.
    s 1 lh35, outro texto, mais difcil de interpretar que o de Ryttinger, acrescentava que Magnusson inf. ponte Hedeby ilha cont. fechada. Transp. por barco. Na 
margem, a assinatura era ilegvel.
    s 12hl4, Ryttinger novamente: Chamada tel. Magnusson em H-by inf. que Harriet Vanger, 16 anos, est ausente desde comeo tarde de sbado. Fam. demonstra grande 
inquietao. Aparentemente no dormiu em sua cama. No pde deixar ilha por causa acidente na ponte. Nenhum dos membros da famlia sabe onde HV se encontra.
    s 12h l9: G. M. informado do caso por tel.
    A ltima informao fora anotada s 13h42: G. M. chegou a H-by; encarrega-se do caso.
    
    A folha seguinte revelava que as misteriosas iniciais G. M. referiam-se a Gustav Morell, um inspetor de polcia que chegara de barco  ilha Hedeby, assumira 
o comando das operaes e fizera uma declarao formal sobre o desaparecimento de Harriet Vanger. Ao contrrio das notas preliminares com suas abreviaes, os relatrios 
de Morell estavam escritos  mquina e numa prosa legvel. Nas pginas seguintes, ele relatava as medidas que haviam sido tomadas com uma objetividade e uma riqueza 
de detalhes que surpreenderam Mikael.
    Morell fora sistemtico. Primeiro interrogara Henrik Vanger em companhia de Isabella Vanger, a me de Harriet. A seguir falara sucessivamente com Ulrika Vanger, 
Harald Vanger, Greger Vanger, com o irmo de Harriet, Martin Vanger, e Anita Vanger. Mikael concluiu que essas pessoas haviam sido interrogadas segundo uma espcie 
de escala de importncia decrescente.
    Ulrika Vanger era a me de Henrik e parecia ter um estatuto semelhante ao de uma rainha-me. Ulrika morava na casa Vanger e no tinha nenhuma informao para 
dar. Fora deitar-se cedo na vspera e fazia dias no via Harriet. Na verdade, ela s insistira em falar com o inspetor Morell para expressar sua opinio de que a 
polcia devia agir imediatamente.
    Harald Vanger era o irmo de Henrik e o nmero dois na lista dos membros influentes da famlia. Ele explicava que tinha visto Harriet muito rapidamente quando 
ela voltou do desfile em Hedestad, mas que no a vira desde que o acidente ocorrera na ponte e no sabia onde ela se encontrava no momento.
    Greger Vanger, irmo de Henrik e Harald, declarava que vira a jovem desaparecida quando ela tinha ido ao escritrio de Henrik pedir para conversar com o tio-av 
aps sua ida a Hedestad, na manh de sbado. Greger acrescentava que no dirigira a ela seno um bom-dia. No sabia onde ela podia estar, mas achava que decerto 
fora  casa de alguma colega sem avisar ningum e que seguramente no tardaria a voltar. No soube responder  pergunta de como, ento, ela teria deixado a ilha.
    Martin Vanger fora interrogado s pressas. Aluno do ltimo ano num colgio de Uppsala, morava nessa cidade na casa de Harald Vanger. Como no houve lugar para 
ele no carro de Harald, viera de trem a Hedeby. Chegou to tarde que ficou preso do outro lado da ponte e s pde chegar  ilha tarde da noite, de barco. Fora interrogado 
na esperana de que a irm pudesse ter se aberto com ele e talvez confessado a inteno de fugir. A pergunta fora recebida com protestos da me de Harriet, mas o 
inspetor Morell julgou naquele instante que uma fuga representava antes uma esperana. Martin, porm, no falava com a irm desde as ltimas frias e no tinha nenhuma 
informao importante a dar.
    Anita Vanger, a filha de Harald, era apresentada, de maneira errnea, como "prima" de Harriet na realidade, Harriet era filha do primo de Anita. Estava no primeiro 
ano da faculdade em Estocolmo e passara o vero em Hedeby. Tinha quase a mesma idade que Harriet e as duas eram muito amigas. Ela declarava que chegara  ilha com 
o pai no sbado, que se alegrara em poder rever Harriet, mas que no tivera tempo para isso. Anita dizia-se inquieta porque no era prprio de Harriet desaparecer 
sem dizer nada  famlia. Nisso concordava tanto com Henrik quanto com Isabella Vanger.
    Enquanto interrogava os membros da famlia, o inspetor Morell ordenara aos agentes de polcia Magnusson e Bergman  a patrulha 014!  que organizassem uma primeira 
busca antes do anoitecer. A ponte continuava fechada, era difcil trazer reforos do continente; o primeiro grupo de busca foi formado por cerca de trinta pessoas 
disponveis, homens e mulheres de idades variadas. At o final da tarde foram examinadas as cabanas desabitadas no porto de recreio, as praias do promontrio e as 
margens do canal, a parte arborizada perto do povoado e tambm o monte Sul, acima do porto de recreio, isso depois de algum sugerir que Harriet talvez tivesse subido 
l para obter uma boa viso geral do acidente na ponte. Patrulhas foram igualmente enviadas a stergarden e ao chal de Gottfried do outro lado da ilha, para onde 
Harriet ia de vez em quando.
    No entanto as buscas no deram em nada e foram interrompidas com a noite j avanada, por volta das dez horas. Na madrugada, a temperatura cara a zero grau.
    Durante a tarde, o inspetor Morell instalara seu QG numa sala que Henrik Vanger pusera  sua disposio no andar trreo da casa Vanger. Ele tomou uma srie de 
providncias.
    Acompanhado de Isabella Vanger, inspecionou o quarto de Harriet para tentar descobrir se faltava alguma coisa, roupas, uma sacola ou algo semelhante que pudesse 
indicar que Harriet fugira, Isabella, pouco prestativa, no parecia ter a menor idia do guarda-roupa da filha. Ela geralmente veste jeans, mas so todos parecidos. 
A bolsa de Harriet foi encontrada em cima da escrivaninha. Continha sua carteira de identidade, um porta-moedas com nove coroas e cinquenta centavos, um pente, um 
espelhinho e um leno. Aps a inspeo, o quarto de Harriet foi lacrado.
    Morell interrogou outras pessoas, tanto membros da famlia quanto empregados. Todos os interrogatrios foram minuciosamente registrados.
    Como os participantes da primeira batida iam voltando aos poucos e sem informaes proveitosas, o inspetor decidiu realizar buscas mais sistemticas. No comeo 
da noite, reforos foram chamados; Morell entrou em contato, entre outros, com o presidente do clube de orientao de Hedestad, pedindo-lhe que convocasse seus membros 
para uma batida. Por volta da meia-noite, responderam-lhe que cinquenta e trs atletas ativos, sobretudo da categoria jnior, estariam na casa Vanger s sete da 
manh do dia seguinte. A contribuio de Henrik Vanger fora convocar, pura e simplesmente, toda a equipe da manh da fbrica de papel Vanger local, cinquenta homens, 
alm de providenciar bebida e comida para todo esse pessoal.
    Mikael Blomkvist no teve nenhuma dificuldade em imaginar as cenas que devem ter se passado na casa Vanger durante aqueles dias repletos de acontecimentos. Estava 
claro que o acidente na ponte contribura para a confuso das primeiras horas, seja complicando a possibilidade de obter reforos eficazes, seja porque todos achavam 
que dois acontecimentos to dramticos ocorridos no mesmo lugar e na mesma hora tinham necessariamente uma ligao. Depois que retiraram o caminho-tanque da ponte, 
contra todas as probabilidades, o inspetor Morell fora certificar-se pessoalmente de que Harriet no se achava sob os destroos. Foi a nica ao irracional que 
Mikael identificou nos procedimentos do inspetor, pois a jovem desaparecida fora comprovadamente vista na ilha depois de ocorrido o desastre. No entanto, sem que 
pudesse explicar a si mesmo por qu, o responsvel pelas investigaes no conseguia tirar da cabea a idia de que um dos acontecimentos havia, de algum modo, provocado 
o outro.
    
    
    As primeiras vinte e quatro horas viram minguar as esperanas de um desfecho rpido e feliz do caso, substitudas gradualmente por duas especulaes. Apesar 
das dificuldades evidentes de poder abandonar a ilha sem ser vista, Morell no queria excluir a possibilidade de Harriet ter fugido. Decidiu ampliar as buscas e 
ordenou que os policiais da patrulha em Hedestad ficassem de olhos abertos. Tambm passou a um colega da diviso criminal a tarefa de interrogar motoristas de nibus 
e o pessoal da ferrovia, para o caso de algum a ter visto.
    Quanto mais respostas negativas chegavam, mais parecia provvel que Harriet fora vtima de um acidente. Essa hiptese passou a dominar a organizao das buscas 
nos dias seguintes.
    Dois dias depois do desaparecimento, uma grande batida foi realizada, e, de acordo com a avaliao de Mikael Blomkvist, com a maior competncia. Policiais e 
bombeiros com experincia em casos semelhantes comandaram as buscas. Embora houvesse algumas reas de difcil acesso, a superfcie era limitada e a ilha inteira 
foi submetida a uma operao pente-fino. Um barco da polcia e dois de recreio, voluntrios, sondaram da melhor maneira possvel as guas ao redor da ilha.
    No dia seguinte, as buscas foram retomadas com uma equipe reduzida. Dessa vez, patrulhas foram enviadas a uma segunda batida nos pontos de acesso mais difcil, 
bem como numa rea chamada "A Fortificao"  um conjunto de bunkers abandonados que a defesa costeira havia montado durante a Segunda Guerra. Assim foram examinados 
nesse dia todos os pequenos redutos, poos, grutas, depsitos e pores do povoado.
    Podia-se ler uma certa frustrao numa nota de servio que anunciava a interrupo das buscas no terceiro dia aps o desaparecimento. Naturalmente Gustav Morell 
ainda no tinha conscincia disto, mas naquele instante, na realidade, ele havia atingido o ponto culminante de suas buscas, o qual jamais ultrapassaria. Mergulhado 
na maior perplexidade, no sabia como recomendar a prxima etapa lgica ou um local onde as buscas devessem recomear. Harriet Vanger aparentemente sumira no ar, 
e o calvrio de Henrik Vanger, que haveria de prosseguir por quarenta anos, estava apenas comeando.
    
   9.         SEGUNDA-FEIRA 6 DE JANEIRO 
    QUARTA-FEIRA 8 DE JANEIRO
    
    
    Mikael continuou lendo at o amanhecer e levantou-se tarde no Dia de Reis. Um Volvo azul-marinho, ltimo tipo, estava estacionado diante da casa de Henrik Vanger. 
No momento em que Mikael punha a mo na maaneta da porta, ela se abriu e um homem de uns cinquenta anos saiu. Por pouco no colidiram. O homem parecia apressado.
     Sim, posso ajud-lo?
     Vim ver Henrik Vanger  respondeu Mikael.
    O olhar do homem se abrandou. Ele sorriu e estendeu a mo.
     Voc deve ser Mikael Blomkvist, o homem que vai ajudar Henrik a fazer a crnica da famlia, no?
    Mikael assentiu com a cabea e apertou-lhe a mo. Aparentemente, Henrik j comeara a espalhar a histria que, para todos os efeitos, explicaria a presena de 
Mikael em Hedestad. O homem tinha excesso de peso  resultado dos muitos anos de estresse em escritrios e salas de reunio , mas Mikael notou imediatamente em 
seu rosto traos que lembravam Harriet Vanger.
     Sou Martin Vanger  ele confirmou.  Bem-vindo a Hedestad.
     Obrigado.
     Vi voc na televiso no faz muito tempo.
     Tenho a impresso de que o mundo todo me viu na televiso.
     Wennerstrm no ... muito popular nesta casa.
     Foi o que Henrik me disse. Estou esperando o desenrolar da histria.
     Ele me contou outro dia que o havia contratado.  Martin Vanger deu uma risada.  Disse-me que foi provavelmente por causa de Wennerstrm que voc aceitou 
este trabalho.
    Mikael hesitou um segundo antes de se decidir a falar com franqueza.
     Admito que  uma das razes. Mas, para ser franco, estava precisando me afastar de Estocolmo, e Hedestad apareceu na hora certa, acho. No posso fazer de conta 
que o processo no existiu. Terei que cumprir uma pena de priso.
    Martin Vanger assentiu com a cabea e voltou a ficar srio.
     Voc tem a possibilidade de recorrer?
     No meu caso no adiantaria nada. Martin consultou seu relgio.
     Preciso estar em Estocolmo hoje  noite. Estou com pressa, voltarei dentro de alguns dias. V jantar l em casa qualquer dia. Tenho muita vontade de ouvir 
o que realmente se passou nesse processo.
    Apertaram-se de novo as mos antes de Martin descer e abrir a porta do Volvo. Ele se virou e disse a Mikael:
     Henrik est no andar de cima. V at l.
    
    
    Henrik Vanger estava sentado no sof de seu escritrio com o Hedestads-Kuriren, o Dagens Industri, o Svenska Dagbladet e os dois jornais vespertinos sobre a 
mesa diante dele.
     Encontrei Martin na entrada.
     Est partindo em socorro do imprio  respondeu Henrik, brandindo a garrafa trmica.  Caf?
     Sim, aceito  respondeu Mikael. Sentou-se, perguntando-se por que Henrik Vanger parecia divertir-se tanto.
     Esto falando de voc no jornal.
    Henrik Vanger empurrou um dos jornais da noite, aberto na manchete "Curto-circuito jornalstico". O artigo era escrito por um ex-cronista do Finansmagasinet 
Monopol, o perfeito inspido de terno e gravata, especialista na arte de denegrir todos os que se engajavam em alguma causa ou que ousavam levantar a cabea. Feministas, 
anti-racistas e militantes do meio ambiente podiam contar com suas farpas, sem que ele prprio emitisse nenhuma opinio passvel de controvrsia. Mas agora, aparentemente, 
convertera-se em crtico; semanas aps o julgamento do caso Wennerstrm, passou a focalizar suas energias contra Mikael Blomkvist, que descrevia com todas as letras 
como um verdadeiro idiota. Erika Berger era pintada como um vaso decorativo da mdia, perfeitamente incompetente:
    
Corre o rumor de que a Millennium est sucumbindo, embora sua diretora seja uma feminista de minissaia e desfile seu mau humor na tev. Por vrios anos a revista 
sobreviveu da imagem que a redao conseguiu vender  a de jovens reprteres vidos por investigaes que desmascaram os vigaristas do mundo dos negcios. O truque 
comercial talvez funcione com jovens anarquistas desejosos de ouvir essa mensagem, mas no funciona no tribunal. E o Super-Blomkvist acaba de comprovar isso.
    
    Mikael verificou no celular se havia alguma chamada de Erika. No havia nenhuma. Henrik Vanger esperava, silencioso. Mikael percebeu de repente que o velho pretendia 
que ele interrompesse o silncio.
     Ele  um cretino  disse Mikael.
    Henrik riu, mas acrescentou um comentrio desprovido de qualquer sentimentalismo:
      possvel. Mas no foi ele que foi condenado pela Justia.
      verdade. E tambm nunca ser. No  o tipo que gosta de investigar, pega sempre o trem em marcha e joga a ltima pedra nos termos mais degradantes possveis.
     Cansei de encontrar gente assim na minha vida. Um bom conselho, se  que quer aceitar um conselho meu: ignore-o quando ele estiver provocando, nunca esquea 
nada e d-lhe o troco quando puder. Mas no agora que ele ataca em posio de fora.
    Mikael o interrogou com o olhar.
     Tive numerosos inimigos ao longo dos anos e aprendi uma coisa: no aceitar o combate quando  certo que se vai perder. Em compensao, jamais d folga a quem 
o demoliu. Seja paciente e responda quando estiver em posio de fora, mesmo que no haja mais necessidade de responder.
     Obrigado por essa aula de filosofia. Mas agora gostaria que me falasse da sua famlia.  Mikael colocou um gravador na mesa entre os dois e acionou a tecla.
     O que deseja saber?
     Li o primeiro arquivo, sobre o desaparecimento de Harriet e as buscas dos primeiros dias. Mas h tantos Vanger que no consigo distinguir um do outro.
    
    
    Imvel no hall do elevador vazio, Lisbeth Salander permaneceu durante cerca de dez minutos com o olhar fixo na placa de metal amarelo que anunciava Dr. N. E. 
Bjurman, advogado, antes de tocar a campainha. A fechadura da porta emitiu um pequeno estalo.
    Era tera-feira. Era o segundo encontro e ela tinha maus pressentimentos.
    No que tivesse medo do dr. Bjurman  Lisbeth Salander raramente tinha medo das pessoas ou das coisas. Mas sentia um profundo mal-estar diante desse novo tutor. 
O predecessor de Bjurman, o dr. Holger Palmgren, tinha uma ndole bem diferente; correto, corts e amvel. Sua relao com ele terminara brutalmente trs meses antes, 
Palmgren sofrera um derrame cerebral. E Nils Erik Bjurman o sucedera segundo uma lgica administrativa que ela no entendia.
    Durante os doze anos em que Lisbeth Salander foi objeto de cuidados sociais e psiquitricos, dois deles passados numa clnica peditrica, em nenhum momento ela 
respondeu  nem uma vez sequer   simples pergunta "Como voc est se sentindo hoje?".
    Lisbeth Salander tinha treze anos quando o tribunal de primeira instncia, cumprindo a lei de proteo a menores, decidiu que ela deveria ser internada na clnica 
de psiquiatria infantil Sankt Stefan, em Uppsala. A deciso se baseava principalmente num parecer segundo o qual ela apresentava distrbios psiquitricos e era considerada 
potencialmente perigosa para seus colegas de classe e eventualmente para si mesma.
    Essa suposio se apoiava mais em julgamentos empricos do que numa anlise cuidadosa. Cada tentativa de mdicos e professores para iniciar uma conversa sobre 
seus sentimentos, seus pensamentos ou seu estado de sade sempre esbarrara, para grande frustrao deles, num silncio compacto, obtuso e num olhar obstinadamente 
dirigido ao cho, ao teto e s paredes. Ela cruzava os braos de modo sistemtico e se recusava a participar de testes psicolgicos. Sua total resistncia a todas 
as tentativas de medi-la, pes-la, cartograf-la, analis-la e educ-la se aplicava tambm aos trabalhos escolares  as autoridades podiam lev-la a uma sala de 
aula e acorrent-la  carteira, mas no podiam impedi-la de tapar os ouvidos e de se recusar a pegar uma caneta na hora dos testes. Ela deixou a escola sem um boletim 
de avaliao.
    O simples estabelecimento de um diagnstico sobre seus problemas mentais revelou-se, portanto, algo complicado. Lisbeth Salander era tudo, menos uma pessoa manejvel.
    Tinha treze anos quando foi tomada tambm a deciso de atribuir-lhe um administrador ad hoc para zelar por seus interesses e bens at a maioridade. O administrador 
designado, o advogado Holger Palmgren, apesar de um comeo relativamente difcil, foi bem-sucedido onde psiquiatras e mdicos fracassaram. Aos poucos, ganhou no 
apenas uma certa confiana mas tambm uma pequena afeio dessa menina complicada.
    Quando completou quinze anos, os mdicos puseram-se mais ou menos de acordo sobre ela no ser violenta e perigosa e no constituir um perigo para si mesma. Como 
sua famlia fora declarada incompetente, e no havendo mais ningum que pudesse se responsabilizar por seu bem-estar, decidiu-se que Lisbeth Salander poderia deixar 
a clnica de Uppsala e retornar  sociedade por intermdio de uma famlia substituta.
    A operao no foi simples. Ela fugiu da casa da primeira famlia substituta j na segunda semana. As famlias nmero 2 e nmero 3 tambm foram descartadas rapidamente. 
Palmgren teve ento uma conversa sria com ela e explicou que, se prosseguisse naquele caminho, fatalmente acabaria voltando a uma instituio. A falsa ameaa fez 
que ela aceitasse a famlia nmero 4  um casal idoso que morava em Midsommarkransen.
    
    
    Isso no quis dizer que ela se transformou em uma moa bem-comportada. Com dezessete anos, Lisbeth Salander foi detida pela polcia quatro vezes, duas delas 
num estado de embriaguez to avanado que precisou ser levada ao hospital, e uma vez sob o efeito de drogas. Numa dessas ocasies, encontraram-na completamente bbada 
e com as roupas em desordem no banco traseiro de um carro estacionado na Sder Mlarstrand. Estava acompanhada de um homem tambm embriagado e consideravelmente 
mais velho que ela.
    A ltima interveno ocorrera trs semanas antes de ela completar dezoito anos, quando desferiu um pontap na cabea de um passageiro na estao de metr de 
Gamla Stan. Estava perfeitamente sbria. O incidente lhe valeu um indiciamento por insulto e agresso. Salander justificou o gesto dizendo que o homem a bolinara 
e, como sua aparncia era de algum de doze e no de dezoito anos, ela achou que o bolinador tinha tendncias pedfilas. Na medida,  claro, em que conseguiu explicar 
alguma coisa. Contudo, suas declaraes foram sustentadas por testemunhas e o promotor arquivou o caso.
    Mesmo assim, com base em informaes sobre seu passado, o tribunal ordenou um exame psiquitrico. Fiel a seus hbitos, ela se recusou a responder s perguntas 
e a participar dos exames, e os mdicos consultados pela direo de Sade e Assistncia Social acabaram dando um parecer sobre "suas observaes da paciente". O 
que exatamente se podia observar no caso de uma jovem sempre calada, sentada de braos cruzados e com expresso amuada, era um tanto vago. Ficou estabelecido apenas 
que ela sofria de problemas psquicos que requeriam tratamento. O relatrio mdico-legal preconizava um acompanhamento numa instituio psiquitrica. Paralelamente, 
um subdiretor da comisso de assistncia social redigiu um relatrio no qual constavam as concluses da percia psiquitrica.
    Referindo-se ao quadro de Lisbeth Salander, o relatrio mencionava um grande risco de abuso de lcool ou de drogas e falta de instinto de preservao. Seu caso 
era descrito em termos categricos: introvertida, socialmente limitada, ausncia de empatia, egocntrica, comportamento psicopata e anti-social, dificuldades de 
colaborao e de aprendizado. Quem lesse o dossi podia facilmente concluir que ela tinha um grave retardo. Outro fato tambm a prejudicava: a equipe de interveno 
dos servios sociais a observara diversas vezes na companhia de diferentes homens nos arredores da rua Mariatorget. Certa vez, fora tambm interpelada no parque 
Tantolunden, de novo acompanhada de um homem consideravelmente mais velho. Supunha-se que, de uma forma ou de outra, Lisbeth Salander praticava, ou corria o risco 
de comear a praticar, a prostituio.
    No dia em que o tribunal de primeira instncia  a jurisdio  qual cabia determinar seu futuro  se reuniu para tomar uma deciso sobre o caso, a sada parecia 
traada de antemo. Sendo manifestamente uma jovem com problemas, era pouco provvel que os magistrados seguissem outro caminho que no as recomendaes dadas pelo 
inqurito social e pelo inqurito de psiquiatria legal.
    Na manh do dia em que deveria comparecer ao tribunal, foram buscar Lisbeth Salander na clnica psiquitrica onde ela estava internada desde o incidente na estao 
de Gamla Stan. Ela se sentia como um boi no matadouro, sem a menor esperana de sobrevivncia. A primeira pessoa que avistou na sala de audincia foi Holger Palmgren, 
e ela demorou um momento at entender que ele no estava ali na qualidade de administrador, mas como seu advogado e conselheiro jurdico. Descobriu ento um novo 
aspecto desse homem.
    Para sua grande surpresa, Palmgren estava a seu lado no canto do ringue e argumentou vigorosamente contra a proposta de internao. Ela no deixou transparecer 
surpresa nem sequer erguendo uma sobrancelha, mas escutou intensamente cada palavra pronunciada por ele. Palmgren mostrou-se brilhante durante as duas horas em que 
interrogou o dr. Jesper H. Lderman, o mdico que assinara a recomendao de encerrar Salander numa instituio. Tudo o que o relatrio dizia foi discutido e o mdico 
chamado a explicar o fundamento cientfico de cada afirmao. Aos poucos ficou evidente, visto que a paciente se recusara a se submeter aos testes, que as concluses 
mdicas se baseavam apenas em suposies e no numa certeza.
    No final das deliberaes do tribunal, Palmgren deu a entender que, muito provavelmente, uma internao coercitiva no apenas se opunha s decises do Parlamento 
sobre questes desse gnero mas tambm podia se tornar um cavalo de batalha para os polticos e a mdia. Portanto, era do interesse de todos encontrar uma alternativa 
conveniente. Tal linguagem no era habitual nas deliberaes desse tipo de caso, e os membros do tribunal manifestaram certa inquietao.
    A soluo foi, de fato, um acordo poltico. O tribunal de primeira instncia estabeleceu que Lisbeth Salander sofria de doena mental, mas que sua loucura no 
requeria necessariamente internao. Em troca, levou-se em conta a recomendao, feita pelo diretor da assistncia social, de uma tutela. Ao que o presidente do 
tribunal se virou com um sorriso venenoso em direo a Holger Palmgren, que at ento fora o administrador ad hoc de Salander, perguntando-lhe se aceitava assumir 
esse papel. O presidente esperava evidentemente que o advogado recuasse e tentasse tirar o corpo fora, mas Palmgren declarou, ao contrrio, que se encarregaria com 
prazer da tarefa de tutoriar a srta. Salander  com uma condio.
    "Isso pressupe, evidentemente, que a senhorita Salander tenha confiana em mim e me aceite como tutor."
    E virou-se para ela. Lisbeth Salander estava um pouco perplexa aps as trocas de rplicas disparadas acima de sua cabea ao longo de toda a jornada. At ento, 
nunca ningum pedira sua opinio. Ela olhou demoradamente para Holger Palmgren e ento assentiu com a cabea uma vez.
    
    
    Palmgren era uma mistura estranha de jurista e trabalhador social da velha escola. No incio da carreira, fora membro da comisso de assistncia social e dedicara 
quase toda a vida a lidar com crianas difceis. Um respeito constrangido, que beirava a amizade, se estabeleceu entre o advogado e sua protegida incomparavelmente 
mais difcil.
    A relao dos dois durou onze anos, desde os treze anos de Lisbeth at o final do ano anterior, quando ela fora  casa de Palmgren algumas semanas antes do Natal, 
j que ele no comparecera a um de seus encontros marcados. Como ele no abriu a porta, embora se ouvissem rudos no apartamento, ela entrou por fora, escalando 
um tubo de escoamento pluvial at a sacada do quarto andar. Encontrou-o estendido no vestbulo, consciente mas incapaz de falar e de se mover aps um derrame cerebral. 
Ela chamou a ambulncia e o acompanhou ao hospital com uma sensao crescente de pnico no estmago. Durante trs dias e trs noites, ela praticamente no deixou 
o corredor da UTI. Como um co de guarda fiel, vigiava cada passo dos mdicos e enfermeiras que entravam e saam. Andava pelo corredor de um lado para o outro e 
cravava os olhos em cada mdico que se aproximava dela. Finalmente, um mdico, cujo nome ela nunca soube, a introduziu numa sala e lhe explicou a gravidade da situao. 
O estado de Holger Palmgren era crtico aps uma grave hemorragia cerebral. Provavelmente no recuperaria a conscincia. Tinha apenas sessenta e quatro anos. Ela 
no chorou nem demonstrou o menor sentimento. Levantou-se, deixou o hospital e nunca mais retornou.
    Cinco semanas depois, a comisso de tutelas convocou Lisbeth Salander para um primeiro encontro com o novo tutor. Seu primeiro impulso foi ignorar a convocao, 
mas Holger Palmgren inculcara cuidadosamente em sua conscincia que todo ato acarreta consequncias. Nesse estgio, ela aprendera a analisar as consequncias antes 
de agir e, refletindo melhor, concluiu que a sada mais indolor para aquele dilema era satisfazer a comisso de tutelas, comportando-se como se a opinio deles realmente 
importasse.
    Assim, em dezembro apresentou-se docilmente  uma curta pausa na investigao sobre Mikael Blomkvist  no escritrio de Bjurman na rua Sankt Eriksplan, onde 
uma mulher de idade, representante da comisso, entregara o volumoso dossi ao advogado. A senhora perguntou-lhe gentilmente como estava e pareceu satisfeita com 
o silncio obstinado que obteve como resposta. Ao cabo de meia hora, deixou Salander aos cuidados de Bjurman.
    Lisbeth Salander detestou o advogado cinco segundos depois de apertar-lhe a mo.
    Examinou-o furtivamente enquanto ele lia o dossi. Pouco mais de cinquenta anos. Corpo atltico, de quem joga tnis s teras e sextas-feiras. Louro. Cabelos 
finos. Covinha no queixo. Loo de barba Boss. Terno azul. Gravata vermelha com alfinete dourado e botes no punho da camisa com as iniciais N. E. B. culos com 
armao metlica. Olhos cinzentos. A julgar pelas revistas em cima de uma mesa baixa, interessava-se por caa e tiro.
    Durante os dez anos em que se encontrara regularmente com Palmgren, ele lhe oferecia caf e conversava com ela. Mesmo suas piores fugas das famlias substitutas 
ou suas ausncias sistemticas da escola no conseguiram desestabiliz-lo. A nica vez que Palmgren ficou realmente furioso foi quando a indiciaram por insulto e 
agresso ao sujeito nojento que a tinha bolinado no metr. Percebe o que fez? Voc atacou um ser humano, Lisbeth. Parecia um velho professor e ela pacientemente 
ignorou cada palavra da descompostura.
    Bjurman no estava disposto a conversar. Logo de incio constatou que havia incompatibilidade entre os deveres de Holger Palmgren previstos pelo regulamento 
da tutela e o fato de ele aparentemente ter deixado que a prpria Lisbeth Salander administrasse seu apartamento e seu oramento. Fez uma espcie de interrogatrio. 
Quanto voc ganha? Quero uma cpia da sua contabilidade. Quem so seus amigos? Paga o aluguel em dia? Costuma beber? Palmgren estava de acordo com esses anis que 
tem no rosto?  cuidadosa em matria de higiene?
    V se foder!
    Palmgren tornara-se seu administrador ad hoc pouco depois que todo o Mal aconteceu. Ele insistira em v-la pelo menos uma vez por ms em encontros fixos, e s 
vezes com mais frequncia. Desde que ela retornara  Lundagatan, eles eram praticamente vizinhos. Palmgren morava na Hornsgatan, perto da casa dela, e quase sempre 
se cruzavam e iam tomar um caf no Giffy ou em outra parte do bairro. Palmgren nunca fora importuno, mas s vezes passava para v-la com um presentinho de aniversrio, 
por exemplo. Ela tinha o convite permanente para visit-lo a qualquer momento, privilgio que raramente usou, mas nos ltimos anos passara as vsperas de Natal na 
casa dele depois de visitar a me. Comiam peru de Natal e jogavam xadrez. Esse jogo de modo nenhum a interessava, mas, depois que aprendeu as regras, no perdeu 
uma s partida. Palmgren era vivo e Lisbeth Salander encarava como um dever seu ter piedade dele e de sua solido nesses dias de festa.
    Achava que lhe devia isso, e ela sempre pagava suas dvidas.
    Palmgren  que sublocara o apartamento da me na Lundagatan at que Lisbeth tivesse necessidade de lugar prprio para morar. O apartamento de quarenta e nove 
metros quadrados estava decrpito e sujo, mas ainda assim era um teto.
    Agora Palmgren se fora, e outro lao com a sociedade normal acabava de ser desfeito. Nils Bjurman era outro tipo de gente. Ela no imaginava passar uma vspera 
de Natal na casa dele. A primeira medida que ele tomou foi estabelecer novas regras sobre o acesso  conta bancria na qual era depositado seu salrio. Palmgren 
fechara gentilmente os olhos para o regime das tutelas e deixara que ela mesma administrasse seu oramento. Lisbeth pagava as contas e podia utilizar sua poupana 
quando bem entendesse.
    Tendo se preparado para o encontro com Bjurman na semana anterior ao Natal, ela tentou explicar a ele que seu predecessor confiara nela e que ela nunca o decepcionara. 
Palmgren deixara-a conduzir o barco sem se intrometer em sua vida particular.
     Esse  justamente um dos problemas  respondeu Bjurman, tamborilando sobre a pasta do dossi.
    Depois fez um longo discurso a respeito das regras e dos decretos administrativos referentes s tutelas, antes de inform-la que uma nova ordem entraria em vigor.
     Ele deixou que voc agisse  vontade, no foi? Eu me pergunto como conseguiu no bater com o martelo nos dedos.
    Porque fazia quarenta anos que o velho cuidava de adolescentes com problemas, seu imbecil!
     No sou mais uma criana  disse Lisbeth Salander, como se isso bastasse como explicao.
     No, no  mais uma criana. Mas fui designado para ser seu tutor e, como tal, sou jurdica e economicamente responsvel por voc.
    A primeira medida de Bjurman foi abrir uma nova conta bancria em nome dele, que ela devia indicar  contabilidade da Milton e que seria utilizada da em diante. 
Salander se deu conta de que os dias felizes tinham acabado: agora Bjurman pagaria suas contas e ela teria uma quantia fixa para os gastos mensais e lhe forneceria 
os recibos das despesas. Ele decidiu que ela receberia mil e quatrocentas coroas por semana  "para alimentao, roupas, cinema e coisas do gnero".
    Conforme escolhesse trabalhar muito ou pouco, Lisbeth Salander podia ganhar at cento e sessenta mil coroas por ano. Podia facilmente dobrar essa quantia se 
trabalhasse em tempo integral e aceitasse todas as misses que Dragan Armanskij viesse a propor. Por outro lado, tinha poucas contas a pagar e no gastava muito. 
O apartamento custava-lhe duas mil coroas por ms e, apesar de seus rendimentos modestos, tinha noventa mil coroas na conta de poupana. Poupana da qual no ia 
mais poder dispor livremente.
     Eu sou o responsvel pelo seu dinheiro  ele explicou.  Voc deve reservar um dinheiro para o futuro. Mas no se preocupe, eu me encarregarei disso.
    Eu mesma me encarrego disso h dez anos, seu babaca!
     Est se saindo suficientemente bem de um ponto de vista social para no precisar ser internada, mas a sociedade  responsvel por voc.
    Ele a interrogou em detalhe sobre suas tarefas na Milton Security. Instintivamente, ela mentiu sobre seu trabalho. A resposta que forneceu era uma descrio 
do que havia feito nas primeiras semanas de trabalho. Assim, Bjurman teve a impresso de que ela apenas fazia o caf e selecionava a correspondncia  atividades 
de uma pessoa de pouca inteligncia  e pareceu satisfeito com as respostas.
    Ela no sabia por que mentira, mas estava convencida de que agira bem.
    Mesmo que o advogado Bjurman figurasse numa lista de espcies de insetos ameaadas de extino, no teria hesitado em esmag-lo com o calcanhar.
    
    
    Mikael Blomkvist passou cinco horas na companhia de Henrik Vanger e dedicou uma parte da noite e a tera-feira toda para organizar suas notas e montar o quebra-cabea 
genealgico dos Vanger. A histria familiar que resultava das conversas com Henrik era uma verso muito diferente da que era dada no retrato oficial da famlia. 
Mikael sabia perfeitamente que todas as famlias tm esqueletos no armrio. A famlia Vanger tinha um cemitrio inteiro.
    Mikael precisou lembrar-se vrias vezes de que seu trabalho real no era escrever uma biografia da famlia Vanger, mas desvendar o que acontecera com Harriet 
Vanger. Aceitara a misso convencido de que, na realidade, desperdiaria um ano com a bunda numa cadeira e de que os esforos que faria por Henrik Vanger no levariam 
a nada. Ao cabo de um ano, receberia um salrio extravagante  o contrato redigido por Dirch Frode fora assinado. Mas o verdadeiro salrio, ele esperava, seria a 
informao sobre Hans-Erik Wennerstrm, que Henrik afirmava possuir.
    Depois da conversa com Henrik Vanger, ele comeou a dizer a si mesmo que podia no ser um ano perdido. Um livro sobre a famlia Vanger tinha l seu valor  era 
simplesmente um assunto interessante.
    No lhe passava pela mente, nem por um nico segundo, que pudesse descobrir o assassino de Harriet Vanger  se  que ela fora mesmo assassinada; podia ter sido 
vtima de um acidente absurdo ou desaparecido de outra maneira. Mikael concordava com Henrik sobre a quase improbabilidade de uma jovem de dezesseis anos desaparecer 
por vontade prpria e conseguir permanecer oculta a todos os sistemas de vigilncia oficiais durante trinta e seis anos. Em contrapartida, Mikael no exclua a possibilidade 
de Harriet Vanger ter fugido, para Estocolmo talvez, e de alguma coisa ter acontecido no caminho  drogas, prostituio, uma agresso ou simplesmente um acidente.
    Por seu lado, Henrik estava convencido de que Harriet fora assassinada e de que um membro da famlia era o responsvel  talvez em colaborao com outro. A fora 
do seu raciocnio se baseava no fato de Harriet ter desaparecido durante as horas dramticas de isolamento da ilha, quando todos os olhos estavam voltados para o 
acidente.
    Erika teve razo em dizer a Mikael que seu trabalho era mais do que insensato se o objetivo era resolver o mistrio de um crime, mas ele comeava a entender 
que o destino de Harriet Vanger tivera um papel central na famlia, principalmente para Henrik Vanger. Justificadas ou no, as acusaes de Henrik contra seus familiares 
eram de grande importncia para a histria dessa famlia. Ele os acusava abertamente havia mais de trinta anos e essa suspeita marcara as reunies familiares e criara 
oposies inflamadas que contriburam para desestabilizar o grupo. Examinar o desaparecimento de Harriet, portanto, seria um captulo  parte e at mesmo um fio 
condutor da histria da famlia  e as fontes eram abundantes. Um ponto de partida lgico seria estabelecer uma galeria de personagens  sem se importar se Harriet 
Vanger era sua principal misso ou se ele se contentaria em escrever uma crnica familiar. Foi esse o tema da conversa com Henrik naquele dia.
    A famlia Vanger era constituda de uma centena de pessoas, contando os filhos de primos de primeiro e segundo grau de todos os ramos. A famlia era to numerosa 
que Mikael foi obrigado a criar um banco de dados no notebook. Utilizou o programa NotePad (www.ibrium.se), um desses produtos completos que dois rapazes do KTH 
[Real Instituto de Tecnologia], de Estocolmo, haviam criado e disponibilizado na internet em troca de quase nada. Programas como esse, to indispensveis a um jornalista 
investigativo, eram raros, pensou Mikael. Cada membro da famlia ganhou sua prpria ficha.
    A rvore genealgica podia ser reconstituda com segurana at o comeo do sculo XVI, poca em que o nome era Vangeersad. Segundo Henrik Vanger, o nome talvez 
se originasse do holands Van Geerstad; nesse caso, a rvore genealgica retrocedia ainda mais no tempo, at o sculo XII.
    Numa poca mais recente, a famlia se estabelecera no norte da Frana e chegara  Sucia com Jean-Baptiste Bernadotte no comeo do sculo XIX. Alexander Vangeersad 
no conheceu pessoalmente o rei, mas destacou-se como chefe militar e, em 1818, recebeu as terras de Hedeby em agradecimento por seus longos e fiis servios. Alexander 
Vangeersad obteve assim uma fortuna pessoal que utilizou para adquirir reas florestais bastante extensas no Norrland. Seu filho Adrian nasceu na Frana, mas, a 
pedido do pai, veio morar no canto perdido de Hedeby, longe dos sales parisienses, para administrar a propriedade. Explorando as terras e as florestas com novos 
mtodos importados da Europa, fundou a fbrica de papel em torno da qual Hedestad se desenvolveu.
    O neto de Alexander chamava-se Henrik e reduziu o nome para Vanger. Montou uma rede comercial com a Rssia e criou uma pequena frota de escunas mercantis que 
assegurava a ligao com os pases blticos, a Alemanha e a Inglaterra das metalurgias, em meados do sculo XIX. Henrik Vanger, o antigo, diversificou a empresa 
familiar e iniciou uma modesta explorao de minas e as primeiras indstrias metalrgicas do Norrland. Deixou dois filhos, Birger e Gottfried, que deram incio s 
atividades financeiras da famlia Vanger.
     Voc conhece alguma coisa sobre as antigas leis da herana?  perguntara Henrik Vanger.
     No  exatamente a minha rea de competncia.
     Entendo.  algo que tambm me deixa perplexo. De acordo com a tradio familiar, Birger e Gottfried eram como co e gato, concorrentes legendrios em luta 
por poder e influncia. Essa disputa tornou-se uma ameaa  sobrevivncia da empresa e o pai deles decidiu, pouco antes de morrer, criar um sistema em que cada membro 
da famlia teria uma parte na herana da empresa. Isso provavelmente partiu de um bom sentimento, mas provocou uma situao insustentvel. Em vez de atrair pessoas 
competentes e possveis parceiros do exterior, deparamo-nos com uma direo composta de membros da famlia, cada qual com um ou dois por cento de direito de voto.
     A regra se aplica ainda hoje?
     Totalmente. Se um membro da famlia quiser vender sua parte, ter que ser para algum da famlia. A assemblia geral rene hoje uns cinquenta membros da famlia. 
Martin possui pouco mais de dez por cento das aes. Eu tenho cinco por cento, pois as vendi, entre outros, a Martin. Meu irmo Harald tem sete por cento, mas a 
maioria dos que comparecem s assemblias tem apenas um ou um e meio por cento.
     No acredito. Parece coisa da Idade Mdia.
      completamente absurdo. Significa que, se Martin quiser hoje adotar determinada poltica, ele  obrigado a fazer um lobby em grande escala para conseguir 
o apoio de pelo menos vinte e cinco por cento dos co-proprietrios.  uma mixrdia de alianas, divises e intrigas.
    Henrik Vanger prosseguiu.
     Gottfried Vanger morreu sem filhos em 1901. Perdo: na verdade era pai de quatro filhas, mas naquela poca as mulheres no contavam. Possuam cotas, porm 
eram os homens da famlia que recebiam os juros. Foi s com a introduo do direito de voto, no sculo XX, que as mulheres passaram a assistir s assemblias gerais.
     Muito liberais, pelo que vejo.
     No zombe. Eram tempos diferentes. Seja como for, o irmo de Gottfried, Birger, tinha trs filhos homens: Johan, Fredrik e Gideon Vanger, todos nascidos no 
final do sculo XIX. Podemos eliminar Gideon: ele vendeu sua parte e emigrou para a Amrica, onde seguimos tendo um ramo. Mas Johan e Fredrik fizeram da empresa 
o grupo Vanger moderno.
    Enquanto narrava, Henrik Vanger pegou um lbum com fotos desses personagens. As fotos do comeo do sculo passado mostravam dois homens de queixos vigorosos 
e cabelos lisos de brilhantina olhando para a cmera sem a menor sombra de um sorriso. Depois prosseguiu:
     Johan Vanger era o gnio da famlia. Estudou engenharia e desenvolveu a indstria mecnica com vrias novas invenes que patenteou. O ao e o ferro passaram 
a ser a base do grupo, mas a sociedade estendeu seus negcios a outras reas, como a txtil. Johan Vanger morreu em 1956 e deixou trs filhas, Sofia, Mrit e Ingrid, 
que foram as primeiras mulheres a ter acesso automtico  assemblia geral do grupo. O outro irmo, Fredrik Vanger, era meu pai. Ele foi o homem de negcios, o capito 
de indstria que transformou as invenes de Johan em rendimentos. Meu pai s morreu em 1964. Participou ativamente da direo at sua morte, ainda que, j nos anos 
1950, tivesse me passado a direo do dia-a-dia da empresa. Johan Vanger, ao contrrio da gerao precedente, teve apenas filhas.  Henrik Vanger mostrou fotos de 
mulheres com seios generosos, usando sombrinhas e chapus de abas largas.  E Fredrik, meu pai, teve apenas filhos homens. ramos cinco irmos. Richard, Harald, 
Greger, Gustav e eu.
    
    
    Para tentar situar-se entre todos os membros da famlia, Mikael desenhou uma rvore genealgica em algumas folhas tamanho ofcio coladas pelas pontas. Assinalou 
com um marca-texto o nome dos membros presentes na ilha de Hedeby durante a reunio de famlia em 1966 e que, portanto, ao menos teoricamente, poderiam ter alguma 
ligao com o desaparecimento de Harriet.
    Mikael deixou de lado as crianas com menos de doze anos  partia do princpio de que, qualquer que tenha sido a sorte de Harriet Vanger, ele devia se limitar 
ao que era plausvel. Sem colocar-se muitas questes, omitiu tambm Henrik Vanger  se o patriarca estivesse implicado no desaparecimento da neta do irmo, seus 
procedimentos nos ltimos trinta e seis anos eram um caso psicopatolgico. A me de Henrik Vanger, que em 1966 tinha a venervel idade de oitenta e um anos, podia 
razoavelmente ser riscada tambm. Os vinte e dois membros restantes da famlia, segundo Henrik, deviam entrar no grupo dos "suspeitos". Sete j haviam morrido e 
alguns atingiam idades respeitveis.
    Contudo, Mikael no estava disposto a aceitar sem exame a convico de Henrik de que um membro da famlia era o responsvel pelo desaparecimento de Harriet. 
A lista de suspeitos deviam ser acrescentadas outras pessoas.
    Dirch Frode comeara a trabalhar como advogado de Henrik na primavera de 1962. E, quando Harriet desapareceu, o faz-tudo da poca, Gunnar Nilsson  no importa 
se com um libi ou no , tinha dezenove anos e, assim como seu pai, Magnus Nilsson, estava na ilha de Hedeby, do mesmo modo que o artista pintor Eugen Norman e 
o pastor Otto Falk. E esse Falk, era casado? O fazendeiro de stergarden, Martin Aronsson, assim como seu filho Jerker Aronsson, se encontravam na ilha e foram prximos 
de Harriet Vanger ao longo de toda a sua infncia. Quais eram as relaes deles? Martin Aronsson era casado? Havia outras pessoas na fazenda?
    Quando Mikael escreveu todos os nomes, o grupo chegou a umas quarenta pessoas. Com um gesto de frustrao, jogou longe o marca-texto. J eram trs e meia da 
manh e o termmetro indicava vinte e um graus negativos. A onda de frio parecia querer se instalar. Seu desejo era estar na cama, em sua cama na Bellmansgatan.
    Mikael Blomkvist despertou s nove da manh da quarta-feira, quando o tcnico da Telia bateu  sua porta para instalar a linha telefnica e o modem ADSL. s 
onze j podia se conectar e no se sentia mais em total desvantagem profissional. O telefone, porm, permanecia mudo. Fazia uma semana que Erika no respondia a 
seus chamados. Devia estar realmente zangada. Ele tambm comeava a se sentir um pouco teimoso e recusava-se a cham-la na redao; ao ligar para ela do celular, 
ela podia ver que era ele e decidir se queria atender ou no. Portanto, ela no queria.
    
    
FREDRIK VANGER
(1886-1964) 
esp. Ulrika (1885-1969)
JOHAN VANGER
(1884-1956) 
esp. Gerda (1888-1960)

Richard (1907-1940) 
esp. Margareta (1906-1959)

Gottfried
(1927-1965)
esp. Isabella (1928-)

Martin (1948-) 
Harriet (1950-)

Sofia (1909-1977) 
esp. ke Sjgren (1906-1967)


Magnus Sjgren
(1929-1994)
Sara Sjgren (1931-)
Erik Sjgren (1951-)
Hkan Sjogren (1955-)

Harald (1911-) 
esp. Ingrid
(1925-1992)
Birger (1939-) 
Cecilia (1946-)
Anita (1948-)

Mrit (1911-1988) 
esp. Algot Giinther
(1904-1987)
Ossian Gunther (1930-) 
esp. Agnes (1933-) 
Jakob Gunther (1952-)

Greger (1912-1974) 
esp. Gerda(1922-)

Ingrid (1916-1990) 
esp. Harry Karlman
(1912-1984)
Alexander (1946-)
Gunnar Karlman (1942-)
Maria Karlman (1944-)
Gustav (1918-1955) 
solteiro, sem filhos


Henrik(1920-)
esp. Edith (1921-1958)
sem filhos

    
    
    Seja como for, ele abriu sua caixa de mensagens e passou os olhos pelos trezentos e cinquenta e-mails que lhe haviam sido enviados na ltima semana. Conservou 
uma dzia deles, o resto eram spams ou mailings dos quais era assinante. O primeiro e-mail que abriu era de demokrat88@yahoo.com e dizia: "Espero que nesse buraco 
te faam chupar muitos paus, seu comunista sujo". Mikael arquivou o e-mail numa pasta intitulada Crtica Inteligente. 
    Escreveu uma breve mensagem a erika.berger@millenium.se.

 [Oi, Ricky. Suponho que est com muita raiva de mim, pois no atende os meus chamados. Quero apenas te dizer que agora estou na internet e podemos conversar por 
e-mail, se voc quiser me perdoar. Fora isso, Hedeby  um lugarzinho rstico que vale uma visita. M.]
    
    Na hora do almoo, ps o notebook na bolsa e foi at o Caf Susanne, onde se acomodou na habitual mesa de canto. Quando Susanne lhe serviu um caf com sanduche, 
ela lanou um olhar de curiosidade ao computador e perguntou no que ele estava trabalhando. Mikael utilizou pela primeira vez seu pretexto e explicou que Henrik 
Vanger o contratara para escrever uma biografia. Trocaram algumas palavras polidas. Susanne convidou Mikael a procur-la quando estivesse preparado para as verdadeiras 
revelaes.
     Atendo os Vanger h trinta e cinco anos e conheo a maior parte dos mexericos da famlia  ela falou, antes de voltar  cozinha com um passo meio gingado.
    
    
    O quadro que Mikael desenhou indicava que a famlia Vanger no cessava de produzir novos rebentos. Somando os filhos, netos e bisnetos  que ele nem se deu o 
trabalho de mencionar , os irmos Fredrik e Johan Vanger tinham cerca de cinquenta descendentes. Mikael constatou tambm que havia na famlia uma tendncia  longevidade. 
Fredrik Vanger morrera com setenta e oito anos, seu irmo Johan com setenta e dois. Ulrika Vanger falecera com oitenta e quatro. Dos dois irmos ainda vivos, Harald 
tinha noventa e dois anos e Henrik Vanger oitenta e dois.
    A nica exceo fora Gustav, o irmo de Henrik, morto de uma doena pulmonar aos trinta e sete anos. Henrik explicou que Gustav sempre tivera a sade frgil 
e seguira seu prprio caminho, um pouco  margem do resto da famlia. No se casou nem teve filhos.
    Quanto aos demais, os que morreram jovens no sucumbiram a doenas, mas por outros motivos. Richard Vanger foi morto como voluntrio durante a guerra de Inverno 
da Finlndia, com trinta e quatro anos. Gottfried Vanger, o pai de Harriet, havia se afogado um ano antes do desaparecimento da filha. E a prpria Harriet tinha 
ento somente dezesseis anos. Mikael notou a estranha coincidncia nesse ramo da famlia em que av, pai e filha foram vtimas de acidentes. De Richard restava apenas 
Martin Vanger, que aos cinquenta e cinco anos continuava solteiro e sem filhos. Henrik Vanger informou, porm, que Martin tinha uma companheira, uma mulher que morava 
em Hedestad.
    Martin tinha dezoito anos quando a irm desapareceu. Fazia parte dos raros parentes prximos que, com toda a certeza, no podiam ter ligao alguma com o desaparecimento. 
Naquele outono, ele morava em Uppsala, onde conclua o colegial. Devia participar da reunio de famlia, mas s chegou no fim da tarde e ficou retido do outro lado 
da ponte durante a hora crtica em que a irm evaporou.
    Mikael notou duas outras particularidades na rvore genealgica. A primeira  que os casamentos pareciam ser vitalcios; nenhum membro da famlia Vanger se divorciara 
nem voltara a se casar, mesmo quando o parceiro havia morrido jovem. Perguntou-se qual a frequncia disso em termos estatsticos. Cecilia Vanger estava separada 
do marido havia vrios anos, mas, se Mikael tinha entendido bem, ainda eram casados.
    A outra particularidade  que a famlia parecia geograficamente dividida entre "homens" e "mulheres". Os descendentes de Henrik Vanger, aos quais Henrik pertencia, 
tradicionalmente haviam desempenhado papel de destaque na empresa e morado principalmente em Hedestad ou arredores. Os membros do ramo Johan Vanger  apenas mulheres 
na primeira gerao  espalharam-se por outros cantos do pas; moravam em Estocolmo, Malm e Gteborg ou no exterior, e s vinham a Hedestad para as frias de vero 
e as reunies importantes do grupo. A nica exceo era Ingrid Vanger, cujo filho Gunnar Karlman morava em Hedestad. Era o redator-chefe do jornal local, o Hedestads-Kuriren.
    Na concluso de seu inqurito pessoal, Henrik observava que o "motivo por trs do assassinato de Harriet" devia ser buscado, talvez, na estrutura da empresa 
e no fato de ele ter assinalado muito cedo as qualidades excepcionais de Harriet. A inteno talvez fosse prejudicar o prprio Henrik, ou ento Harriet descobrira 
uma espcie de informao delicada relativa ao grupo e se convertera numa ameaa para algum. Tudo isso no passava de especulao, mas, partindo dessa hiptese, 
ele identificou um crculo de treze pessoas que apresentava como "particularmente interessantes".
    A conversa da vspera com Henrik Vanger tambm esclarecera Mikael sobre outro ponto. Desde a primeira conversa, o velho falara da famlia em termos to desdenhosos 
e degradantes que chegava a ser estranho. Mikael se perguntara se as suspeitas do patriarca sobre a famlia, quanto ao desaparecimento de Harriet, haviam afetado 
seu juzo, mas agora comeava a entender que a avaliao de Henrik era, na verdade, de uma clarividncia estupenda.
    A imagem que comeava a se esboar revelava uma famlia bem-sucedida social e economicamente, mas claramente cheia de disfunes no cotidiano.
    
    
    O pai de Henrik Vanger, homem frio e insensvel, trouxera os filhos ao mundo e depois delegara  esposa o cuidado com sua educao e seu bem-estar. Eles raramente 
viam o pai antes de completarem dezesseis anos, exceto nas festas de famlia s quais deviam comparecer e ficar invisveis. Henrik Vanger no se lembrava do pai 
manifestando, de alguma maneira, algum tipo de amor; ao contrrio, vrias vezes Henrik fora chamado de incompetente e recebera crticas arrasadoras. Castigos corporais 
eram raros por serem desnecessrios. S veio a ganhar o respeito do pai mais tarde, quando passou a trabalhar para o grupo Vanger.
    O irmo mais velho, Richard, se revoltara. Aps uma disputa cujo motivo nunca foi discutido em famlia, Richard partiu para Uppsala com a inteno de l estudar. 
Foi quando iniciou sua carreira nazista, j mencionada por Henrik a Mikael, e que mais tarde o levaria s trincheiras da guerra de Inverno da Finlndia.
    O que o velho ainda no havia contado  que dois outros irmos tomaram caminhos idnticos.
    Harald Vanger e seu irmo Greger seguiram os passos do irmo mais velho em Uppsala, em 1930. Harald e Greger eram muito prximos, mas Henrik Vanger no sabia 
dizer se conviveram muito com Richard. O certo  que os irmos aderiram ao movimento fascista de Per Engdahl, a Nova Sucia. Harald Vanger manteve-se leal a Per 
Engdahl ao longo dos anos, primeiro na Unio Nacional da Sucia, depois na Oposio sueca e, por fim, no Movimento neo-sueco, desde sua fundao, no final da guerra. 
Continuou como membro at a morte de Per Engdahl nos anos 1990 e em alguns perodos foi um dos mais importantes financiadores do fascismo sueco remanescente.
    Harald Vanger formou-se mdico em Uppsala e em seguida envolveu-se com grupos entusiastas por higiene e biologia racial. Em certa poca, trabalhou no instituto 
sueco de biologia das raas e, como mdico, foi um agente de primeira ordem na campanha de esterilizao dos elementos indesejveis da populao.
    
Declarao de Henrik Vanger, cassete 2, 02950:
Harald foi mais longe ainda. Em 1937, foi co-autor  sob pseudnimo, graas a Deus!  de um livro intitulado A Nova Europa dos povos. Fiquei sabendo disso s nos 
anos 1970. Tenho uma cpia que voc pode ler. E provavelmente um dos livros mais ignbeis j publicados na Sucia. Harald no argumenta apenas a favor da esterilizao, 
mas tambm da eutansia  uma ajuda ativa para morrer direcionada s pessoas que perturbavam seu gosto esttico e no se adaptavam  sua imagem do sueco perfeito. 
Ou seja, um arrazoado a favor do massacre, redigido numa prosa acadmica impecvel e contendo todos os argumentos mdicos necessrios. Livremo-nos dos retardados. 
No deixemos a populao dos lapes aumentar; eles possuem genes mongis. Os doentes mentais aceitaro a morte como uma libertao, no  mesmo? Mulheres de maus 
costumes, vagabundos, ciganos e judeus  pode-se ter uma idia do quadro. Nos fantasmas do meu irmo, Auschwitz podia ser aqui mesmo, na Dalecarlia.
    
    Depois da guerra, Greger Vanger se tornou professor e mais tarde diretor do colgio de Hedestad. Henrik achava que ele havia abandonado o nazismo aps a guerra 
e se tornado apoltico. Morreu em 1974, e s quando Henrik examinou seus papis  que ficou sabendo, pelas cartas conservadas, que nos anos 1950 seu irmo aderira 
ao Partido Nrdico Nacional, o NRP, uma seita sem importncia poltica mas totalmente desmiolada, da qual foi membro at falecer.
    Declarao de Henrik Vanger, cassete 2, 04167: "Trs dos meus irmos eram, portanto, politicamente dementes. At onde iria a doena deles em outras circunstncias?"'.
    O nico irmo benquisto, em certa medida, por Henrik Vanger, era Gustav, de sade frgil e vtima de uma doena pulmonar em 1955. Gustav no se interessava por 
poltica e era visto sobretudo como um esprito artstico distante do mundo, sem o menor interesse pelos negcios nem por uma atividade no grupo Vanger. Mikael perguntou 
a Henrik:
     Restam apenas voc e Harald hoje. Por que ele voltou a morar em Hedeby?
     Ele voltou em 1979, pouco antes de seus setenta anos. A casa lhe pertence.
     Deve ser estranho viver to perto de um irmo odiado. Henrik Vanger olhou Mikael, surpreso.
     Voc me entendeu mal. No odeio meu irmo. Na verdade, tenho pena dele;  um perfeito imbecil. E ele quem me odeia.
     Ele odeia voc?
     Muito. Acho que foi por isso que voltou a viver aqui. Para poder passar seus ltimos anos me odiando de perto.
     Por que ele te odeia?
     Porque me casei.
     Acho que ter que me explicar isso.
    
    
    Henrik Vanger perdera o contato com os irmos mais velhos bastante cedo. Era o nico dos cinco que revelava talento para os negcios  a ltima esperana do 
pai. No se interessava por poltica e evitou Uppsala, tendo preferido estudar economia em Estocolmo. Desde os dezoito anos, passou todas as suas frias estagiando 
num dos muitos escritrios do grupo Vanger ou colaborando nos conselhos de administrao. Ficou conhecendo todos os labirintos da sociedade familiar.
    Em 10 de junho de 1941  no auge da Segunda Guerra , Henrik foi enviado  Alemanha para uma visita de seis semanas aos escritrios comerciais do grupo Vanger 
em Hamburgo. Tinha vinte e um anos, e o representante alemo das empresas Vanger, um veterano idoso chamado Herman Lobach, serviu-lhe de protetor e mentor.
     No vou fatig-lo com todos os detalhes, mas naquele momento Hitler e Stalin ainda eram bons amigos e no havia at ento combates no fronte oriental. Todos 
achavam Hitler invencvel. Havia um sentimento de... otimismo e desespero, acho que so as palavras adequadas. Mais de meio sculo depois, continua sendo difcil 
encontrar palavras apropriadas. No me entenda mal: nunca fui nazista e Hitler me parecia um personagem ridculo de opereta. Mas era difcil no se contaminar pela 
f no futuro que reinava entre as pessoas comuns de Hamburgo. A guerra se aproximava lentamente e vrios bombardeios ocorreram em minha temporada na cidade; apesar 
disso, todos pareciam pensar que era um momento de irritao passageiro: a paz logo chegaria e Hitler ia instaurar sua Neuropa, a nova Europa. As pessoas queriam 
acreditar que Hitler era Deus:  o que a propaganda dava a entender. Henrik Vanger abriu um de seus numerosos lbuns fotogrficos.
     Este  Hermann Lobach. Ele desapareceu em 1944, provavelmente morto e sepultado durante um bombardeio. Nunca soubemos que destino ele teve. Na minha temporada 
em Hamburgo, fiquei muito amigo dele. Eu tinha um quarto na sua suntuosa residncia, num bairro onde s moravam famlias ricas. Ns nos vamos diariamente. Era to 
pouco nazista quanto eu, mas filiara-se ao partido por comodidade. A carteira de membro abria portas e facilitava suas chances de negcio em favor do grupo Vanger, 
e negcios era exatamente o que fazamos. Construamos vages para trens, e ainda hoje me pergunto se esses vages partiam com destino  Polnia. Vendamos tecidos 
para os uniformes e tubos catdicos para aparelhos de rdio, mas oficialmente no fazamos idia de para que servia a mercadoria. E Hermann Lobach sabia como agir 
para obter um bom contrato, tinha uma boa lbia e era jovial. Um perfeito nazista. Aos poucos, entendi que era tambm um homem que tentava desesperadamente esconder 
um segredo. Na noite de 22 de junho de 1941, Hermann Lobach bateu na porta do meu quarto e me acordou. Meu quarto ficava ao lado do quarto de sua mulher e com um 
sinal ele me pediu que eu no fizesse barulho, me vestisse e o acompanhasse. Descemos ao trreo e nos instalamos numa pequena sala de fumar. Lobach certamente estivera 
acordado a noite toda. Ligou o rdio e compreendi que algo dramtico acontecera. Tivera incio a operao "Barbarossa", a Alemanha atacara a Unio Sovitica no fim 
de semana em que o vero se iniciava.
    Henrik Vanger fez um gesto resignado com a mo.
     Hermann Lobach pegou dois copos e despejou uma dose generosa de aquavita em cada um. Pareceu-me meio embriagado. Quando lhe perguntei quais poderiam ser as 
consequncias, respondeu-me com lucidez que aquilo significava o fim para a Alemanha e para o nazismo. S acreditei em parte  Hitler parecia invencvel , mas Lobach 
brindou comigo a derrota da Alemanha. Em seguida ps-se a falar de assuntos prticos.
    Mikael balanou a cabea para indicar que acompanhava a histria.
     Em primeiro lugar, ele descartou a possibilidade de entrar em contato com meu pai para pedir instrues e por conta prpria decidiu interromper minha temporada 
na Alemanha, mandando-me de volta para casa o mais cedo possvel. Em segundo lugar, queria que eu lhe prestasse um servio.
    Henrik mostrou um retrato amarelecido e com os cantos rasgados, em tamanho trs por quatro, de uma mulher morena.
     Herman Lobach era casado havia quarenta anos, mas em 1919 conhecera uma mulher que tinha a metade da sua idade, uma pobre e modesta costureira, de uma beleza 
avassaladora. Apaixonou-se por ela. Cortejou-a e, como tantos outros homens ricos, tinha os meios de instal-la num apartamento a pouca distncia de seu escritrio. 
Ela passou a ser sua amante. Em 1921, deu  luz uma menina, que foi chamada Edith.
     Um homem rico j de alguma idade, uma mulher pobre e uma filha desse amor: isso no deveria causar um grande escndalo, mesmo nos anos 1940  comentou Mikael.
      verdade. Se no houvesse um problema. A mulher era judia e Lobach, portanto, pai de uma menina judia em plena Alemanha nazista. Concretamente, ele era um 
traidor de sua raa.
     Ah! isso muda tudo. O que aconteceu?
     A me de Edith foi detida em 1939. Desapareceu e pode-se imaginar o que lhe aconteceu. Todos sabiam que tinha uma filha que ainda no fora inscrita nas listas 
de transporte, e essa moa judia era procurada pela unidade da Gestapo encarregada de capturar judeus fugitivos. No vero de 1941, na mesma semana em que cheguei 
a Hamburgo, fez-se a ligao entre a me de Edith e Hermann Lobach, e convocaram-no para um interrogatrio. Ele admitiu a ligao e a paternidade, mas declarou que 
no fazia a menor idia do lugar onde se encontrava a filha e que havia dez anos no tinha contato com ela.
     E onde ela estava?
     Eu a via diariamente na casa de Lobach. Uma moa de vinte anos, meiga e calma, que fazia a limpeza do meu quarto e ajudava a servir o jantar. Em 1937, as perseguies 
aos judeus j duravam vrios anos e a me de Edith suplicou a Hermann que a ajudasse. E ele ajudou  amava a filha ilegtima tanto quanto seus filhos legtimos. 
Escondeu-a no lugar mais improvvel  diante do nariz de todo mundo. Providenciou-lhe falsos documentos e a contratou como empregada.
     A mulher dele sabia quem ela era?
     No, no fazia a menor idia.
     E depois, o que houve?
     A coisa funcionou durante quatro anos, mas Lobach sentia que o cerco se estreitava. Em breve a Gestapo viria bater  sua porta. Foi tudo o que me contou naquela 
noite, poucas semanas antes de eu voltar  Sucia. Depois, mandou chamar a filha e fomos apresentados. Era muito tmida e no ousou sequer me olhar nos olhos. Lobach 
me suplicou que salvasse a vida dela.
     Como?
     Ele arranjara tudo. Segundo seus planos, eu devia ficar por mais trs semanas e em seguida tomar o trem noturno para Copenhague, depois o ferryboat para atravessar 
o estreito de Oresund  uma viagem sem muita importncia, mesmo em tempo de guerra. No entanto, dois dias depois da nossa conversa, um cargueiro de propriedade do 
grupo Vanger devia deixar Hamburgo com destino  Sucia. Lobach resolveu enviar-me com o cargueiro, para que eu deixasse a Alemanha sem demora. Qualquer alterao 
dos projetos de viagem devia ser aprovada pelos servios de segurana; problemas burocrticos, mas no insuperveis. Lobach insistiu para que eu fosse naquele navio.
     Com Edith, suponho.
     Edith embarcou ilegalmente, escondida numa das trezentas caixas contendo peas para mquinas. Minha tarefa era proteg-la se fosse descoberta antes de deixarmos 
as guas territoriais da Alemanha, e impedir o capito de fazer uma besteira. No havendo problemas, eu devia esperar at estarmos a uma boa distncia da Alemanha 
e ento deix-la sair.
     E a?
     Parecia simples, mas a viagem foi um pesadelo. O capito chamava-se Oskar Granath e no estava nem um pouco encantado com a responsabilidade de conduzir o 
herdeiro do seu patro. Deixamos Hamburgo s nove horas de uma noite de vero. Estvamos saindo do porto quando as sirenes de alerta antiareo puseram-se a uivar. 
Um raide ingls: o pior que vivi, e o porto era evidentemente um alvo estratgico. No exagero ao dizer que por pouco no me mijei quando as bombas comearam a explodir 
muito perto. Mas, de um modo ou de outro, conseguimos sair e, aps uma pane de motor e uma noite horrvel de tempestade nas guas recheadas de minas, chegamos  
Sucia, em Karlskrona, no dia seguinte  tarde. Agora voc vai me perguntar o que aconteceu com a moa.
     Acho que j sei.
     Meu pai ficou furioso, claro. Coloquei muita coisa em risco com meu ato insensato. E a moa podia ser extraditada a qualquer momento  lembre que estvamos 
em 1941. Mas nesse meio-tempo tambm me apaixonei por ela, como Lobach se apaixonara pela me dela. Pedi-a em casamento e dei um ultimato a meu pai: ou aceitava 
o casamento, ou que procurasse outra jovem esperana para a empresa da famlia. Ele cedeu.
     Mas ela morreu?
     Sim, morreu muito jovem. Em 1958. Vivemos juntos pouco mais de dezesseis anos. Ela tinha um problema cardaco, de nascena. E eu me revelei estril  nunca 
tivemos filhos.  por isso que meu irmo me odeia.
     Porque se casou com ela.
     Porque me casei  so os termos dele  com uma prostituta suja judia. No entender dele, eu tra a raa, o povo, a moral e tudo o que ele defendia.
     Mas ele  completamente louco.
     Eu so saberia dizer melhor.
    
   10.         QUINTA-FEIRA 9 DE JANEIRO  
    SEXTA-FEIRA 31 DE JANEIRO
    
    
    A julgar pelo Hedestads-Kuriren, o primeiro ms de Mikael no exlio foi o mais frio j registrado na memria ou, pelo menos (segundo Henrik Vanger), desde o 
inverno da guerra em 1942. Mikael estava inclinado a acreditar nessa informao. Aps uma semana em Hedeby, aprendera tudo a respeito de ceroulas, meias de l e 
camisetas forradas.
    Viveu alguns dias e noites terrveis em meados de janeiro, quando a temperatura baixou a inconcebveis trinta e sete graus negativos. Nunca enfrentara nada semelhante, 
mesmo no ano que passou em Kiruna durante o servio militar. Uma manh, a tubulao da gua congelou. Gunnar Nilsson arranjou-lhe dois grandes baldes de plstico 
para que pudesse cozinhar e se lavar, mas o frio era paralisante. Rosceas de gelo formaram-se nas vidraas da janela, do lado interno, e, por mais que alimentasse 
o aquecedor a lenha, sentia-se continuamente gelado. Todos os dias passava longos minutos rachando lenha no depsito dos fundos da casa.
    Em alguns momentos, tinha vontade de chorar e pensava em tomar um txi at a cidade e embarcar no primeiro trem com destino ao Sul. Em vez disso, enfiava mais 
um pulver e se enrolava num cobertor, sentado  mesa da cozinha com seu caf e os velhos relatrios da polcia.
    Depois a tendncia se inverteu e a temperatura subiu para agradveis dez graus negativos.
    
    
    Mikael comeou a conhecer as pessoas em Hedeby. Martin Vanger cumpriu sua promessa e lhe ofereceu um jantar que ele mesmo preparou  assado de carne de alce 
regado a vinho tinto italiano. O chefe da empresa no era casado, porm convivia com uma certa Eva Hassel, que os acompanhava. Eva era uma mulher calorosa e divertida, 
que Mikael achou muito atraente. Era dentista e morava em Hedestad, mas passava os fins de semana na casa de Martin. Mikael ficou sabendo que fazia muitos anos que 
eles se conheciam, mas comearam a conviver somente na idade madura e julgaram no haver necessidade de casamento.
     A verdade  que ela  a minha dentista  disse Martin Vanger.
     E misturar-me a essa famlia de malucos no  bem o que eu quero  disse Eva, batendo afetuosamente com os dedos no joelho de Martin.
    Desenhada por um arquiteto, a manso de Martin Vanger era o sonho de todo celibatrio, com mveis pretos, brancos e de metal cromado. Peas dispendiosas e com 
um design que teria fascinado Christer Malm, o ilustrador da Millennium. A cozinha tinha equipamentos de um cozinheiro profissional. Na sala de estar havia uma aparelhagem 
de som estereofnico com, entre outras preciosidades, uma excelente coleo de jazz em vinil, de Tommy Dorsey a John Coltrane. Martin tinha dinheiro e seu lar era 
suntuoso e funcional, embora um pouco impessoal. Mikael notou que os quadros nas paredes eram simples reprodues e psteres encontrados em grandes lojas, como a 
Ikea  bonitos mas sem nada de especial. As estantes, pelo menos na parte da casa que Mikael viu, estavam cuidadosamente ocupadas pela Enciclopdia Nacional e por 
alguns livros desses que as pessoas oferecem como presente de Natal na falta de idia melhor. Em suma, Mikael conseguiu perceber apenas duas paixes na vida de Martin 
Vanger: a msica e a culinria. A primeira se manifestava em cerca de trs mil lbuns de trinta e trs rotaes. A segunda podia-se ver na carne opulenta de Martin 
Vanger.
    Como pessoa, Martin era uma estranha mistura de estupidez, causticidade e amabilidade. No era preciso ser um grande analista para concluir que o chefe da empresa 
era um homem com problemas. Enquanto escutavam Night in Tunisia, a conversa se voltou para o grupo Vanger, e Martin no tentou esconder que lutava pela sobrevivncia 
do grupo. A escolha desse assunto deixou Mikael perplexo; Martin no ignorava que tinha por convidado um jornalista econmico que ele conhecia muito pouco, no entanto 
discutia os problemas internos da empresa com tanta franqueza que havia nisso alguma imprudncia. Ele parecia considerar Mikael como algum da famlia, j que trabalhava 
para Henrik, e, a exemplo do ex-diretor-executivo, achava que a famlia s podia culpar a si mesma pela situao na qual a empresa se encontrava. Contudo, no compartilhava 
a amargura e o desprezo intransigente do velho em relao  famlia, parecendo antes achar graa da loucura incurvel dela. Eva Hassel assentiu com a cabea, mas 
no fez comentrios. Certamente j haviam conversado sobre essa questo.
    Martin Vanger sabia, portanto, que Mikael fora contratado para escrever uma crnica familiar e perguntou como estava indo o trabalho. Mikael respondeu, sorrindo, 
que tinha dificuldade de lembrar os nomes dos membros da famlia, depois perguntou a Martin se podia voltar para entrevist-lo em outra ocasio. Em vrios momentos 
tentou dirigir a conversa para a obsesso do velho pelo desaparecimento de Harriet Vanger. Supunha que Henrik devia ter aborrecido o irmo de Harriet mais de uma 
vez com suas teorias. Martin certamente sabia que, se a incumbncia de Mikael era escrever uma crnica familiar, ele no podia ignorar o fato de que um membro da 
famlia desaparecera sem deixar vestgios. No entanto, Martin no mostrou a menor inteno de entrar no assunto e Mikael decidiu esperar. Oportunamente, teriam razes 
para conversar sobre Harriet.
    Depois de vrias rodadas de vodca, encerraram a noitada por volta das duas da manh. Mikael estava um tanto bbado e titubeou no percurso de trezentos metros 
de volta para casa. De maneira geral, fora uma noite agradvel.
    
    
    Uma tarde, na segunda semana de Mikael em Hedeby, bateram  porta de sua casa. Mikael deixou de lado o arquivo do inqurito policial que acabara de abrir  o 
sexto  e fechou a porta da saleta de trabalho atrs de si, antes de ir abrir a porta da frente para uma mulher loura de uns cinquenta anos, vestida como para o 
Plo Norte.
     Bom dia. Vim conhec-lo. Sou Cecilia Vanger.
    Apertaram-se as mos e Mikael foi pegar xcaras para o caf. Cecilia Vanger, filha do nazista Harald Vanger, parecia uma mulher aberta e encantadora sob muitos 
aspectos. Mikael lembrou que Henrik falara dela com estima e mencionara que raramente via o pai, embora morasse quase ao lado da casa dele. Conversaram por alguns 
momentos antes que ela mencionasse o motivo da visita.
     Fiquei sabendo que vai escrever um livro sobre a famlia. No acho que seja uma idia que me agrada  disse.  Quis saber que tipo de pessoa  o senhor.
     Bem, Henrik Vanger me contratou. E um assunto dele, por assim dizer.
     E o bom Henrik no  l muito objetivo quando se trata de dar seu ponto de vista sobre a famlia.
    Mikael examinou seus olhos, no sabendo muito bem aonde ela queria chegar.
     Ope-se a que escrevam um livro sobre sua famlia?
     Eu no disse isso. E certamente minha opinio no tem a menor importncia. Mas acho que j deve ter percebido que nem sempre foi muito fcil ser uma Vanger.
    Mikael no tinha nenhuma idia do que Henrik dissera e em que medida Cecilia conhecia seu trabalho. Afastou as mos num gesto de escusa:
     Fui procurado por Henrik para escrever uma crnica familiar. Henrik tem opinies acirradas sobre vrios membros da famlia, mas pretendo me ater aos fatos 
comprovados.
    Cecilia Vanger sorriu, porm de forma pouco calorosa.
     O que eu gostaria de saber  se devo escolher o exlio e emigrar quando o livro sair.
     Creio que no  respondeu Mikael.  As pessoas so capazes de ver a diferena entre uma pessoa e outra.
     Como meu pai, por exemplo.
     Seu pai, o nazista?  perguntou Mikael. Cecilia Vanger levantou os olhos para o cu.
     Meu pai  louco. S o vejo uma ou duas vezes por ano, embora nossas casas sejam vizinhas.
     Por que no quer v-lo?
     Antes de me fazer um monte de perguntas, diga: tem a inteno de citar o que estou dizendo? Ou podemos ter apenas uma conversa normal sem que eu precise ter 
medo de ser apresentada como uma imbecil?
    Mikael hesitou um segundo, no muito seguro de que esclarecimento devia dar.
     Meu trabalho  escrever um livro que comea quando Alexander Vangeersad desembarca com Bernadotte e vem at os dias de hoje. Ele acompanhar o imprio industrial 
dos Vanger ao longo de muitas dcadas, mas evidentemente tambm falar da razo pela qual o imprio est desmoronando e das divergncias que existem no seio da famlia. 
Nesse tipo de relato,  impossvel evitar que a lama venha  tona. O que no significa que farei um retrato abominvel da senhora nem que traarei uma imagem infame 
da famlia. Estive com Martin Vanger, por exemplo. Achei-o um homem simptico e pretendo descrev-lo como tal.
    Cecilia Vanger no respondeu.
     Tudo que sei a seu respeito  que  professora...
     Pior que isso; sou diretora de colgio em Hedestad.
     Desculpe. Sei que Henrik a quer muito bem, que  casada mas est separada... e  mais ou menos tudo. Claro que poder falar comigo sem medo de ser citada ou 
lanada ao escndalo. Contudo, com certeza a procurarei algum dia para pedir que me conte sobre determinado acontecimento, porque necessito da sua verso. Mas direi 
claramente quando fizer uma pergunta desse gnero.
     Ento posso lhe falar... off the record, como dizem.
     Com certeza.
     E isto  off the record?
     A senhora  apenas uma vizinha que veio me dar bom-dia e tomar uma xcara de caf, nada mais.
     Perfeito. Ser que posso lhe perguntar uma coisa?
     Fique  vontade.
     At que ponto esse livro falar sobre Harriet Vanger?
    Mikael mordeu o lbio inferior e hesitou. Tentou permanecer tranquilo.
     Para ser sincero, no sei.  verdade que haver talvez um captulo... afinal foi um acontecimento dramtico, no se pode negar, e que influenciou pelo menos 
Henrik Vanger.
     Mas no est aqui para investigar o desaparecimento dela?
     O que a faz pensar assim?
     Bem, o fato de Gunnar Nilsson ter trazido para c quatro caixas volumosas. Suponho que seja o conjunto das pesquisas pessoais de Henrik ao longo dos anos. 
Quando dei uma espiada no antigo quarto de Harriet onde Henrik costuma guardar sua coleo, ela no estava mais l.
    Cecilia no era boba.
     Preferiria que discutisse isso com Henrik e no comigo  respondeu Mikael.  De todo modo,  claro que Henrik me falou bastante sobre o desaparecimento da 
menina, e acho interessante ler os documentos a respeito.
    Cecilia mais uma vez esboou um sorriso triste.
     s vezes me pergunto quem  o mais louco, se meu pai ou meu tio. Cansei de ouvi-lo falar milhares de vezes sobre o desaparecimento de Harriet.
     O que acha que aconteceu com ela?
     Essa pergunta faz parte da entrevista?
     No  disse Mikael, rindo.  Apenas curiosidade.
     O que eu gostaria de saber  se o senhor tambm  maluco. Se aderiu ao raciocnio de Henrik ou se est instigando Henrik.
     Est querendo dizer que Henrik  maluco?
     No me entenda mal. Henrik  um dos homens mais calorosos e gentis que conheo. Gosto imensamente dele. Mas, quando se trata desse assunto, ele  obsessivo.
     Uma obsesso, c para ns, que parece ter fundamento. Harriet realmente desapareceu.
      que estou simplesmente farta de toda essa histria. Ela envenenou nossas vidas durante tantos anos e no acaba nunca.
    Levantou-se de repente e vestiu seu casaco de pele.
     Preciso ir. O senhor me pareceu simptico. Foi o que Martin tambm disse, mas o julgamento dele nem sempre  o melhor. Passe para tomar um caf quando quiser. 
 noite estou quase sempre em casa.
     Obrigado  disse Mikael. Quando ela se encaminhava para a porta de entrada, ele falou s suas costas:  No respondeu  minha pergunta, que, afinal, no era 
uma pergunta de entrevista.
    Ela se deteve diante da porta e respondeu sem olhar para ele:
     No fao a menor idia do que aconteceu a Harriet. Mas acho que foi um acidente com uma explicao to simples e banal que vamos ficar surpresos quando um 
dia soubermos a resposta.
    Virou-se e sorriu para ele  pela primeira vez com calor. Depois acenou com a mo e partiu. Mikael permaneceu imvel  mesa, pensativo. Cecilia Vanger era uma 
das pessoas relacionadas na lista de membros da famlia presentes  ilha quando Harriet Vanger desapareceu.
    
    
    Se conhecer Cecilia Vanger foi relativamente agradvel, o mesmo no aconteceu com Isabella Vanger. Com setenta e cinco anos, a me de Harriet Vanger era uma 
mulher muito elegante, uma espcie de Lauren Bacall idosa. Magra, vestindo um casaco de astrac preto e um gorro que combinava com ele, apoiava-se numa bengala preta 
quando Mikael topou com ela, uma manh, ao dirigir-se ao Caf Susanne. Ele pensou num vampiro comeando a envelhecer, de uma beleza impressionante mas venenosa como 
uma serpente. Isabella parecia estar voltando para casa aps uma caminhada; ela o chamou quando se cruzaram.
     Voc a, moo! Venha c.
    Difcil equivocar-se quanto ao tom de comando. Mikael olhou ao redor e concluiu que ele  que estava sendo chamado. Aproximou-se.
     Sou Isabella Vanger  anunciou a mulher.
     Bom dia, meu nome  Mikael Blomkvist.  E estendeu uma mo que ela ignorou soberbamente.
     Voc  o sujeito que est remexendo na histria da nossa famlia?
     Digamos que sou o sujeito que Henrik Vanger procurou para ajud-lo a fazer o histrico da famlia Vanger.
     No  um assunto que lhe compete.
     Qual  o problema? O fato de Henrik ter me procurado ou de eu ter aceitado? No primeiro caso, acho que isso diz respeito a Henrik; no segundo, o problema  
meu.
     Sabe muito bem o que estou querendo dizer. No gosto de gente vasculhando a minha vida.
     No vou vasculhar a sua vida. Alm do mais, deve discutir isso com Henrik.
    Isabella Vanger ergueu subitamente a bengala e bateu no peito de Mikael com o casto. Um golpe sem violncia, mas a surpresa o fez recuar um passo.
     Mantenha-se a uma boa distncia de mim.
    Isabella Vanger girou os calcanhares e prosseguiu em direo  sua casa. Mikael continuou pregado no lugar, com o rosto imvel como se tivesse acabado de conhecer 
um personagem de quadrinhos em carne e osso. Mikael moveu os olhos e avistou Henrik Vanger na janela de seu escritrio. Tinha uma xcara de caf na mo, que levantou 
com ironia. Mikael afastou as mos num gesto de impotncia, balanou a cabea e retomou o caminho em direo ao Caf Susanne.
    
    
    A nica viagem que Mikael fizera durante o primeiro ms foi uma excurso de um dia s margens do lago Siljan. Tomou emprestado o Mercedes de Dirch Frode e rodou 
numa paisagem nevada para passar uma tarde em companhia do inspetor Gustav Morell. Mikael tentara fazer uma idia de Morell baseando-se na impresso que emanava 
do inqurito policial; encontrou um velho encurvado que se movia devagar e falava ainda mais devagar. Mikael rabiscara num bloco umas dez perguntas que lhe ocorrera 
fazer depois da leitura do inqurito. Morell forneceu uma resposta didtica a cada pergunta. No final, Mikael deixou o bloco de lado e explicou ao inspetor aposentado 
que aquelas perguntas tinham sido apenas um pretexto para visit-lo. O que ele queria realmente era conversar e poder lhe fazer a nica pergunta fundamental: havia 
algo no inqurito que ele no pusera no papel, alguma reflexo ou intuio que pudesse lhe transmitir?
    Como Morell, do mesmo modo que Henrik Vanger, havia passado trinta e seis anos refletindo sobre o mistrio do desaparecimento de Harriet, Mikael esperava encontrar 
certa reticncia ao novato que vinha se embrenhar no matagal onde ele se perdera. Mas Morell no mostrou a menor sombra de hostilidade. Encheu cuidadosamente o cachimbo 
e riscou um fsforo antes de responder.
     Sim,  claro que tenho minhas teorias. Mas so to vagas e fugazes que no consigo formul-las muito bem.
     O que aconteceu a Harriet, na sua opinio?
     Creio que foi assassinada. Nesse ponto, concordo com Henrik.  a nica explicao plausvel. Mas nunca entendemos o motivo. Acho que foi morta por alguma razo 
precisa. No foi obra de um louco nem de um estuprador, ou coisa que o valha. Se conhecssemos o motivo, saberamos quem a matou.
    Morell refletiu um instante.
     O assassinato pde ser cometido de improviso. Quero dizer com isso que algum aproveitou a ocasio quando uma possibilidade surgiu na confuso ocasionada pelo 
acidente. O assassino escondeu o corpo e o transportou mais tarde, enquanto todos saam para procur-la.
     Nesse caso, falamos de algum que agiu com sangue-frio.
     H um detalhe. Harriet foi ao gabinete de Henrik pedir para falar com ele. Isso me parece um comportamento estranho. Ela sabia que ele estava s voltas com 
os membros da famlia que no paravam de chegar. Acho que Harriet significava uma ameaa para algum, acho que ela quis contar alguma coisa a Henrik e o assassino 
percebeu que ela ia... digamos, denunci-lo.
     Henrik estava ocupado com alguns membros da famlia...
     Havia quatro pessoas no cmodo, alm de Henrik. Seu irmo Greger, o filho de uma prima chamado Magnus Sjgren e os dois filhos de Harald Vanger, Birger e Cecilia. 
Mas isso no significa nada de especial. Vamos supor que Harriet descobriu que algum estava desviando dinheiro da empresa. Apenas uma hiptese. Ela pode ter guardado 
essa informao por meses, ou mesmo t-la discutido vrias vezes com a pessoa em questo. Pode ter tentado chantage-la ou ter se compadecido dela, sem saber se 
deveria denunci-la. Pode ter tomado uma deciso repentina, informou o assassino disso, e ele, assustado, a eliminou.
     O senhor disse "assassino"?
     Do ponto de vista estatstico, os assassinos so em geral homens. Mas no se pode negar que a famlia Vanger tem algumas mulheres que so verdadeiras vboras.
     Conheci Isabella.
      uma delas. Mas h outras. Cecilia Vanger pode se mostrar bastante inflexvel. Conheceu Sara Sjgren?  Mikael fez que no com a cabea.   a filha de Sofia 
Vanger, uma das primas de Henrik. Uma mulher realmente desagradvel e sem escrpulos, eu lhe garanto. Mas ela morava em Malm e, at onde consegui descobrir, no 
tinha razo para eliminar Harriet.
     Humm.
     O nico problema  que, por mais que tenhamos virado e revirado essa histria, jamais entendemos o motivo. Esse  o ponto. Quando descobrirmos o motivo, saberemos 
o que houve e quem foi o responsvel.
     O senhor trabalhou a fundo nesse caso. H alguma pista que no tenha seguido?
    Gustav Morell deu uma risadinha.
     Ah, no, Mikael. Dediquei um tempo danado a esse caso e no h o menor detalhe que eu no tenha rastreado to longe quanto possvel. Mesmo depois que fui promovido 
e que deixei Hedestad.
     Deixou?
     Sim, no sou originrio de Hedestad. Fui destacado para l entre 1963 e 1968. Depois fui nomeado delegado e trabalhei o restante da minha carreira na polcia 
de Gvle. Mas mesmo em Gvle continuei trabalhando no desaparecimento de Harriet.
     Henrik Vanger no largou do seu p, imagino.
     Sim,  claro, mas no foi por isso. O enigma Harriet me fascina at hoje. Quero dizer... entenda, todo tira tem seu prprio mistrio no resolvido. Lembro 
que quando eu estava em Hedestad meus colegas mais velhos falavam do caso Rebecka na hora do caf. Havia um policial chamado Torstensson, ele j morreu h muitos 
anos, que voltava a esse caso ano aps ano. Durante seu tempo livre e nas frias. Quando as coisas estavam calmas com os delinquentes locais, ele pegava os arquivos 
e punha-se a refletir.
     Tambm se tratava de uma jovem desaparecida?
    O comissrio Morell pareceu surpreso por um segundo. Depois sorriu quando percebeu que Mikael buscava uma espcie de ligao.
     No, no o mencionei por esse motivo. Falo da alma de um policial. O caso Rebecka data de bem antes do nascimento de Harriet Vanger e est prescrito h muito 
tempo. Nos anos 1940, uma mulher de Hedestad foi atacada, violentada e assassinada. Isso no  nada raro. Durante sua carreira, todo policial tem que elucidar esse 
tipo de acontecimento pelo menos uma vez. O que quero dizer  que h casos que se incrustam, se enfiam debaixo da pele dos investigadores. Essa moa foi morta de 
uma forma particularmente brutal. O assassino atou-lhe as mos e os ps e afundou sua cabea nas brasas de uma lareira. No sei quanto tempo a pobre moa levou para 
morrer, nem que dores foi obrigada a suportar.
     Que horror!
     Exatamente. Um horror total. O pobre Torstensson foi o primeiro investigador a chegar quando a descobriram, e o crime nunca foi elucidado, mesmo com o reforo 
de peritos de Estocolmo. Ele nunca conseguiu abandonar o caso.
     Entendo.
     O meu caso Rebecka  Harriet. No sabemos como ela morreu. Tecnicamente, no podemos sequer provar que houve um crime. Mas jamais consegui abandon-lo.
    Ele refletiu por um momento.
     O ofcio de investigador criminal talvez seja o mais solitrio do mundo. Os amigos da vtima ficam revoltados e desesperados, mas cedo ou tarde, ao cabo de 
algumas semanas ou meses, a vida volta ao normal. Para os familiares prximos, leva mais tempo, porm eles tambm acabam superando o desgosto e o desespero. A vida 
continua. Mas os crimes no resolvidos permanecem nos corroendo por dentro. No final das contas, uma nica pessoa permanece pensando na vtima e tentando lhe fazer 
justia: o tira encarregado do inqurito.
    
    
    Trs outras pessoas da famlia Vanger viviam na ilha. Alexander Vanger, nascido em 1946 e filho de Greger, morava numa casa de madeira reformada, construda 
no comeo do sculo XX. Henrik informou a Mikael que Alexander encontrava-se atualmente nas Antilhas, onde se dedicava a suas atividades favoritas  velejar e viver 
 toa. Henrik demoliu o sobrinho com tamanho vigor que Mikael concluiu que Alexander Vanger era um de seus principais suspeitos. Alexander tinha vinte anos quando 
Harriet Vanger desapareceu e era um dos que estavam no local.
    Com Alexander morava sua me Gerda, de oitenta anos e viva de Greger Vanger. Mikael nunca a via; tinha a sade frgil e permanecia a maior parte do tempo na 
cama.
    A terceira pessoa era, evidentemente, Harald Vanger. Durante o primeiro ms, Mikael no conseguiu avistar sequer a sombra do velho biologista das raas. A casa 
de Harald, o vizinho mais prximo de Mikael, tinha um aspecto lgubre com suas janelas cobertas por espessas cortinas. Vrias vezes Mikael teve a impresso de ver 
um leve movimento dessas cortinas, e uma noite, j bem tarde, quando se preparava para deitar-se, viu luz no quarto do andar de cima. A cortina estava semi-aberta. 
Durante mais de vinte minutos, ficou ali fascinado, na escurido da cozinha, observando a luz, antes de desistir e ir para a cama tiritando de frio. De manh, a 
cortina estava novamente fechada.
    Harald Vanger parecia um esprito invisvel mas eternamente presente, marcando a vida do povoado com sua ausncia. Na imaginao de Mikael, Harald adquiria cada 
vez mais a forma de um Gollum malvolo que espionava os arredores atrs das cortinas e se entregava a atividades misteriosas em seu covil hermeticamente fechado.
    Uma vez por dia, Harald recebia a visita de uma empregada domstica, uma mulher de idade que vinha do outro lado da ponte e chafurdava, com cestos carregados 
de alimentos, na neve amontoada at a porta, j que ele se recusava a desobstruir a entrada. Gunnar Nilsson, o faz-tudo, balanou a cabea quando Mikael o questionou. 
Explicou que se propusera limpar a neve, mas que Harald no queria ningum pondo o p no seu terreno. Uma nica vez, no primeiro inverno depois que Harald retornou 
 ilha, Gunnar Nilsson dirigiu-se automaticamente com o trator  casa de Harald para desobstruir a neve da entrada, como fazia diante de todas as casas. A iniciativa 
lhe valeu ver Harald Vanger sair de casa, vociferando, gesticulando, exigindo que ele fosse embora.
    Por outro lado, Nilsson lamentava no poder limpar o ptio de Mikael, pois o trator no passava naquela entrada estreita. Ali era preciso uma p de neve e trabalho 
braal.
    
    
    Em meados de janeiro, Mikael Blomkvist encarregou seu advogado de tentar saber quando ele deveria cumprir os trs meses de priso. Queria se livrar da pena o 
mais rpido possvel. Ir para a priso revelou-se mais fcil do que imaginava. Aps uma semana de lengalenga, ficou decidido que Mikael se apresentaria no dia 17 
de maro  priso de Rullaker, perto de stersund, penitenciria em regime aberto para condenaes leves. O advogado de Mikael informou tambm que a pena provavelmente 
seria reduzida.
     timo  disse Mikael sem grande entusiasmo.
    Estava sentado  mesa da cozinha acariciando o gato de plos ruivos, que se habituara a surgir a intervalos regulares para passar a noite na casa dele. Helen 
Nilsson, do outro lado da estrada, disse-lhe que o gato se chamava Tjorven, que no pertencia a ningum em particular, mas fazia a ronda de casa em casa.

* * *
    Mikael se reunia com Henrik Vanger quase todas as tardes. s vezes para uma breve conversa, s vezes para discutir durante horas o desaparecimento de Harriet 
e diferentes detalhes da investigao particular de Henrik.
    Quase sempre Mikael formulava uma teoria que Henrik se aplicava em torpedear. Mikael tentava manter distanciamento de sua misso, mas em alguns momentos se sentia 
terrivelmente fascinado pelo mistrio do desaparecimento de Harriet.
    Mikael prometera a Erika montar tambm uma estratgia que lhes permitisse retomar a luta contra Hans-Erik Wennerstrm, mas, depois de um ms em Hedestad, no 
havia sequer aberto as pastas sobre o caso que o levara ao tribunal. Ao contrrio  rechaava inteiramente o problema. Toda vez que comeava a refletir sobre Wennerstrm 
e sua prpria situao, caa num desnimo profundo. Nos momentos de lucidez, perguntava-se se no estaria ficando maluco como o velho Vanger. Sua carreira profissional 
desabara como um castelo de cartas e sua reao fora refugiar-se num vilarejo do campo para expulsar seus fantasmas. Sem contar a falta que sentia de Erika.
    Henrik Vanger observava seu colega de investigao com uma discreta inquietude. Notava que Mikael nem sempre exibia um equilbrio perfeito. Em fins de janeiro, 
o velho tomou uma deciso que surpreendeu a si prprio. Pegou o telefone e ligou para Estocolmo. A conversa durou vinte minutos e girou principalmente em torno de 
Mikael Blomkvist.
    
    
    Foi necessrio cerca de um ms para que a clera de Erika se abrandasse. s nove e meia de uma das ltimas noites de janeiro, ela telefonou.
     Ento est mesmo disposto a continuar a?  perguntou de supeto. O telefonema pegou Mikael to de surpresa que de pronto no soube o que responder. Depois 
sorriu e estreitou o cobertor junto ao corpo.
     Oi, Ricky. Voc tambm devia vir aqui experimentar.
     Por qu? H algum atrativo particular em morar nesse fim de mundo?
     Acabo de escovar os dentes com gua gelada. Isso faz minhas obturaes berrarem.
     A culpa  toda sua. Mas confesso que aqui em Estocolmo tambm est fazendo um frio danado.
     Me conte as novidades.
     Perdemos dois teros dos nossos anunciantes fixos. Ningum tem vontade de dizer claramente, mas...
     Eu sei. Guarde o nome de todos que pularam fora. Um dia faremos uma boa reportagem sobre eles.
     Micke... fiz uns clculos e, se no conseguirmos novos anunciantes, afundaremos no outono. Simples assim.
     O vento vai mudar.
    Ela deu uma risada cansada do outro lado da linha.
     Voc no pode dizer uma coisa como essa e se contentar em ficar a nesse inferno lapo.
     No exagere, a aldeia lapnia mais prxima fica a mais de quinhentos quilmetros daqui.
    Erika calou-se um momento e depois prosseguiu:
     Eu sei. Homem que  homem executa seu trabalho, patati, patat, conheo bem essa histria. No estou pedindo que se justifique. Me desculpe por ter sido grossa 
e por no ter respondido aos seus telefonemas. Ser que podemos recomear? Seria muita ousadia minha eu ir visit-lo?
     Quando voc quiser.
     Devo levar um fuzil para enfrentar os lobos?
     De jeito nenhum. Contrataremos alguns lapes com trens puxados por ces. Quando voc vem?
     Sexta-feira  tarde. Est bem?
    De um momento para o outro, a vida pareceu infinitamente mais alegre para Mikael.
    
    
    Com exceo do estreito caminho desobstrudo at a porta, o terreno estava coberto por cerca de um metro de neve. Mikael olhou demoradamente a p, pensando no 
que precisaria fazer, depois foi perguntar aos Nilsson se Erika podia estacionar o BMW na casa deles durante a permanncia dela ali. No havia problema. A garagem 
era ampla e eles at ofereceram um aquecedor de bloco para o motor.
    Erika fez o trajeto  tarde e chegou por volta das seis. Os dois se olharam com certa reserva por alguns segundos e depois se estreitaram um nos braos do outro 
durante um tempo bem mais longo.
    A no ser pela igreja iluminada, no havia muito o que ver na obscuridade do anoitecer. O supermercado Konsum e o Caf Susanne j estavam fechando as portas. 
Eles se apressaram a entrar em casa. Enquanto Mikael preparava o jantar, Erika bisbilhotava todos os cantos, lanando comentrios sobre os Rekordmagasinet dos anos 
1950 e folheando os arquivos na saleta de trabalho. Jantaram costeletas de carneiro com batatas  la creme  muitas calorias  e beberam vinho tinto. Mikael tentou 
retomar o assunto, mas Erika no estava disposta a conversar sobre a Millennium. Em vez disso, falaram durante duas horas de si mesmos e das atividades de Mikael. 
Depois foram verificar se a cama era bastante larga para dois.
    
    
    O terceiro encontro com o advogado Nils Bjurman fora cancelado, transferido e finalmente marcado para as cinco da tarde da mesma sexta-feira. Nas reunies anteriores, 
Lisbeth Salander fora recebida por uma cinquentona perfumada de almscar que funcionava como secretria. Desta vez, ela no estava presente e o advogado Bjurman 
exalava um leve cheiro de lcool. Ele fez sinal para Salander se sentar numa poltrona e ficou folheando distraidamente papis at parecer de repente se dar conta 
da presena dela.
    Seguiu-se um novo interrogatrio. Ele indagou Lisbeth acerca de sua vida sexual, que ela considerava definitivamente um assunto privado, sem ter a menor inteno 
de discuti-lo com quem quer que fosse.
    Depois do encontro, viu que havia conduzido mal a conversa. Silenciosa de incio, evitara responder s perguntas dele, que interpretara aquilo como timidez, 
deficincia mental ou uma tentativa de dissimulao, enquanto a pressionava para obter respostas. Percebendo que ele no desistiria, dera respostas sumrias ou andinas, 
do tipo que supunha combinar com seu perfil psicolgico. Mencionou Magnus  descrito como um programador nerd da sua idade que se comportava como um gentleman com 
ela, que a levava ao cinema e s vezes para a cama. Magnus era pura fico e foi tomando forma  medida que ela falava, mas Bjurman aproveitou o pretexto para traar 
um mapa detalhado da vida sexual dela na hora seguinte. Com que frequncia voc faz amor? De tempo em tempo. Quem toma a iniciativa, voc ou ele? Eu. Vocs usam 
preservativos? Claro  ela ouvira falar do HIV. Qual  a sua posio preferida? Geralmente de costas. Gosta de fazer sexo oral? Ei, espera a... J praticou sexo 
anal?
     No, no acho nem um pouco divertido me foderem por trs, mas isso no  da sua conta, de modo nenhum!
    Era a segunda vez que se irritava com Bjurman. Consciente de que ele poderia interpretar seu olhar de modo equivocado, ela o fixou no teto para tentar controlar 
a raiva. Quando voltou a olh-lo, ele estava rindo do outro lado da mesa. Lisbeth Salander entendeu de repente que sua vida tomaria um rumo dramtico. Deixou o advogado 
Bjurman com um sentimento de nojo. No estava preparada para isso. Jamais ocorreria a Palmgren fazer esse tipo de pergunta; ao contrrio, ele estava sempre disposto 
a escut-la, oferecimento que ela raramente aproveitou.
    Bjurman era um problema srio em vias de se tornar um problema muito srio.
    
   11.         SBADO 1 DE FEVEREIRO 
    TERA-FEIRA 18 DE FEVEREIRO
    
    
    Aproveitando as breves horas de luz do sbado, Mikael e Erika fizeram um passeio que os levou das cabanas do porto  fazenda stergarden. Embora estivesse na 
ilha havia um ms, Mikael ainda no visitara seu interior; o frio e vrias tempestades de neve o dissuadiram de tais exerccios. Mas o sbado estava ensolarado e 
agradvel, como se Erika tivesse trazido um comeo de primavera ao horizonte. A temperatura era de cinco graus negativos. s margens da estrada, elevava-se um metro 
de neve arrastada pelos tratores. Assim que deixaram a regio das cabanas, entraram num bosque de pinheiros denso e Mikael ficou surpreso ao constatar que o monte 
Sul, que dominava o porto de recreio, era bem mais alto e inacessvel do que diria quem o visse do povoado. Por um momento perguntou-se quantas vezes Harriet Vanger 
fora brincar ali quando criana, depois no pensou mais nisso. Alguns quilmetros adiante, o bosque terminava de modo brusco diante do cercado da fazenda de stergarden. 
Viram uma casa branca de madeira e um imponente celeiro vermelho. Decidiram no ir at a fazenda e voltaram pelo mesmo caminho.
    Passavam em frente ao acesso da casa Vanger, quando Henrik bateu palmas na janela do andar de cima e, com gestos, os convidou a subir. Mikael e Erika se olharam.
     Quer conhecer um industrial legendrio?  perguntou Mikael.
     Ele morde?
     No aos sbados.
    Henrik Vanger os recebeu  porta de seu escritrio com um aperto de mo.
     Acho que sei quem voc , deve ser a senhorita Berger  disse.  Mikael no comentou que viria a Hedeby.
    
    
    Uma das maiores qualidades de Erika era sua capacidade de criar vnculos de amizade com as mais diversas pessoas. Mikael j a vira despejar seu charme sobre 
garotinhos de cinco anos que, dez minutos depois, no queriam mais saber da me. Velhos com mais de oitenta anos no pareciam ser exceo. Suas covinhas sorridentes 
eram s o aperitivo. Passados dois minutos, Erika e Henrik Vanger ignoravam totalmente Mikael e conversavam como se fossem velhos amigos de infncia  digamos, da 
infncia de Erika, considerando a diferena de idade deles.
    Sem nenhum constrangimento, Erika comeou censurando Henrik por ter atrado seu melhor redator para aquele buraco. O velho replicou que, segundo entendera ao 
ler os diversos comunicados de imprensa, ela j o havia dispensado e, se no o tivesse feito, seria um timo momento para aliviar a redao. Fingindo-se de interessada, 
Erika examinou Mikael com olhar crtico. De todo modo, uma pausa no campo seria proveitosa ao jovem Blomkvist, acrescentou Henrik Vanger. Erika estava inteiramente 
de acordo.
    Durante cinco minutos, eles fizeram piada sobre os reveses de Mikael. Afundado na poltrona, calado, fingindo-se ofendido, ele fez cara feia quando Erika lanou 
alguns comentrios equvocos que podiam eventualmente se aplicar aos seus defeitos como jornalista, mas tambm ao seu desempenho sexual. Com a cabea para trs, 
Henrik gargalhava muito.
    Mikael ficou estupefato; eram apenas chacotas amistosas, mas nunca tinha visto Henrik to descontrado e  vontade. Ocorreu-lhe ento que um Henrik Vanger cinquenta 
anos mais jovem  digamos, com trinta anos  devia ter sido um homem sedutor e atraente. No voltara a se casar. Certamente tivera mulheres pelo caminho, mas continuara 
solteiro por quase meio sculo.
    Mikael tomou um gole de caf e voltou a prestar ateno na conversa, que de repente tinha ficado sria e tratava da Millennium.
     Mikael deu a entender que vocs esto com problemas na revista. Erika voltou-se para Mikael.
     No, ele no falou de assuntos internos, mas seria preciso ser surdo e cego para no perceber que tanto a revista de vocs como as empresas Vanger esto em 
dificuldades.
     Acredito que podemos dar um jeito na situao  respondeu Erika com prudncia.
     Duvido  replicou Henrik.
     ? Por qu?
     Vejamos: quantos funcionrios vocs tm, seis? Uma tiragem de vinte e um mil exemplares com circulao mensal, custos de impresso e de distribuio, aluguel... 
Precisam de algo em torno de dez milhes, digamos. Metade dessa quantia  assegurada pelos anunciantes.
     E...?
     Hans-Erik Wennerstrm  um safado, vingativo, mesquinho que no vai esquecer de vocs to cedo. Quantos anunciantes vocs perderam nos ltimos meses?
    Erika aguardou o que viria a seguir, observando Henrik Vanger. Mikael surpreendeu-se de respirao contida. Quando ele e o velho falavam da Millennium, era apenas 
para fazer comentrios insignificantes ou para falar do quanto a situao da revista podia depender da capacidade de Mikael fazer um bom trabalho em Hedestad. Mikael 
e Erika eram co-fundadores e co-proprietrios da Millennium, mas era evidente que naquele momento Vanger dirigia-se exclusivamente a Erika, de patro para patro. 
Uma conversa que seguia um cdigo que Mikael no conseguia entender nem interpretar e que talvez se devesse ao fato de, no fundo, ele ser apenas um filho de operrio 
pobre do Norrland e ela uma filha da aristocracia, dotada de uma bela rvore genealgica internacional.
     Posso tomar mais um caf?  perguntou Erika. Henrik a serviu imediatamente.
     Bem, vamos admitir que o senhor seja perspicaz. A gua est comeando a subir nos pores da Millennium. Mas estamos sobrevivendo.
     Por quanto tempo?
     Temos seis meses pela frente para dar meia-volta. Oito, nove meses no mximo. Mas no temos liquidez suficiente para nos manter  tona por mais tempo que isso.
    O rosto do velho estava insondvel quando olhou pela janela. A igreja continuava em seu lugar.
     Sabem que j fui proprietrio de um jornal?
    Mikael e Erika balanaram negativamente a cabea ao mesmo tempo. Henrik deu uma risada.
     Possuamos seis jornais do Norrland. Foi nos anos 1950 e 1960. Idia do meu pai; ele achava que podia haver vantagens polticas em participar da mdia. Ainda 
somos proprietrios do Hedestads-Kuriren, Birger Vanger  presidente do conselho administrativo do jornal.  o filho de Harald  acrescentou, dirigindo-se a Mikael.
     Ele tambm  vereador  observou Mikael.
     Martin tambm faz parte do conselho. Procura manter Birger sob controle.
     Por que no participa mais dos jornais?  perguntou Mikael.
     Reestruturao nos anos 1960. A atividade jornalstica era mais um hobby do que um interesse. Quando precisamos reduzir o oramento, foi um dos primeiros bens 
que pusemos  venda nos anos 1970. Mas sei o que significa estar  frente de um peridico... Posso fazer uma pergunta pessoal?
    A pergunta era dirigida a Erika, que levantou uma sobrancelha e com um gesto convidou Vanger a prosseguir.
     No perguntei a Mikael sobre isso e, se no quiserem responder, no se sintam obrigados. Gostaria de saber por que se meteram nesse lodaal. Havia ou no uma 
histria?
    Mikael e Erika trocaram olhares. Desta vez, Mikael  que parecia ter um ar insondvel. Erika hesitou um segundo antes de falar.
     Tnhamos uma histria. Mas na verdade estvamos abordando outra. Henrik Vanger balanou a cabea, como se entendesse perfeitamente.
    Mas o prprio Mikael no entendia.
     No quero falar sobre isso  interveio Mikael.  Fiz minhas investigaes e escrevi o texto. Tinha todas as fontes necessrias. E a a coisa desandou.
     Mas tinha uma fonte para tudo o que escreveu?
    Mikael assentiu com a cabea. A voz de Henrik tornou-se incisiva de repente.
     No vou fingir que entendo como conseguiu meter o p em cima dessa mina. No conheo nenhuma histria similar, exceto talvez o caso Lundhall no Expressen, 
nos anos 1960, se  que j ouviram falar dele, pois so muito jovens. Seu informante tambm era um perfeito mitmano?  Ele balanou a cabea e voltou-se para Erika, 
baixando a voz.  J fui editor de peridicos e posso voltar a ser. O que acha de ter mais um scio?
    A pergunta foi como um relmpago num cu azul, mas Erika no pareceu nem um pouco surpresa.
     O que est querendo dizer?
    Henrik Vanger evitou a pergunta fazendo outra.
     Quanto tempo ficar em Hedestad?
     At amanh.
     O que  que voc acha  voc e Mikael, claro  de fazer um velho feliz e vir jantar comigo esta noite? s sete?
     Por mim tudo bem. Viremos com prazer. Mas o senhor se esquivou da pergunta que eu fiz. Por que deseja se associar  Millennium?
     No me esquivei da pergunta. Achei que poderamos falar sobre isso no jantar. Preciso discutir com meu advogado, Dirch Frode, antes de propor algo mais concreto. 
Mas, para resumir, digamos que tenho dinheiro para investir. Se a revista sobreviver e comear a ser rentvel, terei lucro. Caso contrrio... bem, j sofri perdas 
bem maiores que essa na vida.
    Mikael ia abrir a boca quando Erika ps a mo em seu joelho.
     Mikael e eu sempre lutamos para ser inteiramente independentes.
     Bobagem. Ningum  inteiramente independente. Mas no estou querendo me apossar da revista e no estou interessado no contedo. Aquele cretino do Stenbeck 
encheu os bolsos publicando Moderna Tider; por que no posso ajudar a Millennium, que, alm do mais,  uma boa revista?
     H alguma relao com Wennerstrm?  perguntou Mikael subitamente. Henrik Vanger sorriu.
     Mikael, tenho mais de oitenta anos. H coisas que lamento no ter feito e pessoas que lamento no ter importunado um pouco mais. Mas, voltando ao assunto  
e virou-se novamente para Erika , esse investimento inclui pelo menos uma condio.
     Qual?  disse Erika.
     Mikael deve reassumir seu posto de editor responsvel.
     No  disse Mikael de pronto.
     Sim  disse Henrik Vanger num tom igualmente firme.  Wennerstrm ter um ataque se divulgarmos um comunicado  imprensa anunciando que as empresas Vanger 
apiam a Millennium e que, ao mesmo tempo, voc reassume como editor responsvel. Ser o sinal mais claro que podemos enviar. Todo mundo vai entender que no se 
trata de tomada de poder e que a poltica editorial permanecer a mesma. E isso dar aos anunciantes que pensam em se retirar uma razo para refletir um pouco mais. 
Wennerstrm no  todo-poderoso. Ele tambm tem inimigos, e algumas empresas vo achar que  o momento de buscar espao na revista.
    
    
     Afinal, que histria maluca  essa?  disparou Mikael no momento em que Erika fechou a porta de entrada.
      o que chamam de sondagem preliminar tendo em vista um acordo comercial  ela respondeu.  Voc no me contou que Henrik era to irresistvel.
    Mikael plantou-se bem na frente dela.
     Ricky, voc j sabia exatamente qual seria o tema dessa conversa.
     Acalme-se, meu bem! So apenas trs da tarde e quero que se ocupem muito bem de mim antes do jantar.
    Mikael Blomkvist fervia de clera. Mas ele nunca conseguiu ficar furioso com Erika por muito tempo.
    
    
    Erika usava um vestido preto, um casaquinho e escarpins, que, por precauo, pusera na sacola de viagem. Insistiu para que Mikael vestisse palet e gravata. 
Ao chegarem na hora marcada  casa de Henrik Vanger, viram que Dirch Frode e Martin Vanger tambm tinham sido convidados, ambos de terno e gravata, enquanto Henrik 
vestia gravata-borboleta e uma malha de l marrom.
     A vantagem de ter mais de oitenta anos  que ningum ousa criticar a sua maneira de vestir  ele observou.
    Erika mostrou excelente humor durante todo o jantar.
    A discusso s comeou de fato quando passaram a uma sala com lareira e o conhaque foi servido em todos os copos. Falaram durante cerca de duas horas, at o 
rascunho de um acordo ser esboado.
    Dirch Frode criaria uma sociedade em nome de Henrik Vanger, cujo conselho administrativo seria formado por ele mesmo, Frode e Martin Vanger. Durante quatro anos, 
a sociedade investiria uma soma de dinheiro que cobriria a diferena entre as receitas e as despesas da Millennium. O dinheiro viria dos recursos pessoais de Henrik 
Vanger. Em contrapartida, ele teria uma posio determinante no conselho administrativo da revista. O acordo seria vlido por quatro anos, mas poderia ser rescindido 
pela Millennium depois de dois. Tal resciso, porm, custaria caro, pois a parte de Henrik s poderia ser resgatada adquirindo-se a totalidade da soma investida.
    Em caso da morte sbita de Henrik Vanger, Martin Vanger o substituiria no conselho administrativo durante o perodo de vigncia do contrato. Martin decidiria, 
chegado o momento, se estenderia ou no o acordo alm desse prazo. Martin parecia tentado pela possibilidade de dar o troco a Hans-Erik Wennerstrm, e Mikael se 
perguntou em que realmente consistia a disputa entre eles.
    Estabelecido o acordo preliminar, Martin encheu novamente os copos com conhaque. Henrik aproveitou para se inclinar em direo a Mikael e explicar em voz baixa 
que o acordo no afetava de maneira nenhuma o contrato entre os dois.
    Tambm ficou decidido que para que essa reorganizao tivesse o mximo de repercusso na imprensa ela seria anunciada em meados de maro, no mesmo dia em que 
Mikael Blomkvist fosse para a priso. Associar um acontecimento necessariamente negativo com uma reestruturao era to estranho do ponto de vista da comunicao, 
que s poderia confundir os detratores de Mikael e dar o mximo de audincia  chegada de Henrik Vanger  Millennium. O sinal seria claramente percebido deste modo: 
retirava-se a bandeira amarela da peste que pairava sobre a redao e a revista tinha protetores que no estavam dispostos a ceder. Por mais que as empresas Vanger 
estivessem em crise, elas continuavam sendo um grupo industrial de peso e capaz de ter atuao pblica se necessrio.
    Toda a conversa foi uma discusso entre Erika, de um lado, e Henrik e Martin, de outro. Ningum pediu a opinio de Mikael.
    Mais tarde,  noite, Mikael estava apoiado sobre o peito de Erika e a fitava com olhos inquiridores.
     H quanto tempo voc e Henrik vinham discutindo esse acordo?  perguntou.
     H cerca de uma semana  ela respondeu sorrindo.
     Christer est sabendo?
     Claro.
     Por que no me disse nada?
     E por que eu deveria dizer? Voc foi demitido, abandonou a redao e veio se instalar neste fim de mundo.
    Mikael refletiu um momento sobre o que ela tinha dito.
     Est querendo me dizer que mereo ser tratado como um cretino?
     Isso mesmo  ela disse, marcando as palavras.
     Voc ficou mesmo muito zangada comigo?
     Mikael, eu nunca me senti to furiosa, abandonada e trada como no momento em que voc deixou a redao. Nunca tive tanta raiva de voc.  E o pegou firmemente 
pelos cabelos e o empurrou mais para baixo na cama.
    
    
    Quando Erika deixou a aldeia no domingo, Mikael estava to zangado com Henrik Vanger que no queria correr o risco de topar com ele ou com outro membro do cl. 
Partiu ento para Hedestad e passou a tarde dando voltas pela cidade, foi  biblioteca, tomou caf numa confeitaria... A noite foi ao cinema assistir a O senhor 
dos anis, que ainda no tinha visto, embora o filme j estivesse h um ano em cartaz. Disse a si mesmo que os orcos, diferentemente dos humanos, eram criaturas 
simples, nada complicadas.
    Encerrou a noitada no McDonald's de Hedestad e voltou  ilha  meia-noite, no ltimo nibus. Preparou caf e instalou-se  mesa da cozinha para examinar um arquivo. 
Ficou lendo at as quatro da manh.
    
    
    Alguns pontos de interrogao no inqurito sobre Harriet Vanger revelavam-se cada vez mais estranhos  medida que Mikael avanava na leitura da documentao. 
No se tratava de nenhuma descoberta revolucionria que acabara de fazer, mas de problemas que haviam mantido o inspetor Gustav Morell ocupado por longos perodos, 
sobretudo em seu tempo livre.
    No ltimo ano de sua vida, Harriet Vanger havia sofrido uma transformao. Mudana explicvel, em certa medida, pela metamorfose que todos os jovens passam na 
adolescncia. Harriet comeava, certamente, a se tornar adulta, mas vrias pessoas, tanto colegas de classe quanto professores e membros da famlia, afirmaram que 
ela se tornara mais fechada e reservada.
    A menina que dois anos antes era uma adolescente perfeitamente normal e brincalhona parecia ter se distanciado de seu meio. Na escola, continuou a estar com 
os amigos, mas de um modo definido como "impessoal" por uma das colegas. Um termo bastante incomum para que Morell o registrasse e fizesse outras perguntas. A explicao 
que lhe deram  que Harriet deixara de falar de si mesma, de comentar as ltimas fofocas ou de fazer confidncias.
    Na juventude, Harriet Vanger fora crist como a maioria das crianas  culto aos domingos, oraes  noite etc. No ltimo ano, pareceu ter virado crente. Lia 
a Bblia e ia regularmente  igreja. No entanto no se confiou ao pastor Otto Falk, amigo da famlia Vanger, e na primavera passou a frequentar uma congregao de 
pentecostais de Hedestad. Sua ligao com a Igreja pentecostal no durou muito. Dois meses depois, deixou a congregao e passou a ler livros sobre catolicismo.
    Exaltao religiosa da adolescncia? Talvez, mas ningum na famlia Vanger havia sido crente, e era difcil saber que impulsos guiaram seus pensamentos. Uma 
explicao do interesse por Deus podia ser, evidentemente, a morte do pai, afogado num acidente um ano antes. Em todo caso, Gustav Morell concluiu que algo ocorrera 
na vida de Harriet que a oprimira e a influenciara, mas ele no sabia determinar o qu. Assim como Henrik Vanger, Morell dedicou muito tempo a conversar com as amigas 
de Harriet, na esperana de encontrar algum a quem ela pudesse ter feito confidncias.
    Havia muita expectativa a respeito de Anita Vanger, a filha de Harald Vanger que passou o vero de 1966 na ilha, que se dizia amiga ntima de Harriet e era dois 
anos mais velha que ela. Mas tampouco Anita tinha alguma informao pessoal a dar. As duas se viram durante o vero, tomaram banho juntas, passearam, falaram de 
filmes, grupos de rock e livros. Harriet vrias vezes acompanhou Anita em suas aulas de habilitao de motorista. Um dia, se embriagaram levemente com uma garrafa 
de vinho surrupiada da adega. Tambm passaram vrias semanas sozinhas na pequena casa de Gottfried na extremidade da ilha, uma cabana rstica construda pelo pai 
de Harriet no comeo dos anos 1950.
    As questes sobre os pensamentos ntimos e os sentimentos de Harriet permaneciam sem resposta. Mikael notou, porm, uma discordncia nas opinies sobre ela: 
aqueles que achavam seu carter fechado eram em grande parte colegas de classe e, em certa medida, membros da famlia, mas Anita Vanger no a achara de modo algum 
retrada. Ele anotou esse ponto para discuti-lo eventualmente com Henrik Vanger.
    
    
    Um problema mais concreto, que levara Morell a se fazer muitas perguntas, era uma pgina misteriosa da agenda finamente encadernada de Harriet Vanger, um presente 
de Natal recebido um ano antes de seu desaparecimento. A primeira metade da agenda continha anotaes dirias com horrios de encontros, datas de provas no colgio, 
deveres de casa e coisas do gnero. Havia espao para anotaes pessoais, mas s muito esporadicamente Harriet escrevia um dirio ntimo. Comeou em janeiro com 
muita ambio, com observaes sobre pessoas encontradas durante as frias de Natal e alguns comentrios sobre os filmes que tinha visto. Depois, no escreveu mais 
nada de pessoal at o fim do ano escolar, quando parece   assim que se pode interpretar as anotaes  ter se interessado de longe por um rapaz cujo nome no revelou.
    O verdadeiro mistrio, porm, estava na lista de endereos e telefones. Minuciosamente caligrafados em ordem alfabtica, apareciam os nomes de alguns de seus 
familiares, colegas de classe, professores, membros da Igreja pentecostal e outras pessoas de seu meio facilmente identificveis. Na ltima pgina da lista, depois 
de um espao em branco e fora de ordem alfabtica, havia cinco nomes associados a nmeros telefnicos. Trs nomes de mulheres e duas iniciais.

    Os nmeros de cinco algarismos que comeavam por 32 correspondiam a telefones de Hedestad nos anos 1960. A exceo iniciada por 30 era de Norrbyn, perto de Hedestad. 
O nico problema, depois que o inspetor Morell contatou sistematicamente todo o crculo de conhecidos de Harriet, era que ningum tinha a menor idia de a quem pertenciam 
esses nmeros de telefone.
    O primeiro, "Magda", parecia promissor. Levou a uma loja de retrs na rua do Parque, nmero 12. O telefone estava em nome de uma Margot Lundmark, cuja me chamava-se 
Magda e que de vez em quando trabalhava na loja. No entanto Magda tinha sessenta e nove anos e no fazia idia de quem era Harriet Vanger. Nada indicava tambm que 
Harriet tivesse ido l fazer compras. A costura no fazia parte de suas atividades.
    O segundo nmero, "Sara", levou a uma famlia com filhos pequenos, os Toresson, que moravam em Vststan, do outro lado da ferrovia. A famlia era formada por 
Anders, Monica e seus filhos Jonas e Peter, que na poca ainda no tinham idade de ir  escola. No havia nenhuma Sara na famlia e eles tampouco sabiam quem era 
Harriet Vanger, a no ser pelo que tinham lido nos jornais sobre seu desaparecimento. A nica ligao muito vaga entre Harriet e a famlia Toresson era que Anders, 
pedreiro, trabalhara durante algumas semanas, um ano antes, na reforma do telhado da escola em que Harriet cursava o ltimo ano do colegial. Teoricamente, portanto, 
havia uma possibilidade de que tivessem se encontrado, ainda que isso fosse bastante improvvel.
    Os trs outros nmeros telefnicos conduziam a becos sem sada idnticos. O nmero 32027 pertencera de fato a uma Sosemaroe Larsson, mas ela falecera havia muitos 
anos.
    Durante o inverno de 1966-1967, o inspetor Morell dedicou grande parte de suas investigaes a tentar explicar por que Harriet anotara esses nomes e nmeros.
    Uma primeira suposio era que os nmeros telefnicos seguiam uma espcie de cdigo pessoal  e Morell se esforou para raciocinar como uma adolescente. Como 
a srie iniciada por 32 se aplicava claramente a Hedestad, ele tentou inverter os outros trs algarismos. Mas nem tentando 32601, nem 32160, conseguiu chegar a alguma 
Magda. Obstinado em resolver o mistrio dos nmeros, descobriu que, se modificasse bastante os algarismos, cedo ou tarde acabaria encontrando alguma ligao com 
Harriet. Por exemplo, se somasse 1 a cada um dos trs ltimos algarismos de 32016, obteria o nmero 32127, que era o do escritrio do advogado Frode em Hedestad. 
O problema era que tal ligao no significava absolutamente nada. Alm do mais, ele nunca descobriu um cdigo que pudesse explicar os cinco nmeros ao mesmo tempo.
    Morell ampliou seu raciocnio. Ser que os algarismos podiam significar outra coisa? Os nmeros das placas dos veculos nos anos 1960 tinham uma letra associada 
a uma regio, e cinco algarismos  novo impasse.
    Depois o inspetor abandonou os algarismos para se concentrar nos nomes. Chegou a fazer uma lista de todas as pessoas de Hedestad chamadas Mari, Magda e Sara 
e outras com nomes iniciados pelas letras RL e RJ. Obteve um repertrio de trezentas e sete pessoas. Entre elas, vinte e nove tinham alguma conexo com Harriet; 
por exemplo, um colega de classe do colgio chamava-se Roland Jacobsson, RJ. Mas eles no eram particularmente prximos e haviam deixado de ter contato desde que 
Harriet fora para o colegial. Alm disso, no existia nenhuma ligao com o nmero de telefone.
    O mistrio da agenda telefnica continuou sem soluo.
    
    
    O quarto encontro com o dr. Bjurman no fora marcado com antecedncia. Ela  que foi obrigada a entrar em contato com ele.
    Na segunda semana de fevereiro, o computador porttil de Lisbeth Salander sofreu um acidente to estpido que ela esteve a ponto de assassinar o planeta Terra 
inteiro. Ao chegar de bicicleta para uma reunio na Milton Security, estacionou atrs de um pilar e ps a mochila no cho para pegar o cadeado. Um Saab vermelho-escuro 
escolheu bem esse momento para dar marcha a r. Ela estava virada de costas e ouviu o estalo. O motorista no se deu conta de nada e tranquilamente subiu a rampa 
para desaparecer pela sada da garagem.
    A mochila continha seu iBook Apple 600, branco, com um disco rgido de 25 gigas e memria RAM de 420 megas, fabricado em janeiro de 2002 e com tela de 14 polegadas. 
Quando o adquiriu, era o que havia de melhor na Apple. Os computadores de Lisbeth Salander dispunham das configuraes mais recentes e s vezes bastante caras  
seu equipamento de informtica era o nico item extravagante de suas despesas.
    Ela abriu a mochila e constatou que a tampa do computador estava quebrada. Tentou faz-lo funcionar, mas ele no emitiu sequer um ltimo suspiro. Levou os restos 
 MacJesus Shop de Timmy, na Brnnkyrkagatan, na esperana de que pelo menos uma parte do disco rgido pudesse ser recuperada. Aps um breve exame do aparelho, Timmy 
balanou a cabea.
     Sinto muito, no h o que fazer  anunciou.  Pode encomendar o enterro.
    A perda do computador era um golpe moral, mas no uma catstrofe. Lisbeth Salander se entendera perfeitamente bem com ele ao longo de um ano de convivncia. 
Fizera cpias de todos os documentos e ainda possua um velho computador de mesa Mac G3 e outro Toshiba porttil que poderia usar. Mas ela precisava de uma mquina 
rpida e moderna.
    Optou, como era de se esperar, pela melhor escolha possvel: o novo Apple Powerbook G4 de 1 Ghz, com tampa de alumnio e dotado de um processador PowerPC 7451, 
AltiVec Velocity Engine, memria RAM de 960 megas e disco rgido de 60 gigas. Tinha Bluetooth e um gravador de CD e DVD integrado.
    Mais que isso, era o primeiro notebook do mundo com tela de 17 polegadas, uma placa Nvidia e resoluo de 1440 por 900 pixels que deixavam embasbacados adeptos 
dos PC e faziam esquecer tudo o que havia de novo no mercado.
    Era o Rolls-Royce dos computadores portteis, mas o que mais aguou a vontade de Lisbeth Salander de possu-lo foi um teclado esperto provido de retro-iluminao, 
que permitia enxergar as letras das teclas mesmo na escurido total. Simples, no? Por que ningum pensara nisso antes?
    Foi um caso de amor  primeira vista.
    Custava trinta e oito mil coroas, mais as taxas.
    A havia um problema srio.
    Mesmo assim fez a encomenda na MacJesus, onde sempre comprava seus equipamentos de informtica e que lhe concedia um desconto razovel. Alguns dias depois, Lisbeth 
Salander fez as contas. O seguro do computador acidentado cobriria boa parte da compra, mas, considerando a franquia e o preo elevado da nova aquisio, faltava-lhe 
ainda um pouco mais de dezoito mil coroas. Em casa, ela guardava dez mil coroas num pote de caf para ter sempre dinheiro lquido  mo, mas isso no cobria toda 
a soma. Mesmo amaldioando-o, decidiu telefonar para o dr. Bjurman e explicar que precisava de dinheiro para uma despesa imprevista. Bjurman respondeu que no tinha 
tempo de receb-la naquele dia. Salander explicou que ele no demoraria mais de vinte segundos para passar um cheque de dez mil coroas. Ele retrucou que no podia 
fazer um cheque com to poucos elementos, mas depois acabou cedendo e, aps um instante de reflexo, marcou um encontro com ela aps o expediente, s sete e meia.
    
    
    Mikael admitia no ter competncia para avaliar um inqurito criminal, mas ainda assim concluiu que o inspetor Morell fora excepcionalmente consciencioso e movera 
cus e terras muito alm do que seu trabalho exigia. Deixando de lado o inqurito policial, Mikael via Morell retornar s anotaes de Henrik; uma amizade desenvolvera-se 
entre os dois e Mikael se perguntou se Morell se tornara to obsessivo quanto o empresrio. Mas concluiu que nada de importante escapara a Morell. A soluo do mistrio 
Harriet Vanger no podia estar num inqurito policial praticamente perfeito. Todas as questes imaginveis haviam sido levantadas e todos os indcios verificados, 
mesmo os mais absurdos.
    Ele ainda no lera todo o inqurito, mas, quanto mais avanava, mais os indcios e as pistas exploradas se tornavam obscuros. No esperava descobrir algo que 
seu predecessor no tivesse percebido, e no via sob que novo ngulo atacar o problema. Uma concluso se impunha aos poucos: o nico caminho possvel era tentar 
descobrir as motivaes psicolgicas das pessoas implicadas.
    O ponto de interrogao mais evidente dizia respeito  prpria Harriet. Quem era ela afinal?
    Da janela de sua casa, Mikael viu acender-se, por volta das cinco da tarde, a luz no andar de cima da casa de Cecilia Vanger. Bateu  sua porta s sete e meia, 
no momento em que o noticirio comeava na tev. Ela vestia um penhoar quando abriu a porta, e tinha os cabelos molhados sob uma toalha amarela. Assim que a viu, 
Mikael desculpou-se por incomod-la e j se preparava para partir quando ela o convidou a entrar na cozinha. Ligou a cafeteira eltrica e desapareceu no alto da 
escada durante alguns minutos, para depois descer vestindo um jeans e uma camisa de flanela xadrez.
     Eu j estava comeando a achar que voc no teria coragem de vir. Podemos nos tratar por voc?
     Claro. Sim, eu deveria ter telefonado antes, mas, quando passei e vi a luz acesa, me deu uma vontade repentina.
     E eu tenho visto que a luz fica acesa a noite toda na sua casa. E que geralmente voc sai para passear depois da meia-noite. Voc  uma ave noturna?
    Mikael encolheu os ombros.
     Foi o ritmo que adotei aqui.  Seus olhos dirigiram-se a alguns livros escolares empilhados na beira da mesa.  Continua dando aulas, senhora diretora?
     No, como diretora no tenho mais tempo. Mas j dei aulas de histria, religio e de educao cvica. E s me restam uns poucos anos.
     Poucos? Ela sorriu.
     Estou com cinquenta e seis. Em breve me aposento.
     Sinceramente, eu lhe dava uns quarenta.
     Bondade sua. E voc, que idade tem?
     Um pouco mais de quarenta  sorriu Mikael.
     E ainda ontem voc tinha apenas vinte. Como passa depressa... a vida, eu quero dizer.
    Cecilia Vanger serviu o caf e perguntou se Mikael estava com fome. Ele respondeu que j tinha comido; o que era verdade, a no ser por um detalhe: ele andava 
se alimentando de sanduches em vez de preparar refeies de verdade. Mas no estava com fome.
     Ento, o que o traz aqui? Chegou a hora de me fazer as famosas perguntas?
     Para falar a verdade... no vim fazer perguntas. Acho que estava simplesmente com vontade de v-la.
    Cecilia Vanger sorriu, surpresa.
     Voc foi condenado  priso, trocou Estocolmo por Hedeby, anda mergulhado nos arquivos favoritos de Henrik, no dorme  noite, faz longas caminhadas noturnas 
debaixo de um frio de rachar... esqueci alguma coisa?
     Minha vida  um trem fora dos trilhos.  Mikael retribuiu o sorriso.
     Quem  a mulher que veio v-lo no fim de semana?
     Erika... a dona da Millennium.
     Sua namorada?
     No exatamente. Ela  casada. Sou mais um amigo e um amante ocasional.
    Cecilia Vanger deu uma gargalhada.
     O que  to engraado?
     O modo como voc disse isso. Amante ocasional. Adorei a expresso. Mikael riu. Essa Cecilia Vanger decididamente lhe agradava.
     Gostaria muito de ter um amante ocasional  ela disse.
    Descalou as pantufas e ps o p sobre o joelho de Mikael. Maquinalmente ele pegou o p dela e acariciou sua pele. Hesitou um segundo  sentiu que navegava em 
guas inesperadas e incertas. Mas com o polegar comeou a massagear com suavidade a planta do p de Cecilia Vanger.
     Tambm sou casada  disse ela.
     Eu sei. Ningum se divorcia no cl Vanger.
     No vejo meu marido h quase vinte anos.
     O que aconteceu?
     No te interessa. No fao amor h... humm... digamos, h uns trs anos.
     Voc me surpreende.
     Por qu?  uma questo de oferta e procura. No estou nem um pouco interessada em ter um namorado, um marido legtimo ou um companheiro. Sinto-me bem comigo 
mesma. Com quem eu faria amor? Com um dos professores da escola? Duvido. Com um aluno? Seria um assunto delicioso para as fofocas da cidade. Todos vigiam de perto 
os Vanger. E aqui em Hedebyn moram apenas membros da famlia ou pessoas j casadas.
    Ela se inclinou para a frente e enlaou os braos no pescoo dele.
     Estou chocando voc?
     No. Mas no sei se  uma boa idia. Trabalho para o seu tio.
     E eu seria certamente a ltima pessoa a contar para ele. Mas  bem provvel que Henrik no tivesse nada contra.
    Ela sentou de pernas abertas sobre os joelhos de Mikael e o beijou na boca. Os cabelos ainda estavam midos e cheiravam a xampu. Ele demorou um pouco para abrir 
os botes da camisa de flanela, descobrindo-lhe os ombros. Ela no se dera o trabalho de pr suti. Quando ele tocou seus seios, ela estreitou o corpo contra o dele.
    
    
    O advogado Bjurman contornou a mesa e mostrou-lhe o extrato da conta, cujo saldo ela conhecia at o ltimo centavo, mas do qual no podia mais dispor livremente. 
Ele se mantinha de p s suas costas. Sbito, comeou a acariciar a nuca de Lisbeth, deslizando a mo sobre o ombro esquerdo e o seio dela. Ps a outra mo sobre 
o seio direito e a deixou ali. Como ela no protestou, ele apertou o seio. Lisbeth Salander no se mexia. Sentiu o hlito dele em sua nuca e olhou para o cortador 
de papel em cima da mesa; poderia facilmente atingi-lo com a mo livre.
    Mas no fez nada. Uma coisa que Holger Palmgren lhe ensinara ao longo dos anos era que atos impulsivos traziam problemas, e problemas podiam trazer consequncias 
desagradveis. Ela nunca fazia nada sem antes pesar as consequncias.
    Esse primeiro abuso sexual  em termos jurdicos podia ser qualificado como abuso sexual e de poder sobre uma pessoa dependente, e teoricamente podia significar 
at dois anos de priso para Bjurman  durou apenas alguns segundos. O suficiente, porm, para transpor, sem volta, uma fronteira. Lisbeth Salander entendeu isso 
como a demonstrao de fora de uma tropa inimiga  um modo de deixar claro que, para alm da relao jurdica cuidadosamente estabelecida, ela estava  merc da 
boa vontade dele, e desarmada. Quando seus olhos se cruzaram alguns segundos depois, a boca de Bjurman estava entreaberta e ela viu desejo em seu rosto. O rosto 
de Salander no traa o menor sentimento.
    Bjurman contornou novamente a mesa e sentou-se em sua confortvel cadeira de couro.
     No posso te passar cheques assim, sem mais  disse abruptamente.  Por que voc precisa de um computador to caro? H equipamentos bem mais baratos nos quais 
voc pode instalar seus jogos.
     Quero dispor do meu dinheiro como antes. Bjurman lanou-lhe um olhar cheio de piedade.
     Veremos isso mais tarde. Primeiro voc precisa aprender a ser socivel e a se entender com as pessoas.
    O sorriso do dr. Bjurman certamente teria se contrado um pouco se ele pudesse ler os pensamentos de Lisbeth por trs de seus olhos inexpressivos.
     Acho que podemos ser bons amigos  disse Bjurman.  Precisamos confiar um no outro.
    Como ela no respondeu, ele foi mais explcito.
     Voc agora  uma mulher adulta, Lisbeth.
    Ela fez que sim com a cabea.
     Venha c  disse ele, estendendo-lhe uma mo.
    Lisbeth Salander ps novamente os olhos no cortador de papel por alguns segundos antes de se levantar e ir at l. Consequncias. Ele pegou a mo dela e a ps 
em seu pbis. Ela sentiu o membro atravs da cala de gabardine escura.
     Se for gentil comigo, serei gentil com voc  ele disse.
    Ela estava rgida como um tronco quando ele ps a outra mo atrs de sua nuca e forou-a a ajoelhar-se, o rosto diante do pbis.
     J fez esse tipo de coisa, no fez?  ele perguntou, abrindo a braguilha. Ela percebeu que ele se lavara com gua e sabonete.
    Lisbeth Salander virou o rosto para o lado e tentou se levantar, mas ele a reteve com firmeza. Na fora pura, no podia medir-se com ele; pesava quarenta e dois 
quilos contra os noventa e cinco dele. Ele pegou a cabea de Lisbeth com as mos e virou-lhe o rosto para v-la bem nos olhos.
     Se voc for gentil comigo, serei gentil com voc  repetiu.  Se me criar problemas, posso faz-la ficar internada com os loucos o resto da sua vida. Gostaria 
disso?
    Ela no respondeu.
     Gostaria disso?  ele repetiu.
    Ela balanou negativamente a cabea.
    Bjurman esperou at que ela abaixasse o olhar, submissa, ele pensou. Depois a puxou para junto de si. Lisbeth Salander descerrou os lbios e ps o membro na 
boca. Em momento nenhum ele deixou de segur-la pela nuca e de pression-la violentamente. Ela se sentiu como que amordaada ao longo dos dez minutos em que ele 
se agitou at finalmente ejacular; ele a segurara com tanta fora que ela mal pde respirar.
    Bjurman deixou-a usar um pequeno banheiro anexo ao gabinete. O corpo inteiro de Lisbeth Salander tremia quando ela lavou o rosto e tentou limpar as manchas do 
pulver. Usou o dentifrcio dele para tirar o gosto da boca. Ao voltar ao gabinete, encontrou-o instalado  mesa, folheando papis, como se nada tivesse acontecido.
     Sente-se, Lisbeth  ele disse, sem olhar para ela. Ela sentou-se. Finalmente ele olhou para ela e sorriu.
     Voc agora  adulta, no , Lisbeth?
    Ela assentiu com a cabea.
     Ento deve ser capaz de jogar jogos de adultos  ele disse, como se falasse com uma criana.
    Lisbeth no respondeu. Uma pequena ruga se formou na testa de Bjurman.
     Acho que no seria uma boa idia falar dos nossos jogos a outra pessoa. Pense bem: quem acreditaria em voc? H papis que comprovam sua irresponsabilidade. 
 Como ela no respondeu, ele prosseguiu:  Seria a sua palavra contra a minha. Qual delas voc acha que pesaria mais?
    Ele suspirou diante da obstinao dela em no responder. De repente ficou irritado de v-la sentada ali, muda, com os olhos fixos nele. Mas controlou-se.
     Seremos bons amigos, voc e eu. Foi muito sensata em vir me procurar. Conte sempre comigo.
     Preciso de dez mil coroas para o meu computador  ela falou de repente, em voz baixa, como se retomasse a conversa iniciada antes da interrupo.
    O dr. Bjurman ergueu as sobrancelhas. Que puta mais dura de roer!  totalmente retardada. Estendeu-lhe o cheque que havia preparado enquanto ela estava no banheiro. 
 mais que uma puta; ela se paga com o prprio dinheiro! Dirigiu-lhe um sorriso superior. Lisbeth Salander pegou o cheque e foi embora.
    
   12.         QUARTA-FEIRA 19 DE FEVEREIRO
    
    
    Se Lisbeth Salander fosse uma cidad comum, ela provavelmente iria  polcia denunciar o estupro no instante em que deixava o escritrio do dr. Bjurman. Os hematomas 
na nuca e no pescoo, bem como as manchas de esperma com o DNA de Bjurman em seu corpo e em suas roupas, teriam sido provas materiais pesadas. Mesmo que o advogado 
se esquivasse, alegando que ela concordou ou foi ela que me seduziu, ou foi ela que quis a felao e outras afirmaes para as quais os estupradores apelam sistematicamente, 
ainda assim ele seria culpado de tantas infraes do cdigo de tutelas, que lhe teriam retirado de imediato o controle que exercia sobre ela. Uma denncia teria 
provavelmente permitido a Lisbeth Salander conseguir um verdadeiro advogado, bem informado a respeito dos abusos de poder sobre as mulheres, o que por sua vez poderia 
levar a uma discusso do problema central  sua condio de tutelada.
    Desde 1989, a noo de maior de idade incapaz deixou de existir.
    H dois nveis de assistncia  a curadoria e a tutela.
    Um curador intervm para ajudar, com benevolncia, pessoas que por diversas razes tm dificuldade de lidar com suas atividades cotidianas, pagar contas ou cuidar 
da sade. O curador designado em geral  um parente ou amigo prximo. Se a pessoa no tem ningum na vida, as autoridades sociais se encarregam de encontrar algum 
que cumpra essa funo. A curadoria  uma forma moderada de tutela em que a pessoa interessada conserva o controle de seus recursos e em que as decises so tomadas 
em comum.
    A tutela  uma forma de controle bem mais estrita. A pessoa  impedida de dispor livremente de seu dinheiro e de tomar decises em diferentes reas. A formulao 
exata declara que o tutor administra os bens e efetua todos os atos cvicos ou jurdicos da pessoa em questo. Na Sucia, cerca de quatro mil pessoas se encontram 
nessa situao. As causas mais frequentes que levam algum a ser posto sob tutela so uma doena psquica manifesta ou uma doena psquica ligada a forte dependncia 
de lcool ou drogas. Os dementes senis constituem uma parcela menor. No deixa de ser surpreendente que haja, entre as pessoas colocadas sob tutela, muitas relativamente 
jovens, com menos de trinta e cinco anos. Uma delas era Lisbeth Salander.
    Privar uma pessoa do controle de sua vida, ou seja, de sua conta bancria,  uma das medidas mais degradantes a que pode recorrer uma democracia, ainda mais 
quando se trata de um jovem. E degradante, mesmo que a inteno seja considerada boa e socialmente justificvel. As questes de tutela, portanto, so um problema 
poltico que pode se revelar bastante delicado, cercadas de disposies rigorosas e controladas por uma comisso de tutelas. Esta depende do conselho geral, submetido 
por sua vez ao procurador geral.
    Via de regra, a comisso de tutelas trabalha em condies difceis. Levando em conta as questes delicadas de que se ocupa essa administrao,  surpreendente 
que to poucas reclamaes ou escndalos tenham sido divulgados nos meios de comunicao.
    De vez em quando se toma conhecimento de uma ao na Justia contra um curador ou um tutor que desviou dinheiro ou que vendeu indevidamente o apartamento do 
cliente para embolsar o dinheiro. Mas so casos relativamente raros, e isso por duas possveis razes: ou porque a administrao cumpre muito bem suas tarefas, ou 
porque as pessoas em questo no tm a possibilidade de prestar queixa e de se fazerem ouvir de modo convincente por jornalistas e autoridades.
    A comisso de tutelas  obrigada a avaliar, todos os anos, se h alguma razo para solicitar a suspenso de uma tutela. Como Lisbeth Salander persistia em sua 
recusa obstinada de submeter-se a exames psiquitricos  no dirigia sequer um polido bom-dia aos mdicos , a administrao nunca encontrou razes para modificar 
sua deciso. Mantido o statu quo, sua tutela era renovada anualmente.
    O texto da lei estipula, porm, que a determinao de uma tutela deve se adaptara cada caso. Quando Holger Palmgren era o responsvel, ele interpretou isso  
sua maneira e deixou a Lisbeth Salander a responsabilidade de administrar seu dinheiro e sua vida. Ele cumpria meticulosamente as exigncias da administrao e fazia 
um relatrio mensal e uma reviso anual. Fora isso, tratava Lisbeth Salander como qualquer jovem normal e no se imiscua em suas escolhas de vida ou amizades. Achava 
que no cabia nem a ele nem  sociedade decidir se aquela jovem queria ter um piercing no nariz e uma tatuagem no pescoo. Essa atitude um tanto permissiva em relao 
 deciso do tribunal de instncia era uma das razes pelas quais Lisbeth e ele se entendiam to bem.
    Enquanto Holger Palmgren foi seu tutor, Lisbeth Salander no se preocupou muito com seu estatuto jurdico. Mas o dr. Nils Bjurman interpretava a lei de tutela 
de modo radicalmente diferente.
    
    
    Seja como for, Lisbeth Salander no pertencia  categoria das pessoas normais. Tinha um conhecimento rudimentar em direito  rea na qual nunca se interessou 
em se aprofundar  e sua confiana no servio de manuteno da ordem quase no existia. Para ela, a polcia era um poder inimigo relativamente imperfeito, cujas 
intervenes concretas ao longo dos anos haviam sido det-la ou humilh-la. A ltima vez que havia se defrontado com a polcia fora numa tarde de maio do ano anterior. 
Caminhava pela Gtgatan para ir  Milton Security, quando de repente viu-se cara a cara com um policial munido de capacete com viseira, que, sem a menor provocao 
da parte dela, aplicou-lhe um golpe de cassetete no ombro. Seu instinto de defesa a levou imediatamente  ofensiva com a garrafa de Coca-Cola que trazia na mo. 
Por sorte, antes que ela tivesse tempo de reagir, o policial j virara as costas e partia para reprimir outras pessoas. Mais tarde, ficou sabendo que naquele dia 
a associao A Rua Nos Pertence organizara uma manifestao no bairro.
    A idia de ir ao QG dos capacetes-com-viseira ou de denunciar Nils Bjurman por abuso sexual no lhe passava pela cabea. Alis, denunciar o qu? Bjurman tocara-lhe 
os seios. Qualquer policial a examinaria com os olhos para constatar que, com seus peitinhos de menina, aquilo parecia improvvel e, mesmo que houvesse acontecido, 
ela devia mais era se orgulhar de algum t-la tocado. Quanto  histria de chupar  era a palavra dela contra a de Bjurman e, geralmente, a palavra dos outros contava 
mais que a dela. A polcia no era uma boa alternativa.
    Depois de deixar o escritrio de Bjurman, foi para casa, tomou um banho, devorou dois sanduches de queijo com picles, e ento instalou-se para refletir no sof 
da sala com seu tecido pudo e embolotado.
    Qualquer indivduo normal talvez tivesse considerado sua falta de reao como um elemento de acusao  uma prova de que, de certo modo, Lisbeth era to anormal 
que mesmo um estupro no conseguia provocar nela uma resposta emocional satisfatria.
    Seu crculo de amizades era bastante restrito e tambm no abrangia jovens de classe mdia protegidos por seus condomnios fechados do subrbio. Desde a maioridade, 
Lisbeth Salander no conhecia uma nica garota que, pelo menos uma vez, no tivesse sido forada a realizar algum tipo de ato sexual. Eram abusos cometidos quase 
sempre por namorados mais velhos que, usando de alguma persuaso, davam um jeito de conseguir o que queriam. Pelo que ela sabia, tais incidentes resultavam s vezes 
em crises de choro e de raiva, mas jamais numa queixa levada  delegacia.
    No mundo de Lisbeth Salander, era esse o estado natural das coisas. Enquanto mulher, ela era uma presa autorizada, sobretudo a partir do momento em que vestia 
uma jaqueta de couro preto e gasto, tinha piercings nas sobrancelhas, tatuagens e um status social nulo.
    No havia por que derramar lgrimas por isso.
    Por outro lado, estava fora de questo que o dr. Bjurman pudesse obrig-la a chupar seu pau impunemente. Lisbeth Salander nunca esquecia uma afronta e estava 
disposta a tudo, menos a perdoar.
    Mas seu estatuto jurdico trazia um problema. Desde suas lembranas mais remotas, fora considerada uma menina obstinada e de uma violncia injustificvel. As 
primeiras anotaes a seu respeito haviam sido feitas pela enfermeira da escola primria. Fora mandada para casa por ter batido num colega de classe e por t-lo 
empurrado com tanta fora contra um cabide que ele se machucou. Ela ainda se lembrava com irritao da vtima, um menino gordo chamado David Gustavsson que no parava 
de provoc-la e de atirar-lhe coisas na cabea, e que com o passar do tempo tornou-se um perfeito algoz, embora na poca ela no conhecesse a palavra. De volta  
escola, David prometeu vingar-se em tom ameaador e ela o derrubou com um soco bem dirigido e reforado por uma bola de golfe no punho, o que resultou em mais sangue 
derramado e em um novo registro de mau comportamento.
    As regras da vida em comum na escola sempre a deixaram perplexa. Ela se ocupava de seus afazeres e no se intrometia na vida dos outros. Mas havia sempre algum 
disposto a jamais deix-la em paz.
    No ensino primrio, foi mandada vrias vezes para casa em virtude de violentas disputas com colegas. Os garotos de sua classe, bem mais fortes que ela, logo 
descobriram que podia ser desagradvel implicar com aquela menina franzina  ao contrrio das outras meninas, ela nunca batia em retirada e no hesitava um segundo 
em usar os punhos ou instrumentos diversos para se defender. Sua atitude significava que ela preferia ser maltratada at a morte a aceitar qualquer abuso.
    Alm disso, vingava-se.
    No ginsio, Lisbeth Salander desentendeu-se com um rapaz bem mais alto e mais forte que ela. Do ponto de vista puramente fsico, ela no representava um grande 
obstculo para ele. Vrias vezes o rapaz divertiu-se em faz-la cair, para depois esbofete-la quando ela tentava reagir. Mas, apesar dessa superioridade, a idiota 
insistia em reagir e, depois de algum tempo, mesmo os outros alunos comearam a achar que a coisa estava indo longe demais. Ela era to visivelmente indefesa que 
dava pena. O rapaz acabou por acertar-lhe um soco magistral que cortou seu lbio e a fez ver estrelas. Ficou cada no ptio do ginsio. Passou dois dias em casa. 
Na manh do terceiro dia, esperou seu algoz com um taco de beisebol e o desferiu contra sua orelha. Isso lhe valeu uma convocao do diretor, que decidiu apresentar 
queixa contra ela por agresso fsica, o que resultou num inqurito social.
    Seus colegas de classe diziam que ela era maluca e a tratavam como tal. Ela tambm despertava pouca simpatia entre os professores, que em alguns momentos achavam-na 
insuportvel. Nunca fora especialmente loquaz e era considerada a aluna que nunca levantava a mo e que em geral no respondia quando o professor lhe fazia uma pergunta. 
Ningum sabia se era porque ela no conhecia a resposta ou se a razo era outra, mas suas notas refletiam uma situao de fato. Com certeza ela tinha problemas, 
porm, curiosamente, ningum quis se encarregar dessa menina difcil, embora seu caso fosse discutido vrias vezes entre os professores. Assim, mesmo eles a deixavam 
de lado, enclausurada num silncio intratvel.
    Certo dia, um substituto que no conhecia seu comportamento peculiar a intimou a responder a uma questo de matemtica; ela teve uma crise histrica e atacou 
o professor com socos e pontaps. Ao terminar o ginsio, foi cursar o colegial em outra escola sem ter um nico colega a quem dizer adeus. Uma menina de comportamento 
desviante que ningum amava.
    Depois, quando estava no auge da adolescncia, aconteceu-lhe todo o Mal no qual no queria pensar, a ltima crise que veio completar o quadro e que fez com que 
reabrissem os arquivos do ginsio. Desde ento foi considerada, do ponto de vista jurdico... enfim, maluca. Uma doente mental. Lisbeth Salander nunca teve necessidade 
de documentos para saber que era diferente. No entanto, ningum a aborreceu enquanto seu tutor foi Holger Palmgren, um homem que ela podia conduzir  vontade, se 
necessrio.
    Com a chegada de Bjurman, a tutela corria o risco de virar um peso dramtico em sua vida. No importa para quem se voltasse, haveria armadilhas potenciais em 
seu caminho, e o que aconteceria se perdesse o combate? Seria levada a uma instituio? Encerrada num asilo de loucos? Bela alternativa!
    
    
    Mais tarde na noite, quando Cecilia Vanger e Mikael se aquietaram, pernas entrelaadas, Cecilia repousando a cabea no peito de Mikael, ela levantou os olhos 
para ele.
     Obrigada. Fazia muito tempo. Voc no  ruim de cama.
    Mikael sorriu. Esse tipo de elogio sempre lhe causava uma satisfao pueril.
     Foi bom  disse Mikael.  Inesperado, mas gostoso.
     Gostaria que se repetisse  disse Cecilia.  Se isso lhe agrada. 
    Mikael olhou para ela.
     Est dizendo que gostaria de ter um amante?
     Um amante ocasional, como voc disse. Mas quero que v dormir em sua casa. No quero acordar de manh com voc aqui, antes de eu poder recompor meus msculos 
e meu rosto. E tambm no seria bom voc sair espalhando pelo povoado o que fazemos juntos.
     Acha que eu faria isso?  disse Mikael.
     Sobretudo no quero que Isabella saiba.  uma mulher muito maldosa.
     E sua vizinha mais prxima... eu sei, j nos encontramos.
     Ainda bem que da casa dela no se v minha porta de entrada. Seja discreto, Mikael, por favor.
     Serei.
     Obrigada. Voc bebe?
     s vezes.
     Estou com vontade de beber um gim-tnica. Que tal?
     timo.
    Ela se envolveu no lenol e desceu a escada. Mikael aproveitou para ir ao banheiro e lavar o rosto. Nu, ele observava os livros na estante quando ela voltou 
com uma garrafa de gua gelada e dois gins-tnicas com limo. Fizeram um brinde.
     Por que veio  minha casa?  ela perguntou.
     Por nada de especial. Simplesmente eu...
     Estava na sua casa lendo o inqurito de Henrik e depois vem me ver. No  preciso ser muito inteligente para perceber o que o atormenta.
     Voc leu o inqurito?
     Em parte. Passei toda a minha vida adulta s voltas com esse inqurito. No se pode conviver com Henrik sem ser contaminado pelo mistrio Harriet.
     A verdade  que  um problema fascinante. Quero dizer,  a verso insular do mistrio do quarto fechado. E nada no inqurito me parece seguir a lgica normal. 
Todas as questes continuam sem resposta, todos os indcios levam a um beco sem sada.
     Humm, essas coisas tornam as pessoas obsessivas.
     Voc estava na ilha naquele dia.
     Sim. Estava aqui e presenciei os acontecimentos. Na poca eu estudava em Estocolmo. Preferia ter ficado em casa naquele fim de semana.
     Como era Harriet de fato? As pessoas parecem t-la interpretado de tantas maneiras diferentes.
      off the record ou...?
     Off the record.
     No fao a menor idia do que se passava na cabea de Harriet. Suponho que voc queira falar do ltimo ano. Num dia era uma crente, no dia seguinte maquiava-se 
como uma puta e ia  escola com a blusa mais colante que encontrava. No  preciso ser psiclogo para perceber que estava profundamente infeliz. Mas eu no vivia 
aqui, como eu disse; apenas ouvia as histrias.
     O que desencadeou esses problemas?
     Gottfried e Isabella, sem dvida. Que desgraa de casamento! Levianos e sempre dispostos a brigar. No fisicamente. Gottfried no era do tipo que bate em mulher, 
e ele at tinha medo de Isabella. No comeo dos anos 1960, instalou-se de modo mais ou menos definitivo em sua cabana na extremidade da ilha, onde Isabella nunca 
punha os ps. De tempos em tempos surgia aqui na aldeia parecendo um mendigo. Depois voltava ao normal e vestia-se com cuidado, tentando retomar seu trabalho.
     No havia ningum disposto a ajudar Harriet?
     Henrik, claro. Ela acabou vindo morar na casa dele. Mas no esquea que ele andava ocupado em desempenhar seu papel de grande industrial. Geralmente estava 
viajando a negcios para algum lugar e no tinha muito tempo de se dedicar a Harriet e a Martin. No acompanhei bem essa histria, pois morei primeiro em Uppsala 
e depois em Estocolmo  e tambm no tive uma juventude muito fcil com Harald como pai, posso lhe assegurar. Mas aos poucos entendi que o problema vinha do fato 
de Harriet nunca se abrir com ningum. Ao contrrio, ela procurava manter as aparncias e fingir que eles eram uma famlia feliz.
     Negao sistemtica.
     Exatamente. Mas ela mudou depois que o pai se afogou. No podia mais fingir que estava tudo bem. At ento ela fora... no sei como dizer, superdotada e precoce, 
mas de modo geral uma adolescente bem comum. No ltimo ano, continuou sendo de uma inteligncia brilhante, tirava as melhores notas do colgio, mas era como se no 
tivesse uma verdadeira personalidade.
     Como seu pai se afogou?
     Gottfried? Da maneira mais banal possvel. Caiu de um barco que estava prximo da sua cabana. A braguilha estava aberta e verificou-se uma taxa de lcool extremamente 
alta no sangue, d pra imaginar o que aconteceu. Martin foi quem o encontrou.
     Eu no sabia.
      engraado. Martin evoluiu, tornou-se uma pessoa saudvel. Se me perguntassem isto trinta e cinco anos atrs, eu teria dito que, de todos na famlia, ele 
 que precisava de um psiclogo.
     Por qu?
     Harriet no era a nica a sofrer com a situao. Durante anos Martin foi to taciturno e fechado que podia ter sido apelidado de urso. As duas crianas viviam 
momentos penosos. Mas no era muito diferente com todos ns. Eu tinha problemas com meu pai, voc deve ter percebido que ele  louco de dar n. Minha irm Anita 
tinha os mesmos problemas, assim como Alexander, meu primo. Era duro ser jovem na famlia Vanger.
     O que aconteceu com sua irm?
     Anita mora em Londres. Foi para l nos anos 1970, a fim de trabalhar numa agncia de viagens sueca, e l ficou. Viveu com um sujeito que ela nunca quis apresentar 
 famlia e de quem depois se separou. Hoje  chefe de escala na British Airways. Nos damos bem, eu e ela, mas temos muito pouco contato, nos vemos mais ou menos 
de dois em dois anos. Ela nunca vem a Hedestad.
     Por qu?
     Nosso pai  louco. Basta como explicao?
     Mas voc ficou aqui.
     Eu e Birger, meu irmo.
     O poltico.
     Est tirando um sarro? Birger  mais velho que Anita e eu. Nunca nos entendemos muito bem. Ele se considera um poltico muito importante com um futuro no Parlamento 
e talvez um cargo de ministro, se os conservadores ganharem. Na realidade,  um vereador medocre num povoado perdido, o que deveria representar ao mesmo tempo o 
auge e o fim de sua carreira.
     Uma coisa que me fascina na famlia Vanger  o dio recproco de todos os lados.
     No  bem assim. Gosto muito de Martin e de Henrik. E sempre me dei bem com minha irm, mesmo nos vendo pouco. Detesto Isabella, no tenho muita simpatia por 
Alexander. E no falo com meu pai. Eu diria que  mais ou menos meio a meio na famlia. Mas sei o que voc quer dizer. Entenda assim: quando se  da famlia Vanger, 
aprende-se muito cedo a falar s claras. Costumamos dizer o que pensamos.
     Sim, percebi que voc foi muito franca.  Mikael estendeu a mo e tocou os seios dela.  Bastaram quinze minutos na sua casa para voc pular em cima de mim.
     Para ser bem franca, j na primeira vez que o vi eu me perguntei como voc seria na cama. E me pareceu muito normal eu querer fazer o teste.
    Pela primeira vez na vida, Lisbeth Salander sentiu uma necessidade premente de pedir um conselho. No entanto havia um problema: para se aconselhar com algum, 
ela seria obrigada a confiar na pessoa, o que significava ser obrigada a se entregar e a contar seus segredos. Com quem poderia falar? No era muito boa em se relacionar 
com as pessoas.
    Quando passou mentalmente em revista seu caderninho de endereos, Lisbeth Salander contou no mais que dez pessoas que, de um modo ou de outro, pertenciam a 
seu crculo de conhecidos. Uma estimativa generosa, ela mesma admitiu.
    Podia falar com Praga, um ponto mais ou menos fixo em sua existncia. Mas no se tratava de um amigo, e ele seria o ltimo a poder ajud-la a resolver seus problemas. 
No era uma boa soluo.
    Na verdade, a vida sexual de Lisbeth Salander no era to modesta como dera a entender ao dr. Bjurman. E, na maioria das vezes, seus relacionamentos se desenrolaram 
de acordo com suas condies e por iniciativa sua. Desde os quinze anos, teve uns cinquenta parceiros, ou seja, algo como cinco por ano, o que era normal para uma 
mulher solteira da idade dela que considerava o sexo como um passatempo.
    Mas ela conheceu a maioria desses parceiros ocasionais num perodo de dois anos, na poca tumultuosa do fim da adolescncia. Lisbeth Salander viu-se ento numa 
encruzilhada, sem controle real sobre sua vida, e seu futuro poderia ter se transformado numa nova srie de ocorrncias relacionadas com drogas, lcool e internao 
em diferentes instituies. Depois dos vinte anos e de seu incio na Milton Security, ela se acalmara consideravelmente e julgava estar no comando de sua vida.
    No se sentia mais obrigada a retribuir favores a quem lhe tivesse pago trs cervejas num bar, nem a menor obrigao de acompanhar um bbado, cujo nome mal lembrava, 
at a casa dele. No ltimo ano, teve um nico parceiro regular, o que dificilmente se podia qualificar de atitude desavergonhada, como insinuavam os documentos mdicos 
do final de sua adolescncia.
    Fora isso, para ela o sexo estava ligado ao fato de pertencer a um grupo de garotas do qual na realidade no fazia parte, mas que a aceitara por ser amiga de 
Cilla Norn. Ela conhecera Cilia no final da adolescncia, quando, a pedido insistente de Holger Palmgren, tentou obter o certificado de concluso do segundo grau 
em um curso supletivo. Cilla tinha cabelos vermelhos com mechas escuras, vestia cala de couro preto, tinha um piercing no nariz e um cinto com rebites, como Lisbeth. 
Elas se olharam com desconfiana na primeira aula.
    Por uma razo que Lisbeth no conseguia entender, comearam a se ver. Lisbeth no era das que logo faziam amizade, sobretudo naquela poca, mas Cilla ignorou 
seu silncio e a levou a um bar. Por intermdio dela, Lisbeth tornou-se membro das Evil Fingers, originalmente um grupo da periferia composto de quatro adolescentes 
de Enskede que gostavam de hard rock e que, dez anos depois, formavam um grupo considervel de amigas que se reuniam no Moulin, teras-feiras  noite, para falar 
mal dos rapazes, conversar sobre feminismo, cincias ocultas, msica e poltica, e beber quantidades enormes de cerveja. Elas, de fato, faziam jus ao nome.
    Salander gravitava na periferia desse grupo e raramente dava sua contribuio s discusses, mas era aceita do jeito que era, podia ir e vir  vontade e ficar 
a noite toda com um copo de chope na mo sem dizer nada. Tambm era convidada para os aniversrios de uma ou outra, Natal e festas do gnero, embora quase nunca 
comparecesse.
    Durante os cinco anos em que frequentou as Evil Fingers, as meninas sofreram transformaes. As cores dos cabelos foram voltando ao normal e as roupas agora 
provinham mais das lojas H&M que dos brechs do Exrcito da Salvao. Todas ou estudavam ou trabalhavam, e uma deu  luz um menino. Lisbeth tinha a impresso de 
ser a nica que no mudara em nada, o que talvez significasse que patinava no mesmo lugar.
    Mas elas se divertiam sempre que se encontravam. Se havia um lugar ao qual sentia uma espcie de pertencimento, era na companhia das Evil Fingers e, por extenso, 
na companhia dos rapazes que constituam o crculo de amigos do grupo.
    As Evil Fingers a escutariam e se mobilizariam a seu favor. Mas elas ignoravam que Lisbeth Salander estava submetida a uma deciso da Justia que a declarava 
juridicamente irresponsvel. No queria que elas tambm passassem a olh-la torto. No era uma boa alternativa.
    Quanto ao resto, nem um nico colega de classe de antigamente figurava no seu caderninho de endereos. Ela no dispunha de nenhuma rede de apoio ou de contatos 
polticos. Haveria algum a quem pudesse contar seus problemas com Nils Bjurman?
    Sim, talvez houvesse algum. Ela refletiu demoradamente sobre a idia de se abrir com Dragan Armanskij, de procur-lo para expor sua situao. Ele dissera que 
se ela precisasse de qualquer tipo de ajuda no devia hesitar em procur-lo. Ela estava convencida de sua sinceridade.
    Armanskij tambm a tocara uma vez, mas fora um gesto gentil, sem ms intenes, no tivera nada de demonstrao de fora. No entanto ela relutava em lhe pedir 
ajuda. Ele era seu chefe, e isso a tornaria devedora. Lisbeth Salander sorriu ao pensar em como seria sua vida se tivesse Armanskij como tutor em vez de Bjurman. 
A idia no era desagradvel, mas Armanskij certamente levaria to a srio a misso que a sufocaria com sua solicitude. Era... humm... uma alternativa possvel.
    Embora estivesse perfeitamente a par do papel do SOS-Mulheres, nunca lhe passou pela cabea utilizar esse recurso. Para ela, esses centros de apoio destinavam-se 
s vtimas e ela nunca tinha se considerada como tal. Portanto, a nica boa alternativa que lhe restava era agir como sempre agira  resolver ela mesma seus problemas. 
Essa, sim, era a boa soluo.
    E uma soluo que nada de bom prometia ao dr. Nils Bjurman.
    
   13.         QUINTA-FEIRA 20 DE FEVEREIRO 
    SEXTA-FEIRA 7 DE MARO
    
    
    Na ltima semana de fevereiro, Lisbeth Salander confiou a si mesma uma misso, que tinha o dr. Nils Bjurman, nascido em 1950, como objeto principal. Trabalhou 
cerca de dezesseis horas por dia e fez uma investigao mais minuciosa do que nunca. Utilizou todos os arquivos e todos os documentos oficiais que conseguiu encontrar. 
Vasculhou as relaes familiares e pessoais, verificou as contas e reconstituiu em detalhe a carreira e os trabalhos realizados pelo advogado.
    O resultado foi desanimador.
    Ele era jurista, membro da Ordem dos Advogados e autor de uma tese verborrgica e especialmente tediosa sobre direito comercial. Sua reputao era impecvel. 
O dr. Bjurman nunca recebera uma crtica. Uma nica vez foi chamado  Ordem dos Advogados  teria intermediado negcios imobilirios escusos dez anos antes , mas 
comprovou sua inocncia e o caso foi arquivado. Suas contas estavam em ordem; Bjurman era rico, dispunha de pelo menos dez milhes de coroas. Pagava mais impostos 
que o necessrio, era membro do Greenpeace e da Anistia Internacional, e fazia doaes regulares  Fundao para o Corao e os Pulmes. Seu nome raramente aparecia 
na mdia, mas vrias vezes assinou peties a favor de prisioneiros polticos do Terceiro Mundo. Morava num apartamento de cinco quartos da Upplandsgatan, perto 
da Odenplan, e era secretrio do conselho de condminos de seu prdio. Divorciado, sem filhos.
    Lisbeth Salander dirigiu o foco para sua ex-mulher, chamada Elena. Nascera na Polnia, mas sempre vivera na Sucia. Trabalhava num centro de reeducao e voltara 
a se casar, aparentemente um casamento melhor, com um colega de Bjurman. Nada a investigar desse lado. O casamento durara catorze anos e o divrcio fora amigvel.
    Bjurman se ocupava regularmente do controle de jovens com problemas na Justia. Fora curador de quatro menores de idade antes de ser nomeado tutor de Lisbeth 
Salander. Cada uma dessas misses terminou por simples deciso do tribunal no dia em que alcanaram a maioridade. Um desses clientes ainda tinha Bjurman como advogado, 
mas tambm a no parecia haver nada de importante a descobrir. Se Bjurman montara um sistema para tirar proveito de seus protegidos, pelo menos nada aparecia na 
superfcie, e, por mais que Lisbeth pesquisasse em profundidade, tambm nada encontrou de errado. Os quatro tinham vidas regulares com um namorado ou namorada, emprego, 
casa e um monte de cartes de crdito.
    Ela entrou em contato com os quatro, apresentando-se como secretria de assuntos sociais encarregada de pesquisar jovens que no passado estiveram sob regime 
de curadoria, para saber como estava a vida deles comparada  de outros jovens. Sim, com certeza,  uma pesquisa completamente sigilosa. Montou um questionrio com 
dez itens. Vrias das perguntas eram formuladas de modo a incitar os interlocutores a dar sua opinio sobre o funcionamento da curadoria  se tivessem algo a dizer 
sobre Bjurman, isso certamente teria transparecido em pelo menos um dos entrevistados. Mas ningum tinha nada de negativo a declarar.
    Terminada a pesquisa, Salander enfiou toda a documentao num saco de papel de supermercado e o ps, com um monte de jornais velhos, na entrada de seu prdio. 
O dr. Bjurman era, aparentemente, irreprochvel. Nada havia em seu passado que Lisbeth pudesse usar como alavanca. No entanto, e ela tinha motivos para pensar isto, 
o cara no passava de um canalha estpido e nojento. Ainda assim, no encontrava nada que pudesse utilizar como prova.
    Chegou o momento de considerar outras possibilidades. Depois de passar em revista todas as anlises, restava uma soluo relativamente tentadora  ao menos muito 
realista. O mais simples seria Bjurman desaparecer de vez da sua vida. Um infarto fulminante. Fim dos problemas. A questo  que mesmo sujeitos viciosos de cinquenta 
e cinco anos no estavam to vulnerveis a um infarto.
    Mas se podia dar um jeito nisso.
    
    
    Mikael Blomkvist conduzia seu relacionamento com Cecilia Vanger na maior discrio. Ela estabelecera trs condies: no queria que ningum soubesse que eles 
se encontravam. Queria que ele fosse  casa dela somente quando o chamasse pelo telefone e quando ela estivesse de bom humor. E queria que ele fosse embora antes 
da meia-noite.
    A atitude de Cecilia deixava Mikael perplexo. Quando a via casualmente no Caf Susanne, ela se mostrava amvel, porm fria e distante. Mas, quando se encontravam 
em seu quarto, ela ardia de paixo.
    Mikael no tinha nenhum motivo especial para revolver a vida particular dela, mas fora contratado para investigar a de toda a famlia Vanger. Sentia-se dividido 
e ao mesmo tempo curioso. Um dia, perguntou a Henrik Vanger com quem ela se casara e o que acontecera. Fez a pergunta quando eles falavam do passado de Alexander, 
de Birger e de todos os outros membros da famlia presentes na ilha no dia em que Harriet desapareceu.
     Cecilia? Pelo que sei, ela no se relacionava com Harriet.
     Fale-me do passado dela.
     Veio morar aqui depois de seus estudos e comeou a trabalhar como professora. Conheceu um certo Jerry Karlsson, que infelizmente trabalhava no grupo Vanger. 
Casaram-se. Pensei que fosse um casamento feliz  ao menos no comeo. Mas depois de alguns anos percebi que as coisas no andavam bem. Ele batia nela. A histria 
de sempre: ele batia, mas ela concedia-lhe circunstncias atenuantes. At que um dia ele bateu demais. Ela ficou gravemente ferida e precisou ser hospitalizada. 
Falei com ela e ofereci-lhe ajuda. Ela veio morar na ilha e desde ento se recusa a ver o marido. Encarreguei-me de despedi-lo.
     Mas eles continuam casados.
     S no papel. No sei por que ela no pediu o divrcio. Como no quis se casar de novo, nunca houve problema.
     Esse Jerry Karlsson tinha alguma relao...
     ... com Harriet? No, ele no morava em Hedestad em 1966 e ainda no havia entrado para o grupo.
     Certo.
     Mikael, eu gosto de Cecilia. Ela pode ser complicada, mas  uma das raras pessoas boas da minha famlia.
    
    
    To sistemtica como um perfeito burocrata, Lisbeth Salander dedicou uma semana planejando a morte do dr. Nils Bjurman. Considerou  e rejeitou  diferentes 
mtodos, at dispor de um nmero de roteiros realistas entre os quais escolher. No agir impulsivamente. Seu primeiro pensamento foi tentar forjar um acidente, mas, 
refletindo bem, logo concluiu que pouco importava que falassem de homicdio.
    Apenas uma condio era necessria. Bjurman devia morrer sem que jamais a associassem com o crime. Suspeitava que cedo ou tarde, quando os tiras examinassem 
as atividades de Bjurman, seu nome apareceria num inqurito policial. Mas ela era somente um gro de areia numa galxia de clientes atuais e antigos, encontrara-se 
com ele raras vezes e, a menos que Bjurman tivesse anotado na agenda que a forara a chupar seu pinto  o que era bastante improvvel , no tinha razo para assassin-lo. 
No haveria a menor prova de que a morte dele tinha alguma relao com seus clientes; poderiam pensar em ex-namoradas, parentes, conhecidos e um monte de outras 
pessoas. Poderiam mesmo classificar o caso como violncia casual, quando assassino e vtima no se conhecem.
    Mas digamos que o nome dela aparecesse. E a? Ela seria apenas uma pobre menina sob tutela, amparada por documentos que provavam que era uma retardada mental. 
O ideal, portanto,  que a morte de Bjurman se desse num esquema bastante sofisticado, para que no fosse plausvel pensar que uma retardada mental pudesse ser a 
autora do crime.
    De sada rejeitou a soluo arma de fogo. No teria muitos problemas de ordem prtica para obter uma, mas os tiras sabem como descobrir a origem das balas.
    Considerou uma arma branca; embora uma faca pudesse ser comprada em qualquer bazar, rejeitou tambm essa soluo. Mesmo que agisse com presteza e lhe cravasse 
a faca nas costas, nada garantia que ele fosse morrer em seguida e sem rudo, nem mesmo que morreria. Pior: poderia haver luta, o que chamaria a ateno, e suas 
roupas manchadas de sangue poderiam incrimin-la.
    Considerou tambm uma bomba, coisa, porm, ainda mais complicada. Preparar uma bomba no seria problema  a internet est cheia de manuais que ensinam a fabricar 
os objetos mais mortferos. Difcil seria achar um jeito de explodir o canalha sem atingir tambm um inocente. Sem contar, mais uma vez, que nada garantiria a eliminao 
do canalha.
    O telefone tocou.
     Oi, Lisbeth,  Dragan. Tenho um trabalhinho para voc.
     Estou sem tempo.
      importante.
     Estou ocupada. E desligou.
    Por fim, decidiu-se por uma soluo inesperada  o veneno. A escolha a surpreendeu, mas, pensando bem, era perfeita.
    Lisbeth Salander dedicou alguns dias e noites a pesquisar na internet um veneno adequado. A escolha era ampla. Primeiro aparecia o veneno mais mortal conhecido 
pela cincia, considerando todas as categorias  o cido ciandrico, tambm chamado de cido prssico.
    O cido ciandrico era utilizado na indstria qumica, entre outras, como componente de algumas tintas. Alguns miligramas bastariam para liquidar algum; um 
litro despejado no reservatrio de gua de uma cidade de porte mdio poderia destru-la completamente.
    Por razes evidentes, tal substncia mortal sofria um controle rigoroso. Mas se um fantico com projetos de assassinato poltico no podia entrar na farmcia 
mais prxima e pedir dez mililitros de cido ciandrico, era possvel fabric-lo em quantidades quase ilimitadas numa cozinha qualquer. Um modesto equipamento de 
laboratrio, disponvel num jogo infantil como O pequeno qumico, custa duzentas coroas e no requer mais que alguns ingredientes, que podem ser extrados de produtos 
domsticos comuns. A receita estava disponvel na internet.
    Havia tambm a nicotina. De um nico mao de cigarros, Lisbeth poderia extrair miligramas suficientes da substncia para preparar um xarope no muito viscoso. 
Melhor ainda, embora um pouco mais difcil de fabricar: o sulfato de nicotina, que tinha a vantagem de ser absorvido pela pele; bastaria pr luvas de borracha, encher 
uma pistola d'agua e dispar-la no rosto do dr. Bjurman. Em vinte segundos ele perderia a conscincia e em alguns minutos estaria morto.
    At ento Lisbeth Salander no imaginava que tantos produtos domsticos perfeitamente comuns, encontrados em drogarias, pudessem se transformar em armas mortais. 
Examinando a fundo o assunto durante alguns dias, convenceu-se de que no haveria obstculos tcnicos para acertar as contas com seu tutor.
    S havia dois problemas: a morte de Bjurman no lhe devolveria o controle de sua vida e no havia garantia de que o sucessor de Bjurman no fosse dez vezes pior. 
Anlise das consequncias.
    O que ela precisava era descobrir um meio de controlar seu tutor e desse modo controlar sua prpria situao. Estendida no velho sof da sala, passou a noite 
reconsiderando mentalmente as possibilidades. Por volta das dez, havia eliminado os projetos de assassinato por envenenamento e elaborado um plano B.
    O plano no era atraente e compreendia deixar Bjurman atac-la mais uma vez. Mas, se chegasse at o fim, ganharia a parada.
    Pelo menos  o que acreditava.
    
    
    Nos ltimos dias de fevereiro, a temporada de Mikael em Hedeby j adquirira uma rotina. Levantava-se s nove todos os dias, tomava o caf-da-manh e trabalhava 
at meio-dia, lendo e reunindo novos dados. Depois dava uma caminhada de uma hora, qualquer que fosse o tempo. A tarde retomava o trabalho, em casa ou no Caf Susanne, 
aprofundando o que lera de manh ou escrevendo passagens do que haveria de ser a biografia de Henrik. Estabeleceu seu tempo livre entre trs e seis da tarde, para 
fazer compras, lavar a roupa, ir a Hedestad e cuidar de outros assuntos. Por volta das sete da noite, passava na casa de Henrik e lhe expunha os pontos de interrogao 
que haviam surgido durante a jornada. s dez j estava em casa e lia at uma ou duas da manh. Examinava sistematicamente os documentos fornecidos por Henrik.
    Descobriu com surpresa que o trabalho de redao da biografia de Henrik avanava rapidamente. J dispunha, num primeiro jato, de cerca de cento e vinte pginas 
da crnica familiar  o vasto perodo desde o desembarque de Jean-Baptiste Bernadotte na Sucia at por volta dos anos 1920. A partir da precisaria avanar mais 
lentamente e comear a pesar suas palavras.
    Na biblioteca de Hedestad, conseguiu livros que tratavam do nazismo nessa poca, entre outros a tese de doutorado de Helene Lw A sustica e o feixe dos Wasa. 
Rascunhou mais quarenta pginas sobre Henrik e seus irmos, tendo Henrik como personagem principal. Tinha uma lista extensa de pesquisas a fazer sobre as empresas 
do comeo do sculo, sua estrutura e seu funcionamento, e descobriu que a famlia Vanger esteve intimamente envolvida com o imprio de Ivar Kreuger  mais uma histria 
paralela para investigar. Calculou que ao todo faltava escrever umas trezentas pginas. Planejara apresentar um primeiro esboo a Henrik no comeo de setembro e 
previa utilizar o outono para dar acabamento ao texto.
    Em contrapartida, Mikael no avanou um milmetro na investigao sobre Harriet. Por mais que lesse e refletisse sobre detalhes dos numerosos documentos, no 
encontrou um s que fizesse as coisas andarem.
    Num sbado  noite, no fim de fevereiro, teve uma longa conversa com Henrik, na qual prestou contas de seus inexistentes progressos. Pacientemente, o velho o 
escutou enumerar todos os becos sem sada que visitara.
     Ou seja, Henrik, no encontrei nada no inqurito que j no tenha sido explorado a fundo.
     Entendo o que quer dizer. Tambm refleti sobre isso at ficar doente. E ao mesmo tempo tenho certeza de que deixamos escapar alguma coisa. No existe crime 
perfeito.
     Mas nem somos capazes de afirmar que houve realmente um crime. Henrik Vanger suspirou e fez um gesto vago com a mo.
     Continue  disse.  V at o fim.
     No vai adiantar nada.
     Talvez. Mas no desista. Mikael suspirou.
     Os nmeros de telefone  acabou dizendo.
     Sim.
     Eles significam necessariamente alguma coisa.
     Sim.
     Foram anotados com alguma inteno.
     Sim.
     Mas no sabemos interpret-los.
     No.
     Ou os interpretamos mal.
     Exatamente.
     No so nmeros de telefone. Querem dizer alguma outra coisa.
     Talvez.
    Mikael suspirou novamente e voltou para casa a fim de continuar a ler.
    
    
    O dr. Nils Bjurman deu um suspiro de alvio quando Lisbeth Salander lhe telefonou para explicar que precisava de mais dinheiro. Ela no comparecera ao ltimo 
encontro marcado alegando que precisava trabalhar, e uma pequena inquietao comeara a perturb-lo. Estaria lidando com uma criana-problema intratvel? Ao cancelar 
o encontro marcado, ela ficara impedida de receber a mesada e cedo ou tarde seria obrigada a entrar em contato. Ele se preocupava tambm com a possibilidade de ela 
ter aberto a boca para algum.
    Seu breve telefonema para dizer que precisava de dinheiro confirmou de maneira satisfatria que a situao estava sob controle. Mas essa menina precisava ser 
domada  concluiu Nils Bjurman. Ia ter que aprender quem  que decidia, somente ento poderia haver uma relao mais construtiva. Foi o que o levou a indicar, desta 
vez, que se vissem em sua casa, perto da Odenplan, e no no escritrio. Ao ouvir essa exigncia, Lisbeth Salander ficou um bom momento calada na outra ponta da linha 
 essa tonta tem dificuldade de entender  antes de aceitar.
    O plano de Lisbeth era se encontrar com ele no escritrio, como da outra vez. Agora seria obrigada a v-lo em territrio desconhecido. O encontro foi marcado 
para sexta-feira  noite. Ele lhe passou a senha de entrada e s oito e meia ela tocou a campainha, meia hora depois do combinado. Foi o tempo que ela precisou para, 
na obscuridade do hall do edifcio, revisar uma ltima vez seu plano, considerar alternativas, blindar-se e reunir a coragem necessria.
    
    
    Por volta das oito da noite, Mikael desligou o computador e agasalhou-se para sair. Deixou a luz acesa na saleta de trabalho. O cu estava estrelado e a temperatura 
em torno de zero grau. Subiu a encosta com passos ligeiros, passou em frente  casa de Henrik Vanger, na estrada em direo a stergarden. Logo depois da casa de 
Henrik, pegou uma bifurcao  esquerda e seguiu por um caminho que costeava a praia. As bias luminosas piscavam na gua e as luzes de Hedestad cintilavam na noite. 
Era bonito. Ele tinha necessidade de ar fresco, mas queria sobretudo evitar os olhos inquisidores de Isabella Vanger. Junto  casa de Martin Vanger, voltou para 
a estrada e chegou  casa de Cecilia pouco depois das oito e meia. Logo subiram para o quarto dela.
    Viam-se uma ou duas vezes por semana. Cecilia tornara-se no apenas sua amante naquele fim de mundo mas tambm a pessoa com quem comeava a se abrir. Discutia 
muito mais sobre Harriet Vanger com ela do que com Henrik.
    
    
    O plano comeou a fracassar quase imediatamente.
    O dr. Nils Bjurman vestia um robe ao abrir a porta do apartamento. Ficara nervoso com o atraso dela e fez-lhe um sinal para que entrasse. Ela vestia jeans preto, 
uma camiseta preta e sua indefectvel jaqueta de couro. Botas pretas, uma pequena mochila nas costas, com alas a tiracolo sobre o peito.
     No sabe ler as horas?  perguntou Bjurman, irritado.
    Salander no disse nada. Olhou ao redor. O apartamento era o que havia imaginado depois de examinar a planta nos arquivos municipais. Os mveis eram de madeira 
clara.
     Entre  disse Bjurman num tom mais amvel. Ps o brao sobre os ombros dela e a guiou atravs de um pequeno vestbulo. No vale a pena perder tempo com conversa. 
Abriu a porta de um quarto. No havia nenhuma dvida sobre os favores que esperava de Lisbeth Salander.
    Ela deu uma rpida olhada na pea. Quarto de solteiro. Cama de casal com uma cabeceira alta de ao inox. Uma cmoda tambm fazia s vezes de mesa-de-cabeceira. 
Luzes indiretas. Um espelho ao longo da parede. Uma poltrona de vime e uma mesa baixa no canto, junto  porta. Ele pegou sua mo e a conduziu at a cama.
     Conte-me por que precisa de dinheiro desta vez. Mais equipamentos para o computador?
     Para comprar comida  ela respondeu.
     Claro. Eu sou mesmo um estpido. Mas voc faltou ao nosso ltimo encontro.  Ps a mo sob o queixo dela e ergueu-lhe o rosto para que seus olhos se encontrassem. 
 Como vai? Ela encolheu os ombros.
     Refletiu sobre o que falei outro dia?
     O qu?
     Lisbeth, no se faa de mais boba ainda. Quero que voc e eu sejamos bons amigos e que nos ajudemos.
    Ela no respondeu. O dr. Bjurman resistiu ao impulso de dar-lhe uma bofetada para despert-la.
     Gostou da brincadeira de gente adulta que fizemos da outra vez?
     No.
    Ele ergueu as sobrancelhas.
     Lisbeth, no seja idiota.
     Preciso de dinheiro para comprar comida.
      exatamente do que falamos na ltima vez. Basta ser gentil comigo que serei gentil com voc. Mas se insistir em me contrariar...  Apertou-lhe com mais fora 
o queixo e ela se soltou.
     Quero meu dinheiro. O que est querendo que eu faa?
     Sabe muito bem o que eu quero.  Pegou-a pelo ombro e jogou-a sobre a cama.
     Espere  disse rpido Lisbeth.
    Dirigiu a ele um olhar resignado, depois balanou secamente a cabea. Tirou a jaqueta de couro e olhou ao redor. Jogou a jaqueta em cima da poltrona de vime, 
ps a mochila em cima da mesinha e deu alguns passos hesitantes em direo  cama. Ento se deteve, tomada de uma apreenso sbita. Bjurman se aproximou.
     Espere  disse ela outra vez, como se tentasse faz-lo ser razovel.  No quero ser obrigada a te chupar toda vez que preciso de dinheiro.
    O rosto de Bjurman mudou de expresso. De repente, esbofeteou-a com a palma da mo. Salander arregalou os olhos, mas, antes que tivesse tempo de reagir, ele 
a pegou pelo ombro e a ps de bruos na cama. Ela ficou sem ao diante dessa violncia repentina. Como tentasse se virar, ele a comprimiu contra a cama e sentou-se 
sobre ela com os joelhos abertos.
    Assim como da outra vez, ela foi uma presa fcil para ele do ponto de vista puramente fsico. Sua nica possibilidade de resistir seria enfiar-lhe as unhas nos 
olhos ou usar uma arma. Mas o plano que previra fracassara. Merda, pensou Lisbeth Salander quando ele lhe arrancou a camiseta. Com uma lucidez aterradora, se deu 
conta de como havia sido ingnua.
    Ouviu-o abrir uma gaveta da cmoda ao lado da cama, depois um rudo de metal. De incio no entendeu o que estava acontecendo, at ver a argola fechar-se em 
volta de seu punho. Ele ergueu o brao dela, passou as algemas em volta de um dos pilares da cabeceira da cama e prendeu sua outra mo. Num abrir e fechar de olhos, 
arrancou-lhe as botas e o jeans. Por fim retirou-lhe a calcinha, que brandiu no ar.
     Vai aprender a confiar em mim, Lisbeth  disse.  Vou ensinar a voc as regras desse jogo de adultos. Se no cooperar comigo, ser punida. Se for gentil, seremos 
amigos.
    E sentou-se novamente de joelhos abertos em cima dela.
     Ento no gosta de sexo anal...  falou.
    Lisbeth Salander abriu a boca para gritar. Ele a pegou pelos cabelos e enfiou-lhe a calcinha na boca. Ela sentiu que ele punha alguma coisa em volta de seus 
tornozelos, que abria suas pernas e as atava de modo a deix-la totalmente vulnervel. Ela o ouvia andar pelo cmodo, mas no podia v-lo. Os minutos passaram. Ela 
mal conseguia respirar. Por fim sentiu uma dor horrvel quando ele brutalmente lhe enfiou alguma coisa no nus.
    
    
    A regra de Cecilia Vanger era que Mikael no devia ficar para dormir. Pouco depois das duas da manh, ele tornou a se vestir, enquanto ela permanecia nua na 
cama sorrindo-lhe carinhosamente.
     Voc me agrada, Mikael. Gosto da sua companhia.
     Voc tambm me agrada.
    Ela o puxou de volta para a cama e tirou-lhe a camisa que ele acabara de vestir. Mikael ficou mais uma hora.
    Quando por fim Mikael passou diante da casa de Harald Vanger, teve a ntida impresso de ver a cortina se mexer no andar de cima. Mas estava muito escuro para 
ter absoluta certeza.
    
    
    Lisbeth Salander s conseguiu voltar a vestir suas roupas s quatro da manh do sbado. Pegou a jaqueta de couro, a mochila e dirigiu-se, manquejando, at o 
vestbulo, onde ele a esperava depois de j ter tomado um banho e se vestido com cuidado. Ele entregou-lhe um cheque de duas mil e quinhentas coroas.
     Eu levo voc para casa  ele falou, abrindo a porta.
    Ela saiu do apartamento e se virou para ele. Seu corpo parecia alquebrado, o rosto estava inchado com olhos avermelhados de lgrimas, e ele quase fez um movimento 
de recuo ao cruzar seu olhar. Nunca na vida havia se deparado com um dio to seco e inflamado. Lisbeth Salander tinha realmente o aspecto da doente mental que sua 
ficha indicava.
     No  ela disse em voz to baixa que ele mal conseguiu distinguir as palavras.  Posso voltar para casa sozinha.
    Ele ps a mo em seu ombro.
     Tem certeza?
    Ela fez que sim com a cabea. A mo em seu ombro a apertou com mais fora.
     Lembre-se do nosso acordo. Volte no sbado que vem. Ela balanou de novo a cabea, submissa. Ele a soltou.
    
   14.         SBADO 8 DE MARO 
    SEGUNDA-FEIRA 17 DE MARO
    
    
    Lisbeth Salander passou a semana na cama com dores no abdome, hemorragias no nus e outras feridas, menos visveis, que levariam mais tempo para curar. O que 
ela vivera ultrapassara de longe o primeiro abuso no escritrio; no se tratava mais de um ato de coero e de humilhao, mas de uma brutalidade sistemtica.
    Percebia tarde demais que havia subestimado Bjurman, e muito.
    Tomara-o como um homem de poder que gostava de dominar, e no como um sdico total. Ele a mantivera algemada a noite toda. Vrias vezes ela pensou que fosse 
ser morta, e houve um momento em que ele pressionou o travesseiro sobre seu rosto at ela quase desmaiar.
    No chorou.
    Afora as lgrimas causadas pelas dores fsicas, no derramou uma lgrima sequer. Aps deixar o apartamento de Bjurman, claudicou at o ponto de txi da Odenplan, 
voltou para casa e subiu com dificuldade a escada at chegar a seu apartamento. Tomou um banho e lavou o sangue dos genitais. Depois bebeu meio litro de gua, ingeriu 
dois sonferos e desabou na cama com o cobertor puxado at a cabea.
    Despertou por volta do meio-dia de domingo com a cabea dolorida e vazia, com dores nos msculos e no baixo-ventre. Levantou-se, bebeu dois copos de leite e 
comeu uma ma. Tomou mais dois sonferos e voltou a se deitar.
    S teve foras para sair da cama na tera-feira. Foi comprar uma pizza Billy Pan, aqueceu-a no microondas e encheu uma garrafa trmica com caf. Depois passou 
a noite lendo na internet artigos e teses sobre a psicopatologia do sadismo.
    O que mais chamou sua ateno foi um artigo publicado por um grupo de mulheres americanas. A autora afirmava que o sdico escolhia suas ligaes com uma preciso 
quase intuitiva: sua melhor vtima era a que se prestava voluntariamente a todos os seus desejos por acreditar que no tinha outra escolha. O sdico escolhia indivduos 
que dependiam de outra pessoa, e tinha uma capacidade inquietante de identificar as presas que lhe convinham.
    O dr. Bjurman a escolhera como vtima.
    Isso a fez refletir.
    Isso tambm indicava que idia as pessoas faziam dela.
    
    Na sexta-feira, uma semana aps o segundo estupro, Lisbeth Salander saiu de casa para ir a um tatuador em Hornstull. Havia telefonado para marcar hora e ele 
no tinha outros clientes na loja. Ele a saudou com um movimento de cabea quando a reconheceu.
    Ela escolheu uma pequena tatuagem, simples, na forma de uma estreita faixa, e pediu que ele a pusesse no tornozelo. Mostrou o lugar.
     A pele  muito fina. Vai doer um bocado  disse o tatuador.
     No faz mal  Lisbeth respondeu, levantando a cala e apresentando a perna.
     Est certo, uma faixa. Voc j tem muitas tatuagens. Tem certeza de que quer mais uma?
      um lembrete  ela disse.
    
    
    Mikael Blomkvist deixou o Caf Susanne na hora em que ele ia fechar, s duas da tarde do sbado. Estivera passando a limpo suas anotaes no notebook, e foi 
at o Komsun comprar comida e cigarros antes de voltar para casa. Havia descoberto a especialidade local: a plsa cozida com batatas e beterrabas vermelhas  um 
prato que jamais apreciara, mas que por uma estranha razo combinava perfeitamente bem com uma pequena casa no campo.
    Por volta das sete, ps-se a refletir enquanto olhava pela janela da cozinha. Cecilia Vanger no havia telefonado. Ele a vira brevemente no caf, no comeo da 
tarde, quando ela fora comprar po, porm estava mergulhada em seus prprios pensamentos. Tudo indicava que no ia telefonar naquele sbado  noite. Olhou para o 
pequeno aparelho de tev que quase nunca ligava, mas preferiu instalar-se no banco da cozinha e abrir um romance policial de Sue Grafton.
    
    
    Lisbeth Salander retornou ao apartamento de Bjurman na Odenplan na hora combinada, sbado  noite. Ele a fez entrar com um sorriso polido e acolhedor.
     E hoje, como vai, minha cara Lisbeth? Ela no respondeu.
     Acho que exagerei um pouco na ltima vez  ele disse.  Voc me pareceu meio nocauteada.
    Ela apenas sorriu com o canto dos lbios e ele sentiu uma sbita inquietao. Essa menina  maluca. No posso me esquecer disso. E perguntou-se se ela poderia 
se adaptar.
     Vamos para o quarto?  perguntou Lisbeth Salander.
    Por outro lado, parece que ela s sabe pedir isso... Ps-lhe o brao sobre o ombro como fizera no encontro anterior, para lev-la at o quarto. Hoje vou mais 
devagar com ela. Para criar confiana. Ele j havia deixado as algemas em cima da cmoda. Foi s quando se aproximaram da cama que o dr. Bjurman percebeu que alguma 
coisa no ia bem.
    Era ela que o conduzia  cama, no o contrrio. Ele se deteve e, com perplexidade, viu-a tirar algo do bolso que a princpio acreditou ser um telefone celular. 
Depois viu os olhos dela.
     Diga boa-noite  ela disse.
    Ps o basto eltrico debaixo da axila esquerda dele e disparou setenta mil volts. Quando as pernas dele comearam a ceder, ela aproximou seu ombro e mobilizou 
todas as foras para faz-lo cair sobre a cama.
    
    
    Cecilia Vanger sentia-se ligeiramente bbada. Decidira no telefonar para Mikael Blomkvist. A ligao deles adquirira a aparncia de uma ridcula farsa de alcova 
que obrigava Mikael a rodeios e desvios para poder encontr-la sem ser notado. Ela se comportava como uma adolescente apaixonada incapaz de controlar seu desejo. 
Sua conduta nas ltimas semanas fora absurda.
    O problema  que comecei a gostar muito dele, pensou. Vou sofrer com isso. E passou um bom tempo desejando que Mikael Blomkvist nunca tivesse vindo a Hedeby.
    Ela havia aberto uma garrafa de vinho e bebido dois copos sozinha. Ligou a tev para ver o noticirio e tentar entender o que acontecia no mundo, mas imediatamente 
se cansou dos comentrios racionais que explicavam por que o presidente Bush devia esmagar o Iraque com bombas. Instalou-se ento no sof da sala com o livro de 
Gellert Tama sobre o louco que matara onze pessoas em Estocolmo por motivos racistas. S conseguiu ler algumas pginas antes de ser obrigada a pr o livro de lado. 
O assunto a fez pensar imediatamente em seu pai, em quais seriam os fantasmas dele.
    A ltima vez em que tinham se visto fora em 1984, quando o acompanhou, com Birger, numa caa  lebre ao norte de Hedestad, para que Birger testasse um novo co 
de caa  um hamilton stvare adquirido recentemente. Harald Vanger tinha setenta e trs anos e ela fizera o possvel para aceitar sua loucura, essa loucura que 
transformara sua infncia num pesadelo e afetara toda a sua vida adulta.
    Cecilia nunca fora to frgil como naquela poca. Seu casamento se desfizera trs meses antes. Mulher que apanha do marido  expresso banal. Para ela, isso 
significava maus-tratos leves porm contnuos. Ameaas, bofetadas, empurres, ser derrubada no cho da cozinha. As exploses do marido eram sempre inexplicveis, 
mas os golpes nunca eram fortes o suficiente para feri-la a srio. Ele evitava bater nela com o punho, e ela se acostumou.
    At o dia em que Cecilia revidou e ele se descontrolou. No final, enlouquecido, ele a atacara com golpes de tesoura nas costas.
    Arrependido e em pnico, conduziu-a ao hospital, onde inventou a histria delirante de um acidente, que a equipe de emergncia logo decifrou  medida que ele 
ia pronunciando as palavras. Ela sentiu-se envergonhada. Deram-lhe doze pontos de sutura e ficou dois dias no hospital. Ento Henrik Vanger foi busc-la e levou-a 
para a casa dele. Nunca mais falou com o marido.
    Naquele dia ensolarado, trs meses depois do fim do casamento, Harald Vanger estava bem-humorado, quase amvel. Mas de uma hora para a outra, em pleno bosque, 
passou a insultar grosseiramente a filha, fazendo comentrios vulgares sobre sua vida e seus hbitos sexuais, terminando por dizer que era natural que uma puta como 
ela no soubesse conservar um homem.
    O irmo nem sequer reparou que as palavras do pai a atingiam como uma chicotada. Birger Vanger limitou-se a rir e a passar o brao em volta de seus ombros, tentando 
desanuviar a situao a seu modo, com um comentrio do gnero Sabemos bem como so as mulheres. Deu uma piscadela para Cecilia e aconselhou Harald Vanger a ficar 
atento a uma pequena elevao do terreno.
    Houve um segundo, um instante glido, em que Cecilia olhou para o pai e o irmo com a conscincia sbita de que trazia na mo uma espingarda de caa carregada. 
Fechou os olhos. Se no tivesse feito isso, teria levantado a arma e disparado os dois cartuchos. Sua vontade era matar o pai e o irmo. Mas abaixou a espingarda, 
girou os calcanhares e voltou ao lugar onde haviam estacionado o carro. Deixou-os ali e voltou sozinha para casa. Desse dia em diante, passou a falar com o pai s 
em rarssimas ocasies, quando obrigada pelas circunstncias. Negara-lhe acesso  sua casa e nunca ia v-lo na casa dele.
    Voc arruinou a minha vida, pensou Cecilia Vanger. Arruinou a minha vida desde a infncia.
    s oito e meia da noite, Cecilia Vanger pegou o telefone e pediu que Mikael Blomkvist fosse v-la.
    
    
    O dr. Nils Bjurman sofria um martrio. Seus msculos no respondiam, o corpo parecia paralisado. No tinha certeza de haver perdido a conscincia, mas estava 
desorientado e sem a menor lembrana do que havia acontecido. Quando recuperou lentamente o controle do corpo, viu que estava nu, deitado de costas na cama, com 
os punhos atados por algemas e as pernas dolorosamente afastadas. Tinha queimaduras no local onde os eletrodos haviam tocado seu corpo.
    Lisbeth Salander trouxera a poltrona de vime para perto da cama e, com as botas em cima do colcho, esperava pacientemente, fumando um cigarro. Quando Bjurman 
tentou falar, ele percebeu que sua boca estava coberta por uma fita adesiva larga. Virou a cabea. Ela havia aberto e esvaziado uma das gavetas da cmoda.
     Descobri seus brinquedinhos  disse Salander.
    Brandiu um chicote e remexeu na coleo de objetos erticos, mordaas e mscaras de borracha espalhadas no cho.
     Para que serve este treco?  E mostrou um enorme pnis anal.  No, no tente falar, no estou entendendo o que voc diz. Foi o que utilizou em mim na semana 
passada? Basta balanar a cabea.  Ela se inclinou para ele, divertindo-se antecipadamente com a resposta.
    Nils Bjurman sentiu um sbito calafrio de terror no peito e se descontrolou. Forou as algemas. Ela assumiu o controle. Impossvel. Estava impossibilitado de 
fazer o que quer que fosse quando Salander se inclinou e ps o tampo anal entre suas ndegas.
     No  assim que um sdico faz?  ela perguntou.  Gosta de enfiar coisas nas pessoas, no  verdade?  Fitou-o. O rosto dele era uma mscara inexpressiva. 
 Sem lubrificante, no  mesmo?
    Bjurman urrou atravs da fita adesiva quando Lisbeth Salander afastou brutalmente suas ndegas e enfiou o tampo no lugar previsto.
     Pare de berrar  disse Lisbeth Salander imitando a voz dele.  Se no se comportar, serei obrigada a te punir.
    Levantou-se e contornou a cama. Ele a acompanhou com o olhar... Merda, o que  isso? Lisbeth Salander havia trazido a tev de tela grande da sala para o quarto. 
O aparelho de DVD estava no cho. Ela olhou para ele, sempre segurando o chicote na mo.
     Est prestando bastante ateno?  perguntou.  No tente falar, basta balanar a cabea.  Entende o que estou dizendo?
    Ele assentiu com a cabea.
     Certo.  Ela se inclinou para pegar sua mochila.  Reconhece isto?  Ele aquiesceu com a cabea.   a mochila que eu trazia quando vim te ver na semana passada. 
Peguei emprestada da Milton Security.  Ela abriu um zper na parte inferior.  Aqui tem uma cmera digital. Voc costuma assistir de vez em quando Insider na Tv3? 
Os reprteres sacanas utilizam uma mochila como esta para filmar cenas com uma cmera oculta.
    Tornou a fechar a mochila.
     Deve estar se perguntando onde fica a objetiva. O detalhe est todo a. Grande angular com fibra tica. A lente parece um boto e est disfarada na fivela 
da ala. Voc deve estar lembrado que eu pus a mochila bem aqui, em cima desta mesa, antes que voc comeasse a me tocar. Tomei o cuidado de verificar se a objetiva 
estava dirigida para a cama.
    Ela mostrou um DVD e a seguir o introduziu no aparelho. Depois virou a poltrona e se instalou de modo a poder ver a tela da tev. Acendeu mais um cigarro e acionou 
o controle remoto. O advogado Bjurman viu-se abrindo a porta a Lisbeth Salander. No sabe ler as horas?, ele perguntava, irritado.
    Ela passou o DVD inteiro. O filme tinha noventa minutos de durao e terminou no meio de uma cena em que o dr. Bjurman, nu e encostado  cabeceira da cama, bebia 
um copo de vinho enquanto contemplava Lisbeth Salander estendida com as mos atadas nas costas.
    Ela desligou a tev e continuou sentada na poltrona sem dizer nada por uns dez minutos e sem olhar para ele. Bjurman nem ousava se mexer. Ela se levantou, foi 
at o banheiro, depois voltou e sentou-se de novo na poltrona: Sua voz era como lixa.
     Cometi um erro na semana passada  disse. Achei que mais uma vez seria obrigada a te chupar, o que  absolutamente nojento, mas no ultrapassa demais minhas 
capacidades. Achei que fosse obter, de modo muito tranquilo, provas inquestionveis, evidentes, de como voc  um canalha perverso e imundo. Eu o subestimei. No 
percebi o quanto voc  um sujeito podre e doente. Vou ser bem clara  ela continuou.  Esse filme mostra voc estuprando uma jovem de vinte e quatro anos, retardada 
mental, da qual voc  o tutor responsvel. Com certeza voc nem imagina o quanto posso ser retardada mental quando  necessrio. Qualquer um que vir esse DVD vai 
entender que voc no s  um lixo mas tambm um sdico louco furioso. Um filme bem instrutivo, no acha? Eu diria que voc, e no eu,  que seria internado. Concorda 
comigo?
    Esperou. Ele no reagiu, mas ela viu que ele tremia. Pegou o chicote e desferiu um golpe seco nos rgos sexuais dele.
     Concorda comigo?  repetiu com voz mais forte. Ele assentiu com a cabea.
     timo. Assim estamos nos entendendo.
    Ela puxou a poltrona e sentou-se de modo a poder olh-lo bem nos olhos.
     Bem, o que voc e eu poderamos fazer para remediar essa situao?  Ele no podia responder.  No tem algumas idias?  Como ele no reagisse, ela esticou 
a mo, pegou seus testculos e puxou at o rosto de Bjurman se contorcer de dor.  Tem ou no tem algumas boas idias?  repetiu.
    Ele balanou negativamente a cabea.
     Melhor assim. Porque, se por acaso vier a ter alguma idia no futuro, eu ficarei muito zangada com voc.
    Jogou o corpo para trs e acendeu outro cigarro.
     Ento eu vou te contar, eu, o que vai acontecer. Na semana que vem, assim que voc conseguir expulsar esse brinquedinho de borracha do seu cu, voc vai dar 
instrues ao meu banco de que somente eu  e mais ningum
     ter acesso  minha conta daqui pra frente. Entende o que estou dizendo?
    O advogado Bjurman concordou com a cabea.
     Perfeito. Voc no entrar mais em contato comigo. No futuro s nos veremos se eu tiver vontade. Que fique bem claro que voc est proibido de me visitar.
    Ele concordou com a cabea vrias vezes e deu um suspiro. Ela no tem a inteno de me matar.
     Se tentar entrar em contato comigo, cpias desse DVD vo chegar a todas as redaes dos jornais de Estocolmo. Est entendendo?
    Ele assentiu com a cabea vrias vezes. Preciso pr as mos nesse filme.
     Uma vez por ano, enviar o relatrio sobre o meu estado  comisso de tutelas. Escrever que levo uma existncia perfeitamente normal, que tenho um trabalho 
fixo, que ajo de maneira conveniente e que voc no v nada de anormal no meu comportamento. Certo?
    Ele fez que sim com a cabea.
     Todo ms voc escrever um relatrio fictcio sobre os nossos encontros. Contar em detalhe o quanto sou confivel e o quanto estou progredindo. Enviar uma 
cpia para mim, certo?
    Ele balanou de novo a cabea. De passagem, Lisbeth Salander notou gotas de suor surgindo em sua testa.
     Dentro de um ano ou dois, iniciar conversaes com o juiz para obter a revogao da minha tutela, usando para isso os relatrios fictcios dos nossos encontros 
mensais. Encontrar um psiclogo que prestar juramento de que sou absolutamente normal. Voc se esforar nesse sentido. Far exatamente tudo que estiver ao seu 
alcance para que eu seja declarada emancipada.
    Ele assentiu com a cabea.
     E sabe por que far o melhor possvel? Porque tem uma razo fodida para voc agir assim. Se no fizer o melhor possvel, mostro esse filminho pra todo mundo.
    Ele escutava cada slaba pronunciada por Lisbeth Salander. Um brilho sbito de dio passou por seus olhos. Disse a si mesmo que ela cometia um erro em deix-lo 
viver. Vai pagar caro, sua puta suja. Cedo ou tarde, vou te esmagar. Mas continuou balanando a cabea com entusiasmo a cada pergunta.
     O mesmo vale se tentar entrar em contato comigo.  E passou a mo pelo pescoo num gesto de degola.  Adeus, belo apartamento; adeus, trabalho; adeus, seus 
milhes em contas do exterior.
    Os olhos de Bjurman se arregalaram ao ouvi-la mencionar o dinheiro. Merda, como ela sabe disso?...
    Ela sorriu, deu uma tragada no cigarro, depois o jogou no carpete e o esmagou com o calcanhar.
     Voc me dar cpias das suas chaves daqui e do escritrio. Bjurman franziu as sobrancelhas. Ela se inclinou com um sorriso hipcrita.
     Daqui em diante eu controlarei a sua vida. Quando menos esperar, talvez quando estiver dormindo, vou entrar de repente aqui no seu quarto com isto nas mos. 
 Mostrou o basto eltrico.  Vou vigiar voc.  Se alguma vez eu te encontrar com uma mulher  e pouco importa que ela esteja aqui de livre e espontnea vontade 
ou no , se alguma vez eu te encontrar com uma mulher, qualquer que seja...
    E Lisbeth passou novamente os dedos pelo pescoo.
     Se eu morrer... se eu sofrer um acidente, for atropelada, seja l o que for... cpias desse filme sero enviadas aos jornais. Junto com uma histria detalhada 
onde eu conto como  ter voc como tutor. Outra coisa.  E ela se inclinou para a frente, para que seu rosto ficasse a poucos centmetros do dele.  Se me tocar 
outra vez, eu te mato. Pode ter certeza.
    O dr. Bjurman acreditou nessas palavras. No havia lugar para blefe nos olhos dela.
     Lembre-se de que eu sou maluca. 
    Ele assentiu com a cabea.
    Ento ela o fitou com um olhar circunspecto.
     No acho que vamos ser bons amigos, eu e voc  disse Lisbeth Salander com voz grave.  Voc deve estar todo alegre de eu ser suficientemente idiota para te 
deixar viver. Embora seja meu prisioneiro, acha que est no controle porque imagina que a nica coisa que eu posso fazer, se no te matar,  te soltar. Ento tem 
a esperana de recuperar em breve seu poder sobre mim, no  mesmo?
    Ele balanou negativamente a cabea, tomado de sbito por um mau pressentimento.
     Vou te presentear com uma coisa para voc se lembrar sempre do nosso acordo.
    Sorriu com o canto dos lbios, subiu em cima da cama e se ajoelhou entre as pernas dele. O advogado Bjurman no entendeu o que ela quis dizer, mas ficou aterrorizado.
    Depois viu a agulha na mo dela.
    Moveu violentamente a cabea e tentou se virar, mas ela apoiou o joelho sobre seu escroto como advertncia.
     No se mexa.  a primeira vez que utilizo esses instrumentos.
    Ela trabalhou concentradamente durante duas horas. Quando terminou, ele no emitia mais som algum. Parecia estar num estado prximo ao da apatia.
    Ela desceu da cama, abaixou a cabea e examinou sua obra com olhar crtico. Seus talentos artsticos eram limitados. As letras, irregulares, lembravam um desenho 
impressionista. Ela utilizara o vermelho e o azul para tatuar a mensagem, escrita com letras maisculas e em cinco linhas que cobriam todo o ventre dele, desde os 
mamilos at o pbis: SOU UM PORCO SDICO, UM CANALHA ESTUPRADOR.
    Recolheu as agulhas e guardou as bisnagas de cor na mochila. Depois foi lavar as mos no banheiro. Sentia-se consideravelmente melhor ao voltar para o quarto.
     Boa noite  disse.
    Antes de partir, abriu uma das algemas e ps a chave sobre o ventre de Bjurman. Ao sair, levou o DVD e o molho de chaves de Bjurman.
    
    Foi no momento em que compartilhavam um cigarro, pouco depois da meia-noite, que Mikael contou que eles no iam poder se ver durante algum tempo. Cecilia virou-se 
para ele espantada.
     O que est querendo dizer?  perguntou. 
    Ele pareceu envergonhado.
     Segunda-feira que vem vou cumprir minha pena de trs meses na priso. Mais explicaes eram desnecessrias. Cecilia permaneceu um longo tempo silenciosa. Estava 
prestes a chorar.
    
    Dragan Armanskij j tinha perdido as esperanas, quando Lisbeth Salander o procurou na segunda-feira  tarde. No a via desde que a investigao do caso Wennerstrm 
fora cancelada no comeo de janeiro, e toda vez que tentou cham-la, ou ela no respondera ou telefonara de volta dizendo que estava ocupada.
     Tem algum trabalho para mim?  ela perguntou sem perder tempo com saudaes inteis.
     Ol! Quem bom te ver. Achei que estava morta ou algo do gnero.
     Eu tinha umas duas ou trs coisinhas para resolver.
     Voc sempre tem umas coisinhas para resolver.
     Era urgente. Mas estou de volta. Tem algum trabalho para mim? 
    Armanskij negou com a cabea.
     Sinto muito. No momento, no.
    Lisbeth Salander o contemplou com um olhar tranquilo. Depois de alguns segundos, ele continuou.
     Lisbeth, voc sabe que eu a quero bem e que sempre que posso lhe ofereo trabalho. Mas voc desapareceu por dois meses, quando eu estava com um monte de solicitaes 
de trabalho.  simples, no se pode contar com voc. Fui obrigado a recorrer a outras pessoas para cobrir a sua ausncia, e no momento no tenho nada.
     Aumente o volume.
     Qu?
     Do rdio.
    
 ... a revista Millenium. O anncio de que o veterano da indstria Henrik Vanger tornou-se co-proprietrio da Millenium e de que far parte do conselho administrativo 
da revista chega no mesmo dia em que o ex-editor responsvel da publicao, Mikael Blomkvist, comea a cumprir trs meses de priso por difamao contra o financista 
Hans-Erik Wennerstrm. Erika Berger, diretora da Millenium, explicou na coletiva de imprensa que Mkael Blomkvist reassumir o cargo de editor-chefe assim que deixar 
a priso.
    
     Qual ?  disse Lisbeth Salander em voz to baixa que Armanskij nem ouviu, apenas notou os lbios dela se mexendo. Ela se levantou de repente e foi saindo.
     Espere. Aonde voc vai?
     Para a minha casa. Tenho duas ou trs coisas para verificar. Me chame quando tiver alguma coisa para mim.
    
    
    A notcia de que a Millennium recebera o reforo de Henrik Vanger era um acontecimento bem mais importante do que Lisbeth Salander imaginara. A Aftonbladet j 
havia publicado na internet um longo comunicado da agncia de notcias TT, fazendo um balano da carreira de Henrik Vanger e constatando que era a primeira vez em 
mais de vinte anos que o velho magnata da indstria aparecia em pblico. O anncio de que investia seu capital na Millennium era to inimaginvel quanto ver de repente 
os velhos conservadores Peter Wallenberg ou Erik Penser virarem a casaca para se associar  ETC ou para patrocinar a revista Ordfront.
    O acontecimento era to incomum que a edio das sete e meia de Rapport, na tev, transformou-o num dos principais assuntos, dedicando-lhe trs minutos. Erika 
Berger era entrevistada por jornalistas na redao da Millennium. De uma hora para outra, o caso Wennerstrm voltava s manchetes.
     No ano passado cometemos um erro grave, que resultou na condenao da revista por difamao. Evidentemente  uma coisa que lamentamos... e temos a inteno 
de retomar esse caso num momento propcio.
     O que voc quer dizer com retomar o caso?  perguntou um reprter.
     Quero dizer que vamos contar a nossa verso dos fatos, o que no fizemos at agora.
     Mas poderiam ter feito durante o processo.
     Preferimos no fazer. Mas  claro que vamos manter nossa linha editorial crtica.
     Significa que continuam sustentando a verso pela qual foram condenados?
     No tenho comentrios a fazer sobre isso.
     A senhora demitiu Mikael Blomkvist aps o julgamento.
     Est completamente enganado. Leia o nosso comunicado de imprensa. Ele precisava de uma pausa e de um descanso merecido. Ainda este ano reassumir a publicao.
    A cmera fez uma panormica da redao, enquanto o reprter enumerava alguns dados sobre a agitada histria da Millennium, revista conhecida por sua independncia 
e por suas crticas contundentes. Mikael Blomkvist no pde ser ouvido. Acabava de ser preso no centro de deteno de Rullaker, situado  beira de um pequeno lago, 
em plena floresta, a uma dezena de quilmetros de stersund, no Jmtland.
    Lisbeth Salander viu Dirch Frode aparecer de repente, pela fresta de uma porta da redao, ao fundo da imagem televisionada. Ela franziu o cenho e mordeu pensativamente 
o lbio inferior.
    
    
    A segunda-feira fora pobre em acontecimentos e Henrik Vanger pde dispor de quatro minutos no noticirio das nove. Foi entrevistado num estdio da tev local 
em Hedestad. O reprter comeou observando que, aps duas dcadas de silncio, o mtico industrial Henrik Vanger voltou s luzes da ribalta. Na introduo, a reportagem 
apresentava um pouco da vida de Henrik Vanger mostrando imagens antigas de tev, em preto-e-branco, nas quais ele era visto na companhia do primeiro-ministro Tage 
Erlander inaugurando fbricas nos anos 1960. A seguir a cmera mostrou um sof no estdio de gravao, onde Henrik Vanger aparecia tranquilamente instalado, de pernas 
cruzadas. Vestia camisa amarela, uma gravata verde fina e casaco esporte marrom. No escapava a ningum que estava descarnado e envelhecido, mas se expressava com 
uma voz sonora e firme. E com franqueza. O reprter comeou perguntando o que o levara a se associar  Millennium.
     A Millennium  uma boa publicao que venho acompanhando com interesse h vrios anos. Hoje ela est sofrendo alguns ataques. Tem inimigos poderosos que organizam 
um boicote de anunciantes com o objetivo de torpede-la.
    O reprter, com certeza, no estava preparado para uma resposta como essa, mas percebeu de imediato que a histria, j bastante interessante em si mesma, ganhava 
dimenses inesperadas.
     O que h por trs desse boicote?
     E uma das coisas que a Millennium vai verificar minuciosamente. Mas aproveito para declarar que a revista no pretende se deixar afundar ao primeiro tiro.
     E por essa razo que entrou como scio?
     A liberdade de expresso sofreria um duro golpe se interesses particulares tivessem o poder de reduzir ao silncio vozes que os incomodam na mdia.
    Henrik Vanger agia como se tivesse passado a vida toda defendendo radicalmente a liberdade de expresso. Mikael Blomkvist comeou a rir de repente na sala de 
televiso do centro de deteno de Rullaker, que ele inaugurava naquela noite. Seus colegas de priso lanaram-lhe olhares inquietos.
    Mais tarde, deitado em sua cela que lembrava um quarto de motel, com uma pequena mesa, uma cadeira e uma prateleira fixa  parede, ele foi obrigado a admitir 
que Henrik e Erika estavam certos sobre a maneira de lanar essa informao no mercado. Sem ter falado com ningum, ele sabia que alguma coisa havia mudado na atitude 
com relao  Millennium.
    A apario de Henrik Vanger era nada mais nada menos que uma declarao de guerra a Hans-Erik Wennerstrm. A mensagem, muito clara  daqui em diante voc no 
vai mais lutar contra uma revista com seis funcionrios e um oramento anual equivalente a um jantar de negcios do grupo Wennerstrm. Vai enfrentar tambm as empresas 
Vanger, que certamente so apenas a sombra de sua grandeza de outrora, mas que ainda assim representam um desafio bem mais rduo. Agora Wennerstrm podia escolher: 
ou se retirava do conflito ou encarava a tarefa de reduzir tambm a migalhas as empresas Vanger.
    Henrik Vanger acabava de anunciar na tev que estava disposto a lutar. Talvez no tivesse nenhuma chance contra Wennerstrm, mas a guerra ia custar caro.
    Erika escolhera cuidadosamente as palavras. Na verdade no dissera grande coisa, mas sua afirmao de que a revista ainda no "apresentara sua verso dos fatos" 
fazia supor que havia uma verso a dar. Embora Mikael tivesse sido julgado e no momento estivesse preso, ela no se constrangera em dizer  sem dizer  que na realidade 
ele era inocente e que existia uma outra verdade.
    Mesmo sem usar a palavra "inocncia", tornou a inocncia dele ainda mais tangvel. O anncio de que ele reassumiria o cargo de responsvel pela publicao sublinhava 
que a Millennium no tinha do que se censurar. Aos olhos do grande pblico, a verdade no era um problema  todo mundo adora a teoria do compl e, entre um homem 
de negcios cheio de ases na manga e uma bonita diretora de revista, no era difcil adivinhar para que lado tenderiam as simpatias. A mdia decerto no endossaria 
facilmente a histria, mas Erika desarmara alguns crticos que agora no ousariam levantar a cabea.
    Nenhum dos acontecimentos do dia alterou fundamentalmente a situao, mas eles conseguiram ganhar tempo e modificar um pouco o equilbrio de foras. Mikael imaginou 
que Wennerstrm passara uma noite desagradvel. Wennerstrm no tinha como saber em que medida  em que pequenssima medida  eles sabiam de alguma coisa, e, antes 
de mover seu prximo peo, seria obrigado a descobrir o que eles sabiam de fato.
    
    
    Com expresso sria, Erika desligou a tev e o videocassete depois de assistir primeiro a suas prprias declaraes e depois  gravao da entrevista de Henrik 
Vanger. Olhou o relgio, quinze para as trs da manh, e conteve o impulso de ligar para Mikael. Ele estava preso e era pouco provvel que estivesse com seu celular 
na cela. Ela chegara to tarde em casa, em Saltsjbaden, que seu marido j estava dormindo. Levantou e se serviu de uma dose de usque Aberlour  ingeria lcool 
s uma ou duas vezes por ano , sentou-se diante da janela e contemplou o mar e o farol na entrada do estreito de Skurusund.
    Mikael e ela haviam trocado palavras speras quando se viram sozinhos depois do acordo que ela fizera com Henrik Vanger. Ao longo dos anos, eles discutiram muitas 
vezes sobre a orientao a dar a um texto, o visual da revista, a avaliao da credibilidade das fontes e vrias outras coisas relacionadas  produo de um peridico. 
Mas a discusso na casa dos convidados de Henrik fora sobre princpios, e ela sabia estar pisando num terreno incerto.
     No sei o que vou fazer agora  dissera Mikael.  Henrik Vanger me contratou para escrever sua biografia. At agora fui livre para me levantar e ir embora 
no momento em que ele tentasse me forar a escrever algo que no fosse a verdade ou procurasse me convencer a orientar a histria para um lado ou outro. Agora ele 
 um dos proprietrios da nossa revista, e mais: o nico com recursos financeiros para salv-la. Com isso me vejo de repente servindo a dois senhores, numa posio 
que a comisso de tica profissional no apreciaria nada.
     Tem uma idia melhor a propor?  perguntou Erika.  Se tem, o momento de dizer  agora, antes de seguirmos adiante e assinarmos o acordo.
     Ricky, Vanger est nos usando numa espcie de vendeta particular contra Hans-Erik Wennerstrm.
     E da? Tambm no estamos numa vendeta particular contra Wennerstrm?
    Mikael evitou olhar para ela e acendeu um cigarro com um gesto irritado. A discusso prosseguiu por um bom tempo, at Erika entrar no quarto de Mikael, despir-se 
e se deitar na cama. Ela fingiu que dormia quando, duas horas depois, Mikael foi se encolher ao lado dela.
    Naquela noite, um reprter do Dagens Nyheter lhe fizera a mesma pergunta:
     At que ponto, agora, a Millennium poder manter sua credibilidade e afirmar sua independncia?
     Como assim?
    O reprter ergueu as sobrancelhas. Ele achou sua pergunta suficientemente clara, mas ainda assim explicou-a.
     A misso da Millennium , entre outras coisas, avaliar se as empresas esto se conduzindo bem. Como  que a revista vai poder, agora, garantir que est mesmo 
de olho na boa conduta das empresas Vanger?
    Erika o encarou com ar estupefato, como se a pergunta fosse totalmente inesperada.
     Voc est insinuando que a credibilidade da Millennium pode diminuir porque um empresrio conhecido e de recursos entrou em cena?
     Sim, me parece bastante evidente que vocs perdero a credibilidade como observadores das empresas Vanger.
     E essa regra se aplica somente  Millennium?
     Desculpe, no entendi.
     O que eu quero dizer  que voc trabalha para um jornal que est totalmente nas mos dos grandes interesses econmicos. Por acaso isso significa que nenhum 
dos jornais pertencentes ao grupo Bonniers  digno de crdito? A Aftonbladet pertence a uma grande empresa norueguesa que, por sua vez, tem grande influncia na 
rea da informtica e da comunicao. Por acaso isso significa que as anlises da indstria eletrnica feitas pela Aftonbladet no tm credibilidade? O Metro pertence 
ao grupo Stenbeck. Est querendo dizer que nenhum jornal sueco sustentado por grandes interesses econmicos  digno de crdito?
     No, claro que no.
     Nesse caso, por que est insinuando que a Millennium perderia credibilidade por contarmos tambm com o apoio de financistas?
    O reprter desculpou-se.
     Est bem, retiro a pergunta.
     No, no retire. Quero que voc reproduza exatamente o que acabo de dizer. E pode acrescentar que, se o Dagens Nyheter decidir se concentrar mais particularmente 
nas empresas Vanger, ns tambm vamos nos concentrar um pouco mais no grupo Bonniers.
    Apesar de tudo, havia, de fato, um dilema tico.
    Mikael trabalhava para Henrik Vanger, que, por sua vez, se achava numa posio em que podia, numa canetada, afundar a Millennium. O que aconteceria se Mikael 
e Henrik Vanger se indispusessem por qualquer razo?
    E mais: que preo ela fixava para sua prpria credibilidade e em que momento passaria de diretora independente a diretora corrupta? Ela no gostava nem das perguntas 
nem das respostas.
    
    
    Lisbeth Salander desconectou-se da internet e fechou seu Powerbook. Estava sem trabalho e com fome. A primeira coisa no a perturbava diretamente desde que retomara 
o controle de sua conta bancria e que o dr. Bjurman adquirira o carter de um vago estorvo do passado. A fome ela remediou indo at a cozinha e ligando a cafeteira. 
Preparou trs grossos sanduches com queijo, atum e ovo cozido, sua primeira refeio depois de muitas horas. Devorou os sanduches noturnos encolhida no sof da 
sala e ao mesmo tempo concentrada na informao que acabava de obter.
    Dirch Frode, de Hedestad, a contratara para investigar Mikael Blomkvist, condenado  priso por difamar o financista Hans-Erik Wennerstrm. Poucos meses depois, 
Henrik Vanger, tambm de Hedestad, entra no conselho administrativo da Millennium e afirma haver uma conspirao destinada a afundar a revista. Tudo isso no mesmo 
dia em que Mikael Blomkvist comea a cumprir sua pena. O mais fascinante: um pequeno artigo publicado dois anos antes  "Com as duas mos vazias"  sobre Hans-Erik 
Wennerstrm, que ela descobriu na edio on-line do Finansmagasinet Monopol. O artigo dizia que ele comeara sua ascenso no mundo das finanas justamente nas empresas 
Vanger, no final dos anos 1960.
    No era preciso ser nenhum gnio para concluir que os acontecimentos estavam de alguma forma interligados. Havia um segredo no negcio, e Lisbeth Salander adorava 
desvendar segredos. Ainda mais quando no tinha outra coisa para fazer.
    
   III.         FUSES
             16 DE MAIO A 14 DE JULHO
    
    
    
    
Na Sucia, 13% das mulheres foram vtimas de violncias sexuais cometidas fora de uma relao sexual.
    
   15.         SEXTA-FEIRA 16 DE MAIO 
             SBADO 31 DE MAIO
    
    
    Mikael Blomkvist deixou o centro de deteno de Rullaker na sexta-feira 16 de maio, dois meses depois de ter sido preso. No mesmo dia em que se apresentou na 
priso, ele havia entrado, sem muitas expectativas, com um pedido de reduo da pena. Nunca soube dos segredos administrativos de sua libertao, mas imaginou um 
relatrio mencionando que ele no utilizara as licenas de fim de semana e que o centro de deteno abrigava quarenta e duas pessoas, quando o nmero mximo de vagas 
era trinta e um. O fato  que o diretor da priso  um ex-exilado polons de quarenta anos chamado Peter Sarowski com quem Mikael se entendeu muito bem  assinou 
uma recomendao de reduo da pena.
    O perodo passado em Rullaker foi calmo e agradvel. O estabelecimento, como dizia o prprio Sarowski, era uma priso para vadios e motoristas embriagados, e 
no para criminosos de verdade. As rotinas dirias lembravam o funcionamento de um albergue da juventude. Os quarenta e um companheiros de Mikael, metade dos quais 
imigrantes da segunda gerao, viam-no como uma espcie de ave extica  e com toda a razo. Ele era o nico prisioneiro de quem falavam na tev, o que lhe conferiu 
alguma importncia, embora nenhum deles o considerasse um criminoso de peso.
    Tampouco a direo do estabelecimento. Desde o primeiro dia, Mikael foi chamado para algumas conversas; propuseram-lhe diferentes atividades, cursos de treinamento 
ou possibilidades de outros estudos, bem como uma orientao profissional. Mikael respondeu que no precisava de insero social, que conclura os estudos havia 
muitos anos e que j tinha um emprego. Em contrapartida, pediu autorizao para conservar seu notebook na cela, a fim de continuar trabalhando no livro que estava 
sendo pago para escrever. O pedido foi aceito imediatamente e Sarowski ofereceu-lhe at mesmo um armrio com cadeado para que ele pudesse deixar o computador na 
cela sem o risco de roubo ou vandalismos. Mas era mnimo o risco de um dos detentos querer se divertir com esse tipo de coisa  ao contrrio, eles estendiam uma 
mo protetora sobre Mikael.
    Foi o que lhe permitiu passar dois meses relativamente agradveis, trabalhando cerca de seis horas por dia na crnica da famlia Vanger, com interrupes para 
algumas horas de trabalho ou de recreao. Mikael e dois colegas, um proveniente de Skvde e o outro com razes no Chile, tinham como tarefa limpar diariamente o 
ginsio do centro de deteno. Recreao significava ver tev, jogar cartas ou fazer musculao. Mikael descobriu que no se saa to mal no pquer, mas todos os 
dias costumava perder algumas moedas de cinquenta centavos. O regulamento autorizava o jogo desde que a bolada no ultrapassasse cinco coroas.
    O anncio de sua libertao foi comunicado na vspera; Sarowski o convocou  sua sala para um brinde com aquavita.  noite, Mikael juntou suas roupas e seus 
cadernos.
    
    
    Uma vez libertado, Mikael foi diretamente para sua casa em Hedeby. Ao cruzar a ponte, ouviu um miado e andou os ltimos metros acompanhado pelo gato ruivo, que 
lhe dava boas-vindas esfregando-se em suas pernas.
     Certo, entre  disse.  Mas no tive tempo de comprar leite.
    Desfez a mala. Tinha a impresso de estar voltando de frias e se deu conta de que a companhia de Sarowski e dos outros detentos lhe fazia falta. Podia parecer 
estranho, mas a temporada em Rullaker fora agradvel. E a libertao ocorrera de forma to inesperada que no havia avisado ningum.
    Eram pouco mais de seis da tarde. Correu at o supermercado para comprar produtos bsicos, antes que fechasse. Na volta, ligou para Erika no celular, mas s 
ouviu a voz da secretria eletrnica informando que no momento ela no estava disponvel. Deixou um recado propondo que se falassem no dia seguinte.
    Depois foi visitar Henrik Vanger. O prprio Henrik abriu a porta e ficou estupefato ao v-lo.
     Voc fugiu?  exclamou o velho.
     Liberdade antecipada, coisa absolutamente legal.
     Ah, mas que surpresa boa!
     Para mim tambm. Fiquei sabendo ontem.
    Olharam-se durante alguns segundos. Ento o velho surpreendeu Mikael enlaando-o e estreitando-o com fora nos braos.
     Eu estava me preparando para jantar. No quer me fazer companhia?
    Anna serviu omelete com toicinho e salada verde. Ficaram na sala de jantar por cerca de duas horas. Mikael contou at onde chegara na crnica familiar e indicou 
os pontos onde havia lacunas e falta de informao. No falaram de Harriet Vanger, mas estenderam-se demoradamente sobre a Millennium.
     Fizemos trs reunies do conselho administrativo. A senhorita Berger e seu scio Christer Malm tiveram a delicadeza de realizar duas reunies aqui, e Dirch 
representou-me numa reunio em Estocolmo.  muito cansativo para mim deslocar-me para to longe, confesso que gostaria de ter alguns anos a menos. Mas tentarei ir 
at l no prximo vero.
     Eles podem fazer as reunies aqui sem problema  disse Mikael.  E o que est achando de ser scio da revista?
    Henrik Vanger fingiu um sorriso.
      uma das coisas mais divertidas que me aconteceram em muitos anos, voc sabe. Examinei as finanas e a coisa no est to mal. No precisarei investir tanto 
dinheiro quanto eu pensava. A lacuna entre receitas e despesas est diminuindo.
     Falei com Erika por telefone na semana passada. Pelo que entendi, a publicidade voltou a crescer.
    Henrik concordou com a cabea.
     A tendncia est se invertendo, mas levar algum tempo. No incio, foram empresas do grupo Vanger que compraram pginas. Mas dois ex-clientes, uma operadora 
de telefonia e uma agncia de viagens, j esto de volta.  Ele deu um sorriso largo.  Tambm fizemos uma campanha mais personalizada junto aos velhos inimigos 
de Wennerstrm. E a lista  comprida, acredite.
     Tem notcias de Wennerstrm?
     No, no exatamente. Mas espalhamos a informao de que Wennerstrm est organizando um boicote contra a Millennium. E as pessoas esto comeando a ach-lo 
mesquinho. Parece que um jornalista do Dagens Nyheter tocou nessa questo e levou uma descompostura.
     Voc se diverte com isso.
     No  a palavra exata.  o que eu deveria ter feito vrios anos atrs.
     Mas o que h entre voc e Wennerstrm?
     No se apresse. Saber isso no fim do ano.
    
    
    O ar transmitia uma agradvel sensao de primavera. Quando Mikael deixou Henrik por volta das nove, j era noite. Hesitou um instante, depois foi bater  porta 
de Cecilia Vanger.
    No tinha certeza de que a encontraria. Cecilia arregalou os olhos e imediatamente pareceu incomodada, mas o convidou a entrar no vestbulo. Ambos estavam embaraados. 
Ela tambm perguntou se ele fugira e ele explicou o que houve.
     Queria s lhe dar um al. Estou atrapalhando?
    Cecilia evitou o olhar dele. Mikael logo percebeu que ela no estava particularmente feliz em v-lo.
     No... no, entre. Quer um caf?
     Seria timo.
    Acompanhou-a at a cozinha. Ela virou-lhe as costas enquanto punha gua na cafeteira. Mikael aproximou-se e ps a mo em seu ombro. Ela ficou dura.
     Cecilia, eu diria que voc no est com nenhuma vontade de me oferecer um caf.
     Eu te esperava daqui a um ms  disse ela.  Voc me pegou desprevenida.
    Ele a sentia pouco  vontade. Girou o corpo dela para olh-la nos olhos. Ficaram calados por um breve instante. Ela continuava recusando-se a olhar para ele.
     Cecilia, esquea o caf. O que est havendo? Ela balanou a cabea e respirou fundo.
     Mikael, quero que v embora. No pergunte nada. Simplesmente v embora.
    
    
    Mikael voltou para casa, mas ficou indeciso diante da cerca do jardim. Em vez de entrar, foi at a beira da gua ao lado da ponte e sentou-se numa pedra. Acendeu 
um cigarro, perguntando-se o que podia ter modificado to radicalmente a atitude de Cecilia Vanger com relao a ele.
    Nesse momento, ouviu o rudo de um motor e avistou um barco grande, branco, entrando no canal sob a ponte. Quando o barco passou  sua frente, Mikael viu que 
quem o manobrava era Martin Vanger, com o olhar atento para evitar eventuais baixios. Tratava-se de um iate de cruzeiro de doze metros  um mastodonte impressionante. 
Mikael levantou-se e seguiu o caminho que costeava a praia. Viu ento que muitos barcos j haviam sido postos na gua, amarrados em diferentes poitas, tanto barcos 
a motor quanto veleiros, especialmente vrios Pettersson e um IF que se ps a oscilar aps a passagem do iate. Havia tambm barcos maiores e mais caros, entre os 
quais um Hallberg-Rassy. A boa estao estava de volta e Mikael pde fazer uma idia dos recursos financeiros dos aficionados nuticos de Hedeby  Martin Vanger 
possua indiscutivelmente o barco maior e mais caro do lugar.
    Deteve-se abaixo da casa de Cecilia e espiou as janelas iluminadas no andar de cima. Depois voltou para fazer um caf em casa. Examinou sua saleta de trabalho 
enquanto esperava o caf ficar pronto.
    Antes de se apresentar na priso, devolvera a maior parte dos arquivos de Henrik Vanger sobre Harriet. Julgou prudente no deixar toda a documentao numa casa 
desocupada durante um perodo to longo. Agora as prateleiras pareciam vazias. Tudo o que lhe restava do inqurito eram cinco cadernos de anotaes de Henrik que 
ele levara para Rullaker e que neste momento j conhecia de cor. E, como constatou naquele momento, um lbum de fotografias que esquecera na prateleira de cima.
    Pegou o lbum e voltou para a cozinha. Serviu-se de caf, sentou e comeou a folhe-lo.
    Eram fotos tiradas no dia do desaparecimento de Harriet. A primeira era a ltima foto de Harriet, no desfile da Festa das Crianas em Hedestad. Seguiam-se cento 
e oitenta fotos, muito ntidas, do acidente do caminho-tanque na ponte. Foto por foto, ele j examinara o lbum com lupa, vrias vezes. Agora o folheava distraidamente; 
sabia que no encontraria nada que representasse um avano. De repente sentiu-se farto do enigma Harriet Vanger e fechou o lbum com um golpe seco.
    Irritado, aproximou-se da janela da cozinha e olhou a escurido l fora.
    Depois tornou a olhar para o lbum de fotos. No conseguiu explicar a sensao, mas um pensamento fugaz de repente se apresentou, como se reagisse a algo que 
acabara de ver. Como se um ser invisvel lhe soprasse suavemente no ouvido, e os cabelos em sua nuca se eriaram de leve.
    Sentou-se de novo e tornou a abrir o lbum. Percorreu, uma por uma, todas as fotos da ponte. Contemplou um Henrik Vanger mais jovem manchado de leo e um jovem 
Harald Vanger, esse homem que ele ainda no vira. A amurada destruda da ponte, as construes, as janelas e os veculos que se viam nas imagens. No teve nenhuma 
dificuldade em identificar Cecilia Vanger, com vinte anos, no meio dos espectadores. Usava um vestido claro e um casaco escuro, e aparecia em cerca de vinte fotos.
    Sentiu uma brusca excitao. Ao longo dos anos, Mikael aprendera a confiar em seus instintos. Ele reagira a alguma coisa no lbum, mas no conseguia saber exatamente 
a qu.
    
    
    Por volta das onze da noite, continuava sentado na mesa da cozinha examinando as fotos, quando ouviu a porta da frente ser aberta.
     Posso entrar?  perguntou Cecilia Vanger.
    Sem esperar a resposta, sentou-se diante dele do outro lado da mesa. Mikael teve um estranho sentimento de dj-vu. Ela usava um vestido claro, apertado na cintura, 
e um casaco cinza-azulado, roupas quase idnticas s que trazia nas fotos de 1966.
     O problema  voc  ela disse. Mikael levantou as sobrancelhas.
     Sinto muito, mas me pegou de surpresa esta noite quando bateu na minha porta. Agora estou to agitada que no consigo dormir.
     Por que agitada?
     Voc no percebe?
    Ele fez que no com a cabea.
     Se eu disser, promete que no vai rir de mim?
     Prometo.
     Quando eu o seduzi no inverno, no refleti, apenas cedi aos meus impulsos. Queria me divertir, nada mais. Na primeira noite eu estava bastante bbada e no 
tinha a menor inteno de iniciar algo duradouro com voc. Depois virou outra coisa. Quero que saiba que as semanas em que foi meu amante ocasional foram as mais 
agradveis de toda a minha vida.
     Eu tambm achei muito bom.
     Mikael, eu menti para voc e para mim o tempo todo. Nunca fui especialmente atirada em matria de sexo. Se tive cinco ou seis parceiros em toda a minha vida, 
foi muito. A primeira vez, eu tinha vinte e um anos. Depois veio meu marido, que conheci quando tinha vinte e cinco e que se revelou um canalha. A seguir, mais trs 
homens que conheci com alguns anos de intervalo. Mas voc... voc fez brotar no sei o que em mim. Nunca me canso. Certamente porque com voc no h a menor exigncia.
     Cecilia, voc no  obrigada...
     Psiu... no me interrompa. Seno nunca vou conseguir dizer o que tenho a dizer.
    Mikael ficou em silncio.
     No dia em que voc partiu para a priso, me senti terrivelmente infeliz. De repente voc no estava mais aqui, como se nunca tivesse existido. No havia mais 
luz na casa dos convidados. E a minha cama ficou fria e vazia. De uma hora para a outra voltei a ser uma velha de cinquenta e seis anos.
    Calou-se um instante e olhou Mikael bem nos olhos.
     Apaixonei-me por voc neste inverno. Sem querer, apenas aconteceu. E ento me dei conta de que voc estava aqui apenas temporariamente e que um dia iria partir 
de vez, enquanto eu iria continuar aqui o resto da vida. Isso me fez tanto mal, me doeu tanto, que decidi no deixar voc entrar quando voltasse da priso.
     Sinto muito.
     No  culpa sua.
    Ficaram calados durante um momento.
     Quando voc foi embora hoje  noite, eu chorei. Queria uma chance de voltar  vida. Ento pensei numa coisa.
     No qu?
     Que eu seria totalmente doida se deixasse de te ver s porque um dia voc vai embora. Mikael, ser que podemos recomear? Ser que voc pode esquecer o que 
se passou h pouco?
     Est esquecido  disse Mikael.  E obrigado por ter me contado. Ela continuou a olhar a mesa.
     Se voc me quiser, estou com muita vontade.
    Ergueu os olhos e encontrou os dele. Depois levantou-se e dirigiu-se at o quarto. Deixou cair o casaco no cho e foi retirando o vestido pela cabea enquanto 
andava.
    
    
    Mikael e Cecilia foram despertados ao mesmo tempo pelo rudo da porta da frente se abrindo e pelos passos de algum na cozinha. Ouviram o baque surdo de uma 
sacola jogada no cho ao lado do aquecedor. Ento Erika apareceu  porta do quarto com um sorriso que logo se transformou em susto.
      meu Deus!  Ela deu um passo para trs.
     Oi, Erika  disse Mikael.
     Oi. Desculpe. Peo mil desculpas por ter entrado desse jeito. Eu deveria ter batido antes.
     Deveramos ter trancado a porta. Erika, esta  Cecilia Vanger. Cecilia, Erika Berger: a diretora da Millennium.
     Bom dia  disse Cecilia.
     Bom dia  disse Erika.
    Ela parecia no saber se devia se aproximar para apertar educadamente a mo de Cecilia ou se devia apenas ir embora.
     Bem, eu... posso sair e dar uma volta...
     E que tal se antes preparasse um caf?  Mikael olhou o despertador em cima da mesa-de-cabeceira. Passava do meio-dia.
    Erika fez que sim com a cabea e voltou a fechar a porta do quarto. Mikael e Cecilia se olharam. Cecilia estava embaraada. Haviam feito amor e conversado at 
as quatro da manh. Depois Cecilia disse que passaria a noite ali e que da em diante no daria a mnima de mostrar a todo mundo que trepava com Mikael. Ela dormira 
de costas para o ventre dele, o brao de Mikael envolvendo-lhe o peito.
     No se preocupe, est tudo bem  disse Mikael.  Erika  casada e no  minha namorada. Nos vemos de vez em quando, e ela no se importa de saber que voc 
e eu temos um caso. E provavelmente est se sentindo bastante envergonhada neste momento.
    Na cozinha, Erika preparou um desjejum com caf, suco de frutas, gelia de laranja, queijo e po grelhado. O cheiro era bom. Cecilia dirigiu-se a ela e estendeu-lhe 
a mo.
     Foi muito rpido h pouco. Bom dia.
     Cecilia, desculpe ter chegado assim, como um elefante  disse Erika realmente chateada.
     Deixe pra l, esquea. Vamos ao caf.
     Sabe  disse Mikael, estreitando Erika nos braos antes de sentar-se.  Como voc veio para c?
     Vim de carro esta manh, o que voc acha? Li sua mensagem s duas da madrugada e tentei ligar.
     Desliguei o celular  disse Mikael, dirigindo um sorriso a Cecilia Vanger.
    
    
    Depois do caf, Erika pediu licena e deixou Mikael e Cecilia a ss, alegando que precisava ir cumprimentar Henrik Vanger. Enquanto Cecilia limpava a mesa, Mikael 
se aproximou dela por trs e a abraou.
     E agora, o que vai acontecer?  perguntou Cecilia.
     Nada. Tudo continua do mesmo jeito. Erika  minha melhor amiga. Temos uma ligao espordica que j dura vinte anos e que espero dure ainda mais vinte. Mas 
nunca formamos um casal e nunca nos impedimos de ter aventuras pessoais.
      o que existe entre ns? Uma aventura?
     No sei o que existe entre ns, mas parece que estamos bem um com o outro.
     Onde ela dormir esta noite?
     Arranjaro um quarto em algum lugar. Um quarto de hspedes na casa de Henrik. Ela no vai dormir na minha cama.
    Cecilia refletiu um instante.
     No sei se vou saber lidar com isso. Voc e ela talvez funcionem bem assim, mas eu no sei... eu nunca...  Ela balanou a cabea.  Vou para casa agora. Preciso 
refletir um pouco.
     Cecilia, voc me fez perguntas a esse respeito e eu falei da minha relao com Erika. A existncia dela no pode ser uma surpresa para voc.
      verdade. Mas enquanto ela estava a uma distncia confortvel, l em Estocolmo, eu podia ignor-la.
    Cecilia vestiu o casaco.
     A situao  cmica.  Ela sorriu.  Venha jantar esta noite. Com Erika. Acho que vou gostar muito dela.
    
    
    Erika j havia resolvido a questo da hospedagem. Nas vezes em que visitara Henrik Vanger, dormira num dos quartos de hspedes, e pediu muito singelamente se 
podia utiliz-lo de novo. Henrik mal conteve o entusiasmo e assegurou que ela era bem-vinda sempre que quisesse vir.
    Aps essas formalidades, Mikael e Erika atravessaram a ponte e se instalaram no terrao do Caf Susanne antes da hora de fechamento.
     Estou superchateada  disse Erika.  Venho aqui para comemorar sua liberdade e o encontro na cama com a mulher fatal da aldeia.
     Desculpe.
     H quanto tempo voc e a senhorita Tetuda...  Erika fez um movimento com o indicador.
     Mais ou menos desde que Henrik se associou a ns.
     Ah, ?
     Como assim ah, ?
     Simples curiosidade.
     Cecilia  uma mulher querida. Gosto dela.
     No estou criticando. Estou apenas chateada. Uma guloseima ao alcance da mo e sou obrigada a fazer regime. E a priso, como foi?
     Tipo frias de estudo. E a revista, como vai?
     Melhor. Ainda estamos ziguezagueando no vermelho, mas pela primeira vez em um ano o volume de anncios aumentou. Continuamos bem abaixo do que tnhamos antes, 
mas j estamos nos recuperando. Graas a Henrik. E o mais estranho  que as assinaturas tambm aumentaram.
     E normal, sempre h uma oscilao.
     De algumas centenas a mais ou a menos. Mas tivemos trs mil assinantes a mais nos ltimos meses. O aumento se mantm constante com duzentos e cinquenta novos 
assinantes por semana. Primeiro achei que fosse coincidncia, mas novos assinantes continuam afluindo.  o maior aumento de tiragem j obtido por uma revista mensal. 
Representa mais que as receitas dos anunciantes. Ao mesmo tempo, nossos antigos anunciantes parecem em geral dispostos a renovar.
     Como se explica isso?  perguntou Mikael, confuso.
     No sei. Nem ns estamos entendendo. No fizemos campanha publicitria. Christer passou uma semana verificando sistematicamente o perfil desses novos assinantes. 
Em primeiro lugar, so novos mesmo. Em segundo, setenta por cento so mulheres. Em geral, os assinantes so setenta por cento de homens. Em terceiro, pode-se caracterizar 
esse tipo de assinante como um assalariado mdio dos subrbios com um trabalho qualificado: professores, pequenos executivos, funcionrios pblicos.
     A revolta da classe mdia contra o capitalismo?
     No sei. Mas se a tendncia prosseguir vamos assistir a uma enorme mudana na nossa lista de assinantes. A redao se reuniu h duas semanas e decidimos ir 
incluindo aos poucos novos temas na revista; quero mais artigos sobre o mundo do trabalho, relacionado a sindicatos como o dos funcionrios pblicos, por exemplo, 
e tambm mais reportagens investigativas, sobre feminismo e outros assuntos do momento.
     Mas cuidado para no mudar demais  disse Mikael.  Se temos novos assinantes,  provavelmente porque gostam do que j existe na revista.
    
    
    Cecilia Vanger tambm convidara Henrik Vanger para o jantar, talvez para diminuir o risco de assuntos mais melindrosos. Preparou um assado de carne de veado 
e serviu vinho tinto para acompanhar. Erika e Henrik monopolizaram grande parte da conversa comentando a recuperao da Millennium e os novos assinantes; depois, 
aos poucos, passou-se a se falar de outras coisas. De repente Erika se voltou para Mikael e perguntou como ia seu trabalho.
     Em aproximadamente um ms, espero terminar um primeiro rascunho completo da crnica familiar, que Henrik j vai poder ler.
     Uma crnica no esprito da famlia Adams  disse Cecilia sorrindo.
     Ela inclui alguns aspectos histricos  admitiu Mikael. Cecilia lanou um olhar de soslaio para Henrik Vanger.
     Mikael, na verdade Henrik no est nem um pouco interessado nessa crnica familiar. Ele quer  que voc resolva o enigma do desaparecimento de Harriet.
    Mikael no disse nada. Desde que comeara a se relacionar com Cecilia, falara mais ou menos abertamente com ela acerca de Harriet. Cecilia j entendera que era 
esse o verdadeiro trabalho dele, embora Mikael nunca tivesse admitido. Por outro lado, ele nunca dissera a Henrik que discutia isso com Cecilia. As grossas sobrancelhas 
de Henrik se contraram ligeiramente. Erika se calou.
     Querido tio  disse Cecilia a Henrik , eu no sou idiota. No sei exatamente que tipo de acordo voc e Mikael fizeram, mas a temporada dele aqui em Hedeby 
tem a ver com Harriet, no tem?
    Henrik assentiu com a cabea e olhou para Mikael.
     Bem que eu lhe disse que ela era esperta.  Depois virou-se para Erika.  Suponho que Mikael j lhe explicou o que ele faz aqui em Hedeby.
    Ela fez que sim com a cabea.
     E suponho que deve achar essa tarefa insensata. No, no  obrigada a responder.  realmente uma tarefa absurda e insensata. Mas tenho necessidade de saber.
     No tenho opinio a respeito  disse Erika, diplomtica.
      bvio que tem.  Henrik voltou-se para Mikael.  Em breve metade do ano ter passado. Conte. Descobriu algo que ainda no averiguamos?
    Mikael evitou o olhar de Henrik. Pensou imediatamente na sensao estranha que tivera na noite anterior, ao folhear o lbum de fotografias. A sensao no o 
abandonara durante o dia, porm ele no tivera tempo de abrir novamente o lbum. No sabia se estava imaginando coisas, mas sabia que havia uma idia no caminho. 
Estivera a ponto de pensar em algo de decisivo. Por fim levantou os olhos para Henrik e balanou a cabea.
     No descobri a menor pista.
    O velho o examinou com expresso atenta. Absteve-se de comentar a resposta de Mikael e por fim balanou a cabea.
     No sei o que vocs, jovens, pensam disto, mas para mim chegou a hora de me retirar. Obrigado pelo jantar, Cecilia. Boa noite, Erika. Passe para me ver antes 
de ir embora amanh.
    
    
    Depois que Henrik fechou a porta da frente, o silncio se instalou. Foi Cecilia que o rompeu.
     Mikael, o que isso quer dizer afinal?
     Quer dizer que Henrik Vanger  to sensvel s reaes das pessoas como um sismgrafo. Ontem  noite, quando voc foi  minha casa, eu estava olhando o lbum 
de fotos.
     E?
     Eu vi alguma coisa. No sei o qu, e no consigo pr o dedo em cima. Alguma coisa que se tornou quase um pensamento, s que me escapou.
     Mas voc estava pensando em qu?
     No sei. Logo depois voc chegou e eu... humm... passei a ter coisas mais interessantes na cabea.
    Cecilia corou. Evitou os olhos de Erika e foi at a cozinha a pretexto de fazer um caf.
    
    
    Era um dia quente e ensolarado de maio. A vegetao estava brotando e Mikael surpreendeu-se a assobiar Blossom time is coming.
    Erika passou a noite no quarto de hspedes de Henrik. Depois do jantar, Mikael perguntara a Cecilia se queria companhia. Ela respondeu que devia preparar a reunio 
dos conselhos de classe, que estava cansada e preferia ir dormir. Na segunda-feira de manh bem cedo, Erika depositou um beijo no rosto de Mikael e partiu.
    Quando Mikael foi para a priso, em meados de maro, a neve ainda cobria a paisagem. Agora as videiras j exibiam folhas e a relva em volta da casa verdejava, 
abundante. Pela primeira vez, ele tinha a oportunidade de passear pela ilha. Por volta das oito, passou na casa de Henrik para pedir uma garrafa trmica a Anna. 
Conversou um pouco com Henrik e pediu-lhe emprestado um mapa da ilha. Queria ver de perto a cabana de Gottfried, mencionada de maneira indireta no inqurito policial, 
pois Harriet estivera ali vrias vezes. Henrik explicou que a cabana pertencia a Martin Vanger, mas estava desocupada havia vrios anos. De vez em quando um parente 
de passagem a ocupava.
    Mikael encontrou Martin Vanger a tempo, antes de ele ir para Hedestad trabalhar, e perguntou se podia emprestar a chave da cabana. Martin olhou para ele com 
um sorriso brincalho.
     Suponho que a crnica familiar chegou agora ao captulo sobre Harriet.
     Eu s queria dar uma olhada...
    Martin Vanger foi buscar a chave e voltou em seguida.
     Posso ir ento? Sem problemas?
     Por mim, pode at se instalar l, se quiser. A no ser pelo fato de ficar no outro extremo da ilha,  um lugar bem melhor que a casa onde voc est hospedado.
    Mikael preparou caf e sanduches. Encheu uma garrafa com gua e ps as provises numa mochila que jogou sobre o ombro. Seguiu um caminho estreito e em parte 
invadido pelo mato, ao longo da baa na costa norte da ilha. A cabana de Gottfried ficava num promontrio a cerca de dois quilmetros do povoado, e ele fez o trajeto 
em meia hora, sem pressa.
    Martin Vanger tinha razo. Ao sair de uma curva do caminho, Mikael viu abrir-se um lugar verdejante em frente ao mar, com uma ampla vista de Hedestad que abarcava 
a embocadura do rio, a marina  esquerda e o porto comercial  direita.
    Achou surpreendente que ningum tivesse se apossado da cabana de Gottfried. Era uma construo rstica de toras de madeira horizontais, coberta de telhas, com 
os caixilhos das janelas pintados de verde e uma pequena varanda na entrada. A manuteno da casa e do jardim mostrava sinais de abandono; a pintura das portas e 
das janelas estava descascando, e o que devia ter sido uma relva transformara-se em arbustos de um metro de altura. Seria necessrio um dia de trabalho com foice 
e cortador de grama para pr tudo em ordem.
    Mikael destrancou a porta, entrou e abriu as janelas. Parecia o interior de um celeiro de uns trinta e cinco metros quadrados. Era uma nica e grande pea, forrada 
de lambris, com amplas janelas que davam para o mar de um lado e de outro para a porta da frente. No fundo da pea, uma escada conduzia a um quarto-mezanino que 
ocupava metade da superfcie da casa. Debaixo da escada havia um pequeno nicho com um fogo a gs, um balco e um lavabo. A moblia era simples;  esquerda da entrada, 
um banco fixado  parede, uma escrivaninha em mau estado e uma ampla estante de madeira. Mais adiante, do mesmo lado, um armrio de trs portas. A direita da entrada, 
uma mesa redonda com cinco cadeiras de madeira e, no centro, uma lareira.
    Vrias lamparinas indicavam que a eletricidade no chegara at ali. No parapeito de uma janela descansava um velho transistor Grundig com a antena quebrada. 
Mikael acionou o boto on, mas as pilhas estavam gastas.
    Subiu a escada estreita e deu uma espiada no mezanino: uma cama de casal, um colcho sem colcha, uma mesa-de-cabeceira e uma cmoda.
    
    
    Mikael ficou um momento vasculhando a casa. A cmoda estava vazia, com exceo de algumas toalhas de rosto e roupas de cama cheirando a mofo. No armrio havia 
algumas roupas de trabalho, um avental, um par de botas de borracha, um tnis gasto e uma pequena lamparina a querosene. Nas gavetas da escrivaninha encontrou papel, 
lpis, um bloco de desenho no usado, um baralho e alguns marcadores de pgina. O armrio da cozinha continha louas, xcaras de caf, copos, velas e pacotes esquecidos 
de sal, saquinhos de ch e coisas do gnero. Numa gaveta da mesa havia talheres.
    Os nicos vestgios de carter intelectual estavam na prateleira acima da escrivaninha. Mikael subiu numa cadeira para ver melhor. Na prateleira de baixo havia 
nmeros antigos de Se, Rekordmagasinet, Tidsfrdriv e Lektyr, do final dos anos 1950 e incio dos 1960; Bildjoumalen de 1965 e 1966, Mitt Livs Novell e algumas revistas 
em quadrinhos: 91:an, Fantomen e Romans. Mikael abriu um nmero da Lektyr de 1964 e constatou que a pin-up tinha um aspecto relativamente inocente.
    Uns cinquenta livros tambm, a metade deles romances policiais em formato de bolso da srie Manhattan de Wahlstrm; alguns Mickey Spillane com ttulos evocadores 
como O beijo da morte, nas capas clssicas de Bertil Hegland. Encontrou ainda seis Kitty, alguns Clube dos cinco de Enid Blyton e um volume dos Detetives gmeos 
de Sivar Ahlrud  O mistrio no metr. Mikael sorriu com nostalgia. Trs livros de Astrid Lindgren: Ns, os filhos de Bullerbyn, Super Blomkvist e Rasmus e Pppi 
Meialonga. Na prateleira de cima havia um rdio de ondas curtas, dois livros de astronomia, um sobre aves, um intitulado O imprio do mal, que falava da Unio Sovitica, 
um sobre a guerra de inverno na Finlndia, o Catecismo de Lutero, o livro de hinos da Igreja sueca e uma Bblia.
    Mikael abriu a Bblia e leu no interior da capa: Harriet Vanger, 12/5/1963. A Bblia da crisma de Harriet. Consternado, devolveu o livro  estante.
    
    
    Logo atrs da casa havia um pequeno depsito que abrigava lenha e ferramentas, uma foice, um ancinho, um martelo, uma caixa contendo pregos, uma plaina, uma 
serra e outras ferramentas. O sanitrio estava situado a uns vinte metros para o Leste Europeu, no bosque. Mikael olhou um pouco por ali e depois voltou para a casa. 
Puxou uma cadeira, sentou-se na varanda e abriu a garrafa trmica para tomar caf. Acendeu um cigarro e contemplou a baa de Hedestad atravs da cortina do matagal.
    A cabana de Gottfried era bem mais modesta do que ele imaginara. Era esse ento o lugar onde o pai de Harriet e de Martin se recolhera quando o casamento com 
Isabella comeou a desmoronar no final dos anos 1950. Onde tinha ido viver e onde se embriagava. E mais abaixo junto ao ponto onde havia se afogado com uma taxa 
elevada de lcool no sangue. A vida na cabana certamente era agradvel no vero, mas, quando a temperatura se aproximava do zero, devia ser bastante fria e penosa. 
De acordo com Henrik, Gottfried continuou a trabalhar no grupo Vanger  com interrupes nos perodos de auge da bebedeira  at 1964. O fato de morar nessa cabana 
de forma mais ou menos permanente e no obstante apresentar-se ao trabalho barbeado e de terno e gravata indicava, apesar de tudo, certa disciplina pessoal.
    Mas tambm era um lugar aonde Harriet ia com frequncia, tanto assim que foi um dos primeiros onde a procuraram. Henrik contou que no ltimo ano ela tinha ido 
vrias vezes  cabana, nos fins de semana ou nas frias. No ltimo vero, havia morado ali durante trs meses, embora fosse ao povoado todos os dias. Fora ali tambm 
que sua amiga Anita Vanger, irm de Cecilia, lhe fizera companhia por seis semanas.
    O que ela fazia na solido? As revistas e os livros de literatura juvenil falavam por si mesmos. O bloco de desenho talvez tenha lhe pertencido. Mas havia tambm 
a Bblia.
    Queria ficar perto do pai afogado e passar ali um perodo de luto? Era s essa a explicao? Ou o isolamento tinha a ver com suas dvidas religiosas? A cabana 
era monacal; ela vivia ali como num convento?
    
* * *
    Mikael seguiu pela praia na direo sudeste, mas o terreno, barrado por muitas ravinas e junperos, era quase impraticvel. Retornou e andou um pouco em direo 
a Hedeby. De acordo com o mapa, devia haver uma picada atravs do bosque que levava  chamada Fortificao, e ele levou uns vinte minutos para achar o acesso, invadido 
pela vegetao. A Fortificao eram restos da defesa costeira que datavam da Segunda Guerra: bunkers de concreto com trincheiras distribudas em volta de uma construo 
de comando. Tudo coberto de mato.
    Mikael continuou no caminho at chegar a um depsito de barcos numa clareira junto ao mar. Ao lado do depsito encontrou restos de um veleiro. Retornou  Fortificao 
e seguiu at ir dar num cercado  eram as terras da fazenda de stergarden.
    Continuou no caminho que serpenteava atravs do bosque, em alguns pontos paralelo ao campo pertencente  fazenda. O caminho era de difcil acesso e ele foi obrigado 
a contornar alguns lodaais. Por fim chegou a um pntano junto a um celeiro. Aparentemente o caminho terminava ali, mas ele estava a apenas cem metros da estrada 
de stergarden.
    Do outro lado da estrada, se elevava o monte Sul. Mikael escalou uma encosta ngreme e precisou do apoio das mos nos ltimos metros. O monte Sul terminava numa 
falsia quase vertical sobre o mar. Mikael retornou a Hedeby seguindo pela crista, de onde avistou as cabanas, o velho porto dos pescadores, a igreja e a pequena 
casa em que estava hospedado. Sentou-se numa pedra e serviu-se de um ltimo resto de caf morno.
    No tinha a menor idia do que fazia em Hedeby, mas a vista lhe agradava.
    
    
    Cecilia Vanger mantinha distncia e Mikael no quis parecer insistente. Mas depois de uma semana resolveu ir visit-la. Ela o recebeu e foi preparar um caf.
     Deve estar me achando uma idiota, uma professora respeitvel de cinquenta e seis anos se comportando como uma adolescente.
     Cecilia, voc  uma mulher adulta e tem o direito de agir como quiser.
     Eu sei. Por isso decidi no te ver mais. No consigo administrar...
     Voc no me deve nenhuma explicao. Espero que continuemos bons amigos.
      o que desejo tambm. Mas um caso com voc  muito complicado para mim. Relacionamentos amorosos nunca foram o meu forte. Acho que preciso ficar s por algum 
tempo.
    
   16.         DOMINGO 1 DE JUNHO 
             TERA-FEIRA 10 DE JUNHO
    
    
    Aps seis meses de especulaes infrutferas, uma brecha se abriu no caso Harriet Vanger quando Mikael, em apenas alguns dias da primeira semana de junho, descobriu 
trs novas peas do quebra-cabea. Duas completamente sozinho, a terceira com um pouco de ajuda.
    Depois da visita de Erika, ele reabrira o lbum de fotografias e por vrias horas examinara as fotos uma aps outra, tentando entender o que o fizera reagir. 
Depois deixou tudo de lado e voltou a trabalhar na crnica familiar.
    Num dos primeiros dias de junho, Mikael foi a Hedestad. Estava pensando em outra coisa, quando o nibus entrou na rua da Estao, e foi ento que subitamente 
se deu conta do que havia germinado em seu crebro. A luz o atingiu como um relmpago num cu sem nuvens. Ficou to abalado que continuou at o terminal da estao 
ferroviria e voltou imediatamente a Hedeby para verificar se suas lembranas eram exatas.
    Tratava-se da primeira foto do lbum. A ltima de Harriet, tirada na rua da Estao em Hedestad naquele dia funesto, quando ela assistia ao desfile da Festa 
das Crianas.
    A foto destoava no lbum. Estava ali porque fora tirada no mesmo dia, mas era a nica entre as outras cento e oitenta que no mostrava o acidente na ponte. Sempre 
que Mikael e (supunha ele) todos os outros olhavam o lbum, eram as pessoas e os detalhes das fotos da ponte que lhes chamavam a ateno. Nada havia de dramtico 
na fotografia de uma multido assistindo ao desfile da Festa das Crianas em Hedestad, vrias horas antes dos acontecimentos decisivos.
    Henrik Vanger devia ter olhado para aquela foto milhares de vezes, constatando com pesar que nunca mais tornaria a ver Harriet. Provavelmente se irritou por 
a foto ter sido tirada de to longe e de Harriet Vanger s aparecer como uma figura qualquer na multido.
    Mas no foi isso que tinha feito Mikael reagir.
    A foto fora tirada do outro lado da rua, provavelmente de uma janela do primeiro andar. A grande-angular captava a frente de um dos caminhes do desfile. Sobre 
a carroceria, vestidas com maios de banho cintilantes e pantalonas exticas, mulheres lanavam bombons aos espectadores. Algumas pareciam danar. Diante do caminho 
saltitavam trs palhaos.
    Harriet estava na calada, na primeira fila de espectadores. A seu lado, trs colegas de classe e, ao redor, pelo menos uns cem outros habitantes de Hedestad.
    Foi isso que o subconsciente de Mikael registrara e que de repente veio  tona quando o nibus passou exatamente no local onde a foto fora tirada.
    Os espectadores se comportavam como costumam se comportar. Os olhos dos espectadores sempre seguem a bolinha numa partida de tnis ou o disco de borracha no 
hquei sobre gelo. Os que estavam mais  esquerda olhavam os palhaos bem  frente deles. Os mais prximos do caminho dirigiam o olhar para a carroceria com as 
moas escassamente vestidas. Seus rostos estavam sorridentes. Crianas apontavam com o dedo. Alguns riam. Todos pareciam felizes.
    Todos exceto uma pessoa.
    Harriet Vanger olhava para o lado. Suas trs colegas e as pessoas ao redor olhavam os palhaos. O rosto de Harriet estava voltado uns trinta ou trinta e cinco 
graus para a direita. Seu olhar parecia fixo em alguma coisa do outro lado da rua, mas que no aparecia no canto inferior  esquerda da foto.
    Mikael pegou a lupa e tentou distinguir os detalhes. A foto fora tirada de muito longe para que ele tivesse absoluta certeza, mas, ao contrrio de todos os outros, 
o rosto de Harriet no exprimia nenhuma alegria. A boca era um trao estreito. Olhos muito abertos. Mos repousadas frouxamente ao longo do corpo.
    Ela parecia estar com medo. Com medo ou com raiva.
    
    
    Mikael tirou a foto do lbum, enfiou-a numa folha de plstico e pegou o nibus com destino a Hedestad. Desceu na rua da Estao e colocou-se no local onde a 
foto provavelmente fora tirada. Era numa das pontas do que constitua o centro da cidade. Tratava-se de um sobrado de madeira que agora abrigava uma videolocadora 
e uma loja de moda masculina, Sundstrm, existente desde 1932, conforme informava uma placa acima da porta de entrada. Ele entrou e logo percebeu que a loja ocupava 
os dois andares; uma escada em caracol conduzia  parte de cima.
    No alto, duas janelas davam para a rua. Foi ali que o fotgrafo se instalara.
     Posso ajud-lo?  perguntou um vendedor de certa idade, quando Mikael tirou do bolso o plstico com a fotografia. Havia pouca gente na loja.
     Bem, na verdade eu gostaria apenas de verificar de onde esta fotografia foi tirada. Posso abrir um instante a janela?
    Deram-lhe permisso e ele estendeu a foto  sua frente. Podia ver o local exato onde Harriet Vanger estivera. Uma das duas casas de madeira que se viam atrs 
dela desaparecera, substituda por uma de tijolos. A outra casa, que sobreviveu, abrigava uma papelaria em 1966; atualmente havia ali uma loja de produtos dietticos 
e um solrio. Mikael fechou a janela, agradeceu e desculpou-se pelo incmodo.
    Embaixo, na rua, foi se colocar no lugar onde Harriet estivera. No teve dificuldade em se orientar entre a janela do primeiro andar da loja e a porta do solrio. 
Virou a cabea e reconstituiu a linha de mira de Harriet. Pelo que Mikael pde avaliar, ela dirigira o olhar a um canto da casa que abrigava a loja de moda masculina. 
Era um canto de casa inteiramente comum, de onde saa uma rua lateral. O que Harriet teria visto l?
    
    
    Mikael guardou a fotografia na mochila e foi a p at a entrada da estao, onde sentou-se num terrao e pediu um caff latte. Sentia-se subitamente agitado.
    Nos romances policiais ingleses, isso se chamava uma new evidence, o que era bem mais que um "novo dado". Ele acabava de ver algo novo, que ningum mais observara 
numa investigao que se arrastava havia trinta e sete anos.
    O nico problema  que ele no sabia muito bem qual o valor dessa nova descoberta, nem mesmo se havia algum. No entanto ela lhe parecia importante.
    O dia de setembro em que Harriet desapareceu fora dramtico de diversas maneiras. Era um dia de festa em Hedestad com milhares de pessoas nas ruas, tanto jovens 
como velhos. E havia a reunio familiar anual na ilha. S esses dois acontecimentos j quebravam a rotina do lugar. E o acidente na ponte, como a cereja no bolo, 
veio lanar sua sombra sobre o resto.
    O inspetor Morell, Henrik Vanger e todos os que refletiram sobre o desaparecimento de Harriet haviam se concentrado nos acontecimentos da ilha. O prprio Morell 
escrevera que no conseguia afastar a suspeita de que havia uma ligao entre o acidente e o desaparecimento de Harriet. De repente Mikael se convenceu de que isso 
era inteiramente falso.
    A cadeia de incidentes no comeara na ilha, mas na cidade de Hedestad, vrias horas antes naquele dia. Harriet Vanger tinha visto alguma coisa ou algum que 
lhe causara medo e que a fizera voltar para casa e procurar de imediato Henrik Vanger, que infelizmente no teve tempo de lhe dar ateno. Depois aconteceu o acidente 
na ponte. Em seguida o assassino agiu.
    
    
    Mikael fez uma pausa. Era a primeira vez que formulava conscientemente a suposio de que Harriet havia sido morta. Hesitou, mas logo percebeu que concordava 
com a convico de Henrik Vanger. Harriet fora morta e agora ele buscava um assassino.
    Retornou ao inqurito policial. Nos milhares de pginas, s uma parte mnima falava das horas em Hedestad. Harriet estava com trs colegas de classe, e todas 
foram interrogadas. Elas se encontraram na entrada da estao ferroviria s nove da manh. Uma das meninas precisava comprar um jeans e as outras a acompanharam. 
Tomaram um caf no restaurante das lojas EPA e depois foram at a feira na praa de esportes, onde passearam entre as bancas e os pequenos lagos com patos, e onde 
tambm cruzaram com outros colegas de escola. Ao meio-dia, dirigiram-se ao centro da cidade para ver o desfile da Festa das Crianas. Um pouco antes das duas, Harriet 
anunciou repentinamente que precisava voltar para casa. Elas se separaram num ponto de nibus perto da rua da Estao.
    Nenhuma das colegas observou algo fora do comum. Uma delas, Inger Stenberg, afirmou que Harriet se tornara "impessoal", ao descrever sua mudana no ltimo ano. 
Disse que naquele dia Harriet estava taciturna como de costume e que apenas acompanhava as outras.
    O inspetor Morell entrevistou todos os que tinham visto Harriet naquele dia, mesmo os que apenas a cumprimentaram na feira ou na rua. Sua foto foi publicada 
nos jornais da regio quando a deram por desaparecida. Vrios habitantes de Hedestad entraram em contato com a polcia para dizer que julgavam t-la visto durante 
o dia, mas ningum observou nada de incomum.
    
    
    Mikael passou a noite refletindo sobre como continuar investigando a pista que acabava de formular. Na manh seguinte, foi se encontrar com Henrik Vanger no 
momento em que ele tomava o caf-da-manh.
     Voc me disse que a famlia Vanger sempre teve participaes no Hedestads-Kuriren.
     Isso mesmo.
     Preciso consultar os arquivos fotogrficos do jornal. De 1966. Henrik Vanger pousou o copo de leite e enxugou o lbio superior.
     Mikael, o que voc descobriu? Ele olhou o velho bem nos olhos.
     Nada de concreto. Mas acho que podemos ter cometido um erro de interpretao no que se refere ao desenrolar dos acontecimentos.
    Mostrou a foto e relatou suas concluses; Henrik no disse nada por um longo tempo.
     Se tenho mesmo razo, devemos nos concentrar no que se passou em Hedestad naquele dia, no apenas no que se passou na ilha  disse Mikael.  No sei o que 
foi feito delas depois de tantos anos, mas muitas fotografias das festividades certamente nem foram publicadas. So essas fotos que quero ver.
    Henrik Vanger utilizou o telefone de parede na cozinha. Chamou Martin Vanger, explicou o que procurava e perguntou quem era hoje o responsvel pelo arquivo fotogrfico 
do Kuriren. Dez minutos mais tarde, a pessoa foi localizada e a autorizao obtida.
    
    
    A responsvel pelo arquivo fotogrfico do Hedestads-Kuriren chamava-se Madeleine Blomberg, mais conhecida por Maja, e tinha sessenta anos. Era a primeira mulher 
nessa funo que Mikael encontrava em sua carreira, numa profisso em que ainda se julgava a fotografia como um domnio artstico reservado aos homens.
    Era um sbado e a redao estava vazia, mas Maja Blomberg morava a apenas cinco minutos a p dali e recebeu Mikael na porta do jornal. Ela havia trabalhado no 
Hedestads-Kuriren a maior parte de sua vida. Comeou como revisora em 1964, a seguir trabalhou na preparao das fotos e passou muitos anos no laboratrio, sendo 
enviada tambm para algumas coberturas fotogrficas quando os efetivos faltavam. Acabou sendo promovida a editora e, dez anos antes, quando o ex-responsvel pelo 
setor de fotografia se aposentou, ela assumiu a chefia do departamento. Mas isso no significava que dirigisse um vasto imprio. O departamento de fotografia fora 
integrado ao de publicidade dez anos antes e contava com apenas seis pessoas, todas encarregadas do mesmo trabalho por turno.
    Mikael perguntou como os arquivos estavam organizados.
     Na verdade, o arquivo est uma grande baguna. Depois dos computadores e das fotos digitais, passamos a arquivar tudo em CDs. Um dos nossos estagirios escaneou 
as fotos antigas importantes, mas isso s representa um ou dois por cento das fotos catalogadas. As mais antigas esto organizadas em arquivos de negativos, por 
data. Esto ou aqui na redao, ou no depsito.
     O que me interessa so as fotos tiradas no desfile da Festa das Crianas de 1966, mas tambm, de modo geral, fotos tiradas naquela semana.
    Maja Blomberg perscrutou Mikael com o olhar.
     No  a semana em que Harriet Vanger desapareceu?
     A senhora conhece a histria?
     Impossvel ter trabalhado a vida inteira no Hedestads-Kuriren e no conhec-la, e quando Martin Vanger me chamou hoje de manh, no meu dia de folga, tirei 
minhas prprias concluses. Revisei artigos que falavam do caso nos anos 1960. Por que est investigando? Haveria novas revelaes?
    Maja Blomberg tambm parecia ter faro. Mikael balanou a cabea com um breve sorriso e lanou seu pretexto.
     No, e duvido muito que algum dia tenhamos a resposta para o que aconteceu com ela. Peo que no espalhe, mas estou escrevendo a biografia de Henrik Vanger. 
O desaparecimento de Harriet  um assunto  parte, mas tambm um captulo que no se pode ignorar. Procuro fotos que possam ilustrar aquele dia, de Harriet e de 
suas colegas.
    Maja Blomberg pareceu ctica, porm como a explicao era plausvel ela no tinha por que duvidar do que ele dizia.
    O fotgrafo de um jornal utiliza em mdia entre dois e dez filmes por dia. Em pocas de grandes acontecimentos, esse nmero pode facilmente dobrar. Cada filme 
contm trinta e seis negativos, portanto no  incomum um jornal acumular mais de trezentas fotos todos os dias, das quais poucas so publicadas. Uma redao bem 
organizada divide os filmes em seis e pe cada tira dessas em seis envelopes numa pgina. Com isso, um filme equivale a mais ou menos uma pgina num arquivo de negativos. 
Um arquivo contm pouco mais de cento e dez filmes. Em um ano, acumulam-se entre vinte e trinta arquivos. Ao longo dos anos, isso acaba se transformando numa quantidade 
espantosa de arquivos, geralmente sem o menor valor comercial, atulhando as prateleiras da redao. No entanto, todos os fotgrafos e editores de fotografia esto 
convencidos de que as imagens representam um documento histrico de valor inestimvel e no jogam nada fora.
    Fundado em 1922, o Hedestads-Kuriren dispunha de uma editoria de fotografia desde 1937. O depsito do Kuriren abrigava mais de mil e duzentos arquivos de fotos, 
classificados por data. As imagens de setembro de 1966 representavam quatro arquivos de encadernao barata.
     Como eu fao?  perguntou Mikael.  Vou precisar de um negatoscpio e tambm copiar as fotos que me interessarem.
     No temos mais laboratrio. Escaneamos tudo. Sabe usar um escner de negativos?
     Sim, j fiz fotos, eu mesmo tenho um Agfa em casa. Trabalho com o Photoshop.
     Ento est to bem equipado como ns.
    Maja Blomberg levou Mikael para dar uma volta rpida pela redao, indicou-lhe um lugar diante de um negatoscpio e ligou um computador e um escner. Mostrou-lhe 
tambm onde preparar caf na copa. Arrumou tudo para que Mikael pudesse trabalhar sozinho e livremente, mas ele devia chamar Maja Blomberg quando fosse embora da 
redao, para que ela viesse trancar tudo e ligar o alarme. Ela o deixou com um jovial "Divirta-se".
    
    
    Mikael precisou de vrias horas para percorrer os arquivos. Dois fotgrafos trabalhavam no Hedestads-Kuriren naquela poca. O que trabalhou no dia em questo 
foi Kurt Nylund, que Mikael j conhecia. Na poca, Nylund tinha vinte anos. Mais tarde foi morar em Estocolmo e tornou-se um fotgrafo profissional reconhecido, 
atuando como freelancer mas tambm com a Pressens Bild, em Marieberg. Seus caminhos se cruzaram vrias vezes nos anos 1990, quando a Millennium comprou fotos da 
Pressens Bild. Mikael tinha a lembrana de um homem magro de cabelos finos. Kurt Nylund utilizara um filme pouco sensvel usado por muitos reprteres-fotogrficos.
    Mikael tirou dos envelopes as fotos do jovem Nylund e as ps no negatoscpio, examinando uma por uma com a lupa. Mas ler negativos  uma arte que requer algum 
hbito, coisa que Mikael no tinha. Para saber se as fotos continham alguma informao valiosa, ele percebeu que seria obrigado a escanear cada imagem para observ-la 
depois no computador. Isso levaria horas. Decidiu ento fazer um levantamento dos negativos que poderiam interess-lo.
    Comeou selecionando as fotografias do acidente com o caminho-tanque. Mikael constatou que o arquivo de cento e oitenta fotos de Henrik Vanger no estava completo; 
a pessoa que copiara a coleo  talvez o prprio Nylund  eliminara cerca de trinta fotos, ou porque estavam desfocadas, ou porque sua qualidade era medocre para 
publicao.
    Mikael deixou o computador do Hedestads-Kurirem e ligou o escner em seu prprio notebook. Passou duas horas escaneando o restante das fotos.
    Uma delas chamou de imediato sua ateno. Num certo momento entre 15hl0 e 15hl5, exatamente nos minutos em que Harriet desapareceu, algum abrira a janela do 
quarto dela; Henrik Vanger tentara em vo descobrir quem foi. De repente, Mikael tinha na tela uma foto que devia ter sido tirada no momento em que a janela estava 
aberta. Era possvel ver uma silhueta e um rosto, mas imprecisos, desfocados. Concluiu que a anlise dessa foto poderia esperar at que ele escaneasse o resto.
    Nas horas seguintes, Mikael examinou as fotos da Festa das Crianas. Kurt Nylund usou seis filmes, isto , tirou mais de duzentas fotos. Era uma srie descontnua 
de crianas com bales, adultos, vendedores de cachorro-quente, o desfile propriamente dito, um artista local sobre um estrado e uma distribuio de prmios.
    Mikael decidiu, por fim, escanear o conjunto de fotos. Ao cabo de seis horas, tinha um dossi com noventa fotografias. Ele seria obrigado a voltar ao Hedestads-Kuriren.
    s nove da noite, ligou para Maja Blomberg, agradeceu e voltou para sua casa na ilha.
    Ele regressou s nove da manh do domingo. Tambm no havia ningum quando Maja Blomberg o fez entrar. Mikael no se dera conta de que era feriado de Pentecostes 
e que o jornal s sairia na tera-feira. Pde utilizar a mesma mesa de trabalho da vspera e passou o dia escaneando. Por volta das seis, ainda restavam quarenta 
fotos da Festa das Crianas. Mikael examinou os negativos e concluiu que os belos primeiros planos com crianas ou as fotos de artistas em cena no tinham o menor 
interesse para ele. O que lhe interessava era a animao das ruas e da multido.
    
    
    Mikael passou toda a segunda-feira de Pentecostes examinando o novo material fotogrfico. Fez duas descobertas. A primeira o encheu de consternao. A segunda 
fez seu corao bater mais rpido.
    A primeira descoberta era sobre o rosto na janela do quarto de Harriet Vanger. A foto estava desfocada por causa da movimentao e por isso fora eliminada da 
coleo. O fotgrafo se posicionara diante da igreja e visara a ponte. As casas se achavam no plano de fundo. Mikael enquadrou a imagem de modo a recortar apenas 
a janela em questo, e a seguir fez diversas tentativas, ajustando o contraste e aumentando a preciso, at obter o que julgou ser a melhor qualidade possvel.
    O resultado foi uma imagem granulada de tons cinza, que mostrava uma janela retangular, uma cortina, a ponta de um brao e um rosto difuso em forma de meia-lua 
um pouco recuado no cmodo.
    Constatou que o rosto no pertencia a Harriet Vanger, que tinha cabelos pretos, mas a uma pessoa com cabelos bem mais claros.
    Constatou ainda que se podia distinguir partes mais escuras onde ficavam os olhos, o nariz e a boca, mas que era impossvel obter traos ntidos do rosto. Estava 
convencido, porm, de que via uma mulher; a parte mais clara ao lado do rosto continuava at os ombros e indicava uma cabeleira feminina. Constatou que a pessoa 
usava roupas claras.
    Fez uma estimativa da altura dela tomando por base a janela; uma mulher de cerca de um metro e setenta.
    Ao fazer desfilar outras fotos do acidente da ponte, constatou que uma pessoa correspondia exatamente aos sinais que distinguia  Cecilia Vanger, aos vinte anos.
    
    
    Kurt Nylund tirara ao todo dezoito fotos postado  janela do primeiro andar da Sundstrm, Moda Masculina. Harriet Vanger aparecia em dezessete. Harriet e suas 
colegas haviam chegado  rua da Estao no mesmo instante em que Kurt Nylund comeara a fotografar. Mikael calculou que as fotos deviam ter sido tiradas num lapso 
de tempo de cinco minutos. Na primeira, Harriet e suas colegas estavam descendo a rua e entraram no campo da imagem. Nas fotos de 2 a 7 estavam imveis, observando 
o desfile. Depois se deslocaram cerca de seis metros adiante na rua. Na ltima foto, talvez tirada um pouco mais tarde, o grupo inteiro havia desaparecido.
    Mikael reuniu uma srie de imagens na qual enquadrou Harriet da cintura para cima, tentando obter o melhor contraste. Colocou as fotos numa nova pasta, abriu 
o programa Graphic Converter e executou a funo Diaporama. O efeito foi um filme mudo e entrecortado em que cada imagem aparecia durante dois segundos.
    Harriet chega, foto de perfil. Harriet se detm e olha a calada. Harriet vira o rosto para a rua. Harriet abre a boca para dizer alguma coisa  sua colega. 
Harriet ri. Harriet toca a orelha da colega com a mo esquerda. Harriet sorri. Harriet parece de repente surpresa, o rosto num ngulo de aproximadamente vinte graus 
 esquerda da objetiva. Harriet arregala os olhos e pra de sorrir. A boca de Harriet se transforma num trao estreito. Harriet fixa o olhar em alguma coisa. Em 
seu rosto se pode ler... o qu? Aflio, choque, raiva? Harriet baixa os olhos. Harriet no est mais l.
    Mikael repassou a sequncia vrias vezes.
    Ela confirmava nitidamente a hiptese que ele formulara. Alguma coisa ocorreu na rua da Estao em Hedestad. A lgica era evidente.
    Ela v alguma coisa  algum  do outro lado da rua. Est chocada. Mais tarde vai procurar Henrik Vanger para uma conversa particular que nunca aconteceu. Depois 
desaparece sem deixar vestgios.
    Alguma coisa ocorreu naquele dia. Mas as fotos no explicavam o qu.
    
    
    s duas da manh de tera-feira, Mikael fez caf e preparou sanduches que comeu sentado no banco da cozinha. Estava ao mesmo tempo desanimado e excitado. Contra 
todas as expectativas, ele havia descoberto novos indcios. O problema era que, se eles jogavam uma nova luz sobre os acontecimentos, no o faziam avanar um milmetro 
na soluo do enigma.
    Refletiu muito sobre o papel que Cecilia Vanger desempenhara no drama. Henrik Vanger descrevera em detalhe as atividades de todos os protagonistas naquele dia 
e Cecilia no fora exceo. Em 1966 ela morava em Uppsala, mas chegou a Hedeby dois dias antes daquele sbado funesto. Estava hospedada num quarto de hspedes da 
casa de Isabella Vanger. Declarou ter visto Harriet de manh, mas no chegou a falar com ela. No sbado foi a Hedestad fazer compras. No viu Harriet e regressou 
 ilha por volta da uma da tarde, no momento em que Kurt Nylund tirava a srie de fotos na rua da Estao. Trocou de roupa e s duas comeou a ajudar a preparar 
a mesa para o almoo.
    Como libi, era fraco. As horas eram aproximadas, sobretudo no que dizia respeito a seu retorno  ilha, mas Henrik Vanger nunca duvidou um segundo de que ela 
pudesse ter mentido. Cecilia era uma das pessoas da famlia que Henrik queria bem. Alm disso, fora amante de Mikael. Ele tinha dificuldade de ser objetivo e no 
podia de modo algum imagin-la no papel de uma assassina.
    E eis que agora uma foto na janela vinha insinuar que ela mentira ao dizer que no havia entrado no quarto de Harriet. Os pensamentos se engalfinhavam na cabea 
de Mikael.
    Se ela mentiu sobre isso, que outras mentiras teria contado?
    Mikael fez um balano do que sabia sobre Cecilia. Via-a como uma pessoa apesar de tudo reservada, aparentemente marcada pelo passado, e o resultado  que vivia 
sozinha, carente de vida sexual e com dificuldade de se aproximar das pessoas. Guardava distncia dos outros e, quando por um momento se deixou levar e se lanou 
sobre um homem, escolheu Mikael, um estranho de passagem. Cecilia disse que estava rompendo a relao deles por no suportar a idia de que ele ia desaparecer de 
sua vida de uma hora para a outra. Mas foi exatamente pela mesma razo, talvez, que ousou dar um passo e iniciar um caso com ele. Como se tratava de um caso passageiro, 
ela no precisava temer uma transformao radical de sua vida. Mikael suspirou e deixou essas especulaes psicolgicas de lado.
    
    
    Ele fez a segunda descoberta nessa mesma noite. A chave do enigma  ele estava convencido  era o que Harriet tinha visto na rua da Estao em Hedestad. Mikael 
nunca saberia o que era, a no ser que inventasse uma mquina do tempo e se colocasse atrs de Harriet para olhar por cima de seu ombro.
    No momento mesmo em que esse pensamento lhe aflorou ao esprito, ele bateu na testa com a palma da mo e precipitou-se ao notebook. Clicou para fazer surgir 
a srie de imagens no recortadas da rua da Estao e... ali estava!
    Atrs de Harriet Vanger, cerca de um metro  direita dela, havia um jovem casal, ele de suter listado e ela com uma blusa clara. Ela segurava uma mquina fotogrfica 
na mo. Mikael ampliou a foto e teve a impresso de ver uma Kodak Instamatic com flash embutido  um aparelho barato para pessoas que no entendem de fotografia.
    A mulher mantinha o aparelho na altura do queixo. Depois o levantava e fotografava os palhaos, no momento em que o rosto de Harriet mudava de expresso.
    Mikael comparou a posio da mquina com a direo do olhar de Harriet. A mulher havia fotografado quase exatamente o que Harriet Vanger estivera olhando.
    De repente, Mikael tomou conscincia de que seu corao batia com fora. Jogou o corpo para trs e tirou o mao de cigarros do bolso da camisa. Algum havia 
tirado uma foto. Mas como identificar essa mulher? Como obter sua foto? Teria o filme sido aproveitado e, nesse caso, a foto existiria em algum lugar?
    Mikael abriu a pasta com as fotos que Kurt Nylund havia tirado da multido. Passou a hora seguinte ampliando cada fotografia e examinando-a centmetro quadrado 
por centmetro quadrado. Reencontrou o casal exatamente na ltima. Kurt Nylund havia fotografado outro palhao, com bales na mo, posando diante da objetiva com 
um eternizado sorriso nos lbios. A foto fora tirada no estacionamento junto  praa de esportes onde se realizava a festa. Deve ter sido depois das duas da tarde 
 a seguir Nylund fora avisado do acidente com o caminho-tanque e interrompera a cobertura da Festa das Crianas.
    A mulher estava quase inteiramente oculta, mas via-se com clareza o perfil do homem de suter listado. Ele tinha chaves na mo e se inclinava para abrir a porta 
de um carro. A imagem mostrava o palhao em primeiro plano e a foto estava ligeiramente desfocada. No se via toda a placa, mas ela comeava por AC3 alguma coisa.
    As placas dos veculos nos anos 1960 comeavam com a letra das regies, e Mikael aprendera, quando criana, a identificar a provenincia dos carros. AC designava 
o Vsterbotten.
    Depois Mikael identificou outra coisa. No vidro traseiro havia um adesivo. Deu um zoom, porm o texto desapareceu numa mancha. Realou o adesivo e levou algum 
tempo trabalhando no contraste e na nitidez. No conseguia ler o texto, mas se baseou nas formas imprecisas para determinar a que letras podiam corresponder. Muitas 
se assemelhavam. Um O podia ser tomado por um D, um B por um E ou vrias outras letras. Trabalhando com papel e lpis, e aps eliminar algumas letras, deparou com 
um texto incompreensvel.

    Fixou a imagem at seus olhos doerem. E ento o texto apareceu: MARCENARIA DE NORSJ, seguido de sinais menores e impossveis de ler, mas que formavam, provavelmente, 
um nmero telefnico.
    
   17.         QUARTA-FEIRA 11 DE JUNHO 
             SBADO 14 DE JUNHO
    
    
    Quanto  terceira pea do quebra-cabea, Mikael recebeu uma ajuda inesperada.
    Depois de trabalhar nas fotos a noite toda, dormiu pesadamente at o meio-dia. Acordou com uma dor de cabea difusa, tomou um banho e foi at o Caf Susanne 
fazer seu desjejum. No conseguia juntar as idias. Deveria ir ver Henrik Vanger e relatar suas descobertas. Em vez disso, foi bater  porta de Cecilia. Queria lhe 
perguntar o que fora fazer no quarto de Harriet e por que mentira, dizendo que no havia ido l. Ningum atendeu.
    Ele estava deixando o local quando ouviu uma voz.
     A sua puta no est em casa.
    O Gollum acabava de sair da caverna. Era alto, quase dois metros de altura, mas to curvado pela idade que os olhos ficavam na altura dos de Mikael. A pele estava 
manchada de sardas escuras. Vestia um pijama e um robe marrom e se apoiava numa bengala. Parecia a verso hollywoodiana do velho rabugento.
     Que foi que o senhor disse?
     Eu disse que a sua puta no est em casa.
    Mikael se aproximou at quase tocar o nariz de Harald Vanger.
     E de sua prpria filha que est falando, seu velho indecente.
     No sou eu que venho vagar aqui  noite  respondeu Harald Vanger com um sorriso desdentado. Seu hlito fedia. Mikael desviou-se dele e prosseguiu seu caminho 
sem se virar. Foi at a casa de Henrik Vanger e o encontrou em seu escritrio.
     Acabo de encontrar seu irmo  disse Mikael , e ele mal pde conter sua rabugice.
     Harald? Ora vejam, ento ele ousou uma sada! Isso acontece uma ou duas vezes por ano.
     Eu batia  porta de Cecilia quando ele apareceu. Ele falou, abre aspas: A sua puta no est em casa. Fecha aspas.
      bem coisa do Harald  disse Henrik Vanger calmamente.
     Ele chama de puta a prpria filha!
     H anos age assim. Por isso no se falam mais.
     Por qu?
     Cecilia perdeu a virgindade quando tinha vinte e um anos. Aconteceu aqui em Hedestad, uma histria de amor que ela teve durante o vero, um ano aps o desaparecimento 
de Harriet.
     E a?
     O homem que ela amava chamava-se Peter Samuelsson, trabalhava no grupo Vanger como assistente financeiro. Um rapaz inteligente. Hoje trabalha para a ABB. Eu 
me orgulharia de t-lo como genro se ela fosse minha filha. Mas ele tinha um defeito.
     Acho que posso adivinhar qual .
     Harald mediu-lhe o crnio, ou verificou sua rvore genealgica, ou qualquer coisa que o valha, e descobriu que tinha antepassados judeus.
     Santo Deus!
     Desde ento passou a cham-la de puta.
     Ele sabia que Cecilia e eu...
     Todo o povoado sabe, imagino, talvez com exceo de Isabella, porque nenhuma pessoa razovel iria lhe contar qualquer coisa e por sorte ela tem o hbito de 
ir dormir s dez da noite. Harald provavelmente acompanhou o menor dos seus passos.
    Mikael sentou-se. Sentia-se meio estpido.
     Quer dizer ento que todo mundo est sabendo...
     Evidentemente.
     E voc no tem nada contra?
     Querido Mikael, isso realmente no me diz respeito.
     Onde est ela, Cecilia?
     O ano escolar terminou. No sbado passado ela viajou a Londres para visitar a irm e depois vai partir de frias para... humm... a Flrida, acho. Voltar daqui 
a um ms.
    Mikael se sentiu ainda mais estpido.
     Resolvemos, digamos assim, suspender a nossa relao.
     Entendo, mas tambm no  da minha conta. Como vai o trabalho? 
    Mikael serviu-se de caf da garrafa trmica de Henrik. Olhou para o velho.
     Descobri uma novidade e vou precisar que algum me empreste um carro.
    
    Mikael passou longo tempo expondo suas concluses. Tirou o notebook da mochila e apresentou a srie de fotos que mostravam a reao de Harriet na rua da Estao. 
Mostrou tambm como descobrira os fotgrafos amadores e seu carro com o adesivo da Marcenaria de Norsj. Quando terminou sua exposio, Henrik pediu para rever a 
sequncia de fotos. Mikael tornou a passar.
    Quando Henrik levantou os olhos da tela do computador, seu rosto estava plido. Mikael sentiu um medo sbito e ps a mo no ombro dele. Henrik fez-lhe um sinal 
para tranquiliz-lo e permaneceu silencioso por um momento.
     Voc fez o que eu achava impossvel! Descobriu algo totalmente novo. O que vai fazer agora?
     Preciso encontrar essa foto, se  que ainda existe.
    Mikael nada disse sobre o rosto na janela e a suspeita contra Cecilia. O que provavelmente indicava que estava longe de ser um detetive particular objetivo.
    
    
    Quando Mikael saiu, Harald Vanger havia desaparecido, certamente de volta  sua caverna. Ao fazer a curva, viu algum de costas junto  entrada de sua casa, 
lendo um jornal. Por um segundo, imaginou que fosse Cecilia Vanger, mas logo viu que no. Ao se aproximar, reconheceu imediatamente a prpria filha.
     Oi, papai  disse Pernilla Abrahamsson. Mikael estreitou a filha nos braos.
     Mas de onde voc est vindo?!
     De casa,  claro. Vou a Skelleftea. Vim passar uma noite aqui.
     E como me descobriu?
     Mame sabia e perguntei ali no caf onde voc morava. Indicaram-me esta casa. Est contente de me ver?
     Claro que sim. Entre. Devia ter me avisado, eu teria comprado alguma coisa gostosa para comer.
     Pensei em te avisar, mas depois resolvi fazer uma surpresa para comemorar a sua sada da priso, e voc tambm nunca me telefonou.
     Desculpe.
     Tudo bem. Mame diz que voc est sempre mergulhado nos seus pensamentos.
      isso que ela fala de mim?
     Mais ou menos. Mas no faz mal. Mesmo assim eu te amo.
     Eu tambm, mas quero que voc saiba...
     Eu sei. Acho que sou bastante madura para a minha idade.
    
    
    Mikael preparou ch e serviu alguns petiscos. De repente percebeu que o que a filha dissera era verdade. Ela no era mais uma menina, tinha quase dezessete anos 
e em breve seria uma mulher adulta. Ele precisava aprender a no trat-la mais como uma criana.
     E ento, como foi?
     O qu?
     A priso.
     Acredita se eu disser que foi como umas frias remuneradas para apenas pensar e escrever?
     Acredito. Acho que no h muita diferena entre uma priso e um convento, e as pessoas sempre entram no convento para evoluir.
     Bem,  uma maneira de ver as coisas. Espero que no venha a ter problemas porque seu pai esteve na priso.
     De modo nenhum. Estou orgulhosa e no perco uma ocasio para sublinhar que voc foi preso por suas convices.
     Minhas convices?
     Vi Erika Berger na tev.
    Mikael empalideceu. Ele no pensara na filha quando Erika montou a estratgia, e ela o julgava totalmente inocente.
     Pernilla, eu no sou inocente. Lamento no poder falar do que se passou, mas no fui injustamente condenado. O tribunal emitiu a sentena baseado no que ficou 
sabendo durante o processo.
     Mas voc no contou sua verso.
     No, porque no posso prov-la. Cometi uma gafe monumental e por isso fui obrigado a ir para a priso.
     Certo. Mas responda  minha pergunta: Wennerstrm  ou no  um crpula?
      um dos crpulas mais sinistros que j conheci.
     Est vendo? Isso basta. Trouxe um presente para voc.
    Tirou um pacote da sacola. Mikael abriu e encontrou um CD com as melhores msicas do Eurythmics. Ela sabia que era uma de suas bandas favoritas. Ele transferiu 
imediatamente o CD para o notebook e escutaram juntos "Sweet dreams".
     O que vai fazer em Skelleftea?  perguntou Mikael.
      uma reunio de estudos bblicos com uma congregao chamada Luz da Vida  respondeu Pernilla, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
    Mikael sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
    Percebeu o quanto sua filha e Harriet se assemelhavam. Pernilla tinha dezesseis anos, assim como Harriet quando desapareceu. Ambas tinham um pai ausente. Ambas 
sentiram uma atrao religiosa por seitas menores; Harriet na comunidade local dos pentecostais e Pernilla na sucursal de algo to bizarro como essa Luz da Vida.
    Mikael no sabia muito bem como lidar com o interesse novo da filha pela religio. Tinha medo de interferir no seu direito de decidir por si mesma o caminho 
que queria seguir na vida. Por outro lado, Luz da Vida era exatamente o tipo de congregao sobre a qual ele e Erika no hesitariam em fazer uma reportagem de denncia 
na Millennium. Decidiu debater a questo com a me de Pernilla na primeira oportunidade.

* * *
    Pernilla dormiu na cama de Mikael e ele passou a noite no banco da cozinha. Despertou com torcicolo e com os msculos doloridos. Como Pernilla tinha pressa de 
prosseguir sua viagem, Mikael preparou logo o caf-da-manh e a acompanhou at a estao. Restavam-lhes alguns momentos antes de o trem partir. Compraram caf numa 
lanchonete e instalaram-se num banco na extremidade da plataforma, conversando sobre vrios assuntos. Pouco antes da chegada do trem, Pernilla falou:
     Acho que voc no est gostando muito de eu ir a Skelleftea. Mikael no soube o que responder. Ela continuou:
     No se preocupe. Mas voc no  crente, ?
     No. Pelo menos no um bom crente.
     No acredita em Deus?
     No, no acredito. Mas respeito a sua crena. Todo mundo precisa acreditar em alguma coisa.
    Quando o trem chegou  estao, eles se abraaram demoradamente. No momento em que subia a bordo, Pernilla se voltou.
     Papai, no estou querendo fazer proselitismo. Voc  livre para acreditar no que bem quiser que eu vou sempre te amar. Mas acho que deveria perseverar nos 
seus estudos bblicos.
     Como assim?
     Vi as citaes na parede do seu quarto  ela disse.  Por que voc foi procurar passagens to sinistras? Um beijo. Tchau.
    Ela acenou com a mo e entrou no trem. Perplexo, Mikael ficou na plataforma vendo o trem sumir em direo ao norte. O ltimo vago j desaparecia na curva quando 
finalmente o significado do comentrio dela lhe aflorou  conscincia, junto com uma sensao gelada no peito.
    
    
    Mikael se precipitou para fora da estao e consultou as horas. S haveria nibus para Hedeby dali a quarenta minutos. Seus nervos no suportariam a espera. 
Correu at o ponto de txi do outro lado da esplanada da estao e encontrou Hussein com seu sotaque carregado.
    Dez minutos depois, Mikael pagava a corrida e entrava em sua saleta de trabalho. O pedao de papel estava preso com durex acima da escrivaninha.

    Olhou ao redor. Depois lembrou onde poderia encontrar uma Bblia. Pegou o pedao de papel, encontrou as chaves que deixara dentro de uma tigela na beirada da 
janela e correu at a cabana de Gottfried. Suas mos estavam quase tremendo quando pegou a Bblia de Harriet na prateleira.
    No eram nmeros telefnicos que Harriet havia anotado. Os algarismos indicavam captulos e versculos do Levtico, o terceiro livro do Pentateuco. Os castigos.
    
(Magda), Levtico, captulo XX, versculo 16:
"Se uma mulher se aproximar de um animal para se prostituir com ele, ser morta juntamente com o animal. Sero mortos e levaro a sua iniquidade."
(Sara), Levtico, captulo XXI, versculo 9:
"Se a filha de um sacerdote se desonrar pela prostituio, ela desonra o pai; ser
queimada no fogo."
    
(Rj), Levtico, captulo I, versculo 12:
"A seguir a vtima ser cortada em pedaos, com a cabea e a gordura, que o sacerdote dispor sobre a lenha colocada sobre o fogo do altar."
    
(RL), Levtico, captulo XX, versculo 27:
"Qualquer homem ou mulher que evocar os espritos ou fizer adivinhaes ser
morto. Sero apedrejados e levaro a sua culpa."
    
 (Mari), Levtico, captulo XX, versculo 18:
"Se um homem dormir com uma mulher durante o tempo de sua menstruao e vir a sua nudez, descobrindo o seu fluxo e descobrindo-o ela mesma, sero ambos cortados 
do meio de seu povo."
    
    
    Mikael saiu e sentou-se no patamar em frente  casa. Sem dvida, era a isso que Harriet se referia quando anotou os algarismos na sua agenda de telefones. Cada 
citao estava cuidadosamente sublinhada na Bblia de Harriet. Ele acendeu um cigarro e ficou escutando o canto dos pssaros.
    Havia entendido os nmeros, mas no os nomes: Magda, Sara, Mari, RJ e RL.
    De repente, um abismo se abriu quando o crebro de Mikael deu um salto intuitivo. Lembrou-se do sacrifcio pelo fogo em Hedestad de que lhe falara o inspetor 
Gustav Morell: o caso Rebecka nos anos 1940, a jovem violentada e assassinada. Para mat-la, haviam posto sua cabea sobre carves ardentes. "A seguir a vtima ser 
cortada em pedaos, com a cabea e a gordura, que o sacerdote dispor sobre a lenha colocada sobre o fogo do altar." Rebecka. RJ. Qual era o sobrenome dela?
    Santo Deus! Com que histria de gente maluca Harriet havia se metido?
    
    
    Henrik Vanger adoecera e fora se deitar  tarde, explicaram a Mikael quando ele bateu  sua porta. Mesmo assim Anna o fez entrar e ele viu o velho durante alguns 
minutos.
     Um resfriado de vero  explicou Henrik, fungando.  O que o traz aqui?
     Uma pergunta.
     Diga.
     Ouviu falar de um assassinato cometido aqui em Hedestad nos anos 1940? Uma moa chamada Rebecka, que foi morta por terem posto sua cabea numa lareira?
     Rebecka Jacobsson  disse Henrik sem hesitar um segundo.  Jamais vou esquecer esse nome, mas fazia anos que eu no ouvia ningum mencion-lo.
     Lembra como foi o assassinato?
     E como! Rebecka Jacobsson tinha vinte e trs ou vinte e quatro anos quando foi morta. Isso deve ter acontecido... acho que foi em 1949. Houve um grande inqurito, 
no qual tive uma pequena participao.
     Voc?  exclamou Mikael, surpreso.
     Sim. Rebecka Jacobsson trabalhava num dos escritrios do grupo Vanger. Uma moa bastante conhecida, e muito bonita. Mas por que essas perguntas sobre ela de 
repente?
    Mikael no sabia bem o que dizer. Levantou-se e se aproximou da janela.
     No sei exatamente, Henrik, talvez eu tenha descoberto alguma coisa, mas primeiro preciso refletir um pouco.
     Est querendo me dizer que existe uma ligao entre Harriet e Rebecka? Transcorreram... mais de dezessete anos entre os dois acontecimentos.
     D-me mais algum tempo para refletir. Voltarei amanh, se voc estiver melhor.
    
    
    Mikael no encontrou Henrik Vanger no dia seguinte. Um pouco antes da uma da manh, ainda estava sentado  mesa da cozinha lendo a Bblia de Harriet, quando 
ouviu o rudo de um carro atravessando a ponte em alta velocidade. Olhou pela janela e viu a luz giratria azul de uma ambulncia.
    Tomado de um mau pressentimento, Mikael precipitou-se atrs da ambulncia. Ela estacionara em frente  casa de Henrik. Havia luz no andar de baixo e Mikael logo 
percebeu que algo acontecera. Subiu depressa a escada da frente e deu de cara com Anna Nygren, muito perturbada no vestbulo.
     O corao  ela disse.  Ele me chamou h pouco e se queixou de dor no peito. Depois desmaiou.
    Mikael estreitou nos braos a leal governanta e ali permaneceu at que os enfermeiros descessem com um Henrik Vanger inconsciente numa padiola. Martin Vanger, 
visivelmente aflito, logo chegou. J havia se deitado quando Anna o avisou; estava com os ps nus metidos num par de pantufas e com a braguilha aberta. Saudou Mikael 
brevemente e se voltou para Anna.
     Eu vou com ele para o hospital. Chame Birger e tente entrar em contato com Cecilia em Londres. E avise Dirch Frode.
     Posso ir at a casa de Frode  props Mikael.  Anna fez um sinal de agradecimento com a cabea.
    Bater  porta de algum depois da meia-noite em geral significa ms notcias, pensou Mikael ao pr o dedo na campainha de Dirch Frode. Esperou vrios minutos 
at que ele viesse abrir a porta, ainda sonolento.
     Tenho ms notcias. Acabam de levar Henrik Vanger para o hospital. Parece que foi um infarto. Martin me pediu que eu viesse at aqui avis-lo.
     Meu Deus  disse Frode. Consultou o relgio.  Hoje  sexta-feira 13  acrescentou, com uma lgica incompreensvel e um ar de perplexidade.
    Mikael voltou para casa s duas e meia da manh. Hesitou um instante, mas depois resolveu no telefonar para Erika naquele momento. S por volta das dez da manh, 
depois de falar brevemente com Dirch Frode pelo celular e de ficar sabendo que Henrik Vanger continuava vivo,  que chamou Erika para informar que o novo scio da 
Millennium fora hospitalizado, vtima de um infarto. Como era de se esperar, seu anncio foi recebido com tristeza e inquietao.
    
    
    Mais tarde, Dirch Frode passou na casa de Mikael levando notcias detalhadas sobre o estado de sade de Henrik.
     Ele est vivo, mas nada bem. Teve um infarto srio, agravado por uma espcie de infeco.
     Chegou a v-lo?
     No. Est na UTI. Martin e Birger esto com ele.
     Qual  o prognstico?
    Dirch Frode balanou a mo de um lado para o outro.
     Ele sobreviveu ao infarto, e isso  sempre um bom sinal. Seu estado geral de sade  excelente, mas  um homem idoso. S nos resta esperar.
    Calaram-se, refletindo por um momento. Mikael serviu caf. Dirch Frode parecia desanimado.
     Preciso lhe fazer algumas perguntas sobre como vo ficar as coisas  disse Mikael.
    Frode olhou para ele.
     Nada vai mudar no que diz respeito ao seu emprego. As condies esto definidas num contrato vlido at o fim do ano, esteja Henrik Vanger vivo ou no. No 
se preocupe.
     No me refiro a isso. Gostaria de saber a quem devo entregar meus relatrios na ausncia dele.
    Dirch Frode suspirou.
     Mikael, voc sabe to bem quanto eu que toda essa histria de Harriet Vanger  um passatempo para Henrik.
     No estou to certo disso.
     O que est querendo dizer?
     Descobri novos indcios  respondeu Mikael.  Ontem falei um pouco sobre isso com Henrik. Receio at que possa ter contribudo para provocar seu infarto.
    Dirch Frode lanou um olhar estranho para Mikael.
     Voc est brincando.
    Mikael balanou negativamente a cabea.
     Dirch, nos ltimos dias desenterrei mais material sobre o desaparecimento de Harriet do que fez o inqurito oficial em trinta e cinco anos. Meu problema agora 
 que no definimos a quem entrego meu relatrio na ausncia de Henrik.
     Pode entreg-lo a mim.
     Certo. Preciso prosseguir nesse caminho. Voc dispe de algum tempo? Mikael relatou suas novas descobertas to didaticamente quanto possvel.
    Mostrou a sequncia de fotos da rua da Estao e exps sua teoria. A seguir explicou como sua prpria filha o levara a elucidar o mistrio da agenda telefnica 
de Harriet. Para terminar, mencionou o brutal assassinato de Rebecka Jacobsson ocorrido em 1949.
    A nica informao que omitiu foi sobre o rosto de Cecilia Vanger na janela de Harriet. Queria primeiro falar com ela, antes de deix-la numa posio em que 
pudessem suspeitar dela.
    Rugas grossas de preocupao apareceram na testa de Dirch Frode.
     Est querendo me dizer que o assassinato de Rebecka tem algo a ver com o desaparecimento de Harriet?
     No sei. Parece improvvel, mas ao mesmo tempo h o fato de Harriet ter anotado as iniciais RJ na sua agenda com a remisso  lei bblica sobre os holocaustos 
ritualistas. Rebecka Jacobsson foi queimada viva. A ligao com a famlia Vanger  evidente: ela trabalhava para o grupo Vanger.
     E como explica tudo isso?
     Ainda no sei. Mas quero seguir em frente e vou consider-lo o representante de Henrik. Tomar as decises no lugar dele.
     Talvez devssemos informar a polcia.
     No. De qualquer forma, no sem a autorizao de Henrik. O assassinato de Rebecka est prescrito h muito tempo e o caso foi arquivado. Eles no vo reabrir 
o inqurito de um crime cometido h cinquenta e quatro anos.
     Entendo. E o que pretende fazer ento? Mikael levantou-se e deu a volta ao redor da mesa.
     Primeiro gostaria de seguir a pista da foto. Se conseguirmos ver o que Harriet viu, acho que teremos a uma chave. Em segundo lugar, preciso de um carro para 
ir a Norsj e ver at onde essa pista me leva. E, em terceiro, gostaria de pesquisar essas citaes bblicas. Fizemos a ligao entre uma delas e um assassinato 
particularmente terrvel. Restam outras quatro. Para conseguir isso... vou precisar de ajuda.
     Que espcie de ajuda?
     Preciso de um assistente de pesquisa que saiba vasculhar arquivos antigos de imprensa e encontre Magda, Sara e os outros nomes. Se eu no estiver enganado, 
Rebecka no foi a nica vtima.
     Est querendo que mais algum participe desse segredo...
     De repente estamos com uma quantidade enorme de pesquisas para serem feitas. Se eu fosse o tira responsvel por alguma investigao, poderia poupar tempo e 
recursos e destacar muita gente para essas pesquisas. Preciso de um profissional que entenda de arquivos e que ao mesmo tempo seja de confiana.
     Entendo... Na verdade, conheo uma pessoa realmente competente. Foi ela quem fez a investigao sobre voc  disse Frode, antes de se dar conta do que tinha 
dito.
    
    
     Fez o qu?  perguntou Mikael com voz imperiosa.
    Dirch Frode percebeu tarde demais que falara mais do que devia. Estou ficando velho, pensou.
     Pensei em voz alta. No  nada  tentou dizer.
     Mandou fazer uma investigao sobre mim?
     Nada de dramtico, Mikael. Como queramos contrat-lo, fomos verificar que tipo de homem voc .
     Ento  por isso que Henrik Vanger sempre parece saber exatamente qual  a minha situao. E essa investigao? Foi muito aprofundada?
     Sim, bastante aprofundada.
     Levantou os problemas da Millennium? Dirch Frode encolheu os ombros.
     Era necessrio.
    Mikael acendeu um cigarro. O quinto do dia. Percebeu que aquilo estava virando um hbito.
     Houve um relatrio por escrito?
     Mikael, no d tanta importncia a isso.
     Quero ler esse relatrio  disse.
     Veja, Mikael, no h nada de extraordinrio. Apenas quisemos saber um pouco mais sobre voc antes de contrat-lo.
     Quero ler esse relatrio  repetiu Mikael.
     Somente Henrik pode dar a permisso.
     Ah ? Ento vou dizer de outro modo: quero esse relatrio nas minhas mos dentro de uma hora. Do contrrio, peo demisso imediatamente e pego o trem da noite 
para Estocolmo. Onde est o relatrio?
    Dirch Frode e Mikael Blomkvist mediram-se com os olhos por alguns segundos. Frode ento suspirou e baixou os olhos.
     Na minha casa, na minha mesa.
    
    
    O caso Harriet, sem dvida, era a histria mais bizarra com a qual Mikael Blomkvist j se envolvera. De modo geral, o ltimo ano, desde a publicao da histria 
de Hans-Erik Wennerstrm, no fora seno uma longa srie de montanhas-russas  com grandes quedas livres. E aparentemente no havia terminado.
    Dirch Frode ainda tentou ganhar tempo e Mikael s ps as mos no relatrio de Lisbeth Salander s seis da tarde. Um pouco mais de oitenta pginas de anlise 
e cem pginas de cpias de artigos, diplomas e outros detalhes marcantes da vida de Mikael.
    Foi uma experincia estranha ver-se descrito no que podia ser considerado uma combinao de biografia com relatrio de servio secreto. Mikael ficou pasmo de 
ver como o relatrio era detalhado. Lisbeth Salander apresentava detalhes que ele acreditava enterrados para sempre no hmus da histria. Revelava uma ligao de 
sua juventude com uma sindicalista brilhante, atualmente dedicada em tempo integral  poltica. Quem contou a ela essa histria? Mencionava seu grupo de rock Bootstrap, 
do qual certamente ningum mais devia se lembrar. Examinava com detalhes suas finanas. Mas que diabos! Como ela conseguiu?
    Como jornalista, Mikael passara anos buscando informaes com diferentes pessoas e por isso era capaz de avaliar profissionalmente a qualidade desse trabalho. 
Lisbeth Salander era, sem a menor dvida, um s da pesquisa. Ele mesmo no se achava capaz de produzir um relatrio como aquele, sobre uma pessoa totalmente desconhecida.
    Mikael concluiu que no houve razo para que ele e Erika tivessem mantido uma distncia polida na frente de Henrik Vanger; ele conhecia muito bem a relao dos 
dois e o tringulo que formavam com Lars Beckman. Lisbeth Salander tambm avaliara com espantosa exatido a situao da Millennium; Henrik Vanger sabia o quanto 
as coisas iam mal quando entrou em contato com Erika e se ofereceu como scio. Qual era exatamente o jogo dele?
    O caso Wennerstrm era abordado apenas superficialmente, mas Lisbeth Salander com certeza assistira a algumas audincias no tribunal. Ela tambm comentava a 
estranha recusa de Mikael em se pronunciar durante o processo. Uma garota esperta, seja ela quem for.
    Um segundo depois, Mikael ficou estarrecido, sem acreditar no que lia. Lisbeth Salander escrevera um breve texto sobre como vira a sequncia de acontecimentos 
depois do processo. Reproduzia quase literalmente o comunicado de imprensa que ele e Erika enviaram quando ele deixou o cargo de editor responsvel da Millennium.
    Lisbeth Salander teria usado o rascunho original dele? Ele olhou outra vez a primeira pgina do relatrio. A data era anterior ao comunicado  imprensa, trs 
dias antes de Mikael Blomkvist receber sua sentena. Impossvel.
    At ento o comunicado s existia num nico lugar do mundo: no computador de Mikael. Em seu notebook pessoal, no no computador que ele usava na redao. O texto 
nunca fora impresso. A prpria Erika Berger no tinha uma cpia dele, embora os dois tivessem discutido em linhas gerais o assunto.
    Mikael Blomkvist pousou lentamente o relatrio que Lisbeth Salander fizera sobre ele. Decidiu no fumar mais um cigarro. Em vez disso, ps um bluso e saiu na 
noite clara, uma semana antes do solstcio de vero. Seguiu pela praia ao longo do canal, passou em frente da casa de Cecilia Vanger, depois diante do luxuoso iate 
ancorado defronte  casa de Martin Vanger. Caminhava devagar e refletia. Por fim, sentou-se numa pedra e olhou as luzes das balizas piscando na baa de Hedestad. 
S havia uma concluso possvel.
    Voc entrou no meu computador, senhorita Salander, disse a si mesmo em voz alta. Voc  uma hacker fodida!
    
   18.         QUARTA-FEIRA 18 DE JUNHO
    
    
    Lisbeth Salander emergiu sobressaltada de um sono sem sonhos. Sentia uma ligeira nusea. No precisou virar a cabea para saber que Mimmi j fora trabalhar, 
mas o cheiro dela permanecia no ar confinado do quarto. Havia bebido cerveja demais na reunio de tera  noite no Moulin com as Evil Fingers. Pouco antes de o bar 
fechar, Mimmi aparecera e a acompanhara at sua casa e at sua cama.
    Ao contrrio de Mimmi, Lisbeth Salander nunca se considerou uma autntica lsbica. Nunca se preocupou em saber se era htero, homo ou talvez bissexual. De modo 
geral, dava pouca importncia a rtulos e achava que no competia a ningum saber com quem ela passava a noite. Se fosse absolutamente necessrio escolher, sua preferncia 
sexual seria os rapazes  pelo menos eles lideravam as estatsticas. O nico problema era encontrar um que no fosse um debilide e fosse bom de cama, e Mimmi representava 
uma boa soluo-tampo, capaz de mant-la acesa. Ela a conhecera um ano antes numa barraca de cerveja da festa do Orgulho Gay, e fora a nica pessoa que Lisbeth 
tinha apresentado s Evil Fingers. A relao se manteve com altos e baixos ao longo do ano, mas ainda no ia alm de um passatempo para ambas. Mimmi era um corpo 
gostoso junto ao qual Lisbeth podia se aquecer, e tambm um ser humano em cuja companhia era bom acordar de manh e fazer o desjejum.
    O relgio na mesa-de-cabeceira indicava nove e meia e ela se perguntava o que a fizera acordar, quando a campainha da porta tocou de novo. Atnita, sentou-se 
na cama. Ningum jamais tocava a sua campainha quela hora da manh. Alis, quase ningum tocava a sua campainha. Ainda sonolenta, enrolou-se no lenol e foi cambaleando 
at o vestbulo para abrir a porta. Viu-se cara a cara com Mikael Blomkvist, sentiu o pnico invadir seu corpo e sem querer deu um passo para trs.
     Bom dia, senhorita Salander  ele saudou cordialmente.  Vejo que a noite foi movimentada. Posso entrar?
    Sem esperar ser convidado, ele passou pela porta e a fechou atrs de si. Contemplou com curiosidade as roupas espalhadas no cho do vestbulo, as pilhas de jornais, 
e lanou um olhar pela porta do quarto, enquanto o mundo de Lisbeth Salander parecia oscilar  quem, o qu, como? Mikael Blomkvist divertia-se com o olhar espantado 
dela.
     Como achei que voc ainda no havia tomado o caf-da-manh, trouxe uns sanduches. Um de rosbife, um de peru com mostarda de Dijon e um vegetariano com abacate. 
No sei qual voc prefere. O de rosbife?  Ele desapareceu na cozinha e logo encontrou a cafeteira eltrica.  Onde guarda o caf?  perguntou. Salander permaneceu 
como que paralisada no vestbulo at ouvir a torneira ser aberta. Deu trs passos rpidos.
     Pare!  Percebeu que dera um grito e baixou o tom.  No pode ir entrando assim na casa das pessoas, porra! Aqui no  a sua casa. Ns nem nos conhecemos.
    Mikael Blomkvist parou de pr gua na cafeteira e virou a cabea na direo dela. Respondeu com uma voz grave.
     Negativo! Voc me conhece melhor que a maioria das pessoas. No  mesmo?
    E virou-se para continuar enchendo a cafeteira com gua. Depois comeou a abrir as portas do armrio da cozinha.
     Alis, eu sei como voc faz. Conheo os seus segredos.
    
    
    Lisbeth Salander fechou os olhos e quis que o cho se abrisse sob seus ps. Sentia-se num estado de paralisia mental. Estava com a boca seca. A situao era 
irreal e seu crebro recusava-se a funcionar. Nunca antes havia estado face a face com um de seus objetos de investigao. Ele sabe onde eu moro! Ele estava em sua 
cozinha. Impossvel! Isso no podia estar acontecendo. Ele sabe quem eu sou!
    De repente ela se deu conta de que o lenol escorregara e o apertou ainda mais em volta do corpo. Ele disse alguma coisa que ela no comeo no entendeu.
     Eu e voc precisamos conversar  ele repetiu.  Mas tenho a impresso de que primeiro voc precisa tomar um banho.
    Ela tentou se expressar de modo coerente.
     Olha aqui, se veio criar problema, no  comigo que deve falar. Fiz um trabalho. V discutir com o meu chefe.
    Ele se plantou diante dela e levantou as mos, com as palmas  vista. No estou armado. Um sinal de paz universal.
     J falei com Dragan Armanskij. Alis, ele pediu para voc ligar, mas voc no respondeu  chamada dele no celular ontem  noite.
    Ele se aproximou. Ela no se sentiu ameaada, mas recuou alguns centmetros quando ele roou em seu brao e indicou a porta do banheiro. No gostava de que a 
tocassem sem autorizao, mesmo com inteno amistosa.
     No vim criar problema  disse ele com uma voz calma.  Mas preciso muito falar com voc. Assim que tiver despertado,  claro. O caf estar pronto quando 
estiver vestida. Vamos, v tomar seu banho.
    Ela obedeceu passivamente. Lisbeth Salander nunca  passiva, pensou.
    
    
    No banheiro, ela se apoiou contra a porta e tentou juntar os pensamentos. Estava mais abalada do que achava que devia ficar. Depois, lentamente tomou conscincia 
de que sua bexiga estava a ponto de explodir e de que um banho no era apenas um bom conselho mas uma necessidade aps a noite agitada. Quanto terminou, entrou no 
quarto, vestiu uma calcinha, um jeans e uma camiseta com a inscrio Armageddon was yesterday  today we have a serious problem.
    Aps um segundo de reflexo, pegou a jaqueta de couro que deixara sobre uma cadeira. Tirou do bolso o basto eltrico, verificou se estava carregado e o colocou 
no bolso de trs do jeans. Um cheiro de caf se espalhou pelo apartamento. Ela respirou fundo e voltou para a cozinha.
     Nunca limpa a casa?  perguntou Mikael em tom brincalho.
    Ele havia posto toda a loua suja na pia, esvaziado os cinzeiros, jogado fora as caixas de leite vazias, limpado a mesa atulhada de jornais de cinco semanas, 
distribudo nela as xcaras e  viu que no tinha sido brincadeira  os sanduches prontos. Pareciam apetitosos e Lisbeth realmente tinha fome depois da noite com 
Mimmi. Est bem, veremos aonde tudo isso vai levar. Ela se instalou diante dele, com um p atrs.
     No respondeu  minha pergunta. Rosbife, peru ou vegetariano?
     Rosbife.
     Fico ento com o de peru.
    Comeram em silncio, observando-se mutuamente. Quando ela terminou o sanduche, devorou tambm a metade do vegetariano. Encontrou um mao de cigarros amarrotado 
na beirada da janela e tirou um de l.
    Ele rompeu o silncio.
     Talvez eu no seja to bom como voc em investigaes pessoais, mas noto que no  nem vegetariana nem  como pensava Dirch Frode  anorxica. Vou incluir 
esses dados no meu relatrio a seu respeito.
    Salander o encarou, mas ao ver sua expresso percebeu que ele estava brincando com ela. Parecia divertir-se tanto que ela no pde deixar de retribuir com um 
sorriso de esguelha. A situao era absurda. Ela afastou o prato. Os olhos desse cara eram amistosos. Concluiu, por fim, que no era um mau sujeito. A investigao 
que ela fizera tambm no dava a entender que fosse um cafajeste pronto para espancar suas companheiras, ou coisa do gnero. Lembrou que ela  que sabia tudo a respeito 
dele  no o contrrio. Conhecimento  poder.
    Do que est rindo?  ela perguntou.
     Desculpe.  que no imaginei que fosse ser assim. No tinha a inteno de assust-la, mas foi o que aconteceu. Precisava ter visto a sua cara quando abriu 
a porta. Impagvel. No resisti  tentao de brincar um pouco com voc.
    Silncio. Para a sua grande surpresa, Lisbeth Salander achou aceitvel, de repente, a companhia daquele intruso  ou pelo menos no desagradvel.
     Considere que me vinguei por voc ter vasculhado a minha vida  disse ele num tom alegre.  Est com medo de mim?
     No  respondeu Salander.
     Melhor. No estou aqui para lhe fazer mal nem para criar problemas.
     Se tentar me tocar, eu lhe farei muito mal. Srio.
    Mikael a observou. Ela media pouco mais de um metro e meio e parecia no ter como se defender se ele fosse um malfeitor que tivesse entrado em seu apartamento. 
Mas os olhos dela eram inexpressivos e calmos.
     No ser necessrio  ele disse por fim.  Minhas intenes so boas. Preciso falar com voc. Se quiser que eu v embora,  s dizer.  Refletiu um segundo. 
 E curioso, tenho a impresso de... no, nada  ele se interrompeu.
     Diga.
     No sei se o que vou dizer faz sentido, mas h quatro dias eu nem sabia da sua existncia. Depois li a avaliao que voc fez de mim  remexeu dentro da bolsa 
e encontrou o relatrio , o que no foi exatamente uma leitura divertida.
    Calou-se e olhou um momento pela janela.
     Ser que posso filar um cigarro seu?  Ela empurrou o mao na direo dele.
     Voc disse agora h pouco que no nos conhecamos e eu respondi que no era verdade.  Ele mostrou o relatrio.  Ainda no alcancei voc, fiz apenas algumas 
checagens de rotina para saber seu endereo, data de nascimento, estado civil et cetera. Mas voc sabe muito a meu respeito. Boa parte so coisas pessoais que s 
meus amigos ntimos conhecem. E agora eu estou aqui na sua cozinha, comendo sanduches com voc. Faz meia hora que nos conhecemos e tenho a sensao de que nos conhecemos 
h anos. Entende o que quero dizer?
    Ela assentiu com a cabea.
     Voc tem olhos lindos  ele disse.
     Voc tem olhos gentis  ela respondeu. 
    Ele no conseguiu definir se era uma ironia.
    Silncio.
     O que est fazendo aqui?  ela perguntou.
    Super-Blomkvist  o apelido lhe ocorreu e ela conteve o impulso de diz-lo em voz alta  assumiu de repente um ar srio. Ela captou cansao em seu olhar. A segurana 
que demonstrara ao entrar no apartamento dela havia desaparecido e ela concluiu que as brincadeiras tinham acabado ou pelo menos estavam suspensas. Pela primeira 
vez, sentiu que ele a examinava com intensidade e reflexo. No conseguiu imaginar o que se passava na cabea dele, mas sentiu imediatamente que a visita adquiria 
um tom mais srio.
    Lisbeth Salander tinha conscincia de que sua calma era apenas aparente. Ela no controlava de fato seus nervos. A visita inesperada de Blomkvist mexera com 
ela de um modo que nunca sentira antes em seu trabalho. Ganhava a vida espionando as pessoas. Na realidade, nunca classificara o que fazia para Dragan Armanskij 
como um trabalho de verdade, e sim como um passatempo complexo, quase um hobby.
    Fazia tempo que chegara  concluso de que na verdade gostava de fuar a vida dos outros e revelar segredos que as pessoas tentavam esconder. Agia assim  de 
uma forma ou de outra  desde que se conhecia como gente. E era o que continuava fazendo no s quando Armanskij lhe passava misses, mas s vezes apenas por prazer. 
Aquilo lhe dava uma espcie de satisfao  exatamente como num videogame complicado, com a diferena de que se tratava de pessoas reais. E eis que de repente seu 
hobby estava instalado na sua cozinha oferecendo-lhe sanduches. Uma situao absurda.
     Tenho um problema fascinante  disse Mikael.  Me diga uma coisa: quando voc fez suas investigaes sobre mim para Dirch Frode, sabia qual era a finalidade 
delas?
     No.
     O objetivo era obter informaes a meu respeito porque Frode  ou, melhor, o seu cliente  queria me contratar para um trabalho freelance.
     Entendo.
    Ele dirigiu-lhe um breve sorriso.
     Algum dia eu e voc teremos uma conversa sobre os aspectos ticos de bisbilhotar a vida dos outros. Mas por enquanto preciso resolver um problema... O trabalho 
que me passaram, e que por uma razo incompreensvel aceitei,  sem dvida a misso mais estranha que j tive. Ser que posso confiar em voc, Lisbeth?
     Como assim?
     Dragan Armanskij disse que voc  uma pessoa totalmente confivel. Mesmo assim eu pergunto: se eu te contar alguns segredos, voc promete que no os divulgar, 
no importa a quem for?
     Espere um pouco. Ento voc falou com Dragan; foi ele que te mandou aqui?
    Vou acabar com a raa daquele armnio cretino.
     No exatamente. Voc no  a nica pessoa que sabe levantar um endereo. Na verdade fiz isso sozinho. Pesquisei nos registros do cartrio. H trs pessoas 
chamadas Lisbeth Salander, e as outras duas estavam fora de cogitao. Mas ontem entrei em contato com Armanskij e tivemos uma longa conversa. No comeo, ele tambm 
pensou que eu quisesse vir aqui criar problemas por voc ter se intrometido na minha vida, mas depois acabou entendendo que o meu objetivo  bastante legtimo.
     O que voc quer dizer?
     Bem, um cliente de Dirch Frode me contratou para um trabalho e cheguei a um ponto em que preciso da ajuda de um investigador qualificado, e com urgncia. Frode 
me falou de voc e da sua competncia. Ele bateu com a lngua nos dentes e acabei sabendo que voc tinha feito uma investigao a meu respeito. Ontem falei com Armanskij 
e expliquei o que queria. Ele autorizou e tentou falar com voc por telefone, mas voc no respondeu. E assim... aqui estou eu. Pode ligar para Armanskij e confirmar 
tudo, se quiser.
    
    
    Lisbeth Salander precisou de alguns minutos para localizar seu celular debaixo das roupas que Mimmi a ajudara a tirar na noite anterior. Mikael Blomkvist contemplou 
sua busca catica com interesse, enquanto andava pelo apartamento. Todos os mveis, sem exceo, pareciam ter sido pegos na rua. Numa pequena mesa de trabalho destacava-se 
uma imponente instalao de informtica. Havia um aparelho de CD numa prateleira, mas a coleo de discos era pequena e formada por bandas das quais Mikael jamais 
ouvira falar, com artistas na capa que pareciam vampiros sados dos confins do espao. Msica, de fato, no era o forte de Lisbeth.
    Salander constatou que Armanskij a chamara pelo menos sete vezes durante a noite e duas de manh. Ela digitou o nmero dele enquanto Mikael se encostava no batente 
da porta para escutar a conversa.
     Sou eu... Desculpe, desliguei o celular... Sei que ele quer me contratar... No, est aqui em casa...  Ela levantou a voz.  Dragan, estou com a boca seca 
e com dor de cabea, por favor, fale logo; voc autorizou ou no?... Obrigada.
    Lisbeth Salander espiou Mikael Blomkvist pelo vo da porta. Ele olhava seus CDs e tirava livros das prateleiras; viu-o pegar um frasco de remdio marrom, sem 
etiqueta, e examin-lo contra a luz com curiosidade. Quando se preparava para abrir a tampa, ela estendeu a mo e tomou-lhe o frasco; depois foi para a cozinha, 
sentou-se, massageou as tmporas e esperou que Mikael voltasse a se sentar.
     As regras so simples  ela disse.  Nada do que conversar comigo ou com Dragan chegar a algum de fora. Vamos assinar um contrato no qual a Milton Security 
se compromete a manter sigilo. Quero saber em que consiste o trabalho antes de decidir se vou querer ou no trabalhar para voc. Isso significa que manterei sigilo 
sobre o que me contar, quer aceite ou no o trabalho, contanto que no se trate de uma atividade criminosa sria. Nesse caso, farei um relatrio a Dragan, que, por 
sua vez, avisar a polcia.
     Certo.  Ele hesitou.  Armanskij talvez no saiba exatamente por que quero contrat-la...
     Ele disse que voc precisa de ajuda para uma pesquisa histrica.
     Sim, isso mesmo. Mas o que eu quero que voc faa  me ajudar a descobrir um assassino.
    
    
    Mikael levou mais de uma hora contando todos os detalhes confusos do caso Harriet Vanger. No omitiu nenhum. Tinha a autorizao de Frode para contrat-la e, 
para tanto, via-se na obrigao de conquistar sua inteira confiana.
    Falou tambm do seu relacionamento com Cecilia Vanger e de como descobrira seu rosto na janela de Harriet. Deu a Lisbeth o mximo de informaes possveis sobre 
a personalidade dela. Comeava a admitir que Cecilia figurava entre os principais suspeitos. Mas estava longe de entender como Cecilia podia estar ligada a um assassino 
em atividade, numa poca em que ela ainda era jovem.
    Depois, entregou a Lisbeth Salander uma cpia da lista da agenda telefnica de Harriet.

     O que quer que eu faa?
     Identifiquei RJ, Rebecka Jacobsson, e fiz a conexo entre ela e uma citao da Bblia que fala dos sacrifcios por imolao. Ela foi morta de um modo semelhante 
ao que est descrito na citao  sua cabea foi posta sobre brasas. Se eu no estiver enganado, encontraremos outras quatro vtimas  Magda, Sara, Mari e RL.
     Acredita que foram mortas?
     Por um assassino que agia nos anos 1950, talvez 60. E que, de uma maneira ou de outra, est ligado a Harriet Vanger. Examinei nmeros antigos do Hedestads-Kuriren. 
O assassinato de Rebecka  o nico crime monstruoso que, pelo que descobri, tem a ver com Hedestad. Quero que continue pesquisando em toda a Sucia.
    Lisbeth Salander permaneceu mergulhada em pensamentos e num silncio inexpressivo to longo que Mikael comeou a se impacientar. Perguntava-se se havia escolhido 
a pessoa certa quando ela por fim ergueu os olhos.
     Est certo, aceito o trabalho. Mas primeiro assine o contrato com Armanskij.
    
    
    Dragan Armanskij imprimiu o contrato que Mikael Blomkvist ia levar a Hedestad para que Dirch Frode o assinasse. Ao voltar  saleta de trabalho de Lisbeth Salander, 
viu, atravs da divisria envidraada, que ela e Mikael Blomkvist estavam inclinados sobre o Powerbook dela. Mikael pousava a mo em seu ombro  ele a tocava  e 
lhe indicava alguma coisa. Armanskij esperou algum tempo.
    Mikael disse algo que pareceu surpreender Salander e ela riu ruidosamente.
    Armanskij nunca a ouvira rir, embora tivesse tentado ganhar sua confiana naqueles anos todos. Mikael Blomkvist a conhecia havia poucas horas e ela j ria na 
companhia dele.
    De repente detestou Mikael Blomkvist com uma intensidade que o surpreendeu. Pigarreou ao cruzar a porta e depositou sobre a mesa o envelope de plstico com o 
contrato.
    
    
    Mikael teve tempo para fazer uma rpida visita  redao da Millennium  tarde. Era a primeira vez que entrava l desde que fora limpar sua mesa antes do Natal, 
e de repente lhe pareceu estranho subir aquelas escadas to familiares. O cdigo de acesso no tinha sido alterado; entrou pela porta da redao sem ser notado e 
ficou um instante comprazendo-se em olhar tudo por ali.
    A sede da Millennium tinha a forma de um L. A entrada propriamente dita era um grande hall que ocupava uma ampla rea inutilizada. Havia ali um canap e poltronas 
para os visitantes. Atrs do canap abria-se uma copa com quitinete, sanitrios e dois cubculos onde eram guardados os arquivos. Havia tambm uma mesa para o estagirio. 
A direita da entrada, uma divisria envidraada dava para o estdio de Christer Malm, cuja empresa, com entrada separada no corredor do edifcio, ocupava uma rea 
de oitenta metros quadrados. A esquerda ficava a redao, cerca de cento e cinquenta metros quadrados com vista para a rua Gtgatan.
    Erika concebera o projeto e instalara divisrias envidraadas para criar trs ambientes individuais e uma ampla sala comum para os outros trs colaboradores. 
Ficara com a maior, no fundo da redao, e Mikael fora colocado na outra ponta. Era a nica sala que se podia ver da entrada. Ele notou que ningum havia se instalado 
ali.
    A terceira pea, um pouco afastada, era ocupada por Sonny Magnusson, de sessenta anos, o eficiente vendedor de publicidade da Millennium j h alguns anos. Erika 
descobriu Sonny quando ele se viu desempregado aps a reestruturao da empresa onde trabalhou a maior parte de sua vida. Sonny estava ento na idade em que no 
era fcil conseguir emprego. Erika o escolheu de propsito; ofereceu-lhe um pequeno salrio fixo e uma porcentagem sobre as receitas publicitrias. Sonny aceitou 
e os dois ficaram satisfeitos. Mas no ltimo ano, por melhor vendedor que fosse, as receitas tinham desabado. Os rendimentos de Sonny diminuram demais; contudo, 
em vez de tentar outra coisa, ele apertou o cinto e permaneceu fiel a seu cargo. Diferentemente de mim, que sou a causa dessa degringolada toda, pensou Mikael.
    Ele reuniu coragem e entrou por fim na redao, quase vazia naquela hora. Viu Erika em sua sala, com um telefone colado  orelha. Somente dois colaboradores 
estavam na redao. Monika Nilsson, de trinta e sete anos, experiente reprter geral, especializada em vigilncia poltica e provavelmente a pessoa mais entendida 
em cinismo que Mikael j conhecera. Trabalhava na Millennium havia nove anos e divertia-se imensamente. Henry Cortez tinha vinte e quatro anos e era o mais jovem 
colaborador da redao; dois anos antes, assim que se formou no instituto de jornalistas JMK, procurou Erika e disse que queria trabalhar na Millennium e em nenhum 
outro lugar. Erika no tinha dinheiro para contrat-lo, mas props-lhe um estgio, ofereceu-lhe uma sala num canto e depois o absorveu como freelancer fixo.
    Os dois gritaram de contentamento ao ver Mikael, que foi recebido com beijos e tapas nas costas. Logo lhe perguntaram se estava voltando ao trabalho, mas se 
decepcionaram quando ele explicou que lhe restavam mais seis meses no Norrland, e que apenas estava passando para dar um al e falar com Erika.
    Erika tambm ficou contente em v-lo, serviu caf e fechou a porta de sua sala. Comeou pedindo notcias de Henrik Vanger. Mikael no sabia muito mais do que 
Dirch Frode relatara; o estado dele era grave, mas o velho continuava vivo.
     O que voc est fazendo na cidade?
    Mikael sentiu-se subitamente embaraado. Passara na redao sem pensar muito, a Milton Security ficava a poucos passos dali. Pareceu-lhe difcil explicar a Erika 
que tinha acabado de contratar a consultora particular em segurana que invadira seu computador. Limitou-se a encolher os ombros e dizer que fora obrigado a vir 
a Estocolmo por causa de alguns assuntos ligados a Vanger e que j estava voltando para o norte. Perguntou como iam as coisas na redao.
     Junto com as boas notcias do volume de publicidade e do nmero de assinantes que no param de crescer, h uma nuvem escura se formando no horizonte.
     Quem?
     Janne Dahlman. Fui obrigada a ficar de olho nele logo depois que soltamos a notcia da entrada de Henrik Vanger na sociedade. No sei se  apenas a natureza 
dele ou se tem a ver com alguma coisa mais profunda. Ele est fazendo uma espcie de jogo.
     O que aconteceu?
     No confio mais nele. Depois que assinamos o acordo com Henrik Vanger, Christer e eu ficamos pensando se informvamos imediatamente toda a redao de que no 
corramos mais o risco de fechar no outono ou se...
     Ou se informavam apenas alguns colaboradores.
     Exatamente. Talvez eu seja paranica, mas no queria que Dahlman espalhasse a histria. Ento decidimos avisar toda a redao s no dia em que o acordo se 
tornasse pblico. Portanto, guardamos segredo por um ms.
     E?
     Bem, eram as primeiras boas notcias que a redao recebia depois de um ano. Todos festejaram, com exceo de Dahlman. Claro, no somos a maior redao do 
mundo, mas trs pessoas se alegraram, o estagirio tambm, e uma se zangou por no termos passado a informao mais cedo.
     Ele teve um pouco de razo...
     Eu sei. Mas o fato  que continuou falando disso o tempo todo e despejando mau humor pela redao. Depois de duas semanas, chamei-o  minha sala e expliquei 
que, se eu no havia informado a redao,  porque no tinha confiana nele e no estava certa de que ele guardaria segredo.
     Como ele reagiu?
     Ficou muito magoado, claro, e furioso. No recuei e dei a ele um ultimato: ou fazia um esforo para melhorar ou comeasse a procurar outro emprego.
     E ele?
     Resolveu se esforar. Mas permanece distante e h muita tenso entre ele e o resto da equipe. Christer no o suporta mais e demonstra isso claramente.
     E o que suspeita que Dahlman esteja fazendo? Erika suspirou.
     No sei. Ns o contratamos h um ano, quando j estvamos em campanha contra Wennerstrm. No posso provar absolutamente nada, mas pressinto que ele no trabalha 
para ns.
    Mikael assentiu com a cabea.
     Confie nos seus instintos.
     Talvez no passe de um pobre-coitado cheio de mau humor por no estar no seu lugar.
      possvel. Mas concordo com voc que cometemos um erro de avaliao ao contrat-lo.
    Vinte minutos depois, Mikael pegava as vias expressas do Slussen rumo ao norte, no carro que emprestara da mulher de Dirch Frode, um Volvo de dez anos que ela 
nunca utilizava e que Mikael agora podia usar quando quisesse.
    
    
    Os detalhes eram mnimos e sutis, e Mikael poderia nem t-los percebido se no estivesse atento. Uma pilha de papis um pouco mais inclinada do que antes. Um 
arquivo um pouco fora de lugar na prateleira. A gaveta da escrivaninha inteiramente fechada  Mikael lembrava-se muito bem de t-la deixado um pouco entreaberta 
na vspera, quando foi para Estocolmo.
    Ficou imvel por um momento, em dvida. Depois, uma certeza se imps: algum entrara na casa.
    Foi at o patamar de entrada e olhou ao redor. Ele trancara a porta, mas como se tratava de uma fechadura velha e bastante comum provavelmente podia ser aberta 
com uma chave de fenda, e no havia como saber se existiam cpias daquela chave. Voltou a entrar na casa e passou em revista, sistematicamente, a saleta de trabalho 
para verificar se algo desaparecera. Depois de algum tempo, concluiu que tudo parecia ainda estar ali.
    Mas o fato  que algum havia entrado, se instalado em sua saleta de trabalho e folheado seus papis e arquivos. Ele levara o computador consigo, portanto a 
pessoa no tivera acesso a ele. Duas questes se apresentavam. Quem? E ser que o visitante misterioso tinha podido concluir alguma coisa do que vira ali?
    Os arquivos eram uma parte dos que ele trouxera de volta da casa de Henrik Vanger aps sair da priso. No havia nenhum material novo. Os cadernos de anotaes 
eram indecifrveis para um no-iniciado. Mas ser que a pessoa que vasculhara sua mesa era uma no-iniciada?
    O mais preocupante era o pequeno envelope de plstico em cima da mesa, onde ele pusera a lista de nmeros da agenda telefnica de Harriet e uma cpia das citaes 
bblicas s quais eles se referiam. A pessoa que vasculhara a saleta agora sabia que ele havia decifrado o cdigo da Bblia.
    
    
    Quem?
    Henrik Vanger estava no hospital. Ele no suspeitava de Anna, a governanta. Dirch Frode? Mas Mikael j havia lhe contado todos os detalhes... Cecilia Vanger 
adiara a viagem  Flrida e voltara de Londres com a irm. Ele a vira na noite anterior, atravessando a ponte de carro. Martin Vanger? Harald Vanger? Birger Vanger 
regressara para participar de uma reunio de famlia,  qual Mikael no fora convidado, no dia seguinte ao infarto de Henrik. Alexander Vanger? Isabella Vanger? 
Ela era tudo menos simptica.
    Com quem Frode havia falado? Deixara escapar alguma coisa? Quantos, dos mais prximos, haviam percebido que Mikael descobrira algo novo nas investigaes?
    Passava de oito da noite. Ele telefonou para um serralheiro em Hedestad e pediu uma nova fechadura. O serralheiro explicou que s poderia ir na manh seguinte. 
Mikael prometeu pagar o dobro se ele fosse imediatamente, e ele concordou em passar s dez e meia para instalar uma nova fechadura na casa.
    
    
    Enquanto esperava o serralheiro, Mikael foi at a casa de Dirch Frode, por volta das oito e meia. A mulher de Frode apontou para o jardim atrs da casa e lhe 
props uma cerveja gelada, que Mikael aceitou com prazer. Ele pediu a Frode notcias de Henrik.
     Foi operado. Tem arteriosclerose nas coronrias. O mdico disse que seu estado continua crtico, mas que ainda h esperanas.
    Ficaram um instante em silncio, bebendo cerveja.
     Suponho que no conseguiu falar com ele.
     No, no est em condies de falar. E como foi l em Estocolmo?
     Lisbeth Salander aceitou. Eu trouxe o contrato de Dragan Armanskij. Precisa assin-lo e envi-lo de volta.
    Dirch Frode leu o documento.
     Ela no cobra barato  constatou.
     Henrik pode pagar.
    Frode foi buscar uma caneta e assinou.
     Ainda posso assinar este contrato por Henrik enquanto ele estiver vivo. Pode deix-lo na caixa de correspondncia do Konsum quando voltar para casa?

* * *
    A meia-noite, Mikael j estava na cama, porm no conseguia dormir. At ento, sua temporada na ilha de Hedeby limitara-se a desencavar extravagncias histricas. 
Mas quem sabe o passado no estivesse mais prximo do presente do que ele imaginava, se algum suficientemente interessado no que ele fazia foi capaz de se introduzir 
na sua saleta de trabalho?
    De repente lhe ocorreu que outras pessoas fora da ilha tambm podiam estar interessadas nas atividades dele. A sbita entrada de Henrik Vanger no conselho administrativo 
da Millennium no devia ter passado despercebida a Hans-Erik Wennerstrm. Ou esse tipo de pensamento indicava que ele estava ficando paranico?
    Mikael levantou-se, postou-se completamente nu diante da janela da cozinha e olhou pensativo para a igreja do outro lado da ponte. Acendeu um cigarro.
    No conseguia entender Lisbeth Salander. Ela tinha um comportamento estranho, fazia longas pausas no meio da conversa. Seu apartamento era um caos, com montanhas 
de jornais no vestbulo e uma cozinha que no passava por uma limpeza havia bem um ano. Roupas espalhadas pelo cho, com certeza ele a tinha encontrado depois de 
uma noite de farra. No pescoo havia vestgios de chupadas, reveladoras de grande atividade noturna. Tinha vrias tatuagens pelo corpo, piercings no rosto e provavelmente 
tambm em lugares que ele no vira. Ou seja, uma criatura especial.
    Por outro lado, Armanskij garantira que ela era indiscutivelmente a melhor investigadora de sua empresa, e a investigao que fizera sobre ele indicava com certeza 
que ela ia fundo nas coisas. Uma garota estranha.
    
    
    Lisbeth Salander estava diante do seu Powerbook refletindo sobre como reagira a Mikael Blomkvist. Em toda a sua vida adulta, jamais deixara entrar em sua casa 
algum que no tivesse sido expressamente convidado, e podia-se contar tais pessoas nos dedos de uma mo. Sem a menor cerimnia, Mikael se intrometera em sua vida 
e ela no reagira seno com uns protestos frouxos.
    E no foi tudo  ele havia mexido com ela, zombado dela.
    De hbito, esse tipo de comportamento a teria levado a mentalmente engatilhar uma arma. No entanto, no sentiu a menor ameaa, nenhuma hostilidade vinda de Mikael 
Blomkvist. Ele tinha todos os motivos para estar zangado  e at mesmo para process-la depois de ter descoberto que ela invadira seu computador. Mas no, levou 
isso tambm na brincadeira.
    Foi a parte mais delicada da conversa que tiveram. Como se Mikael propositalmente no quisesse tocar no assunto. Por fim, ela mesma no conseguiu evitar.
     Voc disse que sabe o que eu fiz.
     Voc invadiu o meu computador,  uma hacker.
     Como sabe disso?  Lisbeth tinha a certeza de que no havia deixado vestgios e de que no seria descoberta, a menos que algum muito experiente em segurana 
estivesse escaneando o disco rgido no momento em que ela o invadiu.
     Voc cometeu um erro.  Ele explicou que ela reproduzira um texto que s existia no computador dele e em nenhum outro lugar.
    Lisbeth Salander ficou em silncio por um bom tempo. Por fim, fixou nele uns olhos inexpressivos.
     Como conseguiu?  ele perguntou.
     Segredo. O que pretende fazer? Mikael encolheu os ombros.
     O que eu posso fazer? No mximo, deveria levar um papo com voc sobre tica e moral, e sobre os perigos de bisbilhotar a vida alheia.
     Que  exatamente o que voc faz como jornalista. Ele concordou com a cabea.
     Sem dvida.  justamente por isso que ns, jornalistas, temos um comit de tica nos vigiando nas questes morais. Quando escrevo um texto sobre um corrupto 
do mundo financeiro, deixo de lado, por exemplo, sua vida sexual. No escrevo que uma estelionatria  lsbica ou que sonha trepar com seu cachorro, ou coisas do 
gnero, ainda que seja verdade. Mesmo os corruptos tm direito a uma vida privada, e  muito fcil prejudicar algum atacando sua maneira de viver. Entende o que 
quero dizer?
     Sim.
     Portanto, voc atentou contra a minha integridade. Henrik Vanger no precisava saber com quem eu fao amor.  problema meu.
    Um sorriso acanhado despontou nos lbios de Lisbeth Salander.
     Acha ento que eu no devia ter falado disso?
     No que me diz respeito, no faz muito diferena. Metade da cidade sabe da minha ligao com Erika. Estou falando  do princpio.
     Talvez voc ache divertido saber que eu tambm tenho princpios que correspondem ao do seu comit de tica.  o que chamo de Princpio Salander. Na minha opinio, 
um corrupto sempre ser um corrupto e, se posso prejudic-lo desencavando sujeiras a seu respeito, ele tem o que merece. No fao seno dar-lhe o troco.
     Certo  disse Mikael Blomkvist sorrindo.  Meu raciocnio no  inteiramente diferente do seu, mas...
     A verdade  que ao fazer uma investigao levo em conta tambm o que a pessoa me inspira. No fico neutra. Se julgo que se trata de uma pessoa boa, posso ser 
discreta no meu relatrio.
      mesmo?
     No seu caso, fui discreta. Poderia ter escrito um livro sobre a sua vida sexual. Poderia ter contado a Frode que Erika Berger tem um passado no clube Xtreme 
e que flertava com o BDSM nos anos 1980, o que inevitavelmente teria criado algumas associaes de idias sobre a vida sexual de vocs.
    Mikael Blomkvist encarou o olhar de Lisbeth Salander. Depois de um momento, olhou pela janela e deu uma gargalhada.
     Realmente nada te escapa. Por que no ps isso no relatrio?
     Voc e Erika Berger so adultos e parecem gostar muito um do outro. O que fazem na cama no interessa a ningum, e tudo que eu conseguiria, ao falar dela, 
seria s prejudicar voc ou oferecer material de chantagem a algum. Sei l, no conheo Dirch Frode, e esse material poderia chegar s mos de Wennerstrm.
     E voc no quer fornecer material a Wennerstrm?
     Se eu precisasse escolher entre voc e ele, escolheria o seu lado do ringue.
     Eu e Erika temos um... nosso relacionamento ...
     Estou pouco me lixando para o relacionamento de vocs. Mas no respondeu  minha pergunta: o que pretende fazer agora que sabe que eu invadi o seu computador?
    A pausa de Mikael foi quase to longa quanto a dela.
     Lisbeth, eu no vim aqui para aborrec-la, no vou denunciar voc.
    Estou aqui para pedir sua ajuda numa investigao. Responda sim ou no. Se disser no, vou embora, procuro outra pessoa e no ter mais notcias de mim.  Ele 
refletiu um segundo e depois sorriu.  Com a condio de eu no pegar voc de novo no meu computador,  claro. Ela o olhou com uma expresso vazia.
   
19.         QUINTA-FEIRA 19 DE JUNHO 
             DOMINGO 29 DE JUNHO
    
    
    Mikael passou dois dias estudando seus documentos, enquanto aguardava notcias sobre se Henrik Vanger sobreviveria ou no. Permanecia em contato com Dirch Frode. 
Na quinta-feira  noite, Frode foi v-lo na casa dos convidados para anunciar que a crise parecia superada por enquanto.
     Ele est fraco, mas consegui falar um pouco com ele hoje. Quer te ver o mais breve possvel.
    A uma da tarde do sbado, dia do solstcio de vero, Mikael foi ao hospital de Hedestad e dirigiu-se ao setor onde Henrik Vanger estava internado. Deparou com 
Birger Vanger, muito irritado, que lhe barrou o caminho dizendo, com muita autoridade, que Henrik no estava em condies de receber visitas. Sem perder a calma, 
Mikael contemplou o conselheiro municipal.
     E estranho. Henrik Vanger me mandou um recado muito claro de que desejava me ver hoje.
     Voc no  da famlia e no tem nada o que fazer aqui.
      verdade, no fao parte da famlia. Mas vim atender um pedido expresso de Henrik, e s recebo ordens dele.
    A troca de palavras poderia ter virado uma disputa violenta se Dirch Frode no tivesse sado do quarto de Henrik justamente naquele momento.
     Ah, a est voc. Henrik acabou de perguntar onde voc estava. Frode manteve a porta aberta e Mikael entrou no quarto, passando por
    Birger Vanger.
    Henrik parecia ter envelhecido dez anos em uma semana. Suas plpebras permaneciam semicerradas, um tubo de oxignio entrava pelo nariz e seus cabelos estavam 
mais emaranhados do que nunca. Uma enfermeira deteve Mikael, pondo a mo em seu brao.
     S dois minutos. E evite emoes.  Mikael assentiu com a cabea e sentou-se numa cadeira de modo a poder ver o rosto de Henrik. Ficou surpreso por sentir-se 
to enternecido e estendeu a mo para apertar suavemente a do velho, muito frouxa. Henrik Vanger falou com voz fraca, entrecortada.
     Novidades?
    Mikael fez que sim com a cabea.
     Farei um relatrio assim que voc melhorar. Ainda no resolvi o mistrio, mas descobri novos elementos e estou seguindo algumas pistas. Dentro de uma semana 
ou duas, poderei dizer se isso nos leva a algum lugar.
    Henrik tentou balanar a cabea. Foi com um bater de plpebras que indicou haver entendido.
     Vou me ausentar por alguns dias.
    As sobrancelhas de Henrik se contraram.
     No, no estou abandonando o navio. Vou fazer uma investigao. Combinei com Dirch Frode de passar meus relatrios a ele. Est de acordo?
     Dirch ... meu mandatrio... em todos os assuntos. Mikael assentiu com a cabea.
     Mikael... se por acaso... eu vier a... quero que termine... o trabalho assim mesmo.
     Prometo que vou terminar.
     Dirch tem todas as... procuraes.
     Henrik, quero que se restabelea logo. Eu ficaria muito chateado com voc se desaparecesse agora que avancei tanto em meu trabalho.
     Dois minutos  disse a enfermeira.
     Preciso ir. Da prxima vez que eu vier, espero ter uma longa conversa com voc.
    Birger Vanger esperava Mikael quando ele saiu no corredor e o deteve pondo uma mo em seu ombro.
     No quero que perturbe Henrik outra vez. Ele est gravemente doente e no deve ser incomodado, seja qual for o motivo.
     Entendo sua preocupao. No vou mais perturb-lo.
     Todos sabem que Henrik o contratou para investigar seu pequeno hobby... Harriet. Dirch Frode me contou que Henrik ficou muito perturbado depois de uma conversa 
que vocs tiveram pouco antes do infarto. Disse que voc mesmo achou que ela pode ter deflagrado a crise.
     No penso mais assim. Henrik Vanger tem uma arteriosclerose nas coronrias. Poderia ter sofrido um infarto ao ir ao banheiro. Tenho certeza de que voc tambm 
sabe muito bem disso.
     Quero ter o direito de fiscalizar todas essas bobagens.  na minha famlia que voc est se metendo.
     Bem, como eu disse... trabalho para Henrik, no para a sua famlia.
    Birger Vanger no estava aparentemente habituado a que algum o contrariasse. Por um breve instante, encarou Mikael com um olhar destinado a lhe inspirar respeito, 
mas que lhe dava sobretudo o aspecto de um alce presunoso. Depois, girou os calcanhares e entrou no quarto de Henrik.
    Mikael conteve o riso. No era muito conveniente rir no corredor to perto do leito onde Henrik se achava enfermo, que tambm poderia vir a ser seu leito de 
morte. Mas Mikael se lembrou de repente de uma estrofe de um abecedrio rimado de Lennart Hyland, divulgado no rdio nos anos 1960, e que por uma razo incompreensvel 
ele memorizara quando estava sendo alfabetizado: Era a letra A: o Alce soberbo e solitrio insiste/ em olhar o bosque arruinado e triste.
    
    
    Na entrada do hospital, Mikael topou com Cecilia Vanger. Havia ligado para o celular dela dezena de vezes desde que ela retornara de suas frias interrompidas, 
mas no obtivera resposta. Ela tambm no estava em sua casa na ilha quando ele passou por l e bateu na porta.
     Oi, Cecilia  ele disse.  Lamento o que aconteceu com Henrik. Ela agradeceu com um gesto de cabea. Mikael tentou captar seus sentimentos, mas no percebeu 
nem calor nem frieza.
     Precisamos conversar.
     Sinto muito ter te excludo daquela forma. Entendo que esteja furioso, mas estou passando por um momento difcil.
    Mikael franziu o cenho at entender o que ela queria dizer. Ps a mo no brao de Cecilia e sorriu.
     Espere, no  isso, Cecilia. No estou nem um pouco furioso com voc. Queria muito continuar seu amigo, mas se no tem vontade de me ver... se for essa a sua 
deciso, eu respeitarei.
     Os relacionamentos nunca foram o meu forte  ela disse.
     Nem o meu. Vamos tomar um caf?
    Ele fez um sinal com a cabea em direo  cafeteria do hospital. Cecilia hesitou.
     No, hoje no. Gostaria de ver Henrik agora.
     Tudo bem, mas mesmo assim preciso falar com voc. Sobre trabalho.
     O que est querendo dizer?  Ela se ps em guarda.
     Lembra-se quando nos vimos pela primeira vez, quando voc veio me ver em janeiro? Eu disse que tudo o que falssemos seria off the record e que quando eu tivesse 
perguntas de verdade para lhe fazer, eu avisaria.  sobre Harriet.
    O rosto de Cecilia inflamou-se num furor sbito.
     Seu filho-da-puta!
     Cecilia, descobri coisas sobre as quais preciso falar com voc. Ela deu um passo para trs.
     Voc no entende que essa maldita investigao dessa maldita Harriet  s uma maneira de Henrik se ocupar? No entende que ele talvez esteja morrendo l em 
cima e que a ltima coisa que ele precisa agora  ser perturbado e que lhe dem falsas esperanas?...
    Ela se calou.
     Talvez seja um hobby para Henrik, mas o fato  que descobri novos elementos que no tinham sido descobertos em trinta e cinco anos. H questes nessa investigao 
que ficaram sem resposta, e estou trabalhando de acordo com as instrues de Henrik.
     Se Henrik morrer, esta droga de investigao vai acabar em seguida e voc ser o primeiro a cair fora  disse Cecilia, afastando-se e cruzando a porta.
    
* * *
    Tudo estava fechado, Hedestad praticamente deserta. A populao parecia ter ido ao campo para as festividades de So Joo. Mikael encontrou por fim o terrao 
do Grande Hotel e ali pediu um caf e um sanduche enquanto lia os jornais da tarde. Nada de importante acontecera no mundo.
    Deixou os jornais e refletiu sobre Cecilia Vanger. No havia contado nem a Henrik nem a Dirch Frode que suspeitava que ela tinha aberto a janela do quarto de 
Harriet. No queria transform-la em suspeita e a ltima coisa que desejava era prejudic-la. Mas cedo ou tarde seria preciso tocar nessa questo.
    Permaneceu no terrao por uma hora at decidir deixar de lado aquele problema e dedicar o Dia de So Joo a outra coisa que no  famlia Vanger. Seu celular 
permanecia silencioso. Erika viajara no fim de semana e se divertia em algum lugar com o marido, e ele no tinha com quem falar.
    Regressou  ilha por volta das quatro da tarde e tomou outra deciso  parar de fumar. Ele se exercitava com regularidade desde a poca do servio militar, ginstica 
e jogging ao longo da Sder Mlarstrand, mas parara completamente quando os problemas com Hans-Erik Wennerstrm comearam. Em Rullaker tentou desenferrujar o corpo, 
sobretudo como terapia, mas desde que deixara a priso no fizera muitos progressos. Era hora de recomear. Com determinao, vestiu um abrigo e se ps a correr 
em marcha lenta pelo caminho que conduzia  cabana de Gottfried, pegou a trilha para a Fortificao e empregou um ritmo mais forte fora da pista. No praticava corrida 
de percurso desde o servio militar, mas sempre preferira correr no bosque do que nas pistas de treinamento. Passou pela fazenda de stergarden para voltar ao povoado. 
Sentia-se exausto quando completou, bufando, os ltimos metros at a casa dos convidados.
    s seis da tarde tomou um banho. Adepto, mesmo contra a vontade, do tradicional jantar de So Joo, ps algumas batatas para cozinhar, preparou o arenque marinado 
com cebolinha e ovos duros e instalou-se numa mesa frgil, fora de casa, no lado que dava para a ponte. Serviu-se de aquavita e brindou sozinho. Depois abriu um 
romance policial intitulado O canto das sereias, de Vai McDermid.
    
    
    Por volta das sete da noite, Dirch Frode passou para v-lo e instalou-se pesadamente numa cadeira do jardim diante dele. Mikael ofereceu-lhe uma dose de aquavita.
     Voc causou muitos ressentimentos hoje  disse Frode.
     Eu percebi.
     Birger Vanger  um fanfarro.
     Eu sei.
     Mas Cecilia Vanger no , e est furiosa com voc. Mikael assentiu com a cabea.
     Ela me falou que voc precisa parar de remexer nos assuntos da famlia.
     Entendo. E o que voc respondeu?
    Dirch Frode olhou seu copo de aquavita e o esvaziou num trago.
     Respondi que Henrik deu instrues muito claras sobre o que deseja que voc faa. Enquanto ele no modificar essas instrues, voc segue o contrato que fizemos. 
Espero que faa o possvel para cumprir sua parte no contrato.
    Mikael concordou com a cabea. Olhou o cu, onde nuvens de chuva se acumulavam.
     H uma tempestade no ar  disse Frode.  Se os ventos comearem a soprar muito fortes, estarei aqui para ajud-lo.
     Obrigado.
    Ficaram um instante em silncio.
     Pode me servir mais um trago?  pediu Frode.
    
    
    Alguns minutos depois de Dirch Frode ter voltado para casa, Martin Vanger estacionou o carro em frente  casa dos convidados. Desceu e foi cumprimentar Mikael, 
que lhe desejou boa Festa de So Joo e lhe ofereceu uma bebida.
     No, obrigado. Vim  ilha s para trocar de roupa. Vou voltar agora  cidade para passar a noite com Eva.
    Mikael esperou.
     Falei com Cecilia. Ela est um pouco perturbada,  muito apegada a Henrik. Espero que a perdoe se ela disse coisas... desagradveis.
     Gosto muito de Cecilia  respondeu Mikael.
     Eu sei. Mas ela tem l seus humores. Saiba apenas que Cecilia  totalmente contra voc remexer no passado.
    Mikael suspirou. Todo mundo em Hedestad parecia saber por que Henrik o contratara.
     E voc?
    Martin afastou as mos num gesto de perplexidade.
     H dcadas Henrik est obcecado com essa histria da Harriet. No sei o que dizer... Harriet era minha irm, mas de certo modo j est distante de mim. Dirch 
Frode me disse que voc tem um contrato que somente Henrik pode romper. Considerando seu atual estado de sade, creio que isso cause mais mal do que bem.
     E voc, quer que eu continue?
     Descobriu alguma coisa?
     Desculpe, Martin, mas eu quebraria o contrato se lhe contasse alguma coisa sem a autorizao de Henrik.
     Entendo.  Ele sorriu de repente.  Henrik gosta muito de conspiraes, tem um monte de teorias a respeito, mas eu no gostaria que voc lhe desse falsas esperanas.
     Fique tranquilo. A nica coisa que apresento a ele so fatos que posso comprovar atravs de documentos.
     Bem... Alis, por falar nisso, precisamos pensar tambm no outro contrato. Como Henrik est doente e impossibilitado de cumprir suas obrigaes no conselho 
administrativo da Millennium, me ofereo para ficar no seu lugar.
    Mikael esperou.
     Precisamos convocar uma reunio para avaliar a situao.
      uma boa idia, mas, pelo que entendi, a prxima reunio j foi marcada para agosto.
     Sim, mas talvez possamos antecip-la. Mikael sorriu polidamente.
     Sem dvida. Mas est falando com a pessoa errada. Por enquanto no fao parte do conselho administrativo da Millennium. Deixei a revista em dezembro e nada 
posso dizer sobre as decises tomadas pelo conselho. Sugiro que converse com Erika Berger sobre isso.
    Martin Vanger no esperava essa resposta. Refletiu um momento antes de se levantar.
     Tem razo, claro. Vou telefonar para ela.  Deu um tapinha no ombro de Mikael para se despedir e foi se encaminhando para o carro.
    Mikael olhou para ele pensativamente. Nada de preciso fora dito, mas pairava no ar uma clara ameaa. Martin Vanger havia colocado a Millennium na balana. Um 
instante depois, Mikael serviu-se de uma nova dose de aquavita e voltou  sua leitura de Vai McDermid.
    Por volta das nove da noite, o gato ruivo chegou e se esfregou em suas pernas. Ele o acariciou atrs das orelhas.
      isso a, meu velho. Vamos nos aborrecer juntos na noite de So Joo  disse.
    Quando caram as primeiras gotas de chuva, entrou para se deitar. O gato preferiu ficar l fora.
    
    
    Lisbeth Salander passou o Dia de So Joo fazendo uma boa reviso na sua Kawasaki. Uma moto de 125 cilindradas no era a mquina ideal, mas ela sabia conduzi-la 
e a reformara, pea por pea, inclusive ajustando-a para poder correr um pouco acima da velocidade autorizada.
     tarde, ps o capacete e a jaqueta de couro e foi at a casa de sade de ppelviken, onde passou algumas horas com sua me no jardim. Saiu de l com uma ponta 
de preocupao e com maus pressentimentos. A me parecia mais ausente do que nunca. Durante as trs horas em que ficaram juntas, s trocaram umas poucas palavras, 
e sua me nem parecia saber com quem falava.
    
    
    Mikael passou dias tentando identificar o carro com placa AC. Embora tenha ficado um pouco perdido no incio, acabou encontrando um mecnico aposentado em Hedestad 
que identificou o veculo como um Ford Anglia, modelo aparentemente comum, do qual, porm, Mikael nunca tinha ouvido falar. Depois entrou em contato com um funcionrio 
do Departamento de Trnsito, para ver se era possvel conseguir uma relao de todos os Ford Anglia de 1966 com placa iniciada por AC3 alguma coisa. Estava tentando 
seguir outras pistas, quando veio a resposta de que um exame de registros at era possvel, s que demoraria algum tempo por ser algo muito diferente do que se podia 
considerar como informao de interesse pblico.
    Vrios dias depois do fim de semana de So Joo, Mikael sentou-se ao volante do Volvo emprestado e pegou a rodovia E4 rumo ao norte. Dirigia sem pressa, como 
sempre. Pouco antes da ponte de Hrnsand, parou para tomar um caf na confeitaria de Vesterlund.
    A parada seguinte foi Umea, onde pediu o prato do dia num hotel. Comprou um mapa rodovirio e prosseguiu at Skelleftea, entrando depois  esquerda em direo 
a Norsj. Chegou por volta das seis da tarde e hospedou-se no hotel Norsj.
    Comeou suas pesquisas logo cedo na manh seguinte. No existia nenhuma Marcenaria de Norsj no anurio da cidade. A recepcionista desse pequeno hotel nos confins 
do norte, uma jovem de uns vinte anos, nunca ouvira falar dessa marcenaria.
     Quem poderia me informar?
    Por um instante ela pareceu um pouco confusa, mas em seguida disse que ia telefonar para o pai. Dois minutos depois, voltou e explicou que a Marcenaria de Norsj 
fechara no comeo dos anos 1980. Se Mikael quisesse conversar com algum que sabia um pouco mais sobre a empresa, devia procurar um tal de Hartman que trabalhara 
ali como contramestre e agora morava no bairro dos Girassis.
    
    
    Norsj era um vilarejo nascido ao longo de uma rua que, muito apropriadamente, fora batizada de Rua Principal; os estabelecimentos comerciais atravessavam a 
localidade de ponta a ponta, enquanto as moradias ficavam nas ruas transversais. Na entrada do vilarejo havia uma pequena zona industrial e estrebarias; na sada, 
a oeste, erguia-se uma bela igreja de madeira. Mikael notou que a aldeia abrigava tambm uma congregao de missionrios e uma de pentecostais. Um cartaz fixado 
num painel do ponto de nibus falava de um Museu da Caa e de um Museu do Esqui. Outro anunciava que Veronika cantaria na Festa de So Joo. Ele percorreu o vilarejo 
de ponta a ponta, a p, em pouco mais de vinte minutos.
    O bairro dos Girassis era um condomnio residencial situado a uns cinco minutos do hotel. Hartman no estava em casa. Eram nove e meia da manh e ele sups 
que o homem estivesse trabalhando ou sara para fazer compras.
    A etapa seguinte foi o armazm da Rua Principal. Quem mora em Norsj deve passar, uma hora ou outra, no armazm, pensou Mikael. Havia dois vendedores; Mikael 
escolheu o mais velho, de uns cinquenta anos.
     Bom dia, estou procurando um casal que deve ter morado aqui em Norsj nos anos 1960. O homem parece que trabalhava na marcenaria. No sei como se chamavam, 
mas tenho aqui duas fotos deles, de 1966.
    O vendedor olhou demoradamente as fotos, mas disse que no conhecia nem o homem nem a mulher.
    Na hora do almoo, Mikael pediu um cachorro-quente no quiosque ao lado do ponto de nibus. Depois das lojas, passou pela prefeitura, pela biblioteca, pela farmcia. 
No havia ningum na delegacia e ele comeou a conversar ao acaso com pessoas mais velhas. Por volta das duas da tarde, abordou duas mulheres mais jovens que, mesmo 
no reconhecendo o casal da foto, lhe deram uma boa idia.
     Se a foto foi tirada em 1966, essas pessoas devem ter hoje uns sessenta anos. Por que no vai at a Casa da Terceira Idade em Solbacka?
    Mikael foi at l e apresentou-se a uma mulher de uns trinta anos, explicando o que queria. Ela o olhou desconfiada, mas acabou cedendo. Acompanhou Mikael  
sala de convivncia, onde ele passou meia hora mostrando as fotos a um grande nmero de pensionistas de setenta anos ou mais. Apesar da amabilidade deles, ningum 
identificou as pessoas fotografadas em Hedestad em 1966.
    Por volta das cinco, retornou ao bairro dos Girassis e dessa vez encontrou Hartman em casa. Ele e a mulher, ambos aposentados, haviam passado o dia fora. Fizeram-no 
entrar na cozinha, onde a mulher imediatamente foi preparar um caf enquanto Mikael explicava o que procurava. Como nas outras tentativas do dia, no teve sorte. 
Hartman coou a cabea, acendeu o cachimbo e depois de um momento admitiu que no reconhecia as pessoas da foto. Marido e mulher falavam num dialeto local que Mikael 
s vezes tinha dificuldade em compreender. A mulher certamente quis dizer "cabelos encaracolados" quando comentou que a moa da foto tinha "knvelhra".
     Mas o senhor no se enganou,  um adesivo da marcenaria  disse o marido.  Soube reconhec-lo muito bem. O problema  que distribuamos esses adesivos a torto 
e a direito. Aos motoristas, aos clientes que compravam ou forneciam madeira, aos tcnicos das mquinas e a muitas outras pessoas.
     Ento vai ser mais difcil encontr-los do que eu imaginava.
     Por que precisa encontr-los?
    Mikael havia decidido dizer a verdade se as pessoas perguntassem. Qualquer histria que ele tentasse inventar sobre o casal da foto soaria de todo modo inverossmil 
e s criaria confuso.
      uma longa histria. Estou investigando um crime ocorrido em He-destad em 1966, e acho que h uma possibilidade, embora pequena, de que as pessoas dessa foto 
tenham visto o que aconteceu. Elas no so suspeitas de absolutamente nada e acredito que talvez nem saibam que possuem informaes que poderiam solucionar esse 
crime.
     Um crime? Que tipo de crime?
     Sinto muito, mas no posso dizer mais nada. Sei que deve parecer misterioso algum vir aqui procurar essas pessoas quarenta anos depois, mas o crime nunca 
foi solucionado e s h pouco tempo alguns novos elementos vieram  tona.
     Entendo. Sim, de fato  uma pesquisa estranha essa que est fazendo.
     Quantas pessoas trabalhavam na marcenaria?
     A equipe completa tinha quarenta pessoas. Trabalhei ali desde os dezessete anos, em meados dos anos 1950, at a empresa fechar as portas. Depois virei motorista 
de caminho.
    Hartman refletiu por um momento.
     Posso garantir que o rapaz da foto nunca trabalhou na marcenaria. A menos que fosse um motorista, mas acho que mesmo assim eu o teria reconhecido. Quem sabe 
no era pai desse moo da foto ou algum da famlia que trabalhava na fbrica? Talvez o carro no fosse dele.
    Mikael assentiu com a cabea.
     E verdade, as possibilidades so muitas. O senhor sabe de algum com quem eu possa falar?
     Sim  disse Hartman, levantando o indicador.  Passe aqui amanh de manh, e daremos uma volta para conversar com os velhos.
    
    
    Lisbeth Salander estava diante de um problema metodolgico. Ela era uma especialista na arte de obter informaes sobre qualquer pessoa, mas sempre dispunha, 
como ponto de partida, do nome e do nmero de identidade de um indivduo ainda vivo. Se a pessoa figurasse num banco de dados, o que inevitavelmente acontecia com 
todo mundo, poderia ser localizada bem rpido em sua teia de aranha. Se possusse um computador conectado  internet, e-mail e at mesmo um site, o que era o caso 
de quase todos que se encaixavam em seu tipo de pesquisa, ela podia penetrar em seus segredos mais ntimos.
    O trabalho que aceitara fazer para Mikael Blomkvist era completamente diferente. Desta vez a tarefa consistia em identificar quatro nmeros pessoais a partir 
de dados extremamente vagos. Alm disso, essas pessoas tinham vivido vrias dezenas de anos atrs, o que talvez eliminasse a possibilidade de constarem num banco 
de dados.
    A tese de Mikael, baseada no caso Rebecka Jacobsson, era que essas pessoas haviam sido assassinadas. Portanto, deveriam estar em inquritos policiais no resolvidos. 
Ela no dispunha de nenhuma pista sobre a data e o lugar onde esses crimes teriam sido cometidos, exceto que ocorreram, sem dvida, antes de 1966. Do ponto de vista 
da pesquisa, uma situao inteiramente nova.
    Bem, o que  que eu fao ento?
    Ligou o computador e entrou no Google com as palavras-chave Magda + crime. Era a forma de pesquisa mais simples que podia fazer. Para sua grande surpresa, uma 
porta abriu-se imediatamente em suas investigaes. A primeira ocorrncia era a programao da TV-Vrmland em Karlstad, que indicava um episdio da srie Crimes 
no Vrmland levada ao ar em 1999. Depois, ela encontrou um breve artigo no Vrmlands Folkblad.
    
Um novo episdio da srie Crimes no Vrmland focaliza o caso Magda Lovisa Sjberg, de Ranmotrsk, um crime misterioso e abominvel que mobilizou a polcia de Karlstad 
dezenas de anos atrs. Em abril de 1960, a proprietria rural Lovisa Sjberg, de quarenta e seis anos, foi encontrada no estbulo de seu stio, assassinada de maneira 
brutal. O reprter Claes Gunnars reconstitui seus ltimos momentos e a busca infrutfera do criminoso. Esse crime provocou muita comoo na poca e inmeras teorias 
sobre o culpado. No programa, um parente mais jovem, suspeito do crime, conta o quanto sua vida foi destruda por essa acusao. 20 horas.
    
    Lisbeth encontrou informaes mais consistentes no artigo "O caso Lovisa abalou toda uma regio", publicado na revista Vrmlandskultur, cujo texto aparecia na 
net reproduzido na ntegra. Num tom persuasivo e envolvente, contava como o marido de Lovisa, o lenhador Holger Sjberg, encontrara a mulher morta ao voltar do trabalho, 
s cinco da tarde. Ela fora violentada, apunhalada e por fim morta com um forcado. O crime ocorrera no estbulo da famlia, mas o que causara mais comoo  que 
o assassino, depois de cometer o crime, a pusera de joelhos numa baia de cavalo.
    Mais tarde, descobriu-se que um dos animais do stio, uma vaca, recebera uma facada no pescoo.
    De incio suspeitaram do marido, mas ele apresentou um libi slido. Estava com os colegas de trabalho desde as seis da manh numa rea de corte a quarenta quilmetros 
do stio. Lovisa Sjberg ainda estava viva s dez da manh, quando uma vizinha passou para v-la. Ningum viu nem ouviu nada; o stio mais prximo ficava a cerca 
de quatrocentos metros.
    Depois de abandonar o marido como principal suspeito, o inqurito policial voltou-se para um sobrinho da mulher assassinada, um jovem de vinte e trs anos. Ele 
j tivera vrios problemas com a Justia, estava seriamente endividado e quase sempre pedia dinheiro emprestado  tia. Seu libi era bem mais frgil. Ele foi detido 
para investigaes e depois solto por falta de provas. Mesmo assim, muitos habitantes da aldeia o consideravam o mais provvel culpado.
    A polcia tambm seguiu outras pistas. Grande parte das investigaes girou em torno de um misterioso caixeiro-viajante visto na regio; circulava ainda um boato 
sobre um grupo de supostos ciganos que teriam praticado uma srie de roubos. Nada se falava, porm, sobre a razo que os teria levado a cometer um assassinato brutal 
de carter sexual, sem que nada tivesse sido roubado.
    Por um momento, o interesse se voltou para um vizinho da aldeia, um homem solteiro que na juventude fora suspeito de um crime homossexual  isso numa poca em 
que a homossexualidade ainda era crime  e que, segundo vrias declaraes, tinha a reputao de ser "estranho". Mas tampouco ficou esclarecido por que um eventual 
homossexual cometeria um crime sexual contra uma mulher. Nenhuma dessas ou outras pistas jamais levou a uma deteno ou condenao.
    Lisbeth Salander achou que a ligao com a lista da agenda telefnica de Harriet era evidente. A citao do Levtico XX, 16 dizia: "Se uma mulher se aproximar 
de um animal para se prostituir com ele, ser morta juntamente com o animal. Sero mortos e levaro a sua iniquidade." Impossvel atribuir ao acaso o assassinato 
de uma camponesa de prenome Magda, proprietria de um estbulo, e seu corpo ter sido colocado numa baia de cavalo.
    Mas por que Harriet Vanger anotara o prenome Magda, e no Lovisa, como a vtima era mais conhecida? Se o nome completo dela no estivesse na programao de tev, 
Lisbeth nada teria percebido.
    E permanecia, claro, a questo fundamental: havia uma ligao entre o assassinato de Rebecka em 1949, o de Magda Lovisa em 1960 e o desaparecimento de Harriet 
Vanger em 1966? Em caso afirmativo, como Harriet Vanger soube disso?
    
    
    No sbado, Hartman acompanhou Mikael em um passeio sem muitas expectativas at Norsj. De manh, visitaram cinco ex-funcionrios da marcenaria que moravam suficientemente 
perto um do outro para que pudessem ir a p. Trs moravam no centro e dois em Srbyn, na periferia do vilarejo. Todos ofereceram caf. Todos examinaram as fotos 
e sacudiram negativamente a cabea.
    Aps um almoo trivial na casa dos Hartman, saram de carro para mais uma volta. Foram a quatro aldeias nos arredores de Norsj onde moravam outros ex-funcionrios 
da marcenaria. A cada parada, Hartman era calorosamente recebido, mas ningum foi capaz de ajud-los. Mikael comeava a se desesperar e a achar que a viagem a Norsj 
no serviria para nada.
    Por volta das quatro da tarde, Hartman estacionou o carro em frente a uma casa pintada de vermelho, tpica do Vsterbotten, em Norsjvallen, ao norte de Norsj, 
e apresentou Mikael a Henning Forsman, marceneiro aposentado.
     Sim,  o filho de Assar Brnnlund  disse Henning Forsman assim que Mikael mostrou a fotografia.
    Bingo!
     E onde posso encontr-lo?
     Esse rapaz? Bem, vai ter que cavar. Chamava-se Gunnar, morreu numa exploso em meados dos anos 1970.
    Droga!
     Mas a mulher dele ainda est viva.  essa da foto. Chama-se Mildred e mora em Bjursele.
     Bjursele?
     Fica a uns dez quilmetros logo que se pega a estrada de Bastutrsk. Mora numa casinha vermelha  direita, na entrada na aldeia. A terceira casa. Conheo bem 
a famlia.
    
    
    "Bom dia, meu nome  Lisbeth Salander. Estou fazendo uma tese de criminologia sobre a violncia contra as mulheres no sculo XX e gostaria de saber se  possvel 
passar no distrito policial de Landskrona para examinar documentos sobre um caso de 1957. Trata-se do assassinato de uma mulher de quarenta e cinco anos chamada 
Rakel Lunde. Por acaso sabe onde esses documentos podem estar hoje?"
    
    
    Bjursele parecia uma publicidade viva da vida rural do Vsterbotten. A aldeia era composta de umas vinte casas, relativamente prximas, que formavam um semicrculo 
na extremidade de um lago. No meio da aldeia havia um cruzamento com uma placa indicando Hemmingen, 11 km, e outra apontando para Bastutrsk, 17 km. Ao lado do cruzamento, 
uma pequena ponte cruzava um riacho que Mikael sups ser o sele de Bjursele. Nessa poca, em pleno vero, era to bonito como um carto-postal.
    Mikael estacionou no ptio de um supermercado Konsum definitivamente fechado, do outro lado da estrada, a pouca distncia da terceira casa  direita. Quando 
bateu  porta, ningum atendeu.
    Andou durante uma hora pela estrada de Hemmingen. Passou num lugar onde o riacho se transformava numa torrente impetuosa, viu dois gatos e uma cabra antes de 
retornar, mas nenhum ser humano. A porta de Mildred Brannlund continuava fechada.
    Num poste junto  ponte, um pequeno cartaz convidava para assistir ao BTCC, o Bjursele Tukting Car Championship 2002. Mikael olhou pensativamente para o cartaz. 
Tukt a car parecia ser uma distrao de inverno que consistia em conduzir um veculo sobre o lago gelado at arrebent-lo.
    Esperou at as dez da noite antes de desistir e retornar a Norsj, onde jantou tarde e recolheu-se para terminar de ler o policial de Vai McDermid.
    Um final abominvel.

* * *
    s dez da noite, Lisbeth Salander acrescentou outro nome  lista de Harriet Vanger. Fez isso com muita hesitao, depois de refletir por horas.
    Ela descobrira um atalho. Regularmente eram publicados artigos sobre crimes no solucionados, e no suplemento de um jornal vespertino topou com um artigo de 
1999 intitulado "Matadores de mulheres continuam em liberdade". O artigo era conciso, mas trazia os nomes e as fotos de vrias vtimas que fizeram correr muita tinta. 
O caso Solveig em Norrtlje, o assassinato de Anita em Norrkping, o de Margareta em Helsingborg e uma srie de outros mistrios.
    Os casos mais antigos datavam dos anos 1960 e nenhum dos crimes figurava na lista que Mikael passara a Lisbeth. No entanto, um deles chamou sua ateno.
    Em junho de 1962, uma prostituta de trinta e dois anos, Lea Persson, de Gteborg, foi a Uddevalla para visitar sua me e seu filho de nove anos de quem a me 
tinha a guarda. Alguns dias depois, Lea abraou a me, despediu-se e partiu para pegar o trem de volta a Gteborg. Foi encontrada dois dias depois atrs de um continer 
abandonado num terreno baldio industrial. Fora violentada e seu corpo sofrera sevcias particularmente brutais.
    O assassinato de Lea foi objeto de vrias matrias folhetinescas na imprensa, mas o culpado jamais foi identificado. O nome Lea no estava na lista de Harriet 
Vanger e nenhuma das citaes bblicas correspondia a esse crime.
    Contudo, um detalhe muito bizarro levantou as antenas de Lisbeth Salander. A cerca de dez metros do local onde o corpo de Lea foi encontrado, descobriram um 
vaso de flores com um pombo dentro. Algum pusera um cordo em volta do pescoo do pombo e o puxara pelo buraco no fundo do vaso. Depois, o vaso foi colocado sobre 
um pequeno fogo entre dois tijolos. Nada provava que essa crueldade com o animal tivesse relao com o assassinato de Lea; talvez apenas crianas se divertindo dessa 
maneira ignbil. Na imprensa, porm, o caso ficou conhecido como "O crime do pombo".
    Lisbeth Salander no lia a Bblia  nem mesmo possua uma , mas no fim da tarde foi at a igreja de Hgalid e, depois de insistir um pouco, emprestaram-lhe 
uma Bblia. Ela se instalou num banco no adro da igreja e leu o Levtico. Ao chegar ao captulo XII, versculo 8, levantou as sobrancelhas. O captulo XII falava 
da purificao da mulher que deu  luz:
    
"Se as suas posses no lhe permitirem trazer um cordeiro, ela tomar duas rolas ou dois pombinhos, um para o holocausto e outro para o sacrifcio pelo pecado. O 
sacerdote far por ela a expiao e ela ser purificada."
    
    Lea poderia perfeitamente ter figurado na lista de Harriet Vanger como Lea 31208.
    De repente Lisbeth Salander percebeu que as investigaes que fizera at ento no possuam, nem de longe, as dimenses de sua atual misso.
    Mildred Brnnlund, que voltara a se casar e agora tinha o nome Berggren, atendeu Mikael Blomkvist quando ele bateu  sua porta s dez horas da manh do domingo. 
Com quarenta anos a mais, a mulher parecia ter engordado tambm uns quarenta quilos. Mas Mikael a reconheceu de imediato.
     Bom dia, meu nome  Mikael Blomkvist.  Mildred Berggren, imagino.
     Sim, sou eu.
     Desculpe incomod-la, mas h algum tempo venho tentando encontr-la por causa de um assunto bastante difcil de explicar.  Mikael sorriu.  Ser que posso 
entrar e tomar um pouquinho do seu tempo?
    Como o marido de Mildred e seu filho de trinta e cinco anos estavam em casa, sem muita hesitao ela convidou Mikael a entrar e a se sentar na cozinha. Mikael 
bebera mais caf do que nunca nos ltimos dias, mas sabia que uma recusa, no Norrrland, seria uma descortesia. Quando as xcaras foram postas na mesa, Mildred sentou-se 
e perguntou, muito curiosa, o que podia fazer por ele. Como Mikael no compreendia bem seu dialeto de Norsj, ela passou a falar no sueco de Estocolmo.
    Mikael respirou fundo.
     E uma longa e estranha histria. Em setembro de 1966, a senhora estava em Hedestad com seu marido, na poca Gunnar Brnnlund.
    Ela parecia estupefata. Ele esperou at que ela assentisse com a cabea e depois colocou na mesa a foto tirada na rua da Estao.
     E ento tiraram essa foto. Lembra-se da ocasio?
     Santo Deus  disse Mildred Berggren.  Faz uma eternidade. O segundo marido e o filho olharam a foto por cima de seu ombro.
     Era uma viagem de npcias. Fomos a Estocolmo e a Sigtuna de carro, estvamos voltando e simplesmente paramos em qualquer lugar. O senhor disse Hedestad?
     Sim, Hedestad. Essa foto foi tirada por volta da uma da tarde. J h algum tempo venho tentando identificar a senhora. No foi nada fcil.
     Descobriu uma velha foto minha e me encontrou. Nem consigo imaginar como fez isso.
    Mikael mostrou-lhe a foto do estacionamento.
     Foi graas a esta outra foto, tirada um pouco mais tarde no mesmo dia, que pude seguir sua pista.  Mikael explicou como, atravs da Marcenaria de Norsj, 
encontrara Hartman, que, por sua vez, o levou a Henning Forsman em Norjsvallen.
     Suponho que tenha uma boa razo para estar fazendo essa estranha pesquisa.
     De fato. A jovem na foto diante da senhora chamava-se Harriet. Ela desapareceu nesse dia e muitos acham que foi morta. Por favor, deixe que eu lhe mostre.
    Mikael pegou seu notebook e, enquanto o computador iniciava, foi explicando todo o contexto da histria. Depois passou a sequncia que mostrava a mudana de 
expresso do rosto de Harriet.
     Foi ao examinar essas fotos antigas que eu a vi. A senhora est bem atrs de Harriet, tem na mo uma mquina fotogrfica e parece estar fotografando justamente 
o que ela est vendo e que provocou essa reao nela. Sei que  uma aposta insensata. Mas a razo que me levou a procur-la  que talvez a senhora ainda conserve 
as fotos desse dia.
    Mikael esperava que Mildred Berggren abanasse as mos dizendo que no sabia o que fora feito das fotos, que as jogara fora ou que o filme nunca fora revelado. 
Em vez disso, ela fitou Mikael com seus olhos azul-claros e anunciou, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que ainda guardava todas as fotos de suas viagens.
    Foi at outro cmodo e voltou depois de um minuto ou dois com uma caixa contendo lbuns onde havia um grande nmero de fotos. No demorou muito para encontrar 
as da viagem a Hedestad. Ela tirara trs fotos na cidade. Uma estava desfocada e mostrava a rua principal. Na outra estava seu ex-marido. Na terceira, viam-se os 
palhaos no desfile.
    Mikael se aproximou, muito excitado. Viu uma pessoa do outro lado da rua. A foto no lhe dizia absolutamente nada.
    
   20.         TERA-FEIRA 1 DE JULHO 
             QUARTA-FEIRA 2 DE JULHO
    
    
    A primeira coisa que Mikael fez de manh assim que chegou a Hedestad foi procurar Dirch Frode para ter notcias de Henrik Vanger. O estado de sade do velho 
havia melhorado consideravelmente durante a semana. Ainda estava fraco e frgil, mas j podia se sentar na cama. Seu estado no era mais considerado crtico.
     Graas a Deus!  disse Mikael.  Descobri que gosto muito dele.
     Eu sei. Henrik tambm gosta de voc  respondeu Frode balanando a cabea.  E a viagem ao Grande Norte, como foi?
     Bem-sucedida e insatisfatria. Mais tarde eu conto. Agora tenho uma pergunta a lhe fazer.
     Diga.
     O que acontecer  Millennium se Henrik falecer?
     Nada de especial. Martin assumir o lugar dele no conselho administrativo.
     H um risco, mesmo hipottico, de que Martin crie problemas para a Millennium se eu no parar de investigar o desaparecimento de Harriet Vanger?
    Dirch Frode lanou um olhar inquiridor a Mikael.
     O que aconteceu?
     Para dizer a verdade, nada.  Mikael relatou a conversa que teve com Martin na noite de So Joo.  Quando voltei de Norsj, Erika me telefonou para dizer 
que Martin entrou em contato com ela e lhe pediu que insistisse comigo que eles esto precisando de mim na redao.
     Entendo. Suponho que Cecilia foi importun-lo. Mas no acredito que Martin faria barganhas. Ele  muito honesto para isso. E lembre-se que eu tambm participo 
do conselho administrativo da pequena sociedade paralela que criamos no momento que entramos na Millennium.
     Mas, caso a situao se complique, qual seria a posio dele?
     Contratos so feitos para ser respeitados. Trabalho para Henrik. Ele e eu somos amigos h quarenta e cinco anos e atuamos mais ou menos da mesma forma nesse 
tipo de contexto. Se Henrik morrer, serei eu, e no Martin, o sucessor dele na sociedade paralela. O contrato estipula claramente que nos comprometemos a gerar recursos 
para a Millennium durante quatro anos. Se Martin quiser criar obstculos  o que no acredito , poder, teoricamente, barrar a entrada de alguns novos anunciantes.
     O que  a base da existncia da Millennium.
     Sim, mas considere as coisas deste modo: entregar-se a tais baixezas toma tempo. Martin est lutando por sua prpria sobrevivncia industrial e trabalha catorze 
horas por dia. No tem tempo de se dedicar a outras coisas.
    Mikael ficou em silncio, pensativo.
     Se me permite uma pergunta: sei que isto no me diz respeito, mas qual  a situao geral do grupo?
    Dirch Frode assumiu um ar mais grave.
     Estamos com problemas.
     Certo, mesmo um simples jornalista econmico como eu percebeu isso. Mas at que ponto so problemas srios?
     Promete que fica entre ns?
     Com certeza.
     Nas ltimas semanas perdemos dois grandes pedidos na indstria eletrnica e estamos sendo ejetados do mercado russo. Em setembro, seremos obrigados a demitir 
mil e seiscentos funcionrios em rebro e em Trollhttan. Uma triste recompensa para pessoas que trabalham h tantos anos no grupo. Sempre que fechamos uma fbrica, 
a confiana no grupo fica abalada.
     Martin est sob presso?
      um boi de carga pisando em ovos.
    
    
    Mikael voltou para casa e ligou para Erika. Ela no estava na redao e ele discutiu o assunto com Christer Malm.
     E o seguinte: Erika me telefonou ontem quando voltei de Norsj. Martin Vanger conversou com ela e a estimulou, por assim dizer, a propor que eu voltasse a 
trabalhar na redao.
      o que eu tambm acho  disse Christer.
     Entendo. Mas o fato  que tenho um contrato com Henrik Vanger que no posso romper e Martin age a pedido de uma pessoa que deseja que eu pare de investigar 
e desaparea da aldeia. A proposta dele, portanto, no passa de uma tentativa de me afastar daqui.
     Entendo.
     Diga a Erika que s voltarei para Estocolmo quando eu tiver terminado tudo, no antes.
     Est bem, transmitirei seu recado. Mas voc  completamente louco.
     Christer, est acontecendo algo aqui, e eu no tenho a menor inteno de recuar.
    Christer deu um forte suspiro.
    
    
    Mikael foi procurar Martin Vanger. Eva Hassel abriu a porta e o saudou amigavelmente.
     Bom dia. Martin est?
    Em resposta  pergunta, Martin apareceu com sua pasta de executivo na mo. Beijou o rosto de Eva e cumprimentou Mikael.
     Estou indo para o escritrio. Quer falar comigo?
     Posso esperar, se est com pressa.
     Vamos, fale.
     No tenho a inteno de voltar para a redao da Millennium antes de terminar o trabalho que Henrik me confiou. Aviso desde j, para que no conte comigo no 
conselho administrativo antes do fim do ano.
    Martin Vanger balanou-se nos calcanhares para a frente e para trs.
     Entendo. Acha que estou querendo me livrar de voc.  Fez uma pausa.  Mikael, falaremos disso mais tarde. No tenho realmente tempo para me dedicar a uma 
atividade no conselho administrativo da revista e preferia no ter aceitado a proposta de Henrik. Mas, acredite, farei o melhor que puder para que a Millennium sobreviva.
     Nunca duvidei disso  respondeu Mikael polidamente.
     Faremos uma reunio na semana que vem para avaliar toda a situao financeira e depois eu lhe darei uma opinio a esse respeito. Mas acredito sinceramente 
que a Millennium no pode se dar ao luxo de ter um de seus principais representantes ocioso aqui em Hedebyn. Gosto da revista e estou certo de que poderemos recuper-la, 
mas voc  indispensvel para esse trabalho. Quanto a mim, vejo-me pressionado por um conflito de interesses: seguir a vontade de Henrik ou cumprir meu trabalho 
no conselho administrativo da Millennium.
    
    
    Mikael vestiu uma roupa esportiva e saiu para praticar jogging at a Fortificao. Depois passou pela cabana de Gottfried antes de voltar, num ritmo mais lento, 
beirando a praia. Dirch Frode estava sentado  mesa do jardim. Ele esperou pacientemente que Mikael esvaziasse uma garrafa de gua e enxugasse o rosto.
     Tem certeza de que  bom para a sade com esse calor?
     Ora, vamos!  respondeu Mikael.
     Eu me enganei. No  Cecilia quem est importunando Martin.  Isabella que est mobilizando todo o cl Vanger para arrancar as suas penas e, se possvel, assar 
voc na panela. Ela  apoiada por Birger.
     Isabella?
      uma mulher maldosa e mesquinha que, de modo geral, no gosta de ningum. Neste momento, o dio dela se dirige a voc em particular. Espalhou boatos de que 
voc  um vigarista que convenceu Henrik a contrat-lo e que o excitou a ponto de causar-lhe um infarto.
     E algum acreditou nisso?
     H sempre gente pronta a acreditar nas ms-lnguas.
     Estou tentando descobrir o que aconteceu com a filha dela e ela me odeia. Se fosse a minha filha, acho que eu reagiria de outro modo.
    
* * *
    Por volta das duas da tarde, o celular de Mikael tocou.
     Bom dia, meu nome  Cony Torsson, trabalho no Hedestads-Kuriren. Teria um tempinho para responder a algumas perguntas? Obtivemos informaes confidenciais 
de que est morando aqui na aldeia.
     Nesse caso as informaes demoraram um pouco a chegar. Estou morando aqui desde 1 de janeiro.
     Eu no sabia. E o que faz em Hedeby?
     Estou escrevendo. E tendo uma espcie de ano sabtico.
     Est escrevendo sobre o qu?
     Saber quando for publicado.
     Voc acaba de sair da priso...
     E...?
     Qual  a sua opinio sobre jornalistas que falsificam dados?
     Jornalistas que falsificam dados so imbecis.
     Est querendo dizer que  um imbecil?
     Por que eu diria isso? Nunca falsifiquei dados.
     Mas foi condenado por difamao.
     E...?
    O reprter Conny Torsson hesitou tanto tempo que Mikael foi obrigado a explicar.
     Fui condenado por difamao, no por ter falsificado dados.
     Mas publicou esses dados.
     Se telefonou para falar da minha condenao, no tenho nenhum comentrio a fazer.
     Gostaria de entrevist-lo.
     Sinto muito, nada tenho a dizer sobre esse assunto.
     Ento no quer conversar sobre o processo?
     Isso mesmo  respondeu Mikael, pondo fim  conversa. Ele refletiu um bom tempo antes de voltar ao computador.
    
    
    Lisbeth Salander seguiu as instrues que lhe deram e cruzou a ponte na sua Kawasaki. Parou diante da primeira casa  esquerda. Era um lugar distante, mas estaria 
disposta a ir ao Plo Norte se estivesse sendo paga para isso. Alm do mais, fora bom correr a toda a velocidade pela rodovia E4. Estacionou a moto e desatou a correia 
que prendia sua sacola de viagem.
    Mikael Blomkvist abriu a porta e acenou com a mo. Saiu e inspecionou a moto com um assombro sincero.
     Uau! Voc veio de moto!
    Lisbeth Salander no disse nada, mas observou-o atentamente tocar o volante e experimentar o acelerador. Ela no gostava que mexessem nas suas coisas, mas viu 
o sorriso dele, um sorriso de garoto, e considerou aquilo como uma circunstncia atenuante. Em geral, as pessoas interessadas por motocicletas sentiam desprezo pela 
sua moto de baixa cilindrada.
     Quando eu tinha dezenove anos, tive uma moto  disse Mikael virando-se para ela.  Obrigado por ter vindo. Entre. Vou mostrar a casa.
    Mikael pedira emprestada uma cama de armar a Nilsson, do outro lado da estrada, e a instalara na saleta de trabalho. Desconfiada, Lisbeth Salander deu uma volta 
pela casa, mas relaxou aps constatar que no havia nenhuma armadilha. Mikael indicou o banheiro.
     No quer tomar um banho e se refrescar?
     Preciso me trocar. No pretendo ficar com este macaco de couro.
     V, enquanto isso eu vou fazendo o jantar.
    Mikael preparou costeletas de cordeiro ao molho de vinho tinto e ps a mesa fora, enquanto Lisbeth tomava um banho e trocava de roupa. Saiu de ps descalos, 
vestindo uma regata preta e uma saia jeans curta. O cheiro da comida era bom e ela devorou duas pores. Mikael observou discretamente sua tatuagem nas costas.
    
    
    Cinco mais trs  disse Lisbeth Salander.  Cinco casos da lista da sua Harriet e mais trs que, na minha opinio, tambm deveriam figurar.
     Me conte tudo.
     Faz apenas onze dias que trabalho nisso e no tive tempo de ver todos os inquritos policiais. Alguns foram transferidos para os arquivos nacionais, outros 
ainda esto no distrito responsvel pelo caso. Em um dia visitei trs distritos diferentes, no deu tempo de fazer mais. Mas os cinco esto identificados.
    Lisbeth Salander ps uma pilha impressionante de papis sobre a mesa, mais de quinhentas folhas de papel ofcio. Rapidamente distribuiu o material em diferentes 
partes.
     Vamos ver por ordem cronolgica.  Ela entregou uma lista a Mikael.
    
1949  Rebecka Jacobsson, Hedestad (30112)
1954  Mari Holmberg, Kalmar (32018)
1957  Rakel Lunde, Landskrona (32027)
1960  (Magda) Lovisa Sjberg, Karlstad (32016)
1960  Liv Gustavsson, Estocolmo (32016)
1962  Lea Persson, Uddevalla (31208)
1964  Sara Witt, Ronneby (32109)
1966  Lena Andersson, Uppsala (30112)
    
     O primeiro caso dessa srie parece ser Rebecka Jacobsson, 1949, do qual voc j conhece os detalhes. O caso seguinte que encontrei  Mari Holmberg, uma prostituta 
de trinta e dois anos de Kalmar, morta em sua casa em outubro de 1954. No se sabe exatamente quando ela foi assassinada, pois s foi encontrada algum tempo depois, 
provavelmente nove ou dez dias.
     E como voc fez a ligao entre ela e a lista de Harriet?
     Ela tinha as mos e os ps amarrados e o corpo coberto de ferimentos terrveis, mas a causa da morte foi asfixia. O assassino enfiou um guardanapo na garganta 
dela.
    Mikael ficou em silncio antes de abrir a Bblia no local indicado, captulo XX do Levtico, versculo 18.
    "Se um homem dormir com uma mulher durante o tempo de sua menstruao e vir a sua nudez, descobrindo o seu fluxo e descobrindo-o ela mesma, sero ambos cortados 
do meio de seu povo."
    Lisbeth concordou com a cabea.
     Harriet Vanger fez a mesma ligao. Bem, vamos ao prximo.
     Maio de 1957, Rakel Lunde, quarenta e cinco anos. Era dona de casa e considerada uma espcie de excntrica da regio. Via a sorte das pessoas consultando as 
cartas, lendo a mo e coisas do gnero. Rakel morava numa casa bem isolada na periferia de Landskrona, onde foi morta ao amanhecer. Encontraram-na nua e amarrada 
a um varal de roupa no ptio, com a boca tapada por uma fita adesiva. Causa da morte: foi agredida com uma pedra pesada vrias vezes. Apresentava vrias contuses 
e fraturas.
     Que horror, Lisbeth! Tudo isso  monstruoso.
     E  s o comeo. As iniciais RL coincidem  achou a citao?
      evidente. "Qualquer homem ou mulher que evocar os espritos ou fizer adivinhaes, ser morto. Sero apedrejados e levaro a sua culpa."
     A seguir vem Lovisa Sjberg em Ranmo, perto de Karlstad.  a que Harriet se refere como Magda. Seu nome completo era Magda Lovisa, mas todos a chamavam de 
Lovisa.
    Mikael escutou com ateno Lisbeth relatar os detalhes bizarros do assassinato de Karlstad. Quando ela acendeu um cigarro, ele a interrogou com o olhar, mostrando 
o mao. Ela o empurrou para ele.
     Ento o assassino tambm atacou o animal?
     A Bblia diz que, se uma mulher se acasala com um animal, os dois sero mortos.
     Mas  pouco provvel que essa mulher tenha se acasalado com uma vaca!
     A citao pode ser interpretada em sentido amplo. Basta que ela tenha entrado em contato com um animal, o que uma proprietria rural certamente precisa fazer 
todos os dias.
     Certo. Continue.
     O prximo caso da lista de Harriet  Sara. Identifiquei-a como Sara Witt, trinta e sete anos, residente em Ronneby. Foi morta em janeiro de 1964. Encontraram-na 
amarrada  cama. Sofreu graves sevcias sexuais, mas a causa da morte foi asfixia. Morreu estrangulada. O assassino tambm provocou um incndio criminoso. A inteno 
era que a casa toda queimasse, s que uma parte do fogo s extinguiu sozinha e outra parte foi controlada pelos bombeiros.
     E a ligao?
     Escute mais um pouco. Sara Witt era filha de pastor e mulher de pastor. O marido estava fora justamente naquele fim de semana.
     "Se a filha de um sacerdote se desonrar pela prostituio, ela desonra o pai; ser queimada no fogo." De fato, confere com a lista. Voc disse que descobriu 
outros casos.
     Descobri outras trs mulheres mortas em circunstncias to estranhas que poderiam ter figurado na lista de Harriet. O primeiro caso  o de uma jovem chamada 
Liv Gustavsson. Ela tinha vinte e dois anos e morava em Farsta.
    Era apaixonada por equitao; participava de competies e era muito bem-dotada. Tinha tambm uma pequena pet shop com a irm.
     E?
     Foi encontrada na loja, onde ficara sozinha at mais tarde fazendo a contabilidade. Deve ter deixado o assassino entrar voluntariamente. Foi estuprada e estrangulada.
     Isso no parece ter muito a ver com a lista de Harriet.
     No, se no fosse por uma coisa. O assassino encerrou seu trabalho enfiando um periquito na vagina dela e soltando todos os animais que havia na loja. Gatos, 
tartarugas, hamsters, coelhos, aves. At os peixes do aqurio. Imagine o espetculo terrvel que a irm presenciou na manh seguinte.
    Mikael assentiu com a cabea.
     Ela foi morta em agosto de 1960, quatro meses depois do assassinato de Magda Lovisa em Karlstad. Nos dois casos, trata-se de mulheres cuja profisso as punham 
em contato com animais, e em ambos houve sacrifcio de animais. A vaca em Karlstad sobreviveu,  verdade, mas imagino que seja bem difcil matar uma vaca com uma 
simples facada. Matar um periquito  mais fcil. Sem contar que h um outro sacrifcio de animal na lista.
     Qual?
     Lisbeth contou do estranho "Crime do pombo" de Lea Persson em Uddevalla. Mikael ficou refletindo tanto tempo em silncio que Lisbeth se impacientou.
     Certo, concordo com a sua teoria  ele acabou por dizer.  H mais um caso.
     Um dos que descobri. No sei quantos outros me escaparam.
     Me conte.
     Fevereiro de 1966, em Uppsala. A vtima, a mais jovem de todas, foi uma colegial de dezessete anos chamada Lena Andersson. Desapareceu aps uma festa da sua 
turma e foi encontrada trs dias depois numa vala da plancie de Uppsala, bastante longe da cidade. Foi morta em outro lugar e levada para l.
    Mikael assentiu com a cabea.
     Esse assassinato deu o que falar, mas as circunstncias exatas sobre a morte nunca foram divulgadas. A moa foi torturada de maneira atroz. Li o relatrio 
do legista. Foi torturada com fogo; as mos e os seios estavam gravemente queimados e o corpo apresentava queimaduras em diversos pontos. Foram encontradas manchas 
de estearina, sugerindo que uma vela deve ter sido utilizada, mas as mos estavam to carbonizadas que certamente foram postas num fogo mais intenso. Para terminar, 
o assassino serrou a cabea e a deixou ao lado do corpo. Mikael empalideceu.
     Meu Deus!  disse.
     No encontrei nenhuma citao bblica que encaixe, mas h vrias passagens que falam de imolao e de sacrifcio pelo pecado, e em alguns trechos se preconiza 
que o animal de sacrifcio, geralmente um touro, seja decepado de modo que a cabea se separe da gordura. A utilizao do fogo lembra tambm o primeiro assassinato, 
o de Rebecka aqui em Hedestad.
    
    
    Quando os mosquitos comearam sua dana noturna, Mikael e Lisbeth deixaram a mesa de jardim e se instalaram na cozinha para continuar a conversa.
     O fato de voc no ter encontrado uma citao bblica exata no quer dizer grande coisa. No se trata de citaes, mas de uma pardia grotesca do que diz a 
Bblia; so mais associaes com versculos esparsos.
     Eu sei. Um exemplo dessa falta de lgica  a citao de que os dois devem ser exterminados se um homem faz amor com uma mulher menstruada. Se interpretarmos 
literalmente, o assassino deveria ter se suicidado.
     E tudo isso nos leva a qu?  perguntou Mikael.
     Ou a sua Harriet tinha o estranho hobby de colecionar citaes bblicas para associ-las a vtimas de crimes dos quais ouviu falar, ou ela sabia da existncia 
de uma ligao entre os crimes.
     Entre 1949 e 1966, talvez antes e depois tambm, teria existido um louco furioso e sdico que andou com uma Bblia debaixo do brao matando mulheres durante 
dezessete anos sem que ningum tivesse feito uma ligao entre os crimes. Parece inacreditvel.
    Lisbeth Salander afastou a cadeira e foi buscar caf no fogo. Acendeu um cigarro e soprou a fumaa ao redor. Mikael praguejou por dentro e lhe pediu mais um 
cigarro.
     No, no  nada inacreditvel. Primeiro  disse ela erguendo o polegar , h dezenas e dezenas de assassinatos de mulheres no solucionados na Sucia do sculo 
XX. Certa vez ouvi Persson, o professor de criminologia, dizer na tev que os assassinos seriais so muito raros na Sucia, embora alguns jamais tenham sido identificados.
    Mikael assentiu com a cabea. Ela levantou um segundo dedo.
     Esses crimes foram cometidos num perodo muito longo e em diferentes regies do pas. Dois ocorreram sucessivamente em 1960, mas em circunstncias relativamente 
diferentes  uma camponesa em Karlstad e uma moa de vinte e dois anos apaixonada por equitao em Estocolmo.
    Trs dedos.
     No h um esquema claro, marcante. Os crimes foram cometidos de formas diferentes e no h uma verdadeira assinatura, apesar de alguns elementos retornarem 
toda vez. Animais. Fogo. Violncias sexuais graves. E, como voc disse, uma pardia de conhecimentos bblicos. Mas, pelo que se sabe, nenhum dos investigadores da 
polcia usou a Bblia para interpretar os crimes.
    Mikael concordou com a cabea e a examinou discretamente. Com seu corpo frgil, sua regata preta, as tatuagens e os piercings no rosto, Lisbeth Salander era 
de fato uma figura estranha na casa dos convidados em Hedeby. Quando ele tentara ser socivel durante o jantar, ela permaneceu taciturna e mal respondeu. Mas trabalhando 
era uma profissional dos ps  cabea. Seu apartamento em Estocolmo parecia uma runa aps um bombardeio, porm Mikael foi obrigado a reconhecer que Lisbeth Salander 
tinha a cabea muito bem organizada. Que estranho!
      difcil ver a relao entre uma prostituta de Uddevalla assassinada atrs de um container num terreno baldio industrial e a mulher do pastor de Ronneby estrangulada 
e vtima de um incndio criminoso. A menos que encontremos a chave que Harriet nos deixou,  claro.
     O que nos leva  prxima questo  disse Lisbeth.
     Como Harriet foi se envolver com toda essa merda? Ela, uma menina de dezesseis anos que vivia num meio bastante protegido.
     S h uma resposta  disse ela. Mikael assentiu com a cabea outra vez.
     Existe, necessariamente, uma ligao com a famlia Vanger.
    Por volta das onze da noite, eles haviam repassado a srie de crimes e discutido relaes e detalhes curiosos, a ponto de os pensamentos girarem sem parar na 
cabea de Mikael. Ele esfregou os olhos, se espreguiou e perguntou se Lisbeth no tinha vontade de dar uma caminhada. Ela pareceu achar esse tipo de exerccio uma 
perda de tempo, mas, depois de refletir um instante, concordou. Mikael sugeriu que ela vestisse uma cala comprida por causa dos mosquitos.
    Deram uma volta pelo porto de recreio, passaram junto  ponte e seguiram em direo ao promontrio onde Martin Vanger morava. Mikael apontou as casas e contou 
quem eram seus moradores. Teve dificuldade de falar sobre Cecilia Vanger quando mostrou sua casa. Lisbeth olhou para ele discretamente.
    Passaram em frente ao luxuoso iate de Martin Vanger e chegaram ao promontrio, onde se sentaram numa pedra e dividiram um cigarro.
     H um outro tipo de ligao entre as vtimas  disse Mikael de repente.  Talvez j tenha lhe ocorrido isso.
     O qu?
     Os prenomes.
    Lisbeth Salander refletiu por um instante e depois balanou negativamente a cabea.
     Todas tm prenomes bblicos.
     No, no  verdade  respondeu Lisbeth vivamente.  No h nem Liv nem Lena na Bblia.
     Pois eu digo que sim  replicou Mikael.  Liv significa "viver", que  o sentido bblico do prenome Eva. E, pense um pouco, Lisbeth: Lena  uma reduo de 
qu?
    Lisbeth Salander contraiu os olhos com fora, irritada consigo mesma. Mikael raciocinara mais rpido que ela, e ela no gostava disso.
     De Magdalena, assim como Magda. Ou seja, Madalena  ela disse.
     A pecadora, a primeira mulher, a Virgem Maria... eis todas elas reunidas.  uma histria bem maluca, capaz de fundir a cabea de qualquer psiclogo. Mas, na 
verdade, ainda estou pensando em outra coisa sobre os prenomes.
    Lisbeth aguardou pacientemente.
     So tambm prenomes femininos judaicos tradicionais. A famlia Vanger teve um bom contingente de doidos anti-semitas, nazistas e tericos da conspirao. Harald 
Vanger, no topo da lista, tem mais de noventa anos e estava no auge de sua forma nos anos 1960. A nica vez em que o encontrei, disse com desprezo que sua filha 
era uma puta. Ele claramente tem problemas com as mulheres.
    
    
    De volta  casa, eles prepararam sanduches e esquentaram o caf. Mikael lanou um olhar s quinhentas pginas que a investigadora favorita de Dragan Armanskij 
havia produzido.
     Fez um trabalho de pesquisa fantstico num tempo recorde. Obrigado. E obrigado tambm pela gentileza de vir at aqui me trazer o relatrio.
     E o que faremos agora?  perguntou Lisbeth.
     Falarei com Dirch Frode amanh de manh para que paguem voc.
     No foi isso que eu quis dizer. Mikael olhou para ela.
     Bem... o trabalho de pesquisa para o qual eu a contratei terminou  ele disse com prudncia.
     Ainda no acabei de resolver essa histria.
    Mikael inclinou-se para trs no banco da cozinha e sondou os olhos dela. No conseguiu detectar absolutamente nada. Durante seis meses havia trabalhado sozinho 
no desaparecimento de Harriet e de repente outra pessoa  uma investigadora habilidosa  captava todas as implicaes do caso. Ele tomou uma sbita deciso.
     Entendo. Essa histria tambm est mexendo com os meus nervos. Falarei com Dirch Frode amanh. Contrataremos voc por mais uma semana ou duas como... humm... 
assistente de pesquisa. No sei se ele est disposto a pagar o mesmo que paga a Armanskij, mas daremos um jeito de conseguir uma remunerao satisfatria.
    Lisbeth agradeceu com um breve sorriso. Ela no tinha a menor vontade de ficar inativa e teria aceitado de bom grado o trabalho de graa.
     Vou dormir  ela anunciou. E, sem dizer mais nada, foi para o quarto e fechou a porta.
    Dez minutos depois, abriu a porta e ps a cabea para fora.
     Acho que voc est enganado. Ele no  um assassino serial, um doente que leu a Bblia demais.  simplesmente um canalha ordinrio que odeia as mulheres.
    
   21.         QUINTA-FEIRA 3 DE JULHO  
         QUINTA-FEIRA 10 DE JULHO
    
    
    Lisbeth Salander acordou antes de Mikael, s seis da manh. Ps a gua do caf para esquentar e tomou um banho. Quando Mikael acordou por volta das sete e meia, 
encontrou-a lendo seu resumo do caso Harriet Vanger no notebook. Foi at a cozinha, com uma toalha de banho em volta da cintura, e esfregou os olhos para espantar 
o sono.
     O caf est pronto  disse Lisbeth. Mikael olhou por cima do ombro dela.
     Esse documento estava protegido por uma senha de acesso  disse. Ela virou a cabea e olhou para ele.
     Em trinta segundos pode-se baixar um programa na internet que abre as senhas do Word  ela disse.
     Ns dois precisamos ter uma conversinha sobre o que lhe pertence e o que me pertence  disse Mikael, e foi tomar seu banho.
    Quando voltou, Lisbeth j havia fechado e recolocado o computador de Mikael na saleta de trabalho, e trabalhava no seu prprio Powerbook. Ele podia jurar que 
ela j havia transferido todo o contedo do seu computador para o dela.
    Lisbeth Salander era uma junkie da informtica com uma concepo muito liberal a respeito de moral e tica.

* * *
    Mikael tinha acabado de se sentar  mesa para tomar o caf-da-manh, quando bateram  porta. Ao abrir, deu com um Martin Vanger to crispado que, por um instante, 
acreditou que ele vinha anunciar a morte de Henrik.
     No, o estado de Henrik continua o mesmo. Venho por outro motivo. Ser que posso entrar um momento?
    Mikael o fez entrar e o apresentou  sua "colaboradora" Lisbeth Salander. Ela o cumprimentou com um breve aceno de cabea antes de voltar ao computador. Martin 
Vanger respondeu com uma saudao automtica, mas dava a impresso de estar to distrado que nem pareceu not-la. Mikael serviu-lhe uma xcara de caf e o convidou 
a se sentar.
     O que aconteceu?
     Voc  assinante do Hedestads-Kuriren?
     No. Leio o jornal de vez em quando no Caf Susanne.
     Ento no leu a edio de hoje?
     Pelo jeito, acho que eu deveria ter lido.
    Martin Vanger ps o Hedestads-Kuriren em cima da mesa, na frente de Mikael. Havia duas colunas dedicadas a ele na primeira pgina, com uma continuao na pgina 
4. Ele leu a manchete.

JORNALISTA CONDENADO POR DIFAMAO SE ESCONDE ENTRE NS
    
    O texto era ilustrado por uma foto de Mikael saindo de casa, tirada da igreja, do outro lado da ponte, com teleobjetiva.
    O reprter Conny Torsson traava um perfil grosseiro e devastador de Mikael. O artigo recapitulava o caso Wennerstrm, sublinhava que Mikael deixara a Millennium 
com o rabo entre as pernas e que acabava de amargar uma pena de priso. O texto terminava informando, segundo a frmula-padro, que Mikael se recusara a conceder 
uma entrevista ao Hedestads-Kuriren. A idia da matria era fazer o habitante de Hedestad acreditar que um vagabundo da capital, um indivduo perigoso, se encontrava 
nas imediaes. Nenhuma das afirmaes era abertamente caluniosa, mas todas procuravam jogar uma luz suspeita sobre Mikael; a foto e o texto adotavam a linha "descrio 
de terroristas polticos". A Millennium era apresentada como uma "revista de agitadores" pouco digna de crdito, e o livro de Mikael sobre jornalismo econmico como 
um amontoado de afirmaes destinadas a denegrir jornalistas respeitados.
     Mikael... no tenho palavras para dizer o que senti quando li esse artigo.  ignbil.
      cobra mandada  respondeu Mikael calmamente. Ele perscrutou Martin Vanger com o olhar.
     Espero que no pense que eu tenho algo a ver com isso. Mal consegui engolir meu caf hoje de manh, ao ler o jornal.
     Quem teria sido?
     Dei alguns telefonemas agora h pouco. Conny Torsson est cobrindo frias de vero. Mas ele fez esse trabalho a pedido de Birger.
     No sabia que Birger tinha influncia na redao. Pensei que fosse apenas conselheiro municipal e poltico.
     Formalmente no tem influncia alguma. Mas o redator-chefe do Kuriren  Gunnar Karlman, filho de Ingrid Vanger, do ramo Johan Vanger. Birger e Gunnar so amigos 
ntimos h muitos anos.
     Entendo.
     Torsson ser despedido imediatamente.
     Que idade ele tem?
     No sei. Para dizer a verdade, nunca o vi.
     No o demita. Quando ele me telefonou, parecia bastante jovem e um reprter pouco experiente.
     Mas isso no pode ficar assim.
     Se quer saber minha opinio, acho um pouco absurdo o redator-chefe de um jornal que pertence  famlia Vanger atacar outro peridico que tem Henrik Vanger 
como scio e de cujo conselho administrativo voc participa. O redator-chefe Karlman est atacando Henrik e voc.
    Martin Vanger pesou as palavras de Mikael e assentiu lentamente com a cabea.
     Entendo o que quer dizer. Eu deveria apurar melhor as responsabilidades. Karlman tem participaes no grupo e sempre tentou me atacar pelas costas, mas isso 
est me parecendo mais uma vingana do Birger por voc ter batido boca com ele no corredor do hospital. Para ele, voc  uma pedra no sapato.
     Sim, e  por isso que acho Torsson o mais inocente de todos.  muito raro um jovem jornalista substituto dizer no quando o redator-chefe lhe ordena que escreva 
desse ou daquele modo.
     Posso exigir que lhe apresentem desculpas pblicas nas pginas de amanh.
     No faa isso. O nico resultado seria uma luta interminvel, o que s pioraria a situao.
     Est querendo me dizer que no devo fazer nada?
     Sim, ser melhor. Karlman inventar histrias, e voc corre o risco de ser classificado como um proprietrio com vontade de influenciar de maneira ilcita 
a opinio do pblico.
     Desculpe, Mikael, mas no concordo com voc. Tambm tenho o direito de emitir minha opinio. Acho esse artigo imundo e tenho a inteno de deixar bem claro 
o que penso. Afinal, sou o suplente de Henrik na direo da Millennium e no posso me calar diante dessas insinuaes.
     Tudo bem.
     Vou exigir direito de resposta. E, se eu fizer Karlman parecer um idiota, a culpa  dele.
     Certo, aja de acordo com as suas convices.
     Para mim tambm  importante que voc saiba que eu nada tive a ver com esse ataque infame.
     Acredito em voc  disse Mikael.
     Alm do mais, no vou discutir o assunto agora, mas isso remete  nossa conversa de antes. E importante que voc volte  redao da Millennium para que possamos 
montar uma frente unida. Enquanto estiver ausente, os boatos vo continuar. Acredito na Millennium e estou convencido de que podemos vencer essa batalha juntos.
     Entendo seu ponto de vista, mas agora  a minha vez de discordar. No posso romper meu contrato com Henrik e na verdade tambm no desejo romp-lo. Gosto dele, 
voc sabe. E essa histria da Harriet...
     Sim?
     Sei que  uma histria penosa para voc e sei que Henrik est obcecado h anos por ela.
     C entre ns, gosto de Henrik e ele  o meu mentor, mas, no que diz respeito a Harriet, essa obsesso virou uma ocupao de aposentado.
     Quando comecei esse trabalho, achei que seria uma perda de tempo. Mas o fato  que, contra todas as expectativas, encontramos novidades. Acho que estamos perto 
de uma descoberta e que talvez seja possvel explicar o que aconteceu.
     No quer me dizer o que foi que descobriu?
     De acordo com o contrato, no posso falar disso com ningum sem o consentimento de Henrik.
    Martin Vanger ps a mo no queixo. Mikael viu dvida nos olhos dele, mas por fim Martin se decidiu.
     Certo, nesse caso o melhor a fazer  resolver primeiro o mistrio de Harriet. Darei todo o apoio que puder para que voc termine o trabalho de forma satisfatria, 
o mais rpido possvel, e em seguida retorne  Millennium.
     Que bom. No tenho vontade de ser obrigado a lutar contra voc tambm.
     No ser necessrio. Tem meu inteiro apoio. Pode me procurar quando quiser, se tiver problemas. Pressionarei Birger para que no crie mais obstculos. E tentarei 
acalmar Cecilia.
     Obrigado. Preciso fazer umas perguntas a ela, mas h um ms vem evitando minhas tentativas de conversa.
    Martin Vanger sorriu.
     Talvez tenha outras coisas a acertar com ela. Mas no  da minha conta.
    Despediram-se com um aperto de mo.
    
    
    Lisbeth Salander havia escutado em silncio a conversa entre Mikael e Martin Vanger. Assim que o industrial foi embora, ela pegou o Hedestads-Kuriren e leu o 
artigo. A seguir, largou o jornal sem fazer nenhum comentrio.
    Mikael no disse nada. Ele refletia. Gunnar Karlman nascera em 1942, portanto tinha vinte e quatro anos em 1966. Tambm era uma das pessoas presentes na ilha 
quando Harriet desapareceu.
    
    
    Depois do caf-da-manh, Mikael incumbiu sua colaboradora de ler o inqurito policial. Fez uma triagem do material e lhe passou os arquivos que enfocavam o desaparecimento 
de Harriet. Passou-lhe tambm todas as fotos do acidente na ponte, bem como a longa sntese que escreveu com base nas investigaes particulares de Henrik.
    Depois Mikael foi  casa de Dirch Frode e o convenceu a redigir um contrato determinando a contratao de Lisbeth como colaboradora por um ms.
    Ao voltar  casa dos convidados, encontrou Lisbeth no jardim, mergulhada no inqurito policial. Mikael entrou para esquentar o caf e a espiou pela janela da 
cozinha. Ela parecia percorrer o inqurito superficialmente, no dedicando mais que dez ou quinze segundos a cada pgina. Folheava o documento de maneira automtica. 
Mikael achou estranha essa negligncia, ainda mais considerando a aplicao com que realizara sua prpria investigao. Levou duas xcaras de caf ao jardim e juntou-se 
a ela.
     O que voc escreveu sobre o desaparecimento de Harriet foi escrito antes de perceber que estamos atrs de um assassino serial.
     Exato. Anotei o que me pareceu importante, perguntas que gostaria de fazer a Henrik Vanger et cetera. Como voc deve ter percebido, est bem mal estruturado. 
Na verdade, at agora andei tateando no escuro, e ao mesmo tempo tentando escrever uma histria, um captulo da biografia de Henrik Vanger.
     E agora?
     No comeo, todas as investigaes estavam centradas em Hedebyn. Agora estou convencido de que a histria comeou mais cedo no mesmo dia, no na ilha, mas 
em Hedestad. Isso muda a perspectiva.
    Lisbeth assentiu com a cabea e refletiu por um momento.
      fantstico o que descobriu com as fotos  ela disse.
    Mikael levantou as sobrancelhas. Lisbeth Salander no parecia ser do tipo prdigo em elogios e Mikael sentiu-se estranhamente lisonjeado. Mas, do ponto de vista 
jornalstico, tratava-se mesmo de uma proeza bastante in-comum.
     Preciso de mais alguns detalhes. Conte o que descobriu sobre a fotografia que foi buscar em Norsj.
     Est me dizendo que no viu essa foto no meu computador?
     No tive tempo. Preferi me concentrar nos resumos, nas concluses que tirou.
    Mikael suspirou, abriu seu notebook e depois a pasta de fotos.
     A viagem a Norsj foi ao mesmo tempo um avano e uma decepo total. Encontrei a foto, mas ela no revela grande coisa. A tal Mildred Berggren conservou todas 
as suas fotos de viagem num lbum, e ali colou com cuidado toda a coleo. A foto que eu procurava estava l, tirada com um filme colorido barato. Depois de trinta 
e sete anos, a cpia est bastante apagada e amarelada, mas Mildred tambm conservou os negativos numa caixa de sapatos. Ela me emprestou os de Hedestad e eu os 
escaneei. Aqui est o que Harriet viu.
    Ele clicou num arquivo chamado harriet/bd-19.eps.
    Lisbeth entendeu a decepo dele. Era uma foto em plano geral, bastante mal enquadrada, mostrando os palhaos no desfile da Festa das Crianas. Ao fundo via-se 
o canto da loja Sundstrm. Umas dez pessoas apareciam na calada em frente  loja.
    Mikael apontou com o dedo.
     Acho que foi este o sujeito que ela viu. Primeiro, porque tentei calcular o que ela via baseando-me no rosto dela e na direo para a qual ele estava voltado; 
fiz um desenho exato do local. Depois, porque ele  a nica pessoa que parece olhar diretamente para a mquina fotogrfica, ou seja, para Harriet.
    Lisbeth viu uma figura imprecisa um pouco recuada atrs dos espectadores, na rua transversal. Vestia uma jaqueta escura com um tom diferente nos ombros, vermelho, 
e uma cala escura, provavelmente um jeans. Mikael ampliou a imagem para que a figura ocupasse toda a tela a partir da cintura. A imagem ficou ainda mais imprecisa.
      um homem. Mede cerca de um metro e oitenta, corpulncia normal. Cabelos castanho-claros, no muito curtos, sem barba. Mas  impossvel distinguir as feies 
ou mesmo calcular a idade. Pode ser tanto um adolescente quanto um quinquagenrio.
     Podemos retocar a foto...
     J retoquei. Inclusive enviei uma cpia a Christer Malm da Millennium, que  um craque em tratamento de imagens.  Mikael clicou em outra foto.  O que vemos 
aqui  o que se pode obter de melhor. O problema  que a mquina fotogrfica  muito ruim e a distncia muito grande.
     Mostrou essa foto a algum? As pessoas podem reconhecer a atitude...
     Mostrei a Dirch Frode. Ele no tem a menor idia de quem possa ser.
     Dirch Frode no  o cara mais esperto de Hedestad.
     Mas  para ele e para Henrik que eu trabalho. Quero mostrar a foto a Henrik antes de faz-la circular.
     Talvez seja apenas um simples espectador.
      possvel. Mas nesse caso ele soube provocar uma reao bem estranha em Harriet.
    
    
    Na semana seguinte, Mikael e Lisbeth trabalharam no caso Harriet praticamente o tempo todo. Lisbeth continuou lendo o inqurito e fez uma srie de perguntas 
s quais Mikael tentou responder. S podia haver uma verdade e as respostas pouco claras, os dados equvocos os levavam a aprofundar a discusso. Passaram um dia 
inteiro verificando os horrios das pessoas durante o acidente na ponte.
    Lisbeth Salander deixava Mikael cada vez mais perplexo. Embora percorresse superficialmente os textos do inqurito, ela parecia deter-se nos detalhes mais obscuros 
e incompatveis.
    Eles faziam uma pausa  tarde, quando o calor os impedia de continuar no jardim. Vrias vezes foram tomar banho no canal ou beber alguma coisa no Caf Susanne. 
Susanne passou a olhar Mikael com uma frieza ostensiva. Ele se deu conta de que Lisbeth parecia mais jovem do que era e estava hospedada em sua casa, o que aos olhos 
de Susanne o transformava num velho safado que gosta de menininhas. Era desagradvel.
    Mikael continuava praticando jogging todos os fins de tarde. Lisbeth no fazia nenhum comentrio sobre esses exerccios quando ele voltava ofegante para casa. 
Correr no era bem a idia que ela fazia de um lazer de vero.
     Passei dos quarenta  disse Mikael.  Sou obrigado a fazer exerccio para no engordar.
     Ah!
     No pratica nenhuma atividade fsica?
     Um pouco de boxe de vez em quando.
     Boxe?
     Sim, sabe, com luvas.
    Mikael foi tomar banho e tentou imaginar Lisbeth num ringue. Ela talvez estivesse zombando dele. Uma pergunta se impunha.
     Voc boxeia em que categoria de peso?
     Em nenhuma. Sirvo de sparring para uns rapazes de um clube de boxe de Sder.
    Por que ser que eu no me surpreendo?, pensou Mikael. Mas ele constatou que, de qualquer modo, ela acabava de contar alguma coisa sobre si. Ele continuava sem 
nenhuma informao sobre ela; por que comeara a trabalhar para Armanskij, qual era a sua formao ou o que faziam seus pais. Assim que Mikael tentava conversar 
sobre a vida privada dela, Lisbeth se fechava como uma ostra e respondia por monosslabos ou o ignorava totalmente.
    
    
    Uma tarde, Lisbeth Salander depositou na mesa um arquivo e olhou para Mikael com uma ruga entre as sobrancelhas.
     O que sabe sobre Otto Falk? O pastor.
     Muito pouco. Encontrei o pastor atual, uma mulher, algumas vezes na igreja no comeo do ano. Ela disse que Falk ainda est vivo, mas numa casa de sade em 
Hedestad. Alzheimer.
     De onde ele ?
     Daqui, de Hedestad. Estudou em Uppsala e aos trinta anos retornou.
     Ele no era casado. E Harriet o via.
     Por que est perguntando isso?
     Apenas notei que o tira, esse Morell, foi bastante indulgente com ele nos interrogatrios.
     Nos anos 1960, os pastores ainda gozavam de um outro status social. Era natural que ele quisesse morar aqui na ilha, mais perto do poder, digamos assim.
     Fico me perguntando se os policiais realmente revistaram o presbitrio. As fotos mostram que era uma grande construo de madeira; l devia haver muitos lugares 
onde esconder um corpo por algum tempo.
      verdade. Mas nada indica que ele tenha tido alguma ligao com assassinatos em srie ou com o desaparecimento de Harriet.
     Voc se engana  disse Lisbeth com um sorriso no canto dos lbios.  Em primeiro lugar, ele era um pastor, e os pastores, mais do que ningum, possuem uma 
relao especial com a Bblia. Em segundo, foi o ltimo a ter visto Harriet e falado com ela.
     Mas ele foi correndo ao local do acidente e permaneceu ali vrias horas.  visto em muitas fotos, sobretudo durante o lapso de tempo em que Harriet deve ter 
desaparecido.
     Pfff, posso desmontar esse libi num instante! Mas eu estava pensando em outra coisa. Estamos diante de um matador de mulheres sdico.
     E?
     Eu fui... eu tive um tempo livre na primavera passada e pesquisei coisas sobre sdicos num contexto bem diferente. Um dos documentos que li era um manual do 
FBI americano que afirmava que um nmero impressionante de assassinos seriais capturados vm de lares problemticos e na infncia se comprazem em torturar animais. 
Alm disso, muitos serial killers americanos foram presos por incndios criminosos.
     Sacrifcio de animais e sacrifcio pelo fogo,  isso que est querendo dizer?
     Sim. Os animais torturados e o fogo constam em vrios casos registrados por Harriet. Mas eu pensava mais no presbitrio, que foi incendiado no final dos anos 
1970.
    Mikael refletiu por um momento.
      muito vago  disse por fim. Lisbeth balanou a cabea.
     Concordo. Mas vale a pena anotar. No encontrei nada no inqurito sobre a causa do incndio e gostaria muito de saber se houve outros incndios misteriosos 
nos anos 1960. Seria interessante tambm descobrirmos sobre se houve casos de crueldade com animais ou amputaes de animais nessa poca, na regio.
    
    
    Quando Lisbeth foi se deitar na stima noite em Hedeby, ela estava um pouco irritada com Mikael Blomkvist. Durante uma semana, estivera praticamente todos os 
minutos do dia com ele, quando em geral sete minutos na companhia de qualquer pessoa bastavam para faz-la ter dor de cabea.
    Fazia tempo ela constatara que as relaes sociais no eram o seu forte e se preparara para uma vida solitria. Sentia-se perfeitamente satisfeita quando as 
pessoas a deixavam em paz. Mas as pessoas no eram muito perspicazes e compreensivas, o que sempre a obrigava a prevenir-se contra autoridades sociais, autoridades 
de proteo da infncia e da comisso de tutelas, contra o fisco, contra a polcia, curadores, psiclogos, psiquiatras, professores e seguranas que nunca queriam 
deix-la entrar nas boates, embora j tivesse vinte e cinco anos (com exceo dos seguranas da Moulin, que a conheciam). Havia todo um exrcito de gente que parecia 
no ter mais o que fazer a no ser tentar comandar a sua vida e, se possvel, mudar o modo como ela escolhera viver.
    Aprendera muito cedo que no adiantava nada chorar. Tambm aprendera que, sempre que tentou alertar algum para alguma coisa de sua vida, a situao s piorava. 
Portanto, ela mesma  que devia resolver seus problemas com os mtodos que julgasse necessrios. Atitude que o dr. Nils Bjurman pagou caro para descobrir.
    Mikael Blomkvist tinha a mesma tendncia irritante de todos os outros de fuar sua vida privada e de fazer perguntas que ela no queria responder. S que ele 
no reagia como a maioria dos homens que ela conheceu.
    Quando ela ignorava as perguntas, ele se contentava em encolher os ombros, desistia do assunto e a deixava tranquila. Surpreendente.
    A prioridade de Lisbeth, quando conseguiu se apoderar do notebook dele em seu primeiro dia na casa, era evidentemente transferir todos os dados para o seu prprio 
computador. Desse modo, seria menos ruim se ele a despedisse; ela continuaria tendo acesso ao material.
    Mas em seguida ela o provocou de propsito, lendo ostensivamente os documentos do notebook dele. Esperava que ele fosse ficar furioso. No entanto ele pareceu 
resignado, resmungou alguma coisa levemente sarcstica e foi tomar um banho, s voltando a abordar o assunto mais tarde. Cara estranho. Ela quase concluiu que ele 
confiava nela.
    Mas o fato de ele estar a par de seus talentos como hacker era grave. Lisbeth Salander sabia muito bem que o termo jurdico aplicado ao tipo de pirataria que 
ela praticava, profissionalmente e por conta prpria, era intruso informtica ilegal, que lhe podia valer at dois anos de priso. Era um ponto sensvel: ela no 
queria ser presa porque uma pena de priso significaria que muito provavelmente lhe confiscariam o computador, nica ocupao na qual se distinguia. Nunca pensou 
em contar a Dragan Armanskij ou a quem quer que fosse como obtinha as informaes que eles compravam.
    Com exceo de Praga e de algumas poucas pessoas conectadas que, como ela, se dedicavam profissionalmente  pirataria  e quase todas s a conheciam pelo codinome 
Wasp, ningum sabia quem ela era nem onde morava , somente Super-Blomkvist descobrira seu segredo. E a tinha desmascarado porque ela cometeu um erro que mesmo iniciantes 
com poucos anos no ramo no cometem, o que provava que seu crebro andava falhando e que merecia ser castigada. Mas ele no ficou furioso nem ameaou process-la; 
em vez disso a contratou.
    Assim, ela estava ligeiramente irritada com ele.
    Um pouco antes de ela se retirar para o quarto, tinham acabado de comer um sanduche quando ele perguntou, de repente, se ela era uma boa hacker. E ela respondera 
com naturalidade:
     Sou provavelmente a melhor da Sucia. H talvez uns dois ou trs do meu nvel.
    No hesitou nem um pouco sobre a veracidade de sua resposta. Numa certa poca, Praga fora melhor que ela, mas fazia muito tempo que o superara.
    No entanto Lisbeth espantou-se consigo mesma por pronunciar essas palavras. Nunca fizera isso. Nem tinha um interlocutor para esse tipo de conversa, e de repente 
saboreou o fato de ele parecer impressionado com seus conhecimentos. Mas ele estragou tudo ao levantar a questo problemtica: como ela aprendera a pirataria.
    Ela no sabia o que responder. Eu sempre soube. Preferiu ir se deitar sem dizer boa-noite.
    Para irrit-la ainda mais, Mikael no pareceu reagir quando ela virou as costas. De sua cama, ela o escutou mexer-se na cozinha, limpar a mesa e lavar a loua. 
Ele sempre ficava de p mais tempo que ela, mas agora estava claramente indo se deitar. Ela o ouviu no banheiro, o ouviu entrar no quarto e fechar a porta.. Um momento 
depois, ouviu o rangido da cama quando ele se deitou, a cinquenta centmetros dela, do outro lado da parede.
    Durante a semana que passou na casa dele, ele no tentou abord-la sexualmente. Trabalhou com ela, pediu sua opinio, criticou-a quando raciocinava errado e 
apreciou suas objees quando ela o corrigia. Tratou-a, nem mais nem menos, como um ser humano.
    De repente, ela percebeu que gostava da companhia de Mikael Blomkvist e que at mesmo confiava nele. Nunca confiara em ningum, com exceo de Holger Palmgren. 
Mas por razes bem diferentes. Palmgren fora uma boa alma previsvel.
    Levantou-se, foi at a janela e ficou olhando, nervosa, a escurido l fora. O que mais a paralisava era mostrar-se nua diante de algum pela primeira vez. Estava 
convencida de que seu corpo raqutico era repulsivo. Os seios, patticos. No tinha quadris que merecessem esse nome. A seus prprios olhos, no tinha grande coisa 
a oferecer. No entanto, era uma mulher perfeitamente normal, com os mesmos desejos e pulses sexuais que as outras. Refletiu durante cerca de vinte minutos antes 
de se decidir.
    
    
    Mikael estava deitado e lia um romance de Sara Paretsky quando ouviu a maaneta da porta girar e viu Lisbeth Salander aparecer. Estava envolvida num lenol e 
se mantinha no vo da porta sem dizer nada, como se refletisse.
     Algum problema?  perguntou Mikael. Ela fez que no com a cabea.
     O que voc quer?
    Ela se aproximou dele, pegou seu livro e o ps na mesa-de-cabeceira. Depois se curvou para a frente e o beijou na boca. As intenes dela no podiam ser mais 
claras. Sentou-se na cama e ficou olhando-o de um jeito perscrutador. Ps uma mo sobre o lenol acima do ventre dele. Como ele no protestasse, ela se inclinou 
e mordiscou um de seus mamilos.
    Mikael Blomkvist estava totalmente perplexo, mas no indiferente. Depois de alguns segundos, pegou-a pelos ombros e afastou-a um pouco para poder ver seu rosto.
     Lisbeth... no sei se  uma boa idia. Devemos trabalhar juntos.
     Quero fazer sexo com voc. E no vejo problema algum em trabalharmos juntos; ao contrrio, terei um problema srio se me mandar embora.
     Mas nem nos conhecemos direito.
    Ela riu, um riso abrupto que mais parecia uma tosse.
     Quando fiz minha investigao sobre voc, percebi que nunca teve esse tipo de problema. Ao contrrio, voc  daqueles que tm dificuldade de ficar longe das 
mulheres. Que est havendo? No pareo bastante sexy?
    Mikael balanou a cabea e tentou encontrar algo inteligente para dizer. Como ele no respondeu, ela afastou o lenol e sentou-se de pernas abertas sobre ele.
     No tenho preservativos  disse Mikael.
     No faz mal.
    Quando Mikael despertou, Lisbeth j estava de p. Ouviu-a mexendo nas louas da cozinha. Eram quase sete da manh. Ele dormira apenas duas horas e continuou 
de olhos fechados.
    No conseguia entender Lisbeth Salander. Em nenhum momento ela havia insinuado, nem mesmo atravs de um olhar, que estivesse interessada nele.
     Bom dia  disse Lisbeth  porta. Ela sorria. Um pouco,  verdade.
     Oi  disse Mikael.
     No temos mais leite. Vou at o supermercado. Eles abrem s sete. E afastou-se to depressa que Mikael nem teve tempo de responder. Ele a ouviu calar-se, 
pegar a mochila, o capacete da moto e sair pela porta da frente. Ele fechou os olhos. Depois ouviu a porta ser aberta de novo e em alguns segundos ela reapareceu. 
Desta vez no sorria mais.
     Venha, voc precisa ver uma coisa  disse com uma voz estranha. Mikael saltou imediatamente da cama e enfiou a cala. Durante a noite algum viera lhe trazer 
um presente indesejado. No terrao da entrada, jazia o cadver semicarbonizado de um gato esquartejado. As patas e a cabea haviam sido cortadas, o ventre aberto 
e as entranhas removidas; os restos do gato estavam ao lado do cadver, que parecia ter sido posto no fogo. A cabea estava intacta e fora colocada em cima do assento 
da moto de Lisbeth. Mikael reconheceu a pelagem ruiva.
    
   22.         QUINTA-FEIRA 10 DE JULHO
    
    
    Eles tomaram o caf-da-manh no jardim, em silncio e sem leite no caf. Lisbeth havia apanhado uma pequena Canon digital e fotografado a cena macabra antes 
de Mikael trazer um saco de lixo para levar tudo. Ele ps o gato no porta-malas do carro que lhe emprestaram, mas no tinha muita certeza do que fazer com o cadver. 
O lgico seria apresentar queixa por crueldade contra os animais, talvez tambm por ameaas, mas no sabia muito bem como explicar o porqu da ameaa.
    Por volta das oito e meia, Isabella Vanger passou a p e dirigiu-se  ponte. No os viu ou fingiu no v-los.
     Como est se sentindo?  perguntou finalmente Mikael a Lisbeth.
     Bem.  Ela olhou para ele, surpresa. Entendi. Ele gostaria que eu estivesse nervosa.  Quando encontrar o canalha que torturou um pobre gato inocente s para 
nos deixar uma advertncia, vou acert-lo com um taco de beisebol.
     Acha que  uma advertncia?
     Tem explicao melhor? Claro que significa alguma coisa. Mikael assentiu com a cabea.
     Seja o que for, a verdade  que acabamos inquietando muito algum, a ponto de deixar essa pessoa doente. Mas h um outro problema  disse ele.
     Eu sei. E um sacrifcio de animal semelhante aos de 1954 e 1960. E parece impossvel que um matador em atividade h cinquenta anos continue por a, deixando 
animais torturados na sua porta.
     Os nicos que podem figurar na lista, nesse caso, so Harald Vanger e Isabella Vanger. Existem alguns parentes mais velhos do ramo Johan Vanger, mas nenhum 
mora na regio.
    Mikael suspirou antes de prosseguir.
     Isabella  uma mulher estpida que certamente no hesitaria em matar um gato, mas duvido que passasse o tempo matando mulheres em srie nos anos 1950. Harald 
Vanger... no sei, parece to decrpito que mal consegue andar e  difcil acreditar que saia sorrateiramente  noite para achar um gato e fazer isso.
     A no ser que sejam duas pessoas, uma velha e uma jovem.
    Mikael ouviu um carro passar, ergueu os olhos e viu Cecilia Vanger desaparecer no final da ponte. Harald e Cecilia, pensou. Mas havia um grande ponto de interrogao: 
pai e filha no se viam e raramente se falavam. Apesar de Martin Vanger ter prometido falar com ela, Cecilia continuava sem responder aos telefonemas de Mikael.
     Com certeza  algum que sabe que estamos investigando e que fizemos progressos  disse Lisbeth, levantando-se e entrando na casa.
    Ao voltar, ela vestia sua roupa de motoqueira.
     Vou a Estocolmo. Volto  noite.
     O que voc vai fazer?
     Umas pesquisas. Se um cara  bastante louco para matar um gato desse jeito, ele, ou ela, pode nos atacar da prxima vez. Ou pr fogo no barraco enquanto dormimos. 
Quero que v a Hedestad comprar dois extintores e dois detectores de incndio hoje. Um dos extintores deve ser com halon.
    Sem dizer mais nada, ps o capacete, acionou a moto e desapareceu pela ponte.
    
    
    Mikael jogou o cadver no coletor de lixo do posto de gasolina, antes de ir a Hedestad comprar os extintores e os detectores de incndio. Ps as compras no porta-malas 
do carro e foi para o hospital. Havia telefonado para Dirch Frode e marcado um encontro com ele na cafeteria. Contou o que havia acontecido de manh. Dirch Frode 
empalideceu.
     Mikael, nunca pensei que essa histria pudesse se tornar perigosa.
     Por que no? Afinal, o objetivo  desmascarar um assassino.
     Mas quem poderia...  pura loucura. Se no esto em segurana, voc e a senhorita Salander, devemos parar tudo. Posso falar com Henrik.
     No, de jeito nenhum. No vamos provocar outro infarto nele.
     Ele pergunta o tempo todo o que voc est fazendo.
     Diga a ele que continuo desembaraando os fios.
     O que vai fazer agora?
     Tenho algumas perguntas. O primeiro incidente ocorreu pouco depois do infarto de Henrik, quando eu estava em Estocolmo. Algum vasculhou minha saleta de trabalho. 
Foi logo depois de eu decifrar o cdigo da Bblia e descobrir as fotos da rua da Estao. Falei disso com voc e com o Henrik. Martin estava sabendo, pois foi ele 
que me facilitou o acesso ao Hedestads-Ruriren. Quem mais estava a par?
     Bem, no sei exatamente para quem Martin falou. Mas Birger e Cecilia tambm sabiam. Conversaram entre si sobre a sua caada s fotos. At Alexander est sabendo. 
E Gunnar e Helen Nilsson tambm. Vieram visitar Henrik e ouviram a conversa. E Anita Vanger.
     Anita? A de Londres?
     A irm de Cecilia. Ela veio de avio com Cecilia quando Henrik teve o infarto, mas ficou no hotel; que eu saiba, no ps os ps na ilha. Assim como Cecilia, 
ela no quer se encontrar com o pai. Mas voltou h uma semana, quando Henrik saiu da UTI.
     Onde Cecilia est morando? Eu a vi esta manh atravessando a ponte, mas sua casa continua fechada.
     Suspeita dela?
     No, s quero saber onde est morando.
     Na casa do irmo, Birger. Da casa dele pode-se ir a p ao hospital.
     Sabe onde ela est agora?
     No. Em todo caso, com Henrik no est.
     Obrigado  disse Mikael e levantou-se.
    
    
    A famlia Vanger gravitava em torno do hospital de Hedestad. No saguo de entrada, Birger Vanger dirigia-se aos elevadores. Mikael no quis cruzar com ele e 
esperou que desaparecesse antes de passar pelo saguo. Mas deu de cara com Martin Vanger na entrada, quase no mesmo lugar onde encontrara Cecilia Vanger na visita 
anterior. Eles trocaram um aperto de mo.
     Foi ver Henrik?
     No, s passei aqui para falar com Dirch Frode rapidamente.
    Martin tinha olheiras e parecia fatigado. Mikael notou que ele envelhecera consideravelmente desde que se conheceram, havia seis meses. A luta para salvar o 
imprio Vanger e a sbita doena de Henrik lhe pesavam.
     E como vo as coisas com voc?  perguntou Martin.
    Mikael anunciou que no tinha a inteno de interromper sua temporada para voltar a Estocolmo.
     Bem, obrigado. A cada dia esto ficando mais interessantes. Quando Henrik melhorar, espero poder satisfazer a curiosidade dele.
    
    
    Birger Vanger morava num conjunto de casas geminadas, de tijolos brancos, a apenas cinco minutos de caminhada do hospital. Ningum atendeu quando Mikael bateu 
 porta. Tentou o celular de Cecilia, mas no obteve resposta. Ficou um momento no carro tamborilando os dedos sobre o volante. Birger Vanger era uma pgina em branco 
na coleo. Nascido em 1939, tinha apenas dez anos quando Rebecka Jacobsson foi morta. Mas tinha vinte e sete quando Harriet desapareceu.
    Segundo Henrik Vanger, Birger e Harriet pouco se viram. Birger cresceu com sua famlia, em Uppsala, e veio para Hedestad a fim de trabalhar no grupo, mas alguns 
anos depois se afastou para entrar na poltica. Estava em Uppsala quando Lena Andersson foi assassinada.
    Mikael no conseguia deslindar a histria, mas o incidente com o gato lanara um sentimento de ameaa iminente e sugeria que o tempo comeava a correr rpido.
    O ex-pastor de Hedeby Otto Falk tinha trinta e seis anos quando Harriet desapareceu. Estava com setenta e dois agora, era mais jovem que Henrik Vanger, porm 
se achava numa condio intelectual bem inferior. Mikael o encontrou na casa de sade A Andorinha, um prdio amarelo situado numa elevao s margens do Hede, no 
outro extremo da cidade. Mikael apresentou-se na recepo e pediu para falar com o pastor Falk. Disse saber que o pastor sofria de Alzheimer e pediu informaes 
sobre seu nvel de comunicao. Uma atendente respondeu-lhe que o pastor recebera o diagnstico trs anos antes e que a evoluo da doena fora rpida. Falk podia 
comunicar-se, mas tinha uma pssima memria imediata, no reconhecia alguns membros da famlia e estava entrando numa completa alienao. Mikael tambm foi prevenido 
contra crises de angstia que o velho tinha quando lhe faziam perguntas s quais no conseguia responder.
    O velho pastor estava sentado num banco de jardim com trs outros pacientes e um enfermeiro. Mikael passou uma hora tentando falar com ele.
    O pastor Falk disse que se lembrava muito bem de Harriet Vanger. Seu rosto iluminou-se e ele a descreveu como uma menina encantadora. Mikael logo percebeu, porm, 
que o pastor esquecera que ela estava desaparecida havia quase trinta e sete anos; falava dela como se tivesse acabado de v-la e pediu que Mikael lhe mandasse um 
abrao e a encorajasse a vir visit-lo. Mikael prometeu fazer isso.
    Quando Mikael comentou o que tinha acontecido no dia em que Harriet desapareceu, o pastor se mostrou perplexo. Era evidente que no se lembrava do acidente na 
ponte. No entanto, no final da conversa, mencionou algo que fez levantar as orelhas de Mikael.
    Mikael havia conduzido a conversa para o interesse de Harriet pela religio, e o pastor de repente ficou pensativo. Como se uma nuvem tivesse passado sobre seu 
rosto. Ps-se a balanar para a frente e para trs por um momento, depois olhou fixamente Mikael e perguntou quem ele era. Mikael apresentou-se de novo e o velho 
refletiu mais um instante. Por fim, balanou a cabea e pareceu irritado.
     Ela ainda est procurando. Precisa estar atenta e voc deve preveni-la.
     Devo preveni-la do qu?
    O pastor ficou subitamente agitado. Balanou a cabea, franzindo as sobrancelhas.
     Ela deve ler sola scriptura e compreender sufficientia scripturae. S assim poder manter uma sola fide. Jos os exclui formalmente. Eles nunca foram includos 
no cnone.
    Mikael no compreendeu nada, mas registrou. A seguir, o pastor Falk inclinou-se para ele e cochichou em tom confidencial:
     Acho que ela  catlica. Est apaixonada por magia e ainda no encontrou seu Deus. E preciso gui-la.
    A palavra "catlica" parecia ter uma conotao negativa para o pastor Falk.
     Eu achava que ela estava interessada no pentecostalismo.
     No, no, no pentecostalismo no. Ela busca a verdade proibida. No  uma boa crist.
    Nesse ponto, o pastor pareceu esquecer tanto Mikael quanto a conversa e voltou-se para falar com um dos outros pacientes.
    
    
    Mikael voltou  ilha pouco depois das duas da tarde. Foi bater  porta de Cecilia Vanger, mas sem sucesso. Tentou o celular, no obteve resposta.
    Instalou um detector de incndio na cozinha e outro no vestbulo. Colocou um dos extintores junto ao aquecedor, ao lado da porta do quarto, e o outro junto  
porta do banheiro. Preparou ento uma refeio leve, sanduches e caf, e sentou-se no jardim para passar ao notebook o registro de sua conversa com o pastor Falk. 
Refletiu por um longo momento, depois ergueu os olhos na direo da igreja.
    O novo presbitrio de Hedeby era uma casa moderna, sem nada de especial, a algumas centenas de metros da igreja. Mikael bateu  porta do pastor Margareta Strandh 
por volta das quatro e explicou que vinha fazer uma consulta sobre uma questo teolgica. Margareta era uma mulher da idade de Mikael, de cabelos castanhos, e vestia 
jeans e camisa de flanela. Estava descala e tinha as unhas dos ps pintadas de vermelho. Ele j a encontrara algumas vezes no Caf Susanne e lhe falara do pastor 
Falk. Mikael foi gentilmente recebido e convidado a se sentar no jardim da casa dela, bem como a trat-la sem cerimnia.
    Mikael contou que conversara com Otto Falk e repetiu as respostas dele, acrescentando que no entendera seu significado. Margareta Strandh escutou e pediu que 
Mikael repetisse palavra por palavra o que Falk dissera. Ela refletiu por um instante.
     Comecei a trabalhar aqui em Hedeby h apenas trs anos e nunca vi o pastor Falk. Ele j havia se aposentado vrios anos antes, mas soube que era bastante tradicionalista. 
O que ele disse significa mais ou menos que devemos nos ater unicamente aos escritos  sola scriptura  e que eles so sufficientia scripturae. Para os crentes tradicionalistas, 
essa ltima expresso significa o reconhecimento da Sagrada Escritura como nica fonte de autoridade. Sola fide significa "a nica f", ou "a f pura".
     Entendo.
     Tudo isso pertence, por assim dizer, aos dogmas fundadores.  a base da Igreja e nada tem de extraordinrio. Ele disse simplesmente: Leia a Bblia  ela oferece 
o conhecimento suficiente e garante a f pura.
    Mikael sentiu-se um pouco desconfortvel.
     Mas permita que eu lhe pergunte: em que contexto ocorreu essa conversa?
     Fiz perguntas sobre algum que ele conheceu h muito tempo e sobre quem estou escrevendo.
     Algum numa busca religiosa?
     Algo do gnero.
     Certo. Acho que percebo a relao. O pastor Falk disse duas outras coisas  que Jos os exclui formalmente e que eles nunca foram includos no cnone. Ser 
que voc no entendeu mal e ele disse Josefo em vez de Jos? Na verdade,  o mesmo nome.
      possvel  disse Mikael.  Gravei a conversa, se quiser escutar.
     No, acho que no  necessrio. As duas frases estabelecem de maneira clara o que ele quis dizer. Josefo era um historiador judeu e a frase eles nunca foram 
includos no cnone provavelmente indica que nunca fizeram parte do cnone hebraico.
     E o que isso quer dizer? 
    Ela riu.
     O pastor Falk afirmou que essa pessoa tinha uma atrao por fontes esotricas, mais precisamente pelos apcrifos. A palavra apokryphos significa "oculto", 
e os apcrifos so livros ocultos que alguns contestam fortemente e que outros consideram como parte do Antigo Testamento. So os livros de Tobias, Judite, Ester, 
Baruc, Sirac, os Macabeus e mais outros dois ou trs.
     Desculpe a minha ignorncia. J ouvi falar dos apcrifos, mas nunca os li. O que eles tm de especial?
     Na verdade, nada de especial, a no ser que foram escritos um pouco mais tarde que o restante do Antigo Testamento. Por isso os apcrifos foram riscados da 
Bblia hebraica. No que os doutores da lei desconfiassem de seu contedo, mas simplesmente porque foram escritos depois da poca em que a obra da revelao de Deus 
estava terminada. Em contrapartida, os apcrifos figuram na velha traduo grega da Bblia. Portanto, no so controvertidos na Igreja catlica.
     Entendo.
     Contudo, so particularmente controvertidos na Igreja protestante. Na poca da Reforma, os telogos buscavam se aproximar ao mximo da velha Bblia hebraica. 
Martinho Lutero retirou os apcrifos da Bblia da Reforma, e mais tarde Calvino afirmou que os apcrifos no deviam em hiptese alguma servir de base para as confisses 
de f, por conterem afirmaes que contradiziam a claritas Scripturae  a clareza das Escrituras.
     Ou seja, livros censurados.
     Exatamente. Os apcrifos afirmam, por exemplo, que se pode praticar a magia, que a mentira  autorizada em alguns casos e outras coisas semelhantes, que evidentemente 
indignam os exegetas dogmticos das Escrituras.
     E no  nada impossvel, se algum sente uma atrao pela religio, que os apcrifos apaream na sua lista de leitura, para a grande irritao de homens como 
o pastor Falk.
     Isso mesmo.  quase inevitvel o confronto com os apcrifos se nos interessamos pela Bblia ou pelo catolicismo, e  muito provvel que algum interessado 
pelo esoterismo, de maneira geral, os leia.
     Por acaso teria um exemplar dos apcrifos? Ela riu mais uma vez. Um riso aberto, amistoso.
     Claro. Os apcrifos foram editados pela comisso bblica nos anos 1980 por ocasio de um estudo nacional.
    
    
    Dragan Armanskij perguntou-se o que poderia estar havendo quando Lisbeth Salander pediu uma conversa particular. Ele fechou a porta e fez sinal para ela se sentar 
na poltrona dos visitantes. Ela contou que o trabalho para Mikael Blomkvist estava terminado  Dirch Frode pagaria antes do fim do ms , mas que decidira prosseguir 
a investigao. Mikael lhe oferecera um salrio mensal consideravelmente inferior.
     Em suma,  uma questo pessoal  disse Lisbeth Salander.  At agora nunca aceitei trabalho a no ser de voc, segundo nosso acordo. O que quero saber  o 
que ser da nossa relao se eu comear a pegar trabalhos por conta prpria.
    Dragan Armanskij afastou as mos.
     Voc  seu patro, pode pegar os trabalhos que quiser e cobrar como quiser. Fico contente de que tenha fontes prprias de dinheiro. Mas seria desleal atrair 
para voc clientes que conheceu por nosso intermdio.
     No tenho essa inteno. Fiz o trabalho conforme o contrato que estabelecemos com Blomkvist. Esse trabalho est terminado. Agora eu  que quero continuar no 
caso. Faria at mesmo de graa.
     Nunca faa nada de graa.
     Entenda, estou querendo dizer que quero saber aonde vai dar essa histria. Convenci Mikael Blomkvist a pedir a Dirch Frode um contrato suplementar como assistente 
de pesquisa.
    Ela estendeu o contrato a Armanskij, que o percorreu com os olhos.
     Esse salrio equivale quase a trabalhar por nada. Lisbeth, voc tem talento. Sabe que pode ganhar bem mais trabalhando comigo, se aceitasse um regime de tempo 
integral.
     No quero trabalhar em tempo integral. Mas continuarei fiel a voc, Dragan. Voc tem sido correto comigo desde que comecei aqui. Quero saber se para voc est 
bem esse tipo de contrato, porque no quero que haja problemas entre ns.
     Entendo.  Ele refletiu um instante.  Para mim est certo. Obrigado por me procurar. Se outras situaes como essa surgirem no futuro, peo que me avise, 
para no haver mal-entendidos.
    Lisbeth Salander ficou em silncio por um minuto ou dois, calculando se havia algo a acrescentar. Fixou os olhos em Armanskij sem dizer nada. Depois balanou 
a cabea, levantou-se e saiu, como de hbito sem se despedir. Uma vez obtida a resposta que esperava, o interesse por Armanskij tinha evaporado. Ele sorriu com serenidade. 
O fato de ela ter vindo se aconselhar com ele significava um avano em seu processo de socializao.
    Abriu uma pasta com um relatrio sobre a segurana de um museu onde estava prevista uma exposio de impressionistas franceses. Depois deixou a pasta de lado 
e olhou para a porta por onde Salander acabara de sair. Lembrou-se do dia em que a vira rindo na companhia de Mikael Blomkvist e perguntou-se se ela estava ficando 
adulta ou se era Blomkvist que a atraa. Mas sentiu tambm uma inquietao. Ele nunca conseguira se livrar da sensao de que Lisbeth Salander era uma vtima perfeita. 
E eis que agora ela seguia a pista de um assassino furioso numa aldeia perdida.
    
    
    Retornando em direo ao norte, Lisbeth sentiu vontade de passar na casa de sade de ppelviken para ver sua me. Exceto pela visita no Dia de So Joo, ela 
no via a me desde o Natal e culpava-se por visit-la to pouco. Essa nova visita, apenas algumas semanas depois, era incomum.
    A me estava na sala de convivncia. Lisbeth ficou pouco mais de uma hora e a levou para passear no laguinho dos patos, no jardim em frente  instituio. A 
me continuava confundindo-a com a irm. Como de hbito, no estava inteiramente presente, embora a visita parecesse agit-la.
    Quando Lisbeth despediu-se, a me no quis soltar sua mo. Lisbeth prometeu voltar em breve, mas a me a olhou com inquietao e um ar muito infeliz.
    Como se estivesse pressentindo uma catstrofe iminente.
    
    
    Mikael passou duas horas no jardim dos fundos da casa, folheando os apcrifos, sem chegar a outra concluso seno a de que estava perdendo tempo.
    Mas de repente lhe ocorreu uma pergunta: Harriet teria sido mesmo to crente como parecia? Seu interesse pelos estudos bblicos se revelou no ltimo ano antes 
de seu desaparecimento. Ela fizera a ligao entre um certo nmero de citaes bblicas e uma srie de assassinatos, a seguir lera com aplicao no somente a Bblia 
mas os apcrifos, e se interessara pelo catolicismo.
    Teria iniciado a mesma investigao a que Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander se dedicavam trinta e sete anos mais tarde? Teria sido a busca de um assassino 
que estimulara seu interesse, e no a religiosidade? O pastor Falk, em todo caso, dera a entender que ela parecia algum em busca, e no uma boa crist.
    Suas reflexes foram interrompidas por um chamado de Erika no celular.
     Queria apenas te dizer que eu e Lars vamos tirar frias na semana que vem. Estarei fora por um ms.
     Aonde vocs vo?
     Nova York. Lars tem uma exposio e depois vamos ao Caribe. Um amigo nos emprestou uma casa em Antgua, onde ficaremos duas semanas.
     Maravilha! Divirtam-se. E d lembranas ao Lars.
     No tiro frias de verdade h trs anos. A prxima edio est pronta e o nmero seguinte j est quase terminado. Gostaria que voc supervisionasse, mas Christer 
prometeu se encarregar disso.
     Ele pode me chamar, se precisar de ajuda. E como ficou o caso de Janne Dahlman?
    Ela hesitou um instante.
     Ele sai de frias na semana que vem. Pus Henry como secretrio de redao temporrio. Ele e Christer vo conduzir o barco.
     Certo.
     No confio em Dahlman, mas ele est se esforando. Estarei de volta no dia 7 de agosto.
    
    
    Eram cerca de sete da noite, e Mikael havia tentado falar com Cecilia Vanger cinco vezes. Deixara um bilhete na casa dela pedindo que entrasse em contato com 
ele, mas no obtivera resposta.
    Fechou decididamente os apcrifos, vestiu uma roupa esportiva e trancou a porta antes de sair para o seu jogging de todos os dias.
    Seguiu pelo caminho estreito ao longo da praia, depois tomou a direo do bosque. Atravessou o mais depressa que pde uma zona de matagal e rvores desenraizadas 
at chegar exausto  Fortificao, com a pulsao bastante acelerada. Deteve-se num ponto da trincheira, ao sol, e fez alongamentos por alguns minutos.
    De repente, ouviu uma forte detonao, ao mesmo tempo que uma bala atingia a parede de concreto a alguns centmetros de sua cabea. Depois sentiu uma dor na 
raiz dos cabelos, onde os estilhaos abriram uma ferida profunda.
    Mikael ficou petrificado durante o que lhe pareceu uma eternidade, incapaz de entender o que havia acontecido. Em seguida jogou-se no cho na trincheira, machucando 
o ombro ao aterrissar. O segundo tiro ocorreu no instante em que mergulhava. A bala cravou-se na parede de concreto, bem no lugar onde ele havia estado.
    Mikael levantou a cabea e olhou em volta. Estava mais ou menos na metade da Fortificao.  direita e  esquerda, passagens estreitas, com profundidade de um 
metro e cobertas de vegetao, conduziam a abrigos de tiro espalhados numa linha de duzentos e cinquenta metros de comprimento. Ps-se a correr, curvado, na direo 
sul do labirinto.
    Ento, ouviu ressoar dentro dele a voz inimitvel do capito Adolfsson no dia de um exerccio de inverno na escola de infantaria em Kiruna. Puta que pariu, Blomkvist, 
baixe a cabea se no quiser ter o rabo arrancado por uma bala! Vinte anos depois, se lembrava dos ensinamentos do capito Adolfsson.
    Cerca de sessenta metros adiante, parou, sem flego e com o corao palpitando. No ouvia outros rudos a no ser o da prpria respirao. O olho humano percebe 
os movimentos mais rapidamente que as formas e as silhuetas. No fique afoito quando se desloca! Mikael levantou os olhos alguns centmetros acima da borda do abrigo. 
O sol estava bem  sua frente e o impedia de distinguir os detalhes, mas ele no percebeu nenhum movimento.
    Baixou a cabea e prosseguiu at o ltimo abrigo. Pouco importa se o inimigo tem armas muito boas. Enquanto no puder te ver, ele no pode te tocar. Proteja-se, 
proteja-se! No se exponha!
    Mikael achava-se agora a uns trezentos metros das terras da fazenda de stergarden. Quarenta metros  frente, estendia-se um espesso matagal de arbustos. Mas, 
para alcanar esse matagal partindo da trincheira, ele seria obrigado a descer uma encosta onde estaria totalmente exposto. Era a nica sada. s suas costas havia 
o mar.
    Mikael agachou-se e raciocinou. De repente teve conscincia da dor nas tmporas; percebeu que sangrava abundantemente, sua camiseta estava molhada de sangue. 
Fragmentos da bala ou estilhaos da parede haviam aberto uma ferida profunda na raiz dos cabelos. As feridas do couro cabeludo sempre sangram muito e por muito tempo, 
pensou, antes de se concentrar novamente na situao. Um nico tiro poderia ter sido um disparo acidental. Dois tiros significavam que algum tentara mat-lo. No 
sabia se o atirador ainda estava nas proximidades, com o rifle recarregado esperando que ele se mostrasse.
    Tentou se acalmar e pensar de forma racional. Suas opes eram esperar ou abandonar o local de uma maneira ou de outra. Se o atirador ainda estivesse  espreita, 
a segunda possibilidade no convinha de modo algum. Mas, se ficasse ali esperando, o atirador poderia tranquilamente subir at a Fortificao, encontr-lo e mat-lo 
 queima-roupa.
    Ele (ou ela?) no pode saber se fui para a direita ou para a esquerda. Um rifle, talvez para a caa de alce. Provavelmente com mira telescpica. Isso significava 
que o atirador tinha um campo de viso limitado se observasse Mikael atravs da lente.
    Se estiver encurralado, tome a iniciativa.  melhor do que esperar. Ele espreitou o momento favorvel e escutou os rudos por dois minutos; ento ergueu-se sobre 
a borda da trincheira e correu encosta abaixo o mais rpido que pde.
    Ouviu um terceiro disparo, mas bem atrs de suas costas, quando estava na metade do caminho para o matagal. Um instante depois, lanou-se de barriga na cortina 
de arbustos e rolou num mar de urtigas. Imediatamente voltou a ficar de p e, ainda curvado, comeou a se afastar do atirador. Cinquenta metros adiante, parou e 
escutou. Ouviu um galho estalar em alguma parte entre ele e a Fortificao. Suavemente, estendeu-se de novo no cho.
    Sobre os cotovelos, cambada! No de quatro patas! Era uma das expresses favoritas do capito Adolfsson. Mikael percorreu os cento e cinquenta metros seguintes 
rastejando na vegetao do matagal. Avanou sem fazer rudo, muito atento aos galhos. Em dois momentos, ouviu estalos no matagal. O primeiro parecia vir de perto, 
talvez uns vinte metros  direita de onde estava. Ficou totalmente imvel, como que petrificado. Ao cabo de um momento, ergueu devagar a cabea e espiou; no viu 
ningum. Continuou imvel por muito tempo, com os nervos alertas, pronto para fugir ou mesmo lanar um contra-ataque se o inimigo viesse em sua direo. O estalo 
que ouviu a seguir vinha de mais longe. Depois nada, silncio.
    Ele sabe que estou aqui. Mas ter se instalado em algum lugar  espera de que eu comece a me mexer ou ter ido embora?
    Mikael continuou avanando no matagal at chegar ao cercado do pasto de stergarden.
    Comeava outro momento crtico. Um caminho costeava o cercado no lado de fora. Ele ficou de bruos no cho,  espreita. Viu as construes  sua frente, a cerca 
de quatrocentos metros, num terreno com ligeiro declive;  direita, viu umas dez vacas pastando. Como se explica que ningum tenha ouvido os disparos e tenha vindo 
ver o que aconteceu? Vero. No deve haver ningum na fazenda neste momento.
    Nem pensar em se aventurar pelo pasto  estaria totalmente exposto , e o caminho ao longo do cercado era o lugar onde ele mesmo teria se posicionado para ter 
o campo livre para atirar. Retrocedeu discretamente pelo matagal e prosseguiu at chegar a um bosque de pinheiros.
    
    
    Mikael contornou as terras de stergarden e dirigiu-se ao monte Sul para regressar. Ao passar pela fazenda, constatou que o carro no estava l. Deteve-se no 
alto do monte Sul e contemplou Hedeby. As pequenas cabanas do antigo porto dos pescadores estavam ocupadas por veranistas; algumas mulheres de maio conversavam num 
ponto. Ele sentiu o cheiro de carne assada num braseiro. Crianas brincavam na gua em volta dos pontes.
    Mikael consultou o relgio. Pouco mais de oito da noite. Os tiros haviam sido disparados cinquenta minutos atrs. Gunnar Nilsson regava o jardim, de calo e 
nu da cintura para cima. H quanto tempo voc est a? A casa de Henrik Vanger estava desabitada, com exceo da governanta Anna Nygren. A de Harald Vanger parecia 
deserta como sempre. Viu Isabella Vanger sentada no jardim dos fundos de sua casa. Falava com algum. Mikael demorou um pouco para perceber que era Gerda Vanger, 
nascida em 1922 e de sade frgil, que morava com o filho Alexander numa das casas atrs da de Henrik. Nunca a encontrara, mas algumas vezes a vira em seu terreno. 
A casa de Cecilia Vanger parecia vazia, porm de repente Mikael viu uma luz se acender na cozinha. Ela est em casa. Ser que o atirador poderia ser uma mulher? 
No duvidava que Cecilia Vanger soubesse manejar um rifle. Mais adiante viu o carro de Martin Vanger na esplanada diante de sua casa. E voc, h quanto tempo est 
em casa?
    Ou teria sido alguma outra pessoa, em quem ele ainda nem sequer pensara? Frode? Alexander? Possibilidades demais.
    Desceu o monte Sul, seguiu o caminho at o povoado e foi diretamente para casa, sem encontrar ningum. A primeira coisa que viu foi a porta da casa entreaberta. 
Contraiu-se instintivamente. Depois sentiu cheiro de caf e viu Lisbeth Salander pela janela da cozinha.
    
* * *
    Lisbeth ouviu Mikael no vestbulo e virou-se para ele. Ficou paralisada. O rosto de Mikael tinha um aspecto assustador, com sangue por toda parte comeando a 
coagular. O lado esquerdo da camiseta estava molhado de sangue.
     Foi s um ferimento no couro cabeludo; est sangrando muito, mas no  grave  disse Mikael antes que ela tivesse tempo de abrir a boca.
    Ela se virou e foi buscar o estojo de primeiros socorros no guarda-louas, um estojo que continha apenas dois rolos de algodo, gaze e uma caixinha de curativos 
adesivos. Ele tirou as roupas, deixou-as espalhadas no cho e foi se olhar no espelho do banheiro.
    O ferimento na tmpora tinha uns trs centmetros de comprimento e era to profundo que Mikael pde ver um bom pedao de carne. Continuava sangrando e provavelmente 
precisaria de alguns pontos, mas um simples curativo resolveria, ele pensou. Umedeceu a toalha e enxugou o rosto.
    Apoiou a toalha sobre a tmpora e entrou no chuveiro para uma ducha, fechando os olhos. Deu ento um murro to forte na parede que seus dedos doeram. Filho-da-puta!, 
pensou. Vou pegar voc!
    Quando Lisbeth tocou seu brao, ele sentiu um sobressalto, como se tivesse recebido uma descarga. Olhou-a com tanta raiva nos olhos que, sem querer, ela deu 
um passo para trs. Lisbeth entregou-lhe um sabonete e voltou para a cozinha sem dizer uma palavra.
    
    
    Mikael ps trs curativos adesivos ao sair do chuveiro. Entrou no quarto, vestiu uma cala e uma camiseta limpas, pegou uma pasta com as fotos que copiara na 
impressora. A raiva o fazia quase tremer.
     Fique aqui!  ordenou, spero, a Lisbeth Salander.
    Foi at a casa de Cecilia Vanger e calcou a mo na campainha. Depois de um minuto e meio ela atendeu.
     No quero falar com voc  ela disse. Depois, viu o rosto dele e o sangue que j comeava a vazar dos curativos.  O que aconteceu?
     Deixe-me entrar. Precisamos conversar. Ela hesitou.
     No temos nada a nos dizer.
     Agora temos, sim, coisas a nos dizer e podemos discuti-las aqui na porta ou na cozinha.
    A voz de Mikael deixava transparecer sua raiva contida e Cecilia Vanger deu um passo para o lado, deixando-o entrar. Ele foi se sentar  mesa da cozinha.
     O que aconteceu?  ela perguntou novamente.
     Voc diz que as minhas investigaes sobre o desaparecimento de Harriet so um passatempo teraputico para Henrik.  possvel, mas uma hora atrs algum tentou 
acertar um tiro na minha cabea e, na noite passada, algum ps um gato cortado em pedaos na entrada de casa.
    Cecilia Vanger abriu a boca, mas Mikael a interrompeu.
     Cecilia, pouco me importa quais so as suas idias fixas e o que a preocupa, ou por que agora voc me odeia. No vou mais me aproximar de voc, no precisa 
ter medo que eu a importune ou a persiga. Neste momento, eu gostaria de nunca ter ouvido falar de voc nem da famlia Vanger. Mas quero que responda s minhas perguntas. 
Quanto mais depressa responder, mais depressa se livrar de mim.
     O que quer saber?
     Primeiro: onde voc estava uma hora atrs? O rosto de Cecilia turvou-se.
     Eu estava em Hedestad. Voltei faz meia hora.
     H testemunhas que comprovem isso?
     Sei l. No preciso me justificar para voc.
     Segundo: por que abriu a janela do quarto de Harriet Vanger no dia em que ela desapareceu?
     O que voc disse?
     Voc ouviu minha pergunta. Durante todos esses anos, Henrik tentou descobrir quem abriu a janela do quarto de Harriet exatamente nos minutos crticos do seu 
desaparecimento. Todo mundo negou ter feito isso. Algum est mentindo.
     E o que o faz pensar que fui eu?
     Esta foto  disse Mikael, jogando a fotografia em cima da mesa. Cecilia Vanger aproximou-se para olhar a foto. Mikael teve a impresso de ver surpresa e medo. 
Ela levantou os olhos para ele. Mikael sentiu um pequeno filete de sangue escorrer pelo rosto e pingar na camiseta.
     Havia umas sessenta pessoas na ilha naquele dia  ele disse.  Vinte e oito eram mulheres. Cinco ou seis tinham cabelos louros e um pouco compridos. S uma 
usava um vestido claro.
    Ela olhou intensamente a foto.
     E acha que sou eu nesta foto?
     Se no , eu gostaria muito de saber quem voc acha que . Ningum sabe da existncia dessa foto at agora. H vrias semanas a tenho comigo, mas no mostrei 
a Henrik nem a qualquer outra pessoa, porque tinha um medo terrvel de transformar voc em suspeita ou de prejudic-la. Mas preciso de uma resposta.
     Ter a sua resposta.  Ela pegou a foto e a estendeu a ele.  Nesse dia no fui ao quarto de Harriet. No sou eu nessa foto. No tenho absolutamente nada a 
ver com o desaparecimento dela.
    Dirigiu-se  porta de entrada.
     Essa  a minha resposta. Agora quero que v embora. E acho que deveria mostrar esse ferimento a um mdico.
    
    
    Lisbeth Salander o levou ao hospital de Hedestad. Mikael levou dois pontos, puseram-lhe um grande curativo sobre a ferida e deram-lhe uma pomada de cortisona 
para os arranhes de urtiga no pescoo e nas mos.
    Ao deixar o hospital, Mikael refletiu demoradamente se no deveria avisar a polcia. Mas logo imaginou as manchetes: "Jornalista condenado por difamao  alvo 
de atirador misterioso". Ele balanou a cabea.
     Vamos para casa  disse a Lisbeth.
    Ao regressarem  ilha j estava escuro, o que convinha bem a Lisbeth Salander. Ela ps uma sacola em cima da mesa da cozinha.
     Peguei emprestado um equipamento da Milton Security e chegou a hora de utiliz-lo. Prepare um caf enquanto isso.
    Ela espalhou quatro detectores de movimento ao redor da casa e explicou que, se algum se aproximasse a menos de seis, sete metros, um sinal de rdio dispararia 
o bipe que havia instalado no quarto de Mikael. Na mesma hora, duas cmeras de vdeo ultra-sensveis colocadas nas rvores, na frente e atrs da casa, comeariam 
a enviar sinais a um laptop dentro do armrio do vestbulo. Ela dissimulou as cmeras com um tecido escuro, deixando apenas as objetivas descobertas.
    Colocou uma terceira cmera numa gaiola de passarinho em cima da porta. Para introduzir o cabo ali, fez um buraco na parede. A objetiva estava apontada para 
a estrada e para o caminho do porto at a porta de entrada. A cmera tirava uma foto de baixa resoluo por segundo, armazenada no disco rgido de um segundo laptop 
no armrio.
    Em seguida, instalou um capacho com captores de presso no vestbulo. Se algum burlasse os detectores de movimento e entrasse na casa, um alarme de cento e 
quinze decibis dispararia. Lisbeth mostrou como fazer para desativar os detectores com a chave de um pequeno cofre colocado no armrio. Ela tambm emprestara um 
binculo de viso noturna, que deixou na mesa da saleta de trabalho.
     Voc parece ter pensado em tudo  disse Mikael, servindo-lhe uma xcara de caf.
     Outra coisa, nada mais de jogging at que a gente tenha resolvido tudo isso.
     Pode crer que perdi todo o interesse pelo treinamento.
     No estou brincando. Esse caso comeou como um enigma histrico, mas hoje de manh havia um gato morto na entrada e no fim da tarde algum tentou estourar 
os seus miolos. Ns cutucamos algum do esconderijo.
    Eles fizeram uma refeio fora de hora, com carne fria e salada de batatas. Mikael estava muito cansado e com uma dor de cabea terrvel. No conseguia falar 
mais nada e foi se deitar.
    Lisbeth Salander permaneceu ali de p e depois continuou lendo o inqurito at as duas da manh. A misso em Hedeby havia se transformado em algo ameaador e 
complicado ao mesmo tempo.
    
   23.         SEXTA-FEIRA 11 DE JULHO
    
    
    Mikael despertou s seis da manh com o sol batendo direto no rosto porque a cortina no fora bem fechada. A cabea estava vagamente dolorida e ele sentiu uma 
dor aguda ao tocar o curativo. Lisbeth Salander dormia de bruos, com um brao em cima dele. Ele olhou o drago que se estendia em suas costas, do ombro direito 
s ndegas.
    Contou as tatuagens. Alm do drago nas costas e de uma vespa no pescoo, havia uma tira em volta do tornozelo, outra em volta do bceps esquerdo, um macaco 
chins no quadril e uma rosa na panturrilha. Afora o drago, todas as tatuagens eram pequenas e discretas.
    Mikael saiu lentamente da cama e puxou a cortina. Foi ao banheiro e voltou para a cama sem fazer rudo, para no despertar Lisbeth.
    Algumas horas depois, tomavam o caf-da-manh no jardim. Lisbeth olhou para Mikael.
     Temos um mistrio para resolver. Como faremos?
     Vamos fazer um balano das informaes que j temos e tentar descobrir outras.
     Uma das informaes  que algum da vizinhana est tentando te acertar.
     A questo  saber por qu.  porque estamos prestes a resolver o mistrio de Harriet ou porque descobrimos um assassino serial at ento desconhecido?
     Deve haver uma ligao. Mikael concordou com a cabea.
     Se Harriet descobriu um assassino serial, era, necessariamente, algum do seu meio. Se examinarmos a galeria dos personagens dos anos 1960, havia pelo menos 
duas dzias de candidatos possveis. Hoje no resta praticamente ningum, com exceo de Harald Vanger, e no d para acreditar que ele, com quase noventa e cinco 
anos, anda pelos bosques com um rifle. No teria fora sequer para levantar uma espingarda de caa. Hoje todos so ou muito velhos para ser perigosos, ou muito jovens 
para terem agido nos anos 1950. O que nos leva de volta ao ponto de partida.
     A menos que dois colaborem um com o outro. Um velho e um jovem.
     Harald e Cecilia. No creio. Acho que ela disse a verdade quando afirmou que no estava na janela.
     Quem seria ento?
    Abriram o notebook de Mikael e passaram a hora seguinte examinando com ateno todas as pessoas que apareciam nas fotos do acidente.
     Imagino que a aldeia inteira veio ver o acidente. Era setembro. A maioria est de casaco ou pulver. S uma pessoa tem cabelos louros compridos e vestido claro.
     Cecilia Vanger aparece em muitas fotos. D a impresso de estar o tempo todo em movimento, entre as casas e as pessoas que observam o acidente. Aqui ela est 
falando com Isabella. Aqui est com o pastor Falk. Aqui com Greger, o irmo de Henrik.
     Espere!  interrompeu Mikael.  O que  isso na mo dele, Greger?
     Uma coisa quadrada. Parece uma caixinha.
      uma Hasselblad! Ele tambm estava com uma mquina fotogrfica.
    Repassaram as fotos mais uma vez. Greger era visto em vrias, mas em geral encoberto. Numa das fotos, via-se claramente que ele tinha uma caixa quadrada na mo.
     Acho que voc est certo.  uma mquina fotogrfica.
     O que significa que podemos nos lanar a uma outra caa s fotos.
     Vamos deixar isso pra l por enquanto  disse Lisbeth Salander.  Posso levantar uma hiptese?
     Diga.
     O que acha disto: algum da jovem gerao descobre que algum da velha gerao era um assassino serial, mas no quer que ningum saiba. A honra da famlia, 
et cetera e tal. Isso significaria que existem duas pessoas envolvidas na histria, mas que no agem juntas. O assassino pode estar morto h muito tempo, enquanto 
o nosso perseguidor quer simplesmente que a gente abandone o caso e saia daqui.
     Tambm pensei nisso  disse Mikael.  Mas, nesse caso, por que pr um gato esquartejado na nossa porta?  uma referncia direta aos assassinatos.  Mikael 
tocou a Bblia de Harriet.  Mais uma pardia das leis sobre os sacrifcios por imolao.
    Lisbeth Salander inclinou-se para trs e olhou a igreja enquanto citava a Bblia com ar pensativo. Parecia falar sozinha.
     "Depois imolar o novilho diante do Senhor, e os sacerdotes, filhos de Aaro, oferecero o sangue e o derramaro ao redor sobre o altar que est  entrada 
da Tenda da Reunio. Depois esfolar a vtima e a cortar em pedaos."
    Ela se calou e de repente percebeu que Mikael a olhava com o rosto tenso. Ele abriu a Bblia no incio do Levtico.
     Conhece o versculo 12 tambm? Lisbeth permaneceu calada.
     A seguir...  comeou Mikael, balanando a cabea para estimul-la a continuar.
     "A seguir a vtima ser cortada em pedaos, com a cabea e a gordura, que o sacerdote dispor sobre a lenha colocada no fogo do altar." A voz dela estava gelada.
     E o seguinte?
    Ela se levantou de repente.
     Lisbeth, voc tem memria fotogrfica!  exclamou Mikael, estupefato.   por isso que l as pginas do inqurito em segundos.
    A reao dela foi quase explosiva. Fulminou Mikael com tanta raiva no olhar que ele ficou perplexo. Depois, os olhos de Lisbeth se encheram de desespero; virou-se 
e saiu correndo em direo ao porto do jardim.
     Lisbeth!  chamou Mikael, completamente atnito. 
    Ela desapareceu na estrada.

* * *
    Mikael levou o computador para dentro de casa, ativou o alarme e trancou a porta antes de sair atrs de Lisbeth. Encontrou-a vinte minutos depois sentada num 
ponto do porto de recreio molhando os ps na gua e fumando um cigarro. Lisbeth o ouviu chegar e ele percebeu os ombros dela se enrijecerem um pouco. Deteve-se 
a dois metros de onde ela estava.
     No sei o que fiz de mal, mas no tive a inteno de deix-la nesse estado.
    Ela no respondeu.
    Ele se aproximou, sentou-se ao lado dela e ps docemente a mo sobre o seu ombro.
     Por favor, Lisbeth, fale comigo. Ela virou a cabea e olhou para ele.
     No h nada a dizer. Sou um monstro, s isso.
     Eu ficaria feliz se tivesse a metade da sua memria. Ela jogou o toco de cigarro na gua.
    Mikael permaneceu um bom tempo em silncio. Que devo dizer? Voc  uma menina perfeitamente normal. E qual  o problema se for um pouco diferente? Por que essa 
auto-imagem te perturba?
     Percebi que voc  diferente das outras mulheres desde o primeiro instante em que eu te vi  ele falou.  E vou dizer uma coisa: fazia muito tempo que eu no 
gostava naturalmente de algum assim desde o primeiro instante.
    Crianas saram de uma cabana em frente ao porto e se atiraram na gua. Eugen Norman, o artista pintor com quem Mikael ainda no trocara uma s palavra, estava 
sentado numa cadeira diante de sua casa, fumando um cachimbo e observando Mikael e Lisbeth.
     Tenho vontade de ser seu amigo, se me quiser como amigo  disse Mikael.  Mas cabe a voc decidir. Vou para casa preparar um caf. Volte quando tiver vontade.
    Levantou-se e a deixou tranquila. Estava na metade do caminho, na subida, quando ouviu os passos dela s suas costas. Voltaram juntos em silncio.
    Ela se deteve no momento em que chegavam em frente  casa.
     Eu estava pensando... dissemos que tudo  uma pardia da Bblia. Certo. Ele cortou em pedaos um gato, mas imagino que no era fcil achar um novilho. De todo 
modo, est seguindo o enredo bsico. Eu me pergunto...
    Ela levantou os olhos para a igreja.
     "...os sacerdotes oferecero o sangue e o derramaro ao redor sobre o altar que est  entrada da Tenda da Reunio..."
    Atravessaram a ponte e subiram em direo  igreja, olhando ao redor. Mikael verificou a porta da igreja: trancada. Continuaram andando mais um pouco, olhando 
ao acaso os tmulos do cemitrio, at chegar  capela situada  beira d'agua. Mikael arregalou os olhos. No era uma capela, era um jazigo. Acima da porta podia-se 
ler gravado na pedra o nome Vanger, seguido de uma frase em latim que ele no soube decifrar.
     "Para repousar at o fim dos tempos"  disse Lisbeth. Mikael olhou-a admirado. Ela encolheu os ombros.
     J li essa frase em algum lugar  disse.
    Mikael deu uma risada. Ela ficou rgida e a princpio pareceu furiosa, mas logo relaxou ao perceber que ele no tinha zombado dela. A situao  que era cmica.
    Mikael verificou a porta. Trancada. Ele refletiu um instante e disse a Lisbeth para sentar-se ali e esperar. Foi bater  porta de Henrik, e Anna Nygren veio 
abrir. Explicou que queria conhecer a capela morturia da famlia Vanger e perguntou onde Henrik guardava a chave. Anna pareceu hesitar, mas cedeu quando Mikael 
lembrou a ela que trabalhava diretamente para Henrik. Ela foi buscar a chave no gabinete.
    No momento em que Mikael e Lisbeth abriram a porta, viram que estavam certos. O fedor de cadver queimado e de restos carbonizados pairava, pesado, no ar. Mas 
o torturador do gato no acendera o fogo. Num canto havia um maarico semelhante ao usado pelos esquiadores para derreter a cera dos esquis. Lisbeth pegou a mquina 
digital do bolso da saia jeans e tirou algumas fotos. Pegou tambm o maarico.
     Pode ser uma prova. Talvez tenha deixado impresses digitais  ela disse.
     Claro, podemos pedir a todos os membros da famlia Vanger que nos forneam suas impresses digitais  ironizou Mikael.  Gostaria de v-la tentando obter as 
de Isabella.
     Existem meios  retrucou Lisbeth.
    No cho havia sangue em abundncia e uma tesoura de latoeiro que eles deduziram ter servido para cortar a cabea do gato.
    Mikael olhou ao redor. Um tmulo principal, mais elevado, era certamente o de Alexander Vangeersad; outros quatro, no cho, abrigavam os ancestrais da famlia. 
Depois deles, a famlia Vanger optara, aparentemente, pela cremao. Uns trinta pequenos nichos de parede traziam nomes de membros do cl. Mikael seguiu a histria 
familiar na ordem cronolgica e perguntou-se onde estariam enterrados os membros que no tinham lugar na capela  os que talvez no fossem considerados suficientemente 
importantes.
     Agora temos certeza  disse Mikael, quando atravessaram de volta a ponte.  Estamos atrs de um louco furioso.
     Explique.
    Mikael parou no meio da ponte e se apoiou na amurada.
     Se fosse um doido comum que quisesse nos amedrontar, teria matado o gato na sua garagem ou no bosque. Mas ele foi  capela da famlia. H algo de compulsivo 
nisso. Imagine o risco que correu.  vero e as pessoas andam por a at tarde. O caminho do cemitrio  um atalho muito usado pelos habitantes de Hedeby. Mesmo 
que o sujeito tenha fechado a porta, no  fcil calar um gato e evitar o cheiro de queimado.
     Quem?
     No consigo imaginar Cecilia indo l  noite com um maarico. Lisbeth encolheu os ombros.
     No confio em nenhum desses doidos, nem mesmo em Frode e no seu amigo Henrik. Toda essa gente  capaz de enrolar voc. Que vamos fazer agora?
    Houve um momento de silncio. Mikael disse ento:
     Consegui descobrir muitos segredos a seu respeito. Quantas pessoas sabem que voc  uma hacker?
     Ningum.
     Exceto eu, quer dizer.
     Aonde voc quer chegar?
     Quero saber se est comigo. Se confia em mim.
    Ela o olhou por um bom tempo. Acabou encolhendo novamente os ombros.
     No sei o que responder.
     Confia em mim?  insistiu Mikael.
     At agora, sim  ela respondeu.
     Bem. Vamos fazer um pequeno passeio at a casa de Dirch Frode.
    
    
    Sorrindo educadamente, a mulher do advogado Frode, que no conhecia Lisbeth Salander, arregalou os olhos quando a viu. Indicou-lhes o jardim nos fundos da casa. 
O rosto de Frode iluminou-se ao ver Lisbeth. Ele se levantou e a saudou com cortesia.
     Estou feliz de v-la  disse.  Estava me sentindo culpado de no ter expressado suficientemente minha gratido pelo trabalho extraordinrio que fez para ns. 
Tanto no ltimo inverno quanto agora.
    Lisbeth o encarou desconfiada.
     Fui paga para isso  disse.
     No foi isso que eu quis dizer. Julguei-a mal quando a vi pela primeira vez. Gostaria de me desculpar.
    Mikael ficou surpreso. Dirch Frode era capaz de pedir desculpas a uma jovem de vinte e cinco anos coberta de piercings e tatuagens, por algo de que nem precisava 
se desculpar. O advogado subiu alguns pontos na estima de Mikael. Lisbeth Salander olhava para a frente e o ignorava.
    Frode voltou-se para Mikael.
     O que aconteceu na sua testa?
    Sentaram-se. Mikael resumiu os acontecimentos dos ltimos dias. Quando contou que algum havia disparado trs tiros contra ele, Frode ergueu-se bruscamente. 
Sua indignao parecia incontestvel.
     Mas isso  uma loucura!  Fez uma pausa e olhou fixamente para Mikael.  Sinto muito, mas temos que parar. No posso colocar a vida de vocs em perigo. Preciso 
falar com Henrik e anular o contrato.
     Sente-se  disse Mikael.
     Voc no entende...
     O que eu entendo  que Lisbeth e eu chegamos to perto do alvo que quem est por trs de tudo isso entrou em pnico e comeou a agir de maneira irracional. 
Lisbeth e eu gostaramos de lhe fazer algumas perguntas. Em primeiro lugar: quantas chaves existem da capela funerria da famlia Vanger e quem possui uma?
    Frode refletiu um instante.
     Na verdade, no sei. Eu diria que vrios membros da famlia tm acesso  capela. Sei que Henrik possui uma chave e que Isabella vai at l s vezes, mas desconheo 
se ela tem sua prpria chave ou se usa a de Henrik.
     Certo. Voc continua fazendo parte do conselho administrativo do grupo Vanger. Existem arquivos da empresa? Uma biblioteca ou algo semelhante, onde haja recortes 
de imprensa e informaes sobre o grupo de ano em ano?
     Sim. Na sede da empresa em Hedestad.
     Precisamos ter acesso a tudo isso. H tambm velhos boletins do grupo diretivo, esse tipo de material?
     Mais uma vez sou obrigado a responder que no sei. H trinta anos no ponho os ps no departamento de arquivos. Mas eu o porei em contato com Bodil Lindgren. 
Ela  a responsvel pelo arquivamento de todos os documentos do grupo.
     Pode telefonar para ela e conseguir que Lisbeth comece a percorrer os arquivos j a partir de hoje  tarde? Ela quer ler todos os velhos recortes de imprensa 
sobre o grupo Vanger. Eu disse todos, e caber a ela julgar o que pode ter interesse.
     No h problema. Algo mais?
     Sim. Greger Vanger estava com uma Hasselblad na mo no dia do acidente da ponte. Isso significa que tambm pode ter tirado fotos. Onde elas foram guardadas 
depois da morte dele?
     O mais provvel  que estejam com a viva.
     Ser que voc poderia...
     Vou telefonar para Alexander e perguntar.
    
    
     E voc quer que eu procure o qu?  perguntou Lisbeth quando eles deixaram Frode e atravessaram a ponte para voltar  ilha.
     Recortes de imprensa e publicaes do tipo boletim do grupo empresarial. Quero que leia tudo que se relacione com as datas em que os assassinatos foram cometidos 
nos anos 1950 e 1960. Anote tudo o que lhe parecer um pouco estranho. Acho melhor voc se encarregar dessa pesquisa. Pelo que percebi, sua memria  melhor do que 
a minha.
    Ela desferiu-lhe um soco muito profissional nas costelas. Cinco minutos depois, sua Kawasaki atravessava a ponte.
    
    
    Mikael apertou a mo de Alexander Vanger. Ele estivera viajando na maior parte do tempo da estadia de Mikael em Hedeby, que s o avistara rapidamente. Ele tinha 
vinte anos quando Harriet desapareceu.
     Dirch Frode disse que voc queria ver umas fotografias antigas.
     Seu pai possua uma Hasselblad.
     Exato. Ela ainda existe, mas ningum a usa mais.
     Voc deve estar sabendo que estou pesquisando o que aconteceu a Harriet, a pedido de Henrik.
     Foi o que entendi. H muita gente que no est gostando disso.
      bem possvel. Evidentemente, no  obrigado a me mostrar nada.
     Ora, no h problema! O que deseja ver?
     Fotos que seu pai possa ter tirado no dia do desaparecimento de Harriet.
    Subiram at o sto. Alexander precisou de alguns minutos para localizar uma caixa com um monte de fotografias soltas e misturadas.
     Pode levar a caixa  disse.  Se existir alguma das que procura, deve estar a dentro.
    
    
    Mikael passou uma hora selecionando as fotos da caixa que Alexander lhe entregara. Para ilustrar a crnica familiar, a caixa continha algumas verdadeiras preciosidades, 
entre as quais um grande nmero de fotografias de Greger Vanger na companhia do grande lder nazista sueco dos anos 1940, Sven Olof Lindholm. Mikael as separou.
    Encontrou vrios envelopes com fotos que o prprio Greger certamente tirara e que mostravam diferentes pessoas e reunies de famlia, bem como fotos tpicas 
de frias, pesca em torrentes nas montanhas e uma viagem  Itlia com a famlia. Entre outros lugares, haviam visitado a torre de Pisa.
    Acabou encontrando quatro fotografias do acidente do caminho-tanque. Embora a mquina fosse de excelente qualidade, Greger era um pssimo fotgrafo. As fotos 
mostravam ou apenas o caminho, ou pessoas de costas. Somente numa delas via-se Cecilia Vanger de perfil.
    Mikael escaneou as fotos, mesmo sabendo que nada de novo ofereciam. Ps tudo de volta na caixa e comeu um sanduche enquanto refletia. Por volta das trs da 
tarde, foi ver Anna Nygren.
     Eu gostaria de saber se Henrik tem outros lbuns de fotografias alm dos que fazem parte das investigaes dele sobre Harriet.
     Sim, Henrik sempre gostou de fotografia, desde jovem, que eu saiba. H muitos lbuns no escritrio dele.
     Eu poderia v-los?
    Anna Nygren hesitou. Uma coisa era dar a chave da capela funerria  l quem reinava era Deus , outra permitir que Mikael entrasse no gabinete de Henrik Vanger 
 o domnio de Deus no chegava at l. Mikael sugeriu que Anna telefonasse a Dirch Frode, se tinha dvidas. Por fim, a contragosto, ela deixou Mikael entrar. Um 
metro da prateleira de baixo, junto ao cho, continha unicamente pastas com fotografias. Mikael sentou-se na mesa de Henrik e abriu o primeiro lbum.
    Henrik Vanger guardava todo tipo de fotografia de famlia. Muitas datavam de seus antepassados. As mais antigas remontavam aos anos 1870 e mostravam homens austeros 
e mulheres rgidas. Havia fotos dos pais de Henrik e de outros membros da famlia. Numa, o pai de Henrik festejava o Dia de So Joo com amigos em Sandhamn, em 1906. 
Uma outra de Sandhamn mostrava Fredrik Vanger e sua mulher Ulrika na companhia do pintor Anders Zorn e do escritor Albert Engstrm, em volta de uma mesa. Viu um 
Henrik Vanger adolescente, de terno, numa bicicleta. Viu o capito Oskar Granath que, no auge da guerra, transportara com segurana Henrik e sua bem-amada Edith 
Lobach a Karlskrona.
    Anna subiu para servir-lhe uma xcara de ch. Ele agradeceu. Chegou aos tempos modernos e passou rapidamente por algumas fotos que mostravam Henrik na flor da 
idade, inaugurando fbricas ou apertando a mo de Tage Erlander. Uma foto do incio dos anos 1960 mostrava Henrik e o grande industrial e financista Marcus Wallenberg. 
Os dois capitalistas olhavam-se com ar carrancudo; visivelmente no havia uma relao cordial entre eles.
    Seguiu folheando um pouco mais e deteve-se numa pgina que Henrik rotulara de Conselho de famlia 1966, escrito a lpis. Duas fotos coloridas mostravam homens 
discutindo e fumando charuto. Mikael reconheceu Henrik, Harald, Greger e os genros de Johan Vanger. Duas fotos do jantar, em que cerca de quarenta homens e mulheres 
estavam  mesa e olhavam para a mquina fotogrfica. Mikael se deu conta de que essas fotos tinham sido tiradas aps o drama na ponte, mas antes que soubessem do 
desaparecimento de Harriet. Examinou as fisionomias. Era desse jantar que ela deveria ter participado. Um daqueles homens j sabia que ela desaparecera? As fotos, 
claro, no forneciam nenhuma resposta.
    De repente, Mikael viu algo que o fez engasgar-se com o ch. Tossiu e endireitou-se na cadeira.
    Sentada num canto da mesa com um vestido claro, Cecilia Vanger sorria para a cmera. Ao lado dela estava sentada outra mulher loura de cabelos compridos e com 
um vestido claro idntico. Eram to parecidas que poderiam passar por gmeas. E ento a pea do quebra-cabea se encaixou. No era Cecilia Vanger na janela de Harriet 
 era sua irm Anita, dois anos mais jovem e que hoje morava em Londres.
    O que foi mesmo que Lisbeth dissera? Cecilia Vanger aparece em muitas fotos. D a impresso de estar o tempo todo andando entre as pessoas. No. Eram duas mulheres 
diferentes e o acaso quis que nunca aparecessem juntas na mesma foto. Nas fotos em preto-e-branco tiradas de longe, pareciam idnticas. Henrik provavelmente sempre 
distinguiu as irms, mas para Mikael e Lisbeth elas eram to semelhantes que pensaram numa nica pessoa. E ningum lhes apontou o erro, pois nunca ocorreu a eles 
perguntar nada.
    Mikael virou as pginas e sentiu os cabelos se arrepiarem na nuca. Como se uma corrente de ar gelado tivesse entrado no escritrio.
    Eram fotografias tiradas no dia seguinte, quando as buscas de Harriet comearam. Um jovem inspetor de polcia, Gustav Morell, dava instrues a um grupo com 
dois policiais uniformizados e uns dez homens de botas, reunidos para a batida. Henrik Vanger vestia uma capa de chuva que descia at os joelhos e um chapu ingls 
de aba longa.
    Bem  esquerda havia um jovem um pouco gordo, de cabelos louros no muito curtos. Vestia uma jaqueta escura com um tom vermelho nos ombros. A foto estava bem 
ntida. Mikael reconheceu-o imediatamente  e a jaqueta , mas, para ter certeza, pegou a foto e desceu para perguntar a Anna Nygren se ela sabia quem era.
     Sim, claro,  Martin. Devia ter uns dezoito anos nessa foto.
    
    
    Lisbeth Salander percorreu, por ordem cronolgica, as diversas notcias divulgadas na imprensa sobre o grupo Vanger, ano aps ano. Comeou em 1949 e foi avanando 
metodicamente. O problema era a imensido de arquivos de recortes. O grupo era mencionado na imprensa quase todos os dias durante esse perodo  na imprensa nacional 
e sobretudo na local. Havia anlises econmicas, comentrios dos sindicatos, notcias de negociaes e ameaas de greve, inauguraes e fechamentos de fbricas, 
balanos anuais, mudanas de diretoria, lanamentos de novos produtos no mercado... uma quantidade enorme de informaes. Clique. Clique. Clique. Seu crebro trabalhava 
a pleno vapor quando focalizava e absorvia a informao de um recorte antigo.
    Esfalfava-se havia j uma hora, quando teve uma idia. Dirigiu-se  responsvel pelos arquivos, Bodil Lindgren, e perguntou se havia um quadro das implantaes 
das fbricas das empresas Vanger nos anos 1950 e 1960.
    Bodil Lindgren olhou Lisbeth Salander com uma desconfiana e uma frieza evidentes. No apreciava de modo algum que uma pessoa estranha tivesse sido autorizada 
a introduzir-se nos arquivos sagrados do grupo para examinar o que bem entendesse  ainda mais uma moa com aquela aparncia de uma anarquista de quinze anos de 
idade, completamente doida. Mas Dirch Frode lhe dera instrues bem claras. Lisbeth Salander podia examinar o que quisesse. E era urgente. Bodil Lindgren foi buscar 
os balanos anuais do perodo solicitado por Lisbeth; cada balano trazia um mapa com os tentculos do grupo por toda a Sucia.
    Lisbeth olhou o mapa e observou que o grupo tinha inmeras fbricas, escritrios e pontos de venda. Constatou que em cada localidade onde um assassinato fora 
cometido havia igualmente um ponto vermelho, ou vrios, indicando a presena do grupo Vanger.
    Encontrou a primeira ligao em 1957. Rakel Lunde, em Landskrona, fora encontrada morta um dia depois de a sociedade V. & C. Construes arrebatar uma grande 
encomenda de vrios milhes de coroas para a construo de um novo centro comercial na regio. V. & C. significava Vanger & Carlen Construes e fazia parte do grupo 
Vanger. O jornal local havia entrevistado Gottfried Vanger, que fora assinar o contrato.
    Lisbeth lembrou-se de uma coisa que lera no inqurito policial nos arquivos do condado de Landskrona. Rakel Lunde, cartomante nas horas vagas, era faxineira. 
Havia trabalhado na V. & C. Construes.
    
    
    s sete da noite, Mikael chamou Lisbeth umas dez vezes e constatou que seu celular estava desligado. Ela no queria ser interrompida enquanto vasculhava os arquivos.
    Ele andava de um lado para o outro na casa. Havia retornado s anotaes de Henrik sobre o que Martin Vanger fazia na poca do desaparecimento de Harriet.
    Martin Vanger cursava o ltimo ano do colegial em Uppsala, em 1966. Uppsala. Lena Andersson, colegial de dezessete anos. A cabea separada da gordura.
    Henrik mencionara a certa altura  mas Mikael precisou consultar suas anotaes para encontrar a passagem  que Martin fora um rapaz fechado. As pessoas preocupavam-se 
com ele. Quando o pai morreu afogado, sua me, Isabella, decidiu envi-lo a Uppsala  uma mudana de ambiente, e ele foi acolhido por Harald Vanger. Harald e Martin? 
No combinava.
    No havia lugar no carro para Martin Vanger ir  reunio de famlia em Hedestad. Ele perdeu o trem e s chegou  tarde; foi um dos que estavam retidos no outro 
lado da ponte na hora do acidente. S conseguiu chegar  ilha por volta das seis, de barco. Foi recebido, entre outros, pelo prprio Henrik Vanger. Por causa disso, 
Henrik colocou-o bem embaixo na lista dos que podiam ter alguma relao com o desaparecimento de Harriet.
    Martin Vanger afirmou no ter encontrado Harriet naquele dia. Ele mentia. Chegou a Hedestad mais cedo e foi visto pela irm na rua da Estao. Mikael podia refutar 
sua mentira com fotos que haviam ficado enterradas durante quase quarenta anos.
    Harriet Vanger viu o irmo e isso a chocou. Ela voltou  ilha e tentou falar com Henrik Vanger, porm desapareceu antes que a conversa ocorresse. O que pretendia 
contar? Uppsala? Mas Lena Andersson, Uppsala, no estava na sua lista. Voc no estava sabendo.
    A histria ainda no fazia sentido para Mikael. Harriet desapareceu por volta das trs da tarde. Havia provas de que Martin estava do outro lado da ponte nessa 
hora. Ele  visto em fotografias tiradas do ptio da igreja. Era impossvel que pudesse ter feito mal a Harriet na ilha. Faltava ainda uma pea do quebra-cabea. 
Um cmplice ento? Anita Vanger?
    
    
    Os arquivos permitiram a Lisbeth constatar que a posio de Gottfried Vanger no grupo havia mudado ao longo dos anos. Ele nascera em 1927. Aos vinte anos, conheceu 
Isabella e logo a engravidou. Martin Vanger nasceu em 1948 e os dois jovens no tiveram outra sada seno casar.
    Gottfried tinha vinte e dois anos quando Henrik o introduziu no escritrio central do grupo. Era muito talentoso e comeavam a consider-lo um futuro lder. 
Aos vinte e cinco anos, assegurou um lugar na direo, como diretor adjunto da rea de desenvolvimento de empresas. Uma estrela em ascenso.
    Em determinado momento, em meados dos anos 1950, sua carreira se interrompeu. Passou a beber. O casamento com Isabella se deteriorava. Os filhos, Martin e Harriet, 
padeciam com isso. Henrik deu um basta. A carreira de Gottfried atingira seu ponto culminante. Em 1956, outro cargo de diretor adjunto de desenvolvimento foi criado. 
Dois diretores adjuntos  um que trabalhava e outro que bebia e permanecia ausente por longos perodos.
    Mas Gottfried continuava sendo um Vanger, alm disso charmoso e bem-falante. De 1957 em diante, sua misso parecia ter sido percorrer o pas para inaugurar fbricas, 
resolver conflitos locais e mostrar a todos que a direo do grupo levava a srio os problemas e se preocupava. Enviamos um de nossos filhos para escutar as queixas 
de vocs.
    Ela descobriu a segunda ligao por volta das seis e meia da tarde. Gottfried havia participado de negociaes em Karlstad, onde o grupo Vanger adquirira uma 
empresa de madeiras para construo. No dia seguinte, a proprietria rural Magda Lovisa Sjberg foi encontrada assassinada.
    A terceira ligao foi descoberta quinze minutos depois. Uddevalla, 1962. No mesmo dia em que Lea Persson desapareceu, o jornal local entrevistava Gottfried 
acerca de uma possvel extenso do porto.
    Trs horas depois, Lisbeth Salander constatava que Gottfried Vanger, pelo menos em cinco dos oito crimes, estivera nas localidades nos dias que antecediam ou 
sucediam ao acontecimento. No obteve nenhuma informao sobre os assassinatos de 1949 e 1954. Examinou uma foto dele num recorte de imprensa. Um homem magro de 
cabelos castanhos; lembrava um pouco Clark Gable em ...E o vento levou.
    Em 1949, Gottfried tinha vinte e dois anos. O primeiro crime ocorreu em terreno conhecido, Hedestad. Rebecka Jacobsson, empregada de escritrio do grupo Vanger. 
Onde se encontraram? O que teria prometido a ela?
    Quando Bodil Lindgren quis fechar o local e voltar para casa s sete, Lisbeth lhe respondeu secamente que no havia terminado. Que fosse embora e deixasse uma 
chave; ela fecharia tudo ao sair. A responsvel pelos arquivos ficou to irritada com o fato de uma moa se achar no direito de lhe dar ordens, que telefonou a Dirch 
Frode para pedir instrues. Frode decidiu prontamente que Lisbeth podia ficar a noite toda, se julgasse necessrio. A srta. Lindgren poderia fazer a gentileza de 
avisar o guarda do escritrio para que a acompanhasse no momento em que ela quisesse sair?
    Lisbeth Salander mordeu o lbio inferior. O problema, evidentemente, era que Gottfried se afogara numa noite de bebedeira em 1965, enquanto o ltimo crime ocorrera 
em Uppsala em fevereiro de 1966. Teria cometido um engano ao incluir a colegial de dezessete anos, Lena Andersson, na lista? No. A assinatura no era exatamente 
a mesma, porm a pardia bblica era idntica. Havia com certeza uma ligao.
    
    
    Nove da noite, anoitecia. O ar estava mais fresco e uma chuva mida comeou a cair. Mikael estava sentado na cozinha, tamborilando na mesa com os dedos, quando 
o Volvo de Martin Vanger atravessou a ponte e desapareceu em direo ao promontrio. De certo modo, as coisas estavam caminhando rpido.
    Mikael no sabia como agir. Todo o seu corpo ardia de vontade de fazer perguntas  de confrontar. Uma atitude certamente pouco razovel, se suspeitava que Martin 
Vanger era um louco que assassinara a irm e uma jovem em Uppsala, alm de haver tentado matar o prprio Mikael. Mas Martin Vanger funcionava tambm como um m. 
E ele no sabia que Mikael sabia. Mikael podia perfeitamente passar na casa dele com um pretexto... digamos, devolver a chave da cabana de Gottfried? Mikael trancou 
a porta e dirigiu-se ao promontrio.
    A casa de Harald Vanger estava, como de hbito, mergulhada na mais completa escurido. Tambm no havia luzes na casa de Henrik, com exceo de um quarto que 
dava para o ptio. Anna fora deitar-se. A casa de Isabella, s escuras. Cecilia no estava em casa. Havia luzes no primeiro andar da casa de Alexander Vanger, mas 
elas estavam apagadas nas duas casas habitadas por pessoas que no pertenciam  famlia Vanger. Ele no avistou ningum.
    Hesitante, deteve-se diante da casa de Martin Vanger, pegou o celular e digitou o nmero de Lisbeth Salander. Continuava no atendendo. Desligou o celular para 
evitar que tocasse.
    Luzes estavam acesas no andar de baixo. Mikael atravessou a relva e parou a alguns metros da janela da cozinha, porm no viu nenhum movimento. Contornou a casa 
detendo-se diante de cada janela, mas no via Martin Vanger. Contudo, percebeu que a porta lateral da garagem estava entreaberta. No v fazer uma besteira agora. 
Mas no resistiu  tentao de dar uma espiada rpida.
    A primeira coisa que viu, numa bancada de marceneiro, foi uma caixa aberta com munio para rifle de caa. A seguir, viu dois gales de gasolina no cho, embaixo 
da bancada. Est preparando outra visita noturna, Martin?
     Entre, Mikael. Vi voc na estrada.
    O corao de Mikael parou. Ele virou lentamente a cabea e viu Martin Vanger na penumbra de uma porta que levava ao interior da casa.
     No conseguiu se conter, precisava vir at aqui, no  mesmo? A voz era calma, quase amistosa.
     Oi, Martin  respondeu Mikael.
     Entre  repetiu Martin.  Por aqui.
    Deu um passo para o lado e estendeu a mo esquerda num gesto convidativo. Levantou a mo direita e Mikael viu um reflexo de metal fosco.
     Para a sua informao,  uma Glock. No faa besteira. A essa distncia eu no costumo errar o alvo.
    Mikael se aproximou devagar. Quando estava bem perto de Martin Vanger, parou e o olhou nos olhos.
     Eu precisava vir. Tenho uma poro de perguntas a lhe fazer.
     Entendo. Pela porta, venha.
    Mikael entrou lentamente na casa. A passagem conduzia ao vestbulo e depois  cozinha, mas antes de chegar l Martin o deteve pondo de leve a mo em seu ombro.
     No, na cozinha no. Entre  direita. Abra a porta ao lado.
    O poro. Mikael havia descido metade da escada quando Martin girou um interruptor e as luzes se acenderam. A direita ficava a caldeira. A sua frente, sentiu 
o cheiro da lavanderia. Martin Vanger o conduziu  esquerda, a um pequeno quarto com velhos mveis e pastas. Bem ao fundo havia outra porta. Uma porta blindada de 
ao com uma fechadura de segurana.
     Tome  disse Martin, jogando um molho de chaves para Mikael.  Abra.
    Mikael abriu a porta.
     H um interruptor  esquerda. Mikael acabava de abrir a porta do inferno.
    
    
    Por volta das nove da noite, Lisbeth foi buscar um caf e um sanduche numa mquina automtica que havia no corredor dos arquivos. Continuou a folhear velhos 
documentos, tentando encontrar algum sinal de Gottfried Vanger em Kalmar, em 1954. No encontrou nada.
    Pensou em ligar para Mikael, mas antes de ir embora decidiu dar uma olhada tambm nos boletins de diretoria; ento seria o suficiente para essa noite.
    
    
    A pea media cerca de cinco metros por dez. Mikael calculou que, geograficamente, ela ficava no lado norte da casa.
    Martin Vanger montara com capricho sua cmara de tortura particular. A esquerda, correntes, argolas de metal no teto e no cho, uma mesa com correias de couro 
onde podia amarrar suas vtimas. Havia tambm um equipamento de vdeo. E um estdio de gravao. No fundo da pea via-se uma jaula de ao onde seus hspedes podiam 
ficar aprisionados por longos perodos. A direita da porta, uma cama e um aparelho de tev. Numa prateleira, Mikael viu uma grande quantidade de videocassetes.
    Assim que entraram, Martin Vanger apontou a pistola para Mikael e ordenou que se deitasse de bruos no cho. Mikael se recusou.
     Como quiser  disse Martin.  Nesse caso, vou dar um tiro no seu joelho.
    Apontou a arma. Mikael capitulou, no tinha escolha.
    Ele havia esperado que Martin se descuidasse por um dcimo de segundo  sabia que numa luta corporal o venceria. Houvera uma pequena oportunidade no corredor, 
no momento em que Martin ps a mo em seu ombro, mas ele hesitou. Depois Martin no voltou a se aproximar. Sem rtula, ele no teria a menor chance. Assim, estendeu-se 
no cho.
    Martin aproximou-se por trs e mandou Mikael pr as mos nas costas. Imobilizou-as com algemas. Comeou ento a lhe dar pontaps na virilha e a lhe desferir 
socos violentos.
    O que se passou a seguir foi como um pesadelo. Martin Vanger oscilava entre a racionalidade e a loucura. Em alguns momentos parecia calmo. No instante seguinte, 
comeava a andar de um lado para o outro do poro como uma fera enjaulada, voltando a chutar Mikael. Tudo que ele conseguiu fazer foi tentar proteger a cabea e 
receber os golpes em outras partes do corpo, que, depois de alguns minutos, apresentavam diversos ferimentos.
    Durante a primeira meia hora, Martin no disse uma s palavra e permaneceu insensvel a tudo o que Mikael dissesse. Depois pareceu se acalmar. Foi buscar uma 
corrente, passou-a em volta do pescoo de Mikael, fixou-a a uma argola no cho e depois fechou com um cadeado. Deixou Mikael sozinho por quinze minutos. Ao retornar, 
trazia uma garrafa plstica com gua. Sentou-se numa cadeira e contemplou Mikael enquanto bebia.
     Posso beber um pouco de gua?  perguntou Mikael.
    Martin Vanger inclinou-se e ps a garrafa na boca de Mikael. Ele bebeu sofregamente.
     Obrigado.
     Sempre bem-educado, Super-Blomkvist.
     Por que todos esses chutes?  perguntou Mikael.
     Porque me deixou muito zangado e merece ser punido. Por que simplesmente no voltou para a sua casa? Precisavam de voc na Millennium. Falo srio, poderamos 
ter feito dela uma grande revista. Poderamos ter trabalhado juntos por muitos anos.
    Mikael fez uma careta e procurou acomodar o corpo numa posio confortvel. Estava sem defesa. S lhe restava a voz.
     Imagino que esteja querendo dizer que a ocasio j passou  disse Mikael.
    Martin Vanger riu.
     Sinto muito, Mikael. Sim, voc entendeu bem: voc no vai sair vivo daqui.
    Mikael assentiu com a cabea.
     Mas como fizeram para me desmascarar, voc e aquela mmia anorxica que se envolveu na histria?
     Voc mentiu sobre o que fez no dia em que Harriet desapareceu. Posso provar que estava em Hedestad no desfile da Festa das Crianas. Foi fotografado olhando 
para Harriet.
     Por isso voc foi a Norsj?
     Sim, para buscar essa foto. Foi tirada por um casal que estava por acaso em Hedestad. Apenas de passagem.
    Martin Vanger balanou a cabea.
     No, voc est tentando me enganar  disse.
    Mikael refletia intensamente no que poderia dizer para impedir, ou ao menos retardar, sua morte.
     Onde est essa foto agora?
     O negativo? No meu cofre no Handelsbank, aqui em Hedestad... No sabia que tenho um cofre no banco?  Ele mentia com desenvoltura.  As cpias esto em vrios 
lugares: no meu computador e no de Lisbeth, no servidor de imagens da Millennium e no da Milton Security, onde Lisbeth trabalha.
    Martin Vanger calou-se por um momento, tentando descobrir se Mikael blefava ou no.
     O que ela sabe, a mmia Salander?
    Mikael hesitou. Por enquanto, Lisbeth era sua nica esperana de salvao. O que ela faria ao voltar para casa e descobrir que ele no estava? Ele deixara a 
foto de Martin vestido com sua jaqueta na mesa da cozinha. Ela faria a ligao? Dispararia o alarme? Ela no  do tipo que chama a polcia. O pesadelo seria se ela 
fosse  casa de Martin e batesse  porta para tentar saber onde Mikael estava.
     Responda  disse Martin com uma voz gelada.
     Acho que Lisbeth sabe o mesmo que eu, talvez at mais. Eu diria que ela sabe mais que eu,  muito esperta. Foi ela quem fez a ligao com Lena Andersson.
     Lena Andersson?  Martin Vanger pareceu perplexo.
     A adolescente que voc torturou at a morte em Uppsala, em fevereiro de 1966. No me diga que se esqueceu dela.
    Pela primeira vez o olhar de Martin Vanger deixou transparecer o quanto ele estava perturbado. Ele no imaginava que algum pudesse fazer essa ligao  Lena 
Andersson no constava na agenda telefnica de Harriet.
     Martin  disse Mikael com a voz mais calma possvel.  Acabou, Martin. Voc pode me matar, mas acabou. Muita gente est sabendo, e desta vez voc ser pego.
    Martin Vanger ergueu-se rapidamente e comeou a andar de um lado para o outro. De repente desferiu um murro na parede.
    Preciso me lembrar de que ele  irracional. O gato. Poderia ter trucidado o gato aqui, mas o levou  capela da famlia. Ele no age de maneira racional.
    Martin Vanger deteve-se.
     Acho que voc est mentindo. S voc e Salander esto sabendo. No falaram para mais ningum. Seno a polcia j teria aparecido. Um bom incndio na casa dos 
convidados e as provas vo virar fumaa.
     E se voc estiver enganado? Ele sorriu.
     Se eu estiver enganado, ento de fato acabou. Mas no acredito nisso. Aposto que voc est blefando. Que outra escolha me resta?  Ele refletiu.   essa putinha 
anorxica que est me atrapalhando. Preciso encontr-la.
     Ela foi para Estocolmo ao meio-dia. Martin Vanger deu uma risada.
      mesmo? Ento por que passou a tarde nos arquivos do grupo Vanger?
    O corao de Mikael saltou no peito. Ele sabia. Sabia desde o incio.
      verdade. Ela primeiro ia passar nos arquivos e depois seguir para Estocolmo  respondeu Mikael o mais calmamente que pde.  Eu no sabia que ia ficar tanto 
tempo l.
     Cale-se. A responsvel pelos arquivos me contou que Dirch Frode a autorizou a deixar Salander ficar l at tarde, se ela quisesse. Isso significa que ela voltar 
a qualquer momento esta noite. O guarda me avisar assim que ela deixar o escritrio.
    
   IV.         TAKEOVER HOSTIL 
             11 DE JULHO A 30 DE DEZEMBRO
    
    
    
    
Na Sucia, 92% das mulheres que sofreram violncias sexuais aps uma agresso no apresentaram queixa a polcia.
    
   24.         SEXTA-FEIRA 11 DE JULHO 
             SBADO 12 DE JULHO
    
    
    Martin Vanger se abaixou para vasculhar os bolsos de Mikael e pegou as chaves.
     Esperteza sua trocar a fechadura. Vou me encarregar da sua namorada quando ela voltar.
    Mikael no respondeu. Lembrou-se que Martin Vanger era um negociador com experincia em muitas batalhas industriais. Sabia quando estavam blefando com ele.
     Por qu?
     Por que o qu?
     Por que tudo isto?  Mikael tentou indicar a pea com um gesto de cabea.
    Martin Vanger se abaixou, ps a mo sob o queixo de Mikael e ergueu-lhe a cabea para que seus olhares se cruzassem.
     Porque  muito fcil  disse.  Mulheres desaparecem o tempo todo. Elas no fazem falta a ningum. Imigrantes, prostitutas russas. Milhares de pessoas passam 
pela Sucia todos os anos.
    Soltou a cabea de Mikael e levantou-se, quase orgulhoso de poder esclarecer seu visitante.
    As palavras de Martin atingiram Mikael como uma bofetada. Meu Deus, ento no se trata de um enigma histrico. Martin Vanger mata mulheres at hoje. E eu, como 
um idiota, me lancei em...
     No tenho nenhuma convidada no momento. Mas talvez voc ache divertido saber que no inverno passado e na primavera, enquanto voc e Henrik quebravam a cabea 
com suas histrias, eu tinha uma mulher aqui. Chamava-se Irina e era da Bielo-Rssia. No dia em que voc veio jantar comigo, ela estava presa aqui na jaula. Foi 
uma noitada agradvel, no foi?
    Martin Vanger sentou em cima da mesa e deixou pender as pernas. Mikael fechou os olhos. Sentiu regurgitaes cidas na garganta e engoliu vrias vezes.
     O que faz com os corpos?
     Meu barco est amarrado no ponto logo abaixo. Levo-as para longe, ao largo. Ao contrrio do meu pai, no deixo vestgios. Mas ele tambm era esperto. Suas 
vtimas se espalhavam por toda a Sucia.
    As peas do quebra-cabea comeavam a se juntar na mente de Mikael. Gottfried Vanger. De 1949 a 1965. Martin Vanger a partir de 1966, em Uppsala.
     Voc admirava seu pai.
     Foi ele quem me ensinou. Fui iniciado aos catorze anos.
     Uddevalla. Lea Persson.
     Isso mesmo, eu estava l. Fui apenas um espectador, mas estava l.
     Em 1964, Sara Witt, em Ronneby.
     Eu tinha dezesseis anos. Foi a primeira vez que tive uma mulher para mim. Gottfried me ensinou. Fui eu que a estrangulei.
    Ele se orgulha! Meu Deus, que famlia de psicopatas!
     No percebe que  patolgico?
    Martin Vanger encolheu ligeiramente os ombros.
     Voc no entende que sensao divina  ter o controle absoluto sobre a vida e a morte de algum.
     O prazer de torturar e matar mulheres...
    O industrial refletiu um instante, com o olhar fixo num ponto vazio da parede atrs de Mikael. Depois exibiu seu sorriso charmoso.
     No  bem assim. Se eu fosse fazer uma anlise racional do meu estado, eu diria que sou um estuprador serial, no um assassino serial. Na verdade, sou um sequestrador 
serial. Matar  apenas o desfecho natural, porque devo ocultar o crime, entende?
    Mikael no soube o que responder e limitou-se a assentir com a cabea.
     Evidentemente meus atos no so aceitveis pela sociedade, mas meu crime  em primeiro lugar um crime contra as convenes sociais. A morte s acontece no 
final da temporada de minhas hspedes aqui, quando estou cansado.  sempre fascinante ver a decepo delas.
     Decepo?  perguntou Mikael, estupefato.
     Exatamente. Decepo. Elas imaginam que, porque me satisfazem, vo sobreviver. Comeam a confiar em mim e a criar uma camaradagem, e at o final esperam que 
essa camaradagem signifique algo. A decepo vem quando descobrem, de repente, que foram enganadas.
    Martin deu a volta em torno da mesa e se apoiou na jaula de ao.
     Voc, com suas convenes pequeno-burguesas, nunca vai entender, mas  planejar o sequestro que produz a excitao. No se deve agir impulsivamente; sequestradores 
desse tipo sempre se do mal.  uma verdadeira cincia, com muitos detalhes a se levar em conta. Devo identificar uma presa e catalogar toda a sua vida. Quem  ela? 
De onde vem? Onde peg-la? Como fazer para estar a ss com ela sem que meu nome aparea num futuro inqurito policial?
    Chega, pensou Mikael. Martin Vanger falava de sequestros e assassinatos num tom quase acadmico, um pouco como se tivesse expondo sua opinio contrria numa 
questo de teologia esotrica.
     Ser que isso realmente te interessa, Mikael?
    E inclinou-se para a frente acariciando o rosto de Mikael. O contato da mo era suave, quase terno.
     Tenho certeza de que voc compreende que esse caso s pode terminar de uma maneira. Se importa que eu fume?
    Mikael disse no com a cabea.
     Pode me dar um cigarro tambm?  perguntou Mikael.
    Martin Vanger atendeu o pedido. Acendeu dois cigarros e ps um deles entre os lbios de Mikael, deixando-o dar uma longa tragada.
     Obrigado  disse Mikael automaticamente. Martin Vanger riu de novo.
     Veja s, voc j comeou a se adaptar ao princpio da submisso.
    Tenho a sua vida em minhas mos, Mikael. Sabe que posso mat-lo de um momento para o outro. Suplicou que eu melhorasse sua qualidade de vida e fez isso utilizando 
a razo e as boas maneiras. Foi recompensado.
    Mikael assentiu com a cabea. Seu corao batia desordenadamente, era quase insuportvel.
    
    
    s onze e quinze da noite, Lisbeth Salander bebeu um gole de gua da sua garrafa enquanto virava as pginas. De repente viu algo que a fez arregalar os olhos, 
mas, ao contrrio do que acontecera com Mikael naquele mesmo dia, no engasgou quando estabeleceu a relao.
    Clique!
    Durante duas horas ela percorrera boletins administrativos das vrias empresas do grupo Vanger. A publicao principal intitulava-se Informaes do grupo Vanger 
e trazia o logotipo do grupo  uma bandeira sueca flutuando ao vento e cuja ponta formava uma flecha. A revista fora claramente concebida pelo departamento de comunicao 
do grupo como veculo de propaganda destinado a garantir que os funcionrios se sentissem membros de uma grande famlia.
    Nas frias de inverno de fevereiro de 1967, Henrik Vanger, num gesto magnnimo, convidara cinquenta funcionrios da sede para passar uma semana na estao de 
esqui de Hrjedalen com suas famlias. Motivo do convite: o grupo obtivera resultados recordes no ano precedente e ele queria agradecer os esforos de todos. O departamento 
de comunicao, tambm presente, fazia uma reportagem fotogrfica do evento.
    Havia muitas fotos das pistas de esqui com legendas divertidas. Algumas foram tiradas no bar, onde se viam homens risonhos, com o rosto marcado pelo frio, erguendo 
canecas de cerveja. Duas fotos de uma pequena cerimnia matinal em que Henrik Vanger premiava, como "A Funcionria de Escritrio do Ano", uma secretria chamada 
Ulla-Britt Mogren, de quarenta e um anos. Ela recebia um prmio de quinhentas coroas e uma saladeira de vidro.
    A entrega do prmio fora no terrao do hotel, aparentemente pouco antes de as pessoas se lanarem de novo nas pistas de esqui. Havia umas vinte pessoas na foto. 
A direita, logo atrs de Henrik Vanger, achava-se um homem de cabelos compridos louros. Vestia uma jaqueta escura com um tom diferente nos ombros. Embora a foto 
fosse em preto-e-branco, Lisbeth Salander teve a certeza e podia apostar que era vermelho.
    A legenda dizia: Bem  direita, Martin Vanger, 19 anos, estudante de Uppsala. J  considerado algum com um futuro muito promissor na direo do grupo.
     Agora te peguei, safado  disse Lisbeth Salander em voz baixa.
    Ela apagou a luz da sala e deixou os boletins administrativos espalhados em cima da mesa  aquela cretina da Bodil Lindgren que d um jeito nisto amanh!
    Foi para o estacionamento por uma porta lateral. Enquanto se encaminhava para a sua moto, lembrou que havia prometido avisar o guarda quando sasse. Parou e 
olhou para o estacionamento. O guarda estava do outro lado do prdio. Isso significava que ela seria obrigada a retornar e dar toda a volta. Foda-se!
    Ao chegar  moto, pegou o celular e chamou o nmero de Mikael. Uma voz anunciou que o aparelho no estava disponvel. Mas ela descobriu que Mikael havia tentado 
cham-la treze vezes entre as trs e meia da tarde e s nove da noite. Nas ltimas duas horas ele no fizera chamadas.
    Lisbeth digitou o nmero do telefone fixo da casa dos convidados, mas ningum atendeu. Franziu o cenho, ps a mochila com o computador nas costas, o capacete, 
e ligou a moto. Levou dez minutos para ir do escritrio Vanger, na zona industrial de Hedestad, at a ilha. Havia luz na cozinha, porm a casa estava vazia.
    Lisbeth Salander saiu para dar uma espiada no lado externo da casa. Seu primeiro pensamento foi que Mikael fora  casa de Dirch Frode, mas da ponte constatou 
que as luzes da casa de Frode, na outra margem, estavam apagadas. Olhou seu relgio: onze e quarenta.
    Voltou para casa, abriu o armrio e examinou os laptops que armazenavam as imagens das cmeras de segurana. No precisou mais de um momento para estabelecer 
a sequncia dos acontecimentos.
    s 15h32, Mikael chegou em casa.
    s 16h03, saiu para beber um caf no jardim. Levava consigo uma pasta, que examinava. Deu trs breves telefonemas durante a hora em que esteve no jardim. Pelo 
horrio, as trs chamadas correspondiam, aproximadamente, s que ela no atendera.
    s 17h21, Mikael saiu. Voltou um pouco menos de quinze minutos depois.
    s 18h20, foi at o porto e olhou para o lado da ponte.
    s 21h03, saiu outra vez. No voltou mais.
    Lisbeth passou rapidamente as imagens do segundo computador, que mostravam o porto e a estrada. Ela podia ver as idas e vindas de outras pessoas durante o dia.
    s 19h12, Gunnar Nilsson chegou em sua casa.
    s 19h42, algum no Saab da fazenda de stergarden partiu em direo a Hedestad.
    s 20h02, o carro estava de volta  uma ida at a loja de convenincias do posto de gasolina?
    A seguir, nada mais at as nove em ponto, quando o carro de Martin Vanger passou. Trs minutos depois, Mikael saiu de casa.
    Cerca de uma hora depois, s 21h50, Martin Vanger apareceu de repente no campo da objetiva. Ficou diante do porto por um minuto, contemplando a casa e olhando 
pela janela da cozinha. Depois dirigiu-se  porta da frente, tentando abri-la com uma chave. Deve ter percebido que a fechadura fora trocada e ficou imvel por um 
instante, antes de se virar e ir embora.
    Lisbeth Salander sentiu, de repente, um frio na barriga.
    
    
    Mikael fora deixado novamente sozinho por longo tempo. Estava estendido, imvel, em sua posio desconfortvel, com as mos algemadas s costas e o pescoo preso 
 argola no cho por uma corrente fina. Moveu as algemas, mesmo sabendo que no conseguiria abri-las. Estavam to apertadas que ele perdera a sensibilidade nas mos.
    No tinha nenhuma chance. Fechou os olhos.
    No soube dizer quanto tempo transcorreu at ouvir de novo os passos de Martin Vanger. O empresrio surgiu em seu campo de viso. Tinha um ar preocupado.
     Desconfortvel?  ele perguntou.
     Sim  respondeu Mikael.
      o nico culpado por isso. Deveria ter voltado para Estocolmo.
     Por que voc gosta de matar, Martin?
      uma escolha que eu fiz. Poderia ficar aqui discutindo com voc a noite toda sobre os aspectos morais e o sentido racional dos meus atos, e isso no alteraria 
em nada os fatos. Tente ver as coisas desse modo: o ser humano  um invlucro de pele que acondiciona clulas, sangue e componentes qumicos. Algumas pessoas, raras, 
conservam-se nos livros de histria. A grande maioria sucumbe e desaparece sem deixar sinal.
     Voc mata mulheres.
     Ns, que matamos por prazer, pois no sou o nico a me dedicar a esse passatempo, levamos uma vida de intensidade mxima.
     Mas por que Harriet, sua prpria irm?
    O rosto de Martin alterou-se de repente. Num salto, aproximou-se de Mikael e o pegou pelos cabelos.
     O que aconteceu a ela?
     Que est querendo dizer?  arquejou Mikael.
    Tentou virar a cabea para diminuir a dor no couro cabeludo. A corrente logo se esticou em volta de seu pescoo.
     Voc e Salander. O que vocs descobriram?
     Solte-me, no consigo falar.
    Martin Vanger soltou os cabelos de Mikael e sentou-se diante dele com as pernas cruzadas. Ento pegou uma faca e ps a ponta dela na pele bem debaixo do olho 
de Mikael, que fez um esforo para olhar Martin.
     O que aconteceu a ela, seu filho-da-puta?
     No entendo. Achei que voc a tivesse matado.
    Martin Vanger fixou Mikael por um longo momento, depois relaxou. Levantou-se e ps-se a caminhar pelo poro enquanto refletia. Ento jogou a faca no cho, riu 
e voltou-se para Mikael.
     Harriet, Harriet, sempre essa maldita Harriet. Tentamos... convenc-la. Gottfried tentou ensin-la. Achamos que era uma das nossas e que aceitaria seu dever, 
mas ela no passava de uma... putinha ordinria. Achei que a tinha sob controle, mas ela estava planejando avisar Henrik e percebi que no podia confiar nela. Cedo 
ou tarde ela falaria de mim.
     E ento a matou.
     Eu quis mat-la. Tinha a inteno de fazer isso, mas cheguei tarde demais. No consegui vir para a ilha.
    O crebro de Mikael tentava assimilar a informao, mas era como se uma janela se abrisse e anunciasse: memria insuficiente. Martin Vanger no sabia o que acontecera 
 irm!
    De repente, Martin tirou o celular do casaco, examinou a tela e o colocou sobre a cadeira ao lado da pistola.
     Chegou a hora de liquidar esse assunto. Preciso de um tempo para me encarregar tambm da sua companheira anorxica ainda esta noite.
    Abriu um armrio, tirou uma correia de couro e passou-a com um n corredio em volta do pescoo de Mikael, desatando a corrente que o prendia ao cho. Fez Mikael 
levantar-se e o empurrou contra a parede. Passou a correia por uma argola acima da cabea de Mikael e a esticou, obrigando-o a ficar na ponta dos ps.
     Est muito apertado? No consegue respirar?  Afrouxou um centmetro ou dois e prendeu a ponta da correia mais abaixo na parede.  No quero que morra asfixiado 
daqui a pouco.
    O lao apertava o pescoo de Mikael com tanta fora que ele no conseguia falar. Martin Vanger o observou atentamente.
    Com um gesto brusco, desatou o cinto da cala de Mikael e a abaixou juntamente com a cueca. Mikael perdeu o equilbrio e pendeu por um segundo no n corredio, 
antes que os dedos do p voltassem a tocar o cho. Martin Vanger foi buscar uma tesoura num mvel. Cortou a camiseta de Mikael e jogou os retalhos no cho. Depois 
postou-se a alguma distncia e contemplou sua vtima.
     Nunca tive um homem aqui  disse Martin com uma voz grave.  Nunca toquei outro homem... a no ser meu pai. Era meu dever.
    As tmporas de Mikael latejavam. Ele no podia apoiar o peso do corpo nos ps sem se estrangular. Tentou achar um ponto onde se segurar na parede de concreto 
s suas costas, mas no encontrou nada.
     Chegou a hora  disse Martin Vanger.
    Ps a mo sobre a correia e a pressionou. Mikael sentiu o lao apertar ainda mais seu pescoo.
     Sempre quis saber qual  o gosto de um homem.
    Pressionou ainda mais a correia, inclinou-se para a frente e beijou Mikael na boca, bem no momento em que uma voz cortante soou no poro.
     Seu canalha... Voc deveria saber que s eu tenho o direito de fazer isso.
    Mikael ouviu a voz de Lisbeth atravs de uma neblina vermelha. Conseguiu focalizar os olhos e a viu de p  porta. Ela fitava Martin Vanger com um olhar inexpressivo.
     No... corra!  grasnou Mikael.
    Ele no viu a expresso de Martin Vanger, mas sentiu fisicamente o choque que percorreu o corpo dele quando se virou. Por um segundo, Martin ficou imvel, depois 
estendeu a mo para alcanar a pistola que deixara em cima da cadeira.
    Num relmpago, Lisbeth deu trs passadas e ergueu um taco de golfe que trazia escondido. O taco descreveu um amplo crculo no ar e atingiu Martin na clavcula. 
O golpe foi fortssimo, Mikael ouviu quebrar-se alguma coisa. Martin Vanger urrou.
     Gosta de dor?  perguntou Lisbeth Salander.
    Sua voz era spera como uma lixa. Enquanto vivesse, Mikael jamais esqueceria o rosto dela no momento do ataque. Lisbeth mostrou os dentes como uma fera. Os olhos 
eram negros e brilhantes. Movia-se com a rapidez de uma aranha e parecia inteiramente concentrada em sua presa quando desferiu um novo golpe em Martin Vanger, nas 
costelas.
    Ele tropeou na cadeira e estatelou-se no cho. A pistola caiu diante de Lisbeth, que, com o p, atirou-a para longe.
    Ela o golpeou ento uma terceira vez, no momento em que Martin tentava se levantar. Um estalo indicou que o atingira no quadril. Martin emitiu um som terrvel. 
O quarto golpe se abateu sobre suas costas.
     Lis... errth...  arquejou Mikael.
    Ele estava perdendo a conscincia, e a dor nas tmporas era quase insuportvel.
    Lisbeth virou-se para ele e viu seu rosto vermelho, cor de tomate, os olhos esbugalhados de pavor e a lngua comeando a sair pela boca.
    Lanou um olhar rpido em volta e viu a faca no cho. Olhou brevemente para Martin Vanger, que havia se ajoelhado e tentava escapar, com um brao pendendo frouxamente. 
Ele no seria um problema muito srio nos prximos segundos. Soltou o taco e pegou a faca. Embora tivesse a ponta afiada, ela estava quase sem fio. Lisbeth ficou 
na ponta dos ps e tentou febrilmente cortar a correia. Demorou alguns segundos at Mikael conseguir se apoiar no cho. Mas o n corredio continuava prendendo seu 
pescoo.
    
* * *
    Lisbeth Salander voltou a olhar para Martin Vanger. Ele conseguira ficar de p, porm estava curvado sobre si mesmo. Ela o ignorou e tentou enfiar os dedos entre 
a correia e o pescoo de Mikael. No incio no ousou utilizar a faca, mas por fim decidiu introduzir a ponta dela ali, esfolando a pele ao tentar desfazer o n. 
Este acabou cedendo e Mikael, num estertor, aspirou um pouco de ar.
    Por um breve instante, Mikael teve a maravilhosa sensao de unio entre corpo e esprito. Sua viso voltou a ficar perfeita, ele conseguia enxergar o menor 
gro de poeira no cmodo. Era como se cada respirao, cada roar de roupa sassem de alto-falantes direto para seus ouvidos; ele tambm sentia o cheiro da transpirao 
de Lisbeth e do couro de sua jaqueta. Depois, como um raio luminoso, o sangue afluiu novamente  cabea e seu rosto recuperou a cor normal.
    Lisbeth Salander virou a cabea no momento em que Martin fugia pela porta. Ergueu-se num salto e pegou a pistola no cho, verificando se estava carregada. Destravou-a. 
Mikael notou que ela parecia familiarizada com as armas. Olhando em volta, os olhos dela se detiveram por meio segundo nas chaves das algemas em cima da mesa.
     Eu cuido dele  disse enquanto corria em direo  porta. No caminho apanhou as chaves e as fez deslizar pelo cho, at onde Mikael estava.
    Ele tentou lhe pedir que esperasse, mas s conseguiu emitir um som rouco quando ela j havia desaparecido pela porta.
    
    
    Lisbeth no esquecera que Martin Vanger possua um rifle em algum lugar. Segurando a pistola engatilhada, ela se deteve ao chegar  passagem entre a garagem 
e a cozinha. Ficou prestando ateno, mas nenhum rudo revelou onde se achava a sua presa. Instintivamente dirigiu-se  cozinha. Quando j estava quase l, ouviu 
um carro dar a partida.
    Deu meia-volta e correu para o ptio, onde viu as luzes traseiras de um carro passando diante da casa de Henrik Vanger em direo  ponte. Correu o mais rpido 
que pde at a casa dos convidados, ps a pistola no bolso da jaqueta e no perdeu tempo com o capacete quando ligou a moto. Alguns segundos depois, atravessava 
a ponte.
    Ele estava talvez uns noventa segundos  sua frente quando ela chegou ao viaduto de acesso  rodovia E4. No o viu. Freou e desligou o motor para escutar.
    O cu estava carregado de nuvens. No horizonte despontava um comeo de aurora. Ento avistou os faris do carro de Martin Vanger na E4, na direo sul. Lisbeth 
acionou a moto e passou sob o viaduto. Estava a oitenta quilmetros por hora quando saiu da curva de acesso e entrou na pista, sem trfego naquele momento. Acelerou 
tudo. Depois de uma curva, num longo declive da estrada, atingiu cento e setenta quilmetros por hora, o mximo que sua mquina de baixa cilindrada podia alcanar. 
Dois minutos depois, avistou o carro de Martin Vanger a cerca de quatrocentos metros.
    Anlise dos parmetros. Que devo fazer agora?
    Reduziu para cento e vinte quilmetros por hora, mantendo a mesma velocidade que a dele. Em algumas curvas perdeu-o de vista por alguns segundos. Depois pegaram 
um longo trecho reto. Ela estava a uns duzentos metros atrs de Martin Vanger.
    Certamente ele viu o farol da moto, pois acelerou a marcha. Ela voltou a exigir o mximo da moto, mas nas curvas perdia terreno.
    De longe ela viu os faris de um caminho. Martin Vanger tambm viu. Inesperadamente, ele acelerou ainda mais e passou para a pista da esquerda cento e cinquenta 
metros antes do choque. Lisbeth viu o caminho frear e dar repetidos sinais de farol, mas a coliso foi inevitvel. O carro de Martin Vanger chocou-se contra o caminho 
com um estrondo terrvel.
    Lisbeth freou instintivamente ao ver o caminho virar na pista. Na velocidade em que estava, levou dois segundos para chegar ao local do acidente e por pouco 
no foi atingida pela traseira do caminho. Quando passou, viu com o canto do olho labaredas surgindo na parte dianteira.
    Continuou por mais uns cento e cinquenta metros antes de parar e se virar. Viu o motorista do caminho saltar da cabine. Ento seguiu at Akerby, dois quilmetros 
ao sul, onde entrou  esquerda para pegar a estrada velha rumo ao norte, paralela  E4. Passou pelo local do acidente e viu que dois carros haviam parado. O de Martin 
estava totalmente esmagado debaixo do caminho, envolto em labaredas enormes. Um homem tentava apagar o fogo com um pequeno extintor.
    Ela acelerou e logo estava de volta a Hedeby. Cruzou a ponte, estacionou em frente  casa dos convidados e retornou a p para a casa de Martin Vanger.

* * *
    Mikael continuava tentando se livrar das algemas. Suas mos estavam to dormentes que ele no conseguia pegar a chave. Lisbeth abriu as algemas e o manteve apertado 
contra o peito at o sangue voltar a circular por suas mos.
     E Martin?  perguntou Mikael com uma voz rouca.
     Morto. Chocou-se de frente, a cento e cinquenta por hora, contra um caminho a poucos quilmetros daqui, na E4.
    Mikael fitou-a espantado. No fazia muito tempo que ela havia sado.
     Precisamos... chamar a polcia  arquejou Mikael antes de ser tomado por um violento acesso de tosse.
     Para qu?  perguntou Lisbeth Salander.
    
    
    Mikael no conseguia se levantar. Permaneceu sentado no cho ainda por dez minutos, nu e encostado  parede. Massageou-se no pescoo e ergueu a garrafa de gua 
com dedos insensveis. Lisbeth esperou pacientemente ele se recuperar. Aproveitou para refletir.
     Vista-se.
    Ela utilizou a camiseta cortada de Mikael para limpar as impresses digitais nas algemas, na faca e no taco de golfe. Pegou a garrafa de gua.
     O que est fazendo?
     Vista-se. Est amanhecendo. Vamos, depressa.
    Mikael ergueu-se sobre as pernas cambaleantes e conseguiu vestir a cueca e a cala. Enfiou os ps nos tnis. Lisbeth ps as meias dele no bolso da jaqueta e 
perguntou:
     Tocou em alguma coisa aqui no poro?
    Mikael olhou ao redor, tentando se lembrar. Por fim, disse que no havia tocado em nada a no ser na porta e nas chaves. Lisbeth encontrou as chaves no casaco 
que Martin Vanger deixara no encosto da cadeira. Limpou meticulosamente a maaneta da porta e o interruptor, depois apagou a luz. Conduziu Mikael at o alto da escada 
e pediu-lhe que esperasse na passagem, enquanto ela recolocava o taco de golfe no lugar. Ao voltar, trazia uma camiseta escura que pertencera a Martin Vanger.
     Vista. No quero que algum te veja passeando sem camisa de madrugada.
    Mikael percebeu que estava em estado de choque. Lisbeth assumira o comando e ele obedecia a suas ordens sem discutir. Deixaram a casa de Martin Vanger. Enquanto 
caminhavam, ela o amparava com seu corpo. Quando cruzaram a porta de Mikael, ela voltou-se para ele e disse:
     Se algum nos viu e perguntar o que estvamos fazendo l fora esta noite, diga que fomos dar um passeio at o promontrio e depois transamos por l.
     Lisbeth, no posso...
     Agora v tomar um banho!
    Ajudou-o a tirar as roupas e apontou-lhe o banheiro. Depois foi preparar um caf e meia dzia de torradas com queijo, pat de fgado e pepino em conserva. Estava 
sentada  mesa da cozinha, mergulhada numa intensa reflexo, quando Mikael retornou, mancando. Ela examinou os ferimentos e as escoriaes visveis em seu corpo. 
A correia deixara uma mancha vermelha-escura em volta da garganta e a faca produzira um corte no lado esquerdo do pescoo.
     Venha  ela disse.  Deite-se na cama.
    Foi buscar curativos e cobriu a ferida com uma compressa. Depois serviu-lhe caf e estendeu-lhe uma torrada.
     No estou com fome  disse Mikael.
     Coma!  ordenou Lisbeth Salander, enquanto ela mesma dava uma grande bocada na torrada de queijo.
    Mikael fechou os olhos por alguns segundos. Depois sentou-se e mordeu a torrada. Sua garganta doa tanto que mal conseguia engolir.
     Deixe o caf esfriar um pouco. Deite-se de bruos.
    Ela ficou cinco minutos massageando-lhe as costas com uma pomada. Depois virou-o de frente para ela e administrou o mesmo tratamento na parte frontal do corpo.
     Vai ficar com alguns srios hematomas durante um bom tempo.
     Lisbeth, precisamos chamar a polcia.
     No  ela disse, e com tal determinao na voz que Mikael arregalou os olhos.  Se voc chamar a polcia, eu vou embora. No quero nada com eles. Martin Vanger 
est morto. Morreu num acidente de carro. H testemunhas. Deixe a polcia ou quem quer que seja descobrir aquela maldita cmara de tortura. Voc e eu no sabemos 
de nada, assim como os outros habitantes do povoado.
     Por qu?
    Ela ignorou a pergunta e continuou a massagear-lhe as coxas doloridas.
     Lisbeth, mas  simplesmente impossvel...
     Se voc continuar me aborrecendo, eu te levo de volta  masmorra de Martin e te acorrento de novo.
    Nem havia terminado a frase quando Mikael adormeceu, to subitamente como se tivesse desmaiado.
     
   
25.         SBADO 12 DE JULHO   
    SEGUNDA-FEIRA 14 DE JULHO
      
      
    
    Mikael despertou sobressaltado s cinco da manh e levou desesperadamente as mos ao pescoo para tirar a correia. Lisbeth foi v-lo, segurou-lhe as mos e o 
acalmou. Ele abriu os olhos e a fitou com um vago olhar. No sabia que voc jogava golfe  murmurou, voltando a fechar os olhos.
    Ela permaneceu ao lado dele por alguns minutos, ate ter certeza de que ele adormecera de novo. Enquanto Mikael estivera dormindo, ela havia retornado ao poro 
de Martin Vanger para inspecionar o local do crime. Alm dos instrumentos de tortura, havia encontrado uma coleo enorme de revistas de pornografia violenta e uma 
srie de fotos polaride coladas em lbuns. 
    No havia um dirio ntimo. No entanto ela achou duas pastas com fotos trs por quatro e anotaes sobre mulheres escritas  mo. Trouxe consigo essas pastas 
num cesto de nilon, junto com o laptop de Martin Vanger, que havia encontrado numa mesinha, no andar de cima. Depois que Mikael voltou a dormir, Lisbeth continuou 
a explorar o computador e as pastas de Martin. Eram mais de seis da manh quando desligou o computador. Acendeu um cigarro e mordeu pensativamente o lbio inferior.
    Ela e Mikael haviam se lanado  caa do que julgavam ser um assassino serial do passado, mas depararam com uma histria bem diferente. Ela mal conseguia imaginar 
os horrores que haviam acontecido no poro de Martin Vanger, em meio quele lugar idlico e bem-apresentado. 
    Ela tentava entender.
    Martin Vanger havia matado mulheres desde os anos 1960, nos ltimos quinze anos ao ritmo de uma ou duas vtimas por ano. A matana fora to discreta e bem organizada 
que ningum sequer percebera que havia um assassino serial em atividade. Como era possvel?
    As pastas sugeriam parte da resposta.
    Suas vtimas eram mulheres annimas, geralmente recm-imigradas, que no tinham amigos nem contatos sociais na Sucia. Havia tambm prostitutas e mulheres socialmente 
marginalizadas, com abuso de drogas, lcool e outros problemas existenciais.
    Em seus estudos sobre a psicologia do sadismo sexual, Lisbeth Salander aprendera que esse tipo de assassino gostava de colecionar objetos das vtimas. Eles serviam 
de suvenires utilizados para recriar em parte o gozo sentido. Martin Vanger desenvolvera essa tendncia redigindo uma compilao necrolgica. Catalogara minuciosamente 
suas vtimas, com anotaes que comentavam e descreviam seus sofrimentos, juntando a seus crimes filmes de vdeo e fotografias.
    A violncia e o assassinato eram o objetivo final, mas Lisbeth concluiu que, na realidade, a caa era o que interessava a Martin Vanger. Em seu laptop ele criara 
um banco de dados com o registro de centenas de mulheres. Havia empregadas do grupo Vanger, dos restaurantes onde ele fazia suas refeies, recepcionistas dos hotis 
onde se hospedava, funcionrias da previdncia social, secretrias de homens de negcios com quem se relacionava e uma srie de outras mulheres. Era como se Martin 
Vanger registrasse e catalogasse praticamente todas as mulheres que encontrava.
    S uma parte nfima delas havia sido assassinada, mas todas eram vtimas potenciais que ele anotava e examinava. Esse catlogo tinha o carter de uma distrao 
passional,  qual ele devia dedicar muitas horas.
    Ela  casada ou solteira? Tem filhos e uma famlia? Onde trabalha? Onde mora? Que carro dirige? Experincia profissional? Cor dos cabelos? Cor da pele? Corpulncia?
    Lisbeth percebeu que a coleta de dados pessoais das possveis vtimas devia ocupar uma parte importante das fantasias sexuais de Martin Vanger. Ele era primeiro 
um caador, depois um matador.
    Quando Lisbeth terminou de ler, encontrou um pequeno envelope numa das pastas. Dentro dele havia duas fotos polaride com as pontas amassadas e amarelecidas. 
Na primeira via-se unia jovem morena sentada a uma meia. Vestia uma cala escura e estava com o torso nu, deixando ver pequenos seios. Ela desviava o rosto da objetiva 
e fazia meno de levantar um brao para se proteger, como se o fotgrafo a tivesse surpreendido com a mquina. Na segunda foto, ela tambm estava com o torso nu, 
mas deitada de bruos numa cama com uma colcha azul. O rosto tambm fugia da objetiva.
    Lisbeth ps o envelope com as fotos no bolso da jaqueta. Ento introduziu as pastas no aquecedor a lenha, riscou um fsforo, deixou que se consumissem e retirou 
as cinzas. Chovia forte quando ela saiu de casa para jogar, discretamente, o laptop de Martin Vanger nas guas sob a ponte.
    Quando Dirch Frode abriu com um golpe seco a porta da frente, Lisbeth fumava um cigarro diante de seu caf  mesa da cozinha. O rosto de Krode estava cor de 
cinza e ele parecia algum que fora despertado brutalmente.
     Onde est Mikael?  perguntou.
     Dormindo.
    Dirch Frode desabou numa cadeira. Lisbeth encheu uma xcara de caf e a empurrou na direo dele.
     Martin... Acabo de saber que Martin se matou quando dirigia seu carro esta noite.
     Que triste  disse Lisbeth antes de beber um gole de caf.
    Dirch Frode ergueu os olhos. Primeiro olhou-a perplexo. Depois seus olhos se arregalaram.
     Como...?
     Houve um acidente. Um acidente estpido.
     Voc sabe o que aconteceu?
     Ele se atirou na frente de um caminho. Suicidou-se. A presso, o estresse e um imprio financeiro em declnio, tudo isso deve ter sido demais para ele. Em 
todo caso, acho que  o que diro as manchetes.
    Dirch Frode parecia a ponto de um ataque de fria. Levantou-se vivamente e foi abrir a porta do quarto.
     Deixe-o dormir  disse Lisbeth com voz firme.
    Frode olhou o corpo adormecido. Viu hematomas e ferimentos no torso de Mikael, a marca vermelha deixada pela correia no pescoo. Lisbeth tocou o brao dele e 
voltou a fechar a porta. Frode recuou e sentou-se devagar, prostrado, no banco.
    Lisbeth Salander contou rapidamente o que se passara durante a noite. Fez uma descrio detalhada da cmara de horrores de Martin Vanger e explicou que encontrara 
Mikael suspenso por um n corredio e o diretor administrativo do grupo Vauger de p na frente dele. Contou o que descobrira no dia anterior nos arquivos do grupo 
e de que maneira fizera a ligao entre o pai de Martin e pelo menos sete assassinatos de mulheres.
    Dirch Frode no a interrompeu uma nica vez. Quando ela terminou de falar, permaneceu mudo por um longo tempo antes de suspirar profundamente e de balanar lentamente 
a cabea.
     O que vamos fazer?
     No  problema meu  disse Lisbeth num tom inexpressivo.
     Mas...
     Quer que eu te diga? Nunca pus os ps em Hedestad.
     No estou entendendo.
     Em hiptese alguma quero aparecer num relatrio policial. Eu no existo nessa histria. Se meu nome for mencionado e relacionado ao que aconteceu, negarei 
ter vindo aqui e no responderei a pergunta nenhuma.
    Dirch Frode tentava entend-la.
     No entendo.
     No precisa entender.
     Que vou fazer ento?
     Voc  que decide, contanto que no nos envolva nisso, nem a mim nem a Mikael.
    Dirch Frode estava lvido.
      s considerar as coisas assim: tudo o que voc sabe  que Martin morreu num acidente na estrada. Desconhece completamente que ele tambm era um assassino 
psicopata e nunca ouviu falar daquele poro. 
    Ela ps a chave diante dele, em cima da mesa. 
     Voc ainda tem tempo antes que algum v examinar o poro de Martin e descubra aquele cmodo. Certamente no vai acontecer agora.
     Ns temos que chamar a polcia.
     Ns, no. Chame a polcia se quiser. A deciso  sua.
     No podemos abafar esse caso.
     No estou propondo que o abafe, apenas que no envolva a Mikael e a mim. Quando tiver visto o poro, vai tirar suas prprias concluses e decidir com quem 
quer falar.
     Se o que voc diz  verdade, isso significa que Martin sequestrou e matou mulheres... portanto h famlias desesperadas que no sabem onde esto suas filhas. 
No podemos simplesmente...
      verdade. Mas h um problema: os corpos desapareceram. Talvez voc encontre passaportes ou carteiras de identidade numa gaveta. Algumas vtimas podero ser 
identificadas pelos vdeos. Mas voc no  obrigado a tomar nua deciso hoje. Reflita um pouco mais. 
    Dirch Frode parecia em pnico.
     Meu Deus! Isso vai ser o tiro de misericrdia do grupo. Quantas pessoas vo ficar desempregadas se for revelado que Martin...
    Frode balanava-se para a frente e para trs, pressionado por um dilema moral.
     Esse  um dos aspectos. Se Isabella Vanger assumir o cargo de Martin, no seria bom que ela fosse a primeira a saber do passatempo do filho.
     Preciso ir ver...
     Na minha opinio, voc deveria se manter longe daquele poro hoje  disse Lisbeth com autoridade. 
     H muitas providncias a tomar. Voc precisa avisar Henrik, precisa convocar a diretoria para uma reunio extraordinria e fazer o que fariam se o diretor 
administrativo tivesse falecido em circunstncias normais.
    Dirch Frode ponderou sobre as palavras dela. Seu corao deixou-se levar. Ele, o velho advogado que resolvia problemas e de quem se esperava um plano pronto 
diante de qualquer obstculo, sentia-se totalmente paralisado. De repente se deu conta de que estava aceitando orientaes de uma jovem. De um modo ou de outro, 
ela assumira o comando da situao e traava as linhas de ao que ele no conseguia formular.
     E Harriet...?
     Mikael e eu ainda no terminamos. Mas pode dizer a Henrik Vanger que acho que vamos resolver isso tambm.
    O desaparecimento inesperado de Martin Vanger era o destaque do noticirio das nove da manh, quando Mikael despertou. Nada foi mencionado sobre os acontecimentos 
da noite, a no ser que o industrial deixara a pista da direita de forma inexplicvel, em alta velocidade.
    Ele estava sozinho no carro. A emissora de rdio local demorava-se mais sobre as inquietaes quanto ao futuro do grupo Vanger e quanto s consequncias financeiras 
que essa morte traria ao grupo.
    Ao meio-dia, um despacho da TT, redigido s pressas, anunciava na tev "Uma regio em estado de choque" e resumia as repercusses imediatas para o grupo Vanger. 
No escapava a ningum que, s em Hedestad, trs mil vinte e quatro mil habitantes eram empregados do grupo Vanger ou dependiam indiretamente da sade financeira 
do grupo. O atual diretor morrera e o ex-diretor era um velho tentando se recuperar de um infarto recente. Faltava um herdeiro natural. Tudo isso num perodo considerado 
como o mais crtico da histria da empresa.
    Mikael Blomkvist tinha a possibilidade de ir  delegacia de polcia para explicar o que acontecera durante a noite, mas Lisbeth Salander j havia traado o caminho. 
Uma vez que ele no chamara a polcia imediatamente, tornava-se cada vez mais difcil fazer isso a cada hora que passava. Durante a manh, ele ficou afundado no 
banco da cozinha, num silncio mal-humorado, enquanto contemplava a chuva e as grossas nuvens que cobriam o cu. Por volta das dez, desabou uma nova tempestade, 
mas ao meio-dia a chuva parou e o vento acalmou um pouco. Ele saiu, enxugou as cadeiras do jardim e sentou-se com uma xcara de caf. Teve o cuidado de levantar 
a gola da camisa.
    Como era de se esperar, a morte de Martin estendeu uma sombra sobre o cotidiano do povoado. Carros comearam a estacionar diante da casa de Isabella Vanger, 
indicando que o cl se reunia. Pessoas apresentavam suas condolncias. Lisbeth contemplava o desfile com indiferena. Mikael permanecia mudo.
     Como est se sentindo?  ela perguntou enfim.
    Mikael refletiu um momento antes de responder.
     Acho que ainda estou em estado de choque  disse.  Fiquei totalmente indefeso por vrias horas. Achei que ia morrer. A angstia de morrer me revolvia as tripas 
e eu me sentia totalmente impotente.
    Estendeu a mo e a pousou sobre o joelho de Lisbeth.
     Obrigado  disse.  Se voc no tivesse chegado, ele teria me matado.
    Lisbeth retribuiu com um sorriso enviesado. Mikael prosseguiu:
     S que... eu no consigo entender como pde ser to louca de enfrent-lo sozinha. Eu estava ali, no cho, rezando para que voc visse a foto, fizesse a ligao 
e chamasse a polcia.
     Se eu esperasse a polcia chegar, voc no teria sobrevivido. Eu no
podia deixar aquele canalha te trucidar.
     Por que voc no quer ver a polcia?
     No falo com as autoridades.
     Por que no?
     Problema meu. Mas, no que diz respeito a voc, no acho que seria muito interessante para a sua carreira te apresentarem como o jornalista violentado por Martin 
Vanger, o conhecido assassino serial. Se j no gosta do Super-Blomkvist, imagine os novos apelidos que viriam.
    Mikael olhou-a intensamente, depois abandonou o assunto.
     Temos um problema  disse Lisbeth.
    Mikael assentiu com a cabea, sabia a que ela estava se referindo.
     O que aconteceu a Harriet?
    Lisbeth ps as duas fotos polaride em cima da mesa diante dele. Explicou onde as encontrara. Mikael examinou as fotos com ateno antes de levantar os olhos.
     Pode ser ela  disse por fim.  No posso jurar, mas a corpulncia e os cabelos lembram todas as fotos que vi dela.
    Mikael e Lisbeth ficaram no jardim por uma hora, encaixando as peas do quebra-cabea. Descobriram que ambos, cada um de seu lado, haviam identificado Martin 
Vanger como o elo perdido.
    
    
    Lisbeth no chegara a ver a foto que Mikael havia deixado em cima da mesa da cozinha. Na noite anterior, depois de examinar as imagens das cmeras de segurana, 
ela conclura que Mikael fizera algo estpido e fora at a casa de Martin pelo caminho que margeava a gua. Observou todas as janelas e no viu ningum. Muito discretamente, 
verificou todas as portas e janelas do trreo e ento foi escalando a parede at alcanar uma sacada aberta no andar de cima. Levou tempo, e ela agiu com a maior 
prudncia, examinando cmodo por cmodo da casa. Por fim, descobriu a escada que levava ao poro. Martin fora negligente: deixara entreaberta a porta de sua cmara 
de torturas e ela logo entendeu tudo.
     Voc ficou escutando por algum tempo o que ele dizia?
     No muito. Cheguei quando ele estava te interrogando sobre o que havia acontecido a Harriet, pouco antes de te suspender como um porco. Me afastei s por um 
minuto e subi para buscar uma arma. Encontrei o taco golfe num armrio.
     Martin Vanger no tinha a menor ideia do que aconteceu a Harriet.
     E voc acredita?
     Sim  disse Mikael sem hesitar.  Martin estava mais enlouquecido do que uma doninha furiosa... no sei de onde me veio essa imagem... mas ele admitiu todos 
os crimes que cometeu. Falava  vontade. Tive at a impresso de que queria me impressionar. Mas, no que se refere a Harriet, estava to desesperadamente em busca 
da verdade quanto Henrik Vanger.
     E ento... isso nos leva aonde?
     Sabemos que Gottfried estava por trs da primeira srie de assassinatos, entre 1949 e 1965.
     Certo. E que ele iniciou Martin.
     Estamos falando de uma famlia com problemas  disse Mikael.  Na verdade, Martin no tinha chance nenhuma.
    Lisbeth Salander lanou um olhar estranho a Mikael.
     O que Martin me contou, embora aos pedaos,  que o pai comeou a inici-lo na poca da puberdade. Ele assistiu ao assassinato de Lea em Uddevalla, em 1962. 
Na poca tinha catorze anos. Assistiu ao assassinato de Sara, em 1964. Dessa vez participou ativamente. Tinha dezesseis anos.
     E?
     Ele me disse que no era homossexual e que nunca havia tocado um homem, exceto o pai. Isso me faz pensar... bem, a nica concluso que se pode tirar  que 
o pai o violentava. Os abusos sexuais devem ter prosseguido por muito tempo. Ele foi iniciado, por assim dizer, pelo pai.
     Voc est dizendo bobagem  falou Lisbeth Salander.
    Sua voz de repente ficou dura como pedra. Mikael olhou para ela surpreso. Havia algo de inflexvel no olhar dela, sem a menor compaixo.
     Martin poderia resistir como qualquer outra pessoa. Ele fez sua escolha. Matava e violentava porque gostava disso.
     Concordo. Mas Martin era um menino maltratado, influenciado pelo pai, assim como Gottfried foi maltratado pelo seu pai nazista.
     Ah, sei, voc parte do princpio de que Martin no tinha vontade prpria e que as pessoas se tornam aquilo para o qual foram educadas.
    Mikael sorriu prudentemente.
     E um ponto sensvel para voc?
    Os olhos de Lisbeth flamejaram numa sbita clera contida. Mikael prosseguiu rpido.
     No estou afirmando que as pessoas so influenciadas apenas pela educao que recebem, mas acho que ela desempenha um papel importante. O pai de Gottfried 
o espancou, e seriamente, por anos e anos. Isso deixa marcas.
     Voc est dizendo bobagem  repetiu Lisbeth.  Gottfried no foi o nico coitado no mundo a ter sido surrado. O que tambm no lhe dava carta branca para assassinar 
mulheres. Foi uma escolha que ele mesmo fez. E isso tambm vale para Martin.
    Mikael ergueu uma mo.
     No vamos discutir.
     No estou discutindo. Simplesmente acho pattico que sempre concedam circunstncias atenuantes aos canalhas.
     Concordo. Eles tm mesmo uma responsabilidade pessoal. Passaremos isso a limpo depois. O fato  que Gottfried morreu quando Martin tinha dezessete anos e ele 
ficou sem ningum para gui-lo. Tentou prosseguir nas pegadas do pai. Fevereiro de 1966, Uppsala.
    Mikael inclinou-se para pegar um dos cigarros de Lisbeth.
     No vou nem comear a especular sobre que pulses Gottfried estava tentando satisfazer, nem de que maneira interpretava seus atos. Ele se apoiou numa algaravia 
bblica que um psiquiatra, talvez, pudesse esclarecer que fala de castigos e de purificao num sentido ou noutro. No importa. Ele era um assassino serial.
    Refletiu um segundo antes de continuar.
     Gottfried queria matar mulheres e revestia os crimes numa espcie de raciocnio pseudo-religioso. Mas Martin nem sequer fingia ter uma desculpa. Era organizado 
e matava de maneira sistemtica. Alm disso, tinha dinheiro para se dedicar a seu hobby. E era mais astuto que o pai. Toda vez que Gottfried deixava para trs um 
cadver, isso significava um inqurito policial e o risco de algum chegar at ele, ou pelo menos de fazer a ligao entre os diferentes assassinatos.
     Martin Vanger mandou construir sua casa nos anos 1970  disse Lisbeth pensativamente.
     Acho que Henrik disse 1978. Ele provavelmente encomendou um poro de segurana para arquivos importantes ou algo do gnero. Obteve uma pea  prova de som, 
sem janelas e com uma porta blindada.
     Usou esse lugar por vinte e cinco anos.
    Calaram-se por alguns momentos e Mikael pensou que atrocidades no teriam se passado naquela idlica ilha de Hedeby durante um quarto de sculo. Lisbeth no 
precisou imaginar; tinha visto a coleo de vdeos. Ela percebeu que Mikael tocava involuntariamente o prprio pescoo.
     Gottfried odiava as mulheres e ensinou o filho a tambm odiar as mulheres, enquanto o violentava. Mas havia algo mais... acho que Gottfried imaginava que os 
filhos deviam compartilhar sua viso pervertida do mundo, para dizer o mnimo. Quando perguntei a Martin sobre Harriet, sua prpria irm, ele disse: Tentamos convenc-la. 
Mas ela no passava de uma putinha ordinria. Estava planejando avisar Henrik.
    Lisbeth assentiu com a cabea.
     Eu ouvi. Foi mais ou menos nesse momento que eu cheguei ao poro. Isso significa que agora conhecemos o motivo da misteriosa conversa que ela queria ter com 
Henrik.
    Mikael franziu a testa.
     No exatamente. Pense na cronologia dos fatos. No sabemos quando Gottfried violentou o filho pela primeira vez, mas ele levou Martin a Uddevalla para matar 
Lea Persson em 1962. Gottfried afogou-se em 1965. Antes disso, ele e Martin haviam tentado convencer Harriet. O que se pode deduzir da?
     Que Gottfried no violentou apenas Martin. Ele atacou tambm Harriet.
    Mikael assentiu com a cabea.
     Gottfried era o professor, Martin o aluno. E Harriet era o joguete dos dois, digamos assim.
     Gottfried ensinou Martin a ter intimidades com a irm.  Lisbeth mostrou as fotos polaride.   difcil determinar a atitude dela por essas duas fotos, pois 
s vemos seu rosto tentando se esconder da objetiva.
     Digamos que tudo comeou quando ela tinha catorze anos, em 1964. Ela se defendeu  no conseguia aceitar , segundo Martin. Era isso que ela ameaava contar. 
Martin certamente no tinha grande experincia na poca, ele consultava o pai, mas Gottfried e ele firmaram uma espcie de pacto atravs do qual tentavam iniciar 
Harriet.
    Lisbeth assentiu com a cabea.
     Voc escreveu, nas suas anotaes, que Henrik Vanger insistiu para que Harriet fosse morar na casa dele no inverno de 1964.
     Henrik percebeu que algo no ia bem naquela famlia. Para ele, a causa eram discusses e desavenas entre Gottfried e Isabella, por isso acolheu Harriet em 
sua casa para que ela pudesse ficar tranquila e se dedicar aos estudos.
     Um contratempo para Gottfried e Martin. Eles no podiam mais dispor dela facilmente, nem controlar sua vida. Mas de tempo em tempo... Onde aconteciam esses 
abusos?
     Provavelmente na cabana de Gottfried. Tenho quase certeza que as fotos foram tiradas l. Vai ser fcil verificar. A casa tem uma localizao perfeita,  isolada 
e longe do povoado. At que um dia Gottfried bebeu demais e acabou se afogando como um imbecil.
    Lisbeth balanou pensativamente a cabea.
     O pai de Harriet tinha ou tentava ter relaes sexuais com ela, mas aposto que no a iniciou nos assassinatos.
    Mikael entendeu que esse era um ponto a ser esclarecido. Harriet anotara os nomes das vtimas de Gottfried e os associara a citaes bblicas, mas seu interesse 
pela Bblia s havia se manifestado no ltimo ano, quando Gottfried j havia morrido. Refletiu um momento, tentando encontrar uma explicao lgica.
     E ento, um dia, Harriet descobre que Gottfried no  apenas um pai incestuoso como tambm um assassino serial furioso  disse.
     No sabemos quando ela descobriu os assassinatos. Talvez um pouco antes de Gottfried se afogar, talvez depois, se ele tinha um dirio ou se guardou recortes 
de jornal sobre os assassinatos. Alguma coisa a colocou na pista.
     Mas no era isso que ela ameaava contar a Henrik  insistiu Mikael.
     Era sobre Martin  disse Lisbeth.  O pai havia morrido, mas Martin continuava a assedi-la.
     Exatamente  disse Mikael balanando a cabea.
     Mas ela levou um ano para se decidir.
     O que voc faria se descobrisse que seu pai  um assassino serial que estupra o seu irmo?
     Eu massacraria um lixo desses  disse Lisbeth com uma voz to fria que Mikael percebeu que ela no estava brincando. De repente se lembrou do rosto de Lisbeth 
quando ela saltou sobre Martin Vanger. Esboou um sorriso no muito alegre.
     Certo. Mas Harriet no  voc. Gottfried morreu em 1965, antes que ela tivesse tempo de fazer o que quer que fosse. Faz sentido. Com a morte de Gottfried, 
Isabella enviou Martin a Uppsala. Ele talvez voltasse para casa no Natal e nas frias, mas no ano seguinte no encontrou muito Harriet. Ela pde se distanciar um 
pouco dele.
     E passou a estudar a Bblia.
     E, pelo que sabemos hoje, no necessariamente por razes religiosas. Talvez quisesse apenas tentar entender o que o pai fizera. Ela ficou remoen-do isso at 
a Festa das Crianas em 1966. E a, de repente, v o irmo surgir na rua da Estao e se d conta de que a coisa vai recomear. No sabemos se eles se falaram e 
se ele disse algo a ela. Seja como for, Harriet voltou depressa para casa querendo falar com urgncia com Henrik.
     E em seguida desapareceu.
    
    
    Reconstituda assim a sequncia dos acontecimentos, a soluo do quebra-cabea parecia prxima. Mikael e Lisbeth fizeram as malas. Antes de partir, Mikael ligou 
para Dirch Frode e explicou que Lisbeth e ele precisavam deixar Hedeby por algum tempo, mas que fazia questo de se despedir de Henrik Vanger antes de ir embora.
    Mikael quis saber o que Frode contara a Henrik. Pela voz, o advogado parecia to estressado que Mikael se preocupou com ele. Frode demorou um momento para dizer 
que somente contara que Martin havia morrido num acidente de carro.
    Quando estacionou na frente do hospital, Mikael ouviu novas trovoadas num cu carregado de nuvens que anunciavam chuva. Apressou o passo no estacionamento ao 
sentir as primeiras gotas.
    Henrik Vanger estava sentado em frente  janela do quarto, vestindo um robe. A doena certamente o marcara, mas ele readquiria alguma cor nas faces e parecia 
a caminho da recuperao. Apertaram-se as mos. Mikael pediu que a enfermeira particular os deixasse a ss por alguns minutos.
     Voc no veio me ver  disse Henrik Vanger.
     No pude. Sua famlia no quer me ver aqui no hospital, mas hoje esto todos com Isabella.
     Pobre Martin  disse Henrik.
     Henrik, voc me pediu para descobrir a verdade sobre o que aconteceu a Harriet. Esperava que a verdade no doesse?
    O velho olhou para ele. Depois abriu bem os olhos.
     Martin?
     Ele faz parte da histria. Henrik fechou os olhos.
     Agora preciso lhe fazer uma pergunta.
     Qual?
     Voc ainda quer saber o que aconteceu? Mesmo que doa e mesmo que a verdade seja pior do que voc sempre imaginou?
    Henrik Vanger olhou Mikael demoradamente. Depois balanou a cabea.
     Quero saber.  o objetivo do seu trabalho.
     Certo. Acho que sei o que aconteceu a Harriet. Mas ainda falta uma ltima pea do quebra-cabea.
     Me conte tudo.
     No, hoje no. Agora quero que continue repousando. O mdico disse que o alerta j deixou de soar e que logo voc estar curado.
     No me trate como uma criana.
     Ainda no terminei minha investigao. S tenho suposies por enquanto, mas vou tentar achar essa ltima pea do quebra-cabea. Da prxima vez contarei a 
histria toda. Pode demorar um pouco, mas quero que saiba que eu voltarei e que voc saber a verdade.
    
    
    
    Lisbeth cobriu a moto com uma lona, deixou-a do lado da casa oposto ao sol e instalou-se com Mikael no carro emprestado. A chuva aumentou e, ao sul de Gvle, 
enfrentaram um aguaceiro to forte que Mikael mal via a estrada  frente. Por cautela, resolveu parar num posto de gasolina. Tomaram um caf enquanto esperavam a 
chuva acalmar e s chegaram a Estocolmo por volta das sete da noite. Mikael deu a Lisbeth o cdigo do seu prdio e a deixou numa estao de metr. O apartamento 
pareceu-lhe estranho quando entrou.
    Passou o aspirador e um pano de p, enquanto Lisbeth ia ver Praga em Sundbyberg. Ela chegou  casa de Mikael cerca de meia-noite e passou dez minutos examinando 
cada detalhe do apartamento. Depois ficou um longo tempo diante da janela, olhando a vista do Slussen.
    Armrios e estantes comprados na Ikea serviam de divisria entre a sala e o quarto do loft. Eles se despiram e dormiram algumas horas.
    
    
    Quando no dia seguinte aterrissaram em Gatwick por volta do meio-dia, foram recebidos pela chuva. Mikael havia reservado um quarto no hotel James perto do Hyde 
Park, um excelente hotel comparado s espeluncas de Bayswater onde sempre se hospedava em suas visitas a Londres. As despesas corriam por conta de Dirch Frode.
    s cinco da tarde, um homem de uns trinta anos encontrou-se com eles no bar do hotel. Era quase calvo, tinha uma barba loura, vestia um casaco muito largo, jeans 
e dockside.
     Wasp?  ele perguntou.
     Trinity?  ela rebateu. Cumprimentaram-se com um aceno de cabea. Ele no perguntou o nome de Mikael.
    O parceiro de Trinity foi apresentado como Bob the Dog. Ele esperava numa velha kombi estacionada na esquina. Entraram pela porta lateral e sentaram-se em bancos 
dobrveis. Enquanto Bob ziguezagueava pelo trnsito londrino, Wasp e Trinity conversavam.
     Praga me disse que se trata de um crash-bang job.
     Escuta telefnica e controle de e-mails num computador. Pode ser coisa rpida ou levar alguns dias, depende da presso dele.  Lisbeth apontou para Mikael 
com o polegar.  Vocs conseguem?
     Os cachorros tm pulgas?  respondeu Trinity.
    
    
    Anita Vanger morava numa das pequenas casas alinhadas em fila e de aspecto asseado do subrbio de St. Albans, ao norte de Londres, um trajeto de pouco mais de 
uma hora de carro. Da kombi, viram-na chegar e abrir a porta s sete da noite. Esperaram uni pouco para que ela tomasse banho, comesse alguma coisa e se instalasse 
na frente da tev, antes de Mikael tocar a campainha.
    Uma cpia quase idntica de Ceclia Vanger abriu a porta, o rosto formando um corts ponto de interrogao.
     Boa noite, Anita. Meu nome  Mikael Blomkvist. Henrik Vanger pediu-me que viesse v-la. Suponho que soube de Martin.
    O rosto dela passou da surpresa  vigilncia. Assim que ouviu o nome Mikael Blomkvist, ela soube exatamente quem ele era. Estava em contato com Ceclia Vanger, 
que talvez tivesse manifestado uma certa irritao com Mikael. Mas mencionar Henrik Vanger a obrigou a abrir a porta. Convidou Mikael a se instalar na sala. Ele 
olhou ao redor. A decorao da casa, embora bastante discreta, indicava uma pessoa com dinheiro e unia vida profissional. Observou uma litografia assinada por Auders 
Zorn acima de uma lareira transformada em aquecedor a gs.
     Desculpe eu ter vindo sem avisar, eu estava em Londres c tentei telefonar durante o dia.
     Entendo. Do que se trata?  A voz estava na defensiva.
     Est pretendendo ir ao funeral?
     No. Martin e eu no ramos muito prximos e no posso me afastar do trabalho.
    Mikael assentiu com a cabea. Anita Vanger fizera o possvel para se manter distante de Hedestad durante trinta anos. Desde que o pai voltara  ilha de Hedeby, 
ela praticamente no pusera mais os ps l.
     Quero saber o que aconteceu a Harriet Vanger. A hora da verdade chegou.
     Harriet? O que est querendo dizer?
    Mikael fez um trejeito, dando a entender que no estava disposto a se deixar enganar.
     Voc era a amiga mais prxima de Harriet na famlia e foi a pessoa que ela procurou para contar sua terrvel histria.
     Voc est completamente doido  disse Anita Vanger.
     Talvez voc esteja certa  disse Mikael com a voz tranquila.  Anita, voc esteve no quarto de Harriet naquele dia. Tenho fotos provando isso. Daqui a alguns 
dias farei um relatrio a Henrik e depois ele assumir o meu lugar. Por que no me conta o que aconteceu?
    Anita Vanger levantou-se.
     Saia imediatamente da minha casa. 
    Mikael levantou-se.
     Tudo bem, mas cedo ou tarde ser obrigada a me contar.
     No tenho nada a lhe dizer.
     Martin est morto  disse Mikael com firmeza.  Voc nunca gostou dele. Acredito que veio morar em Londres no apenas para ficar longe de seu pai mas tambm 
para no ser obrigada a encontrar Martin. Isso significa que voc tambm estava sabendo, e a nica que pode ter lhe contado Harriet. A questo  saber o que voc 
fez depois de ficar sabendo.
    Anita Vanger bateu a porta na cara de Mikael.
    
    
    
    Lisbeth Salander dirigiu um sorriso de satisfao a Mikael enquanto retirava o microfone que ele trazia sob a camisa.
     Ela deu um telefonema trinta segundos depois de ter batido a porta na sua cara  disse Lisbeth.
     A indicao do pas  Austrlia  acrescentou Trinity, repondo o aparelho de escuta em cima da mesinha dentro da kombi. Preciso verificar qual  o cdigo da 
rea.
    Digitou alguma coisa no teclado de seu laptop.
     Aqui est, ela chamou este nmero:  um telefone numa localidade chamada Tennant Creek, ao norte de Alice Springs, no Territrio do Norte. Quer escutar a conversa?
    Mikael fez que sim com a cabea.
     Que horas so na Austrlia agora?
     Mais ou menos cinco da manh.  Trinity acionou a gravao digital e um alto-falante. Mikael contou oito chamadas antes de uma voz atender. Conversavam em 
ingls.
     Oi, sou eu.
     Humm, est certo que eu sou madrugador, mas...
     Eu quis te ligar ontem... Martin morreu. Matou-se num acidente de carro anteontem.
    Silncio. Depois, algo semelhante a uma ligeira tosse, mas que podia ser interpretado como "melhor assim".
     S h um problema. Um jornalista detestvel que Henrik contratou acabou de sair aqui de casa. Fez perguntas sobre o que aconteceu em 1966. Ele sabe de alguma 
coisa.
    Silncio outra vez. Depois, uma voz de comando.
     Anita, desligue agora. Devemos evitar qualquer contato por algum tempo.
     Mas...
     Escreva cartas. Mantenha-me informado do que se passa.  E a conversa foi interrompida.
     Cara esperto!  disse Lisbeth Salander com admirao na voz. Voltaram ao hotel um pouco antes das onze. A recepo encarregou-se de reservar lugares no primeiro 
voo disponvel para a Austrlia. Em quinze minutos, conseguiram lugar num avio que sairia s 19h05 no dia seguinte, com destino a Canberra, Nova Gales do Sul.
    Resolvidos todos os detalhes, deitaram-se na cama, exaustos.
    
    
    
    Era a primeira visita de Lisbeth Salander a Londres e eles saram para passear de manh, da Tottenham Court Road ao Soho. Pararam para beber um caffe latte na 
Old Compton Street. Por volta das trs, voltaram ao hotel para pegar as malas. Enquanto Mikael fechava a conta, Lisbeth viu que havia uma mensagem de texto urgente 
no seu celular.
     Dragan Armanskij precisa falar com voc.
    Ela usou um telefone da recepo para falar com seu chefe. Mikael estava a seu lado e de repente viu Lisbeth virar-se para ele com o rosto paralisado.
     O que aconteceu?
     Minha me morreu. Preciso voltar.
    Lisbeth parecia to desesperada que Mikael abraou-a. Ela o afastou. Beberam um caf no bar. Quando Mikael disse que mudaria as reservas para a Austrlia e a 
acompanharia a Estocolmo, ela balanou a cabea.
     No  disse secamente.  No podemos abandonar o trabalho agora. Voc ir sozinho  Austrlia.
    Separaram-se em frente ao hotel e cada um tomou o seu nibus, com destino a aeroportos diferentes.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   26.         TERA-FEIRA 15 DE JULHO 
    QUINTA-FEIRA 17 DE JULHO
    
    
    
    Mikael pegou um voo domstico de Canberra a Alice Springs, nica possibilidade de que dispunha no meio da tarde. Depois, pde escolher entre um voo particular 
e um carro alugado. Escolheu o carro para enfrentar os quatrocentos quilmetros restantes.
    Um desconhecido com o nome bblico de Joshua, e que fazia parte da rede web internacional de Praga, ou talvez de Trinity, deixara um envelope destinado a Mikael 
na recepo do aeroporto de Canberra.
    O nmero de telefone para o qual Anita ligara era de uma fazenda, Cochran Farm. Uma breve nota acompanhava a informao: criao de ovelhas.
    Um artigo extrado na internet fornecia detalhes sobre a criao de ovelhas na Austrlia.


    O pas tem 18 milhes de habitantes, entre os quais 53 mil criadores de ovelhas cuidando de cerca de 120 milhes de animais. Somente a exportao de l rende 
mais de 3,5 bilhes de dlares por ano, sem contar a exportao de 700 milhes de toneladas de carne de ovelha e mais as peles para a indstria do vesturio. A produo 
de carne e de l  um dos setores econmicos mais importantes do pas.
    A Cochran Farm, fundada em 1891 por um certo Jeremy Cochran, era a quinta maior empresa agropecuria da Austrlia, com cerca de sessenta mil merino sheep, cuja 
l era considerada de excelente qualidade. Alm de ovelhas, a fazenda criava tambm vacas, porcos e galinhas.
    Mikael constatou que a Cochran Farm era uma empresa com um volume anual de negcios impressionante, que exportava para os Estados Unidos, China, Japo e Europa, 
entre outros.
    As biografias eram ainda mais interessantes.
    Em 1972, a Cochran Farm passou das mos de Raymond Cochran para seu herdeiro Spencer Cochran, formado em Oxford, na Inglaterra. Spencer falecera em 1994 e desde 
ento a fazenda era dirigida por sua viva. Ela aparecia numa foto de baixa resoluo extrada do site da Cochran Farm, que mostrava uma mulher loura de cabelos 
curtos. Parte de seu rosto estava virado um cordeiro, que ela acariciava. Segundo Joshua, Spencer e ela haviam se casado na Itlia em 1971.
    Ela se chamava Anita Cochran.
    
    
    Mikael passou a noite num lugarejo perdido e desrtico com um nome que exalava esperana: Wannado. Num bar de esquina, comeu carne de carneiro assada e bebeu 
trs pints, na companhia de alguns tipos locais que o chamavam de mate, e que falavam com um sotaque engraado. Ele tinha a impresso de estar em plena filmagem 
de Crocodilo Dundee.
    Na noite anterior, antes de ir dormir, ele havia telefonado para Erika em Nova York.
     Desculpe, Ricky, mas andei to ocupado que nem tive tempo de ligar.
     Mas o que est havendo em Hedestad, criatura?!  ela explodiu.  Christer me telefonou para dizer que Martin morreu num acidente de carro.
     E uma longa histria.
     E por que voc no atende o telefone? Estou chamando sem parar h dois dias.
     Aqui no pega.
     Aqui onde?
     Neste momento, a uns duzentos quilmetros ao norte de Alice Springs. Na Austrlia, portanto.
    
    
    Mikael quase nunca conseguia surpreender Erika, mas desta vez ela emudeceu por uns dez segundos.
     E o que voc est fazendo na Austrlia, ainda que mal pergunte?
     Estou terminando o trabalho. Voltarei  Sucia daqui a alguns dias. Liguei apenas para contar que a misso para Henrik Vanger est quase no fim.
     Quer dizer que descobriu o que aconteceu a Harriet?
     Acho que sim.


    Ele chegou  Cochran Farm no dia seguinte, ao meio-dia, e ficou sabendo que Anita Cochran se encontrava num distrito de produo, numa localidade chamada Makawaka, 
cento e vinte quilmetros a oeste.
    Eram quatro da tarde quando Mikael encontrou o lugar, aps percorrer um grande nmero de estradas vicinais. Parou diante de uma cerca onde um grupo de pees 
estava reunido em volta do capo de um jipe, comendo alguma coisa. Mikael desceu, apresentou-se e disse que procurava Anita Cochran. Os rapazes olharam para um homem 
musculoso, de uns trinta anos, que parecia ser quem tomava as decises. Tinha o torso nu e bronzeado, exceto nas partes normalmente cobertas pela camiseta. Usava 
um chapu de caubi.
     Well, mate, a patroa est uns dez quilmetros para l  disse, apontando com o dedo.
    Ele olhou para o carro de Mikael com ceticismo e acrescentou que no era uma boa ideia prosseguir na estrada com aquele brinquedinho japons. Mas disse que de 
todo modo ele precisava ir at l e que podia levar Mikael no jipe, nico veculo adaptado ao tipo de terreno que os esperava. Mikael agradeceu e teve o cuidado 
de pegar a sacola com seu notebook.
    
    
    O homem disse que se chamava Jeff e contou que era o studs manager al the station. Mikael perguntou o que aquilo significava. Jeff olhou-o curioso, percebendo 
que Mikael no devia ser do pas. Explicou que studs manager equivalia a um gerente de banco, s que lidava com ovelhas, e que station era a palavra australiana 
para "rancho".
    Continuaram conversando enquanto Jeff manobrava o jipe com tranquilidade a vinte quilmetros por hora, num declive impressionante at o fundo de um desfiladeiro. 
Mikael agradeceu sua boa estrela por no ter tentado prosseguir no carro alugado. Ficou sabendo que na base do desfiladeiro havia pastagens para cerca de setecentas 
ovelhas.
     Se entendi bem, Cochran Farm  uma grande empresa agropecuria.
     Uma das maiores da Austrlia  respondeu Jeff com algum orgulho na voz.  Temos cerca de nove mil ovelhas aqui no distrito de Makawaka, mas possumos tambm 
stations na Nova Gales do Sul e na Austrlia Ocidental. Ao todo, so mais de sessenta e trs mil ovelhas.
    Saram do desfiladeiro para um terreno ondulado mais suave. De repente Mikael ouviu tiros. Viu ovelhas mortas, grandes braseiros e uns dez pees, todos com espingardas 
na mo. Pareciam ocupar-se do abate de animais.
    Involuntariamente, Mikael fez a associao com os cordeiros do sacrifcio bblico.
    Ento viu uma mulher vestindo jeans e camisa xadrez branca e vermelha, de cabelos louros curtos. Jeff estacionou a poucos metros dela.
     Hi boss. We got a tourist  disse.
    Mikael desceu do jipe e olhou para ela, que o encarou com olhos interrogativos.
     Bom dia, Harriet. Faz um bom tempo que no nos vemos  disse Mikael em sueco.
    Nenhum dos homens que trabalhavam para Anita Cochran entendeu que ele disse, mas eles viram a reao dela. Anita Cochran deu um passo para trs, amedrontada. 
Os empregados tiveram o reflexo instantneo de proteger a patroa. Viram-na empalidecer, calaram-se e se aproximaram, prontos para se interpor entre ela e aquele 
estranho que claramente a perturbava. A amabilidade de Jeff havia desaparecido por completo quando ele deu um passo na direo de Mikael.
    Mikael deu-se conta de que estava num lugar inacessvel do outro lado do planeta, cercado por um bando de criadores de ovelhas encharcados de suor com espingardas 
na mo. Uma palavra de Anita Cochran, e eles o encheriam de chumbo.
    Mas o instante havia passado. Harriet Vanger ergueu a mo num gesto de apaziguamento e seus homens recuaram. Ela se aproximou de Mikael e o olhou nos olhos. 
Estava molhada de suor e com o rosto sujo. Mikael notou razes mais escuras sob os cabelos louros. Tinha o rosto mais envelhecido e macilento, mas se tornara exatamente 
a bela mulher que sua fotografia de crisma havia pressagiado.
     Ns j nos encontramos?  perguntou Harriet Vanger.
     Sim. Meu nome  Mikael Blomkvist. Voc foi minha bab num vero, quando eu tinha trs anos. Voc tinha doze ou treze na poca.
    Alguns segundos se passaram e ento o olhar dela se iluminou e Mikael percebeu que ela se lembrava dele. Parecia estupefata.
     O que voc quer?
     Harriet, no sou seu inimigo, no estou aqui para lhe fazer mal. Mas precisamos conversar.
    Ela se virou para Jeff e pediu-lhe que a substitusse, depois fez um sinal para que Mikael a acompanhasse. Andaram uns duzentos metros at um grupo de barracas 
de lona branca num pequeno bosque. Ela indicou uma cadeira dobrvel em frente a uma mesa pouco firme, despejou gua numa bacia, lavou o rosto, enxugou-se e entrou 
na barraca para trocar de camisa. Pegou duas cervejas numa caixa de isopor com gelo e sentou-se diante de Mikael.
     Pronto. Agora fale, estou escutando.
     Por que esto matando as ovelhas?
     H uma epidemia. Provavelmente a maioria dessas ovelhas est saudvel, mas no podemos correr o risco de a epidemia se alastrar. Seremos obrigados a abater 
mais de seiscentas ovelhas esta semana. Por isso no estou de muito bom humor.
    Mikael aquiesceu com a cabea.
     Seu irmo se matou dirigindo um carro dias atrs.
     Eu soube.
     Atravs de Anita, que telefonou para voc.
    Ela o fitou por um bom tempo. Depois assentiu com a cabea. Percebeu que era intil negar as evidncias.
     Como me encontrou?
     Grampeamos o telefone de Anita.  Mikael tambm achou que no havia razo para mentir.  Estive com seu irmo um pouco antes de ele morrer.
    Harriet Vanger franziu o cenho e o interrogou com o olhar. Ento ele retirou o leno ridculo que havia posto no pescoo, baixou a gola da camisa e mostrou a 
marca do n corredio. Uma cicatriz de um vermelho-vivo que provavelmente ficaria como lembrana de Martin Vanger.
     Seu irmo suspendeu-me num n corredio e s fui salvo porque minha companheira chegou para dar a maior surra que aquele canalha j levou na vida.
    Alguma coisa se acendeu nos olhos de Harriet.
     Acho melhor voc me contar essa histria desde o incio.
    
    
    Mikael levou mais de uma hora para contar tudo. Comeou se apresentando e resumindo suas desventuras profissionais. Depois contou como Henrik Vanger o incumbira 
daquela misso e por que tinha sido conveniente para ele instalar-se em Hedeby. Falou do inqurito policial que no dera em nada e de como Henrik fizera sua investigao 
pessoal durante todos aqueles anos, convencido de que algum da famlia havia matado Harriet. Ligou o computador e explicou como descobriu as fotos da rua da Estao 
e como ele e Lisbeth comearam a buscar um assassino serial que eles acabaram brindo que eram dois.
    Enquanto ele falava, comeou a anoitecer. Os homens se preparavam para passar a noite ali, acendendo fogueiras e pondo marmitas para aquecer. Mikael observou 
que Jeff permanecia perto de sua chefe e que continuava a olh-lo com desconfiana. O cozinheiro serviu Harriet e Mikael. Abriram outra cerveja. Quando Mikael terminou 
seu relato, Harriet ficou em silncio por um momento.
     Meu Deus  disse ela.
     Voc no anotou na agenda o assassinato de Uppsala.
     Nem mesmo investiguei. Estava aliviada por meu pai ter morrido e a violncia acabar. Nunca me passou pela cabea que Martin...  Ela se calou.  Estou contente 
que tenha morrido.
     Eu te entendo.
     Voc s no me explicou como vocs concluram que eu estava viva.
     Depois que descobrimos o que se passou, no foi muito difcil deduzir o resto. Para poder desaparecer, voc precisou de ajuda. Anita Vanger era sua confidente 
e vocs haviam passado alguns dias do vero na cabana de Gottfried. Se fosse contar a algum, seria para ela, e ela acabava de receber sua habilitao de motorista.
    Harriet Vanger olhou para ele com uma expresso indefinida.
     Agora que voc sabe que eu estou viva, o que vai fazer?
     Vou contar a Henrik. Ele merece saber.
     E depois? Voc  um jornalista.
     Harriet, no tenho nenhuma inteno de entreg-la  mdia. Cometi tantas faltas profissionais nessa triste histria que a Associao dos Jornalistas provavelmente 
me expulsaria se ficasse sabendo.  Ele tentou fazer graa.  Uma falta a mais ou a menos no faz diferena, e no quero prejudicar minha ex-bab.
    Ela no pareceu achar graa.
     Quantas pessoas sabem a verdade?
     De que voc est viva? Neste momento, apenas eu, voc, Anita e a minha parceira Lisbeth. Dirch Frode conhece uns dois teros da histria, mas continua achando 
que voc morreu em 1966.
    Harriet Vanger parecia refletir sobre alguma coisa. Olhou ao longe, na obscuridade do campo. Mikael teve de novo a sensao de estar exposto a uma situao desagradvel 
e lembrou que Harriet tinha uma espingarda apoiada contra a lona da barraca, ao alcance da mo. Mas procurou afastar esses pensamentos. Mudou de assunto.
     Como voc virou criadora de ovelhas na Austrlia? Deduzi que Anita Vanger ajudou-a a abandonar a ilha, provavelmente no porta-malas do carro dela, quando a 
ponte foi reaberta um dia depois do acidente.
     Na verdade, apenas fiquei deitada no banco de trs do carro com um cobertor por cima de mim. Eu disse a Anita que precisava fugir. Voc deduziu bem. Entreguei-me 
a ela, ela me ajudou e foi uma amiga leal durante todos esses anos.
     Como veio parar aqui na Austrlia?
     Primeiro, antes de deixar a Sucia, morei por algumas semanas no quarto de estudante de Anita em Estocolmo. Anita tinha um dinheiro dela, que generosamente 
me emprestou. Tambm me deu seu passaporte. ramos parecidas, e tudo que precisei fazer foi mudar a cor do cabelo para ficar loura. Morei num convento na Itlia 
por quatro anos. No como freira; existem conventos onde  possvel alugar celas a um preo baixo, s para ficar ali em paz, meditando. Depois conheci Spencer Cochran 
por acaso. Era alguns anos mais velho que eu, conclura seus estudos na Inglaterra e passeava pela Europa. Me apaixonei e ele tambm. Foi isso que aconteceu. Anita 
Vanger casou-se com ele em 1971. Nunca me arrependi, era um homem maravilhoso. Mas ele morreu h oito anos e de repente me tornei proprietria da empresa.
     E o passaporte? Algum poderia notar que havia duas Anita Vanger.
     No. Por que notariam? Uma sueca chamada Anita Vanger casou-se com Spencer Cochran. O fato de morar em Londres ou na Austrlia no tem importncia nenhuma. 
Em Londres, ela  a mulher separada de Spencer Cochran. Na Austrlia,  sua esposa. Os cartrios de Canberra e Londres no se comunicam. Alm disso, obtive um passaporte 
australiano com o nome Cochran. E um arranjo que funciona perfeitamente bem. O plano s no daria certo se Anita quisesse se casar. Meu casamento precisou ser registrado 
num cartrio sueco.
     E ela no se casou.
     Disse que nunca encontrou ningum, mas sei que se absteve por minha causa. Foi uma verdadeira amiga.
     O que ela fazia no seu quarto?
     Eu no estava raciocinando muito bem naquele dia. Tinha medo de Martin. Enquanto ele esteve em Uppsala, deixei o problema de lado, mas quando o vi na rua em 
Hedestad percebi que nunca mais estaria segura. Hesitei entre contar a Henrik e fugir. Henrik no pde falar comigo, ento sa andando  toa pelo povoado. Claro 
que o acidente na ponte fez todo mundo esquecer tudo mais,  natural. Mas no foi esse o meu caso. Eu tinha meu prprios problemas e mal tomei conscincia do acidente. 
Tudo parecia irreal. Ento encontrei Anita, que estava hospedada num anexo da casa de Gerda e Alexander. Por fim tomei uma deciso e pedi que ela me ajudasse. Fiquei 
no quarto dela e no ousei mais sair dali. Mas havia uma coisa que eu precisava levar comigo: um dirio ntimo onde eu tinha anotado tudo o que aconteceu. Tambm 
precisava de roupas. Anita foi buscar.
     E suponho que ela no resistiu  tentao de abrir a janela para dar uma olhada no acidente.  Mikael refletiu um momento.  O que eu no entendo  por que 
voc no foi ver Henrik, como era a sua inteno.
     O que voc acha?
     No sei, no entendo. Estou certo de que Henrik a teria ajudado. Martin no tinha como prejudic-la imediatamente, e Henrik no a trairia. Teria conduzido 
o caso com discrio, encaminhando-o para uma espcie de terapia ou tratamento.
     Voc no entendeu o que se passou.
    At ento, Mikael mencionara apenas o abuso sexual que Martin sofrera de Gottfried, sem mencionar o caso de Harriet.
     Gottfried abusou de Martin  disse Mikael discretamente.  Imagino que tenha abusado tambm de voc.
    
    
    Harriet Vanger no mexeu um s msculo. Depois respirou profundamente e escondeu o rosto nas mos. Em menos de trs segundos, Jeff apareceu ao lado dela, perguntando 
se tudo estava all right. Harriet Vanger olhou para ele e dirigiu-lhe um breve sorriso. Ento surpreendeu Mikael ao se levantar e abraar seu studs manager, dando-lhe 
um beijo no rosto. Virou-se para Mikael, com o brao no ombro de Jeff.
     Jeff, este  Mikael, um velho... amigo de muito, muito tempo atrs. Ele est me trazendo problemas e ms notcias, mas nunca devemos matar o mensageiro. Mikael, 
este  Jeff Cochran, meu filho mais velho. Tenho tambm outro filho e uma filha.
    Mikael balanou a cabea. Jeff tinha uns trinta anos. Harriet Vanger deve ter engravidado logo aps o casamento com Spencer Cochran. Ele se levantou, estendeu 
a mo para Jeff e disse que sentia muito perturbar a me dele, mas que infelizmente era necessrio. Harriet trocou algumas palavras com Jeff e o mandou embora. Tornou 
a sentar-se com Mikael e pareceu tomar uma deciso.
     Chega de mentira. Acho que agora acabou. De certo modo, eu estava esperando por esse dia desde 1966. Durante muitos anos, minha angstia era que algum se 
dirigisse a mim pelo meu verdadeiro nome. E no me importa mais que voc saiba. Meu crime est prescrito. E estou pouco ligando para o que as pessoas vo pensar.
     Que crime?  perguntou Mikael.
    Ela o fitou bem nos olhos, mas ele ainda no sabia do que ela estava falando.
     Eu tinha dezesseis anos. Estava com medo, envergonhada, desesperada. E sozinha. Somente Anita e Martin sabiam a verdade. Contei a Anita sobre os abusos sexuais, 
mas no consegui contar que meu pai tambm era um psicopata assassino de mulheres. Anita nunca soube. Em troca, confessei-lhe o crime que eu mesma havia cometido 
e que era suficientemente horrvel para que afinal no ousasse cont-lo a Henrik. Pedi perdo a Deus e me escondi num convento por vrios anos.
     Harriet, seu pai era um estuprador e um assassino. Voc no  culpada de nada.
     Eu sei. Meu pai abusou de mim durante um ano. Fiz de tudo para evitar que ele... mas ele era meu pai e eu no podia me recusar a fazer alguma coisa com ele 
sem lhe dar uma explicao. Ento menti e aceitei participar da comdia, como se aquilo fosse natural, cuidando sempre para que houvesse outras pessoas quando eu 
me encontrava com ele. Minha me sabia o que ele fazia, mas no se importava.
     Isabella sabia?  exclamou Mikael, consternado. 
    A voz de Harriet Vanger ficou mais dura.
     Claro que sim. Nada se passava em nossa famlia sem que Isabella soubesse. Mas ela nunca dava ateno s coisas desagradveis ou que pudessem depreci-la. 
Meu pai podia me estuprar na sala diante de seus olhos sem que ela visse. Era incapaz de reconhecer que algo no ia bem na minha vida ou na dela.
     Cheguei a conhec-la.  uma vbora.
     E o que foi a vida inteira. Muitas vezes refleti sobre o relacionamento entre meu pai e ela. Conclu que depois do meu nascimento eles raramente, ou nunca 
mais, tiveram relaes sexuais. Meu pai tinha mulheres, mas estranhamente temia Isabella. Estava afastado dela sem poder se divorciar.
     Ningum se divorcia na famlia Vanger. 
    Ela riu pela primeira vez.
      verdade. O fato  que eu no tive coragem de contar. O mundo inteiro ficaria sabendo. Meus colegas de escola, todos na famlia...
    Mikael ps a mo sobre a de Harriet.
     Harriet, estou arrasado.
     Eu tinha catorze anos quando ele me violentou pela primeira vez. Levava-me regularmente  cabana. Vrias vezes Martin tambm estava l. Forava ns dois a 
fazer coisas com ele. Segurava-me nos braos para que Martin... se satisfizesse em cima de mim. E assim, depois da morte do meu pai, Martin estava pronto para assumir 
o papel dele. Queria que eu fosse sua amante e achava natural que eu me submetesse. E nesse momento no tive mais escolha, fui obrigada a fazer o que Martin queria. 
Havia me livrado de um carrasco para cair nas garras de outro, e tudo o que podia fazer era procurar nunca ficar a ss com ele.
     Henrik teria...
     Voc ainda no entendeu  ela disse, elevando a voz.
    Mikael viu os homens na tenda ao lado virarem-se para eles. Ela baixou de novo a voz e inclinou-se para ele.
     Est com todas as cartas agora. Tire voc mesmo as concluses. Levantou-se e foi buscar mais duas cervejas. Quando voltou, Mikael disse uma nica palavra.
     Gottfried?
    Ela fez que sim com a cabea.
     No dia 7 de agosto de 1965, meu pai me obrigou a acompanh-lo at a cabana. Henrik estava viajando. Meu pai havia bebido e tentou me forar. Mas no conseguiu 
gozar e comeou a delirar. Ele era sempre... grosseiro e violento comigo quando estvamos a ss, mas dessa vez ultrapassou os limites. Urinou em cima de mim. A seguir 
contou-me o que gostaria de fazer comigo. Um pouco antes havia falado das mulheres que matara. Vangloriava-se. Citava a Bblia. Aquilo durou horas. No entendi a 
metade do que ele dizia, mas percebi que ele estava completamente maluco.
    Ela tomou um gole de cerveja.
     A certa altura, por volta de meia-noite, ele teve uma crise. Parecia um louco furioso. Estvamos no mezanino. Ele ps uma camiseta em volta do meu pescoo 
e apertou com toda a fora. Vi tudo preto. No duvido um segundo que ele realmente tentou me matar e, pela primeira vez naquela noite, conseguiu me estuprar.
    Harriet Vanger ps uns olhos suplicantes em Mikael.
     Mas estava to bbado que consegui me livrar, no sei como. Saltei do mezanino at a pea de baixo e sa correndo, em pnico. Estava nua e corri sem refletir, 
at chegar ao ponto. Ele chegou cambaleando atrs de mim.
    De repente, Mikael desejou que ela parasse de contar.
     Eu era suficientemente forte para derrubar um bbado na gua. Utilizei um remo para mante-lo debaixo da gua at que parasse de se mexer. Bastaram alguns segundos.
    O silncio foi ensurdecedor quando ela fez uma pausa.
     E, assim que levantei os olhos, Martin estava ali. Parecia aterrorizado e, ao mesmo tempo, divertia-se. No sei desde quando nos espionava em frente  casa. 
E assim eu fiquei entregue  sua vontade. Ele se aproximou de mim e me pegou pelos cabelos, me levou de volta para a cabana e me jogou na cama de Gottfried. Me amarrou 
e me violentou, enquanto nosso pai ainda flutuava na gua junto ao ponto. No pude sequer me defender.
    Mikael fechou os olhos. Sentiu vergonha e desejou ter deixado Harriet Vanger em paz. Mas a voz dela adquirira uma nova fora.
     Desse dia em diante ca sob seu poder. Fazia o que ele me dizia, estava como que paralisada. Se escapei da loucura, foi porque Isabella decidiu que Martin 
precisava mudar de ares aps o desaparecimento trgico do pai e o enviou a Uppsala. Evidentemente, era porque ela sabia o que ele fazia comigo; era sua maneira de 
resolver o problema. Voc pode imaginar a decepo de Martin.
    Mikael assentiu com a cabea.
     No ano seguinte, ele s voltou nas frias de Natal, e consegui ficar distante. Acompanhei Henrik numa viagem a Copenhague entre o Natal e o Ano-novo. E, quando 
chegaram as frias de vero, Anita estava l. Abri-me com ela e ela permaneceu o tempo todo comigo, o que o impediu de se aproximar de mim.
     E ento voc o viu na rua da Estao.
     Sim, fiquei sabendo que no viria  reunio de famlia e que permaneceria em Uppsala. Mas parece ter mudado de ideia e ento eu o vi ali, do outro lado da 
rua, olhando fixamente para mim. Sorrindo para mim. Como um pesadelo. Eu assassinara meu pai e me dei conta de que nunca me libertaria do meu irmo. At ento, s 
havia pensado em me matar, mas finalmente preferi fugir.
    Ela olhou para Mikael com um olhar aliviado.
     Como  bom contar a verdade... Agora voc sabe de tudo. Como pretende utilizar o que sabe?
    
    
27.         SBADO 26 DE JULHO 
 SEGUNDA-FEIRA 28 DE JULHO
      
      
    Mikael se encontrou com Lisbeth Salander na frente do seu prdio na Lundagatan s dez da manh e a levou ao crematrio do cemitrio norte. Fez-lhe companhia 
durante a cerimnia. Por um bom tempo, Lisbeth e Mikael foram as nicas pessoas presentes alm do pastor, mas, quando o ritual funerrio comeou, Dragan Armanskij 
apareceu. Dirigiu um breve aceno de cabea a Mikael, colocou-se atrs de Lisbeth e ps suavemente a mo em seu ombro. Ela inclinou a cabea sem olhar para ele, como 
se soubesse quem havia chegado s suas costas. Mas logo o ignorou, assim como ignorava Mikael.
    Lisbeth no havia contado nada sobre a me, mas o pastor aparentemente falara com algum da casa de sade onde ela falecera, e Mikael entendeu que a causa da 
morte fora uma hemorragia cerebral. Lisbeth no disse uma s palavra durante a cerimnia. O pastor perdeu o fio da meada por duas vezes quando se dirigiu diretamente 
a Lisbeth, que o olhava bem nos olhos sem responder. Ao terminar, ela virou as costas e foi embora sem agradecer nem se despedir. Mikael e Dragan respiraram fundo 
e se olharam de soslaio. Eles ignoravam totalmente o que se passava na cabea dela.
     Ela no est nada bem  disse Dragan.
     Acho que eu a entendo  respondeu Mikael.  Foi bom o senhor ter vindo.
     No estou to certo disso. Armanskij fixou o olhar em Mikael.
     Vocs vo voltar para o Norte? Cuide dela.
    Mikael prometeu. Eles se separaram em frente  porta da igreja. Lisbeth j esperava no carro.
    Ela precisava retornar a Hedestad para buscar a moto e o equipamento que pegara emprestado da Milton Security. S rompeu o silncio depois que passaram de Uppsala, 
para perguntar como tinha sido a viagem  Austrlia. Mikael desembarcara no aeroporto de Arlanda na noite anterior e s dormira algumas horas. Enquanto conduzia 
o carro, ele contou a histria de Harriet Vanger. Lisbeth Salander ficou em silncio por meia hora, e s depois abriu a boca.
     Cretina  disse.
     De quem voc est falando?
     Da Harriet Cretina Vanger. Se ela tivesse feito alguma coisa em 1966. Martin Vanger no teria continuado a matar e a estuprar durante trinta e sete anos.
     Harriet sabia dos assassinatos do pai, mas no que Martin participara deles. Ela fugiu de um irmo que a violentava e que ameaava contar que ela afogara o 
pai, se no obedecesse a suas ordens.
     Conversa mole.
    
    
    O resto da viagem a Hedestad transcorreu em silncio. Lisbeth estava com um humor particularmente sombrio. Mikael estava atrasado para o encontro que havia marcado 
e pediu que ela descesse no cruzamento antes da ponte, perguntando-lhe se estaria ainda ali quando ele voltasse.
     Pretende passar a noite aqui?  ela perguntou.
     Acho que sim.
     Quer que eu esteja aqui quando voc voltar?
    Ele desceu do carro, deu a volta e se aproximou para abra-la. Lisbeth o rechaou quase com violncia. Mikael recuou,
     Lisbeth, voc  minha amiga. Ela o olhou sem expresso.
     Quer que eu fique s para que voc possa trepar com algum esta noite?
    Mikael olhou demoradamente para ela. Depois virou-se, entrou no carro e ligou o motor. Baixou o vidro. A hostilidade de Lisbeth era palpvel.
     Quero ser seu amigo  disse.  Se est imaginando outra coisa, no vale nem a pena estar aqui quando eu voltar.

    
    Henrik Vanger estava sentado numa poltrona quando Dirch Frode convidou Mikael a entrar em seu quarto no hospital. Ele logo perguntou como Henrik estava.
     Eles esto pretendendo me deixar ir ao enterro de Martin amanh.
     Que parte da histria Dirch contou a voc? Henrik Vanger baixou o olhar.
     O que Martin e Gottfried fizeram. Pelo que entendi, a coisa foi mais longe do que eu imaginei nos meus piores pesadelos.
     Eu sei o que aconteceu a Harriet.
     Conte-me como ela morreu.
     Harriet no morreu. Est viva. Se estiver de acordo, ela gostaria muito de rev-lo.
    Num mesmo movimento, Henrik Vanger e Dirch Frode olharam Mikael como se o mundo tivesse acabado de virar de pernas para o ar.
     Levei algum tempo at convenc-la a vir comigo, mas ela concordou. Est bem e neste momento se encontra em Hedestad. Chegou hoje de manh e poder estar aqui 
dentro de uma hora. Se voc quiser v-la,  claro.
    Mais uma vez, Mikael precisou contar a histria do comeo ao fim. Henrik Vanger escutou com tanta concentrao, como se escutasse um Sermo da Montanha moderno. 
Em algumas raras ocasies, fez uma pergunta ou pediu que Mikael repetisse. Dirch Frode no abriu a boca.
    Terminado o relato, o velho permaneceu quieto. Embora os mdicos tivessem garantido que Henrik tinha se restabelecido do infarto, Mikael temia o instante da 
revelao de toda a histria  temia que o velho no aguentasse. Mas Henrik no demonstrou nenhum sinal de emoo. Apenas sua voz parecia um pouco pastosa quando 
quebrou o silncio.
     Pobre Harriet. Se tivesse vindo falar comigo... Mikael olhou a hora. Eram cinco para as quatro.
     Quer v-la? Ela tem medo que voc a rejeite, agora que sabe o que ela fez.
     E as flores?
     Perguntei isso a ela no avio. S havia uma pessoa que ela amava na famlia: voc. Evidentemente, era ela quem enviava as flores. Disse que esperava faz-lo 
entender que ela estava viva, e bem, sem ser obrigada a se revelar. Mas, como sua nica fonte de informao era Anita, que nunca vinha a Hedestad e que foi morar 
no exterior depois de terminar seus estudos, Harriet sabia muito pouco do que se passava aqui. Nunca soube o quanto voc sofria nem que se acreditava perseguido 
pelo assassino dela.
     Imagino que Anita era quem postava as flores.
     Ela trabalhava para uma companhia area e as enviava de onde se encontrava.
     E como voc descobriu que era Anita que a ajudava?
     Pela fotografia na qual ela aparece na janela do quarto de Harriet.
     Mas ela podia estar envolvida... poderia ser a assassina. Como deduziu que Harriet estava viva?
    Mikael olhou demoradamente para Henrik Vanger. Depois sorriu pela primeira vez desde que voltara a Hedestad,
     Anita estava envolvida no desaparecimento de Harriet, mas no poderia t-la matado.
     Como teve a certeza disso?
     Porque isto no  um romance policial e de mistrio. Se Anita tivesse matado Harriet, voc j teria encontrado o corpo h muito tempo. Portanto, o mais lgico 
 que ela tivesse ajudado Harriet a fugir e a se manter distante. Quer v-la?
     Mas  claro que quero ver Harriet.
    

    Mikael foi buscar Harriet, que o aguardava em frente aos elevadores do saguo de entrada. No primeiro momento no a reconheceu; depois que eles haviam se separado 
no aeroporto, na vspera, ela refizera a cor escura original de seus cabelos. Vestia cala preta, camisa branca e um casaco cinza elegante. Estava magnfica e Mikael 
inclinou-se para lhe dar um beijo de encorajamento no rosto,
    Henrik levantou-se da poltrona quando Mikael abriu a porta para deixar Harriet Vanger passar. Ela respirou fundo.
     Bom dia, Henrik.
    O velho a examinou dos ps  cabea. Depois Harriet avanou e o beijou no rosto. Mikael fez um sinal com o queixo para Dirch Frode, fechou a porta e deixou os 
dois a ss.
    

    Lisbeth Salander no estava mais em casa quando Mikael voltou  ilha. O equipamento de vdeo e a moto haviam desaparecido, assim como a sacola com as roupas 
e os produtos de toalete dela no banheiro.
    Ele percorreu os cmodos. A casa de repente lhe pareceu sinistra, estranha, irreal. Olhou as pilhas de papis na saleta de trabalho, que ele devia distribuir 
em pastas e entregar a Henrik Vanger, mas no teve nimo de comear a arrumao. Foi at o Konsum para comprar po, leite, queijo e alguma coisa para beliscar  
noite. Ao voltar, preparou um caf, instalou-se no jardim e leu os jornais da tarde com a cabea vazia, sem pensar em nada.
    Por volta das cinco e meia da tarde, um txi passou pela ponte e voltou trs minutos depois. Mikael avistou Isabella Vanger no banco traseiro.
    Por volta das sete, estava cochilando na cadeira do jardim quando Dirch Frode chegou e o despertou.
     Como foi o encontro de Henrik e Harriet?  perguntou Mikael.
     Essa triste histria tem tambm seu lado divertido  respondeu Frode com um sorriso contido.  Isabella irrompeu de repente no quarto de Henrik. Ela ficou 
sabendo que voc havia voltado e estava uma fera. Berrou que era preciso acabar com essas imbecilidades sobre Harriet e que voc era um investigador de merda que 
causara a morte do filho dela.
     De certa forma ela tem razo.
     Ordenou que Henrik demitisse voc, obrigasse voc a sumir daqui e que parasse de procurar fantasmas.
     Uau!
     Ela nem sequer olhou para a mulher que estava com Henrik. Certamente a tomou como uma funcionria do hospital. No esquecerei jamais o instante em que Harriet 
se levantou, olhou para Isabella e disse: Bom dia, mame.
     E o que aconteceu?
     Foi preciso chamar o mdico para reanimar Isabella. Agora ela est negando que se trata mesmo de Harriet; voc  acusado de ter trazido uma impostora.
    Dirch Frode estava indo anunciar a Ceclia e a Alexander que Harriet ressuscitara dos mortos. Ele seguiu seu caminho e deixou Mikael a ss.
    

    Lisbeth Salander parou para pr gasolina num posto um pouco antes de Uppsala. Estivera dirigindo com os dentes cerrados e o olhar fixo  frente. Pagou rpido, 
deu a partida na moto e avanou at a sada, onde se deteve mais uma vez, indecisa.
    Ainda se sentia mal. Estava furiosa quando deixou Hedeby, mas a raiva lentamente se dissolvera ao longo do trajeto. No sabia muito bem por que estava to zangada 
com Mikael Blomkvist, nem mesmo se era com ele que estava zangada.
    S tinha na cabea Martin Vanger, aquela maldita Harriet Vanger e aquele maldito Dirch Frode, toda aquela maldita famlia Vanger bem instalada em Hedestad, que 
reinava em seu pequeno imprio fazendo intrigas uns contra os outros. Eles haviam precisado da ajuda dela. Normalmente no a teriam sequer cumprimentado, muito menos 
lhe confiado segredos.
    Famlia de merda!
    Inspirou profundamente e pensou na me enterrada naquela manh. Aquilo, sim, no tinha soluo. A morte da me significava que a ferida jamais seria curada, 
pois Lisbeth jamais teria resposta s perguntas que gostaria de ter feito a ela.
    Pensou em Dragan Armanskij atrs dela durante o enterro. Deveria ter dito alguma coisa a ele. Pelo menos ter enviado um sinal de que sabia que ele estava ali. 
Mas a ele teria usado aquilo como pretexto para querer organizar a vida dela. Se lhe desse a pontinha do dedo, ele iria pegar o brao inteiro. Ele nunca entenderia.
    Pensou no dr. Nils Canalha Bjurman, seu tutor, que, ao menos por enquanto, estava neutralizado e fazendo o que ela mandava.
    Sentiu um dio implacvel e cerrou os dentes.
    Pensou em Mikael Blomkvist e perguntou-se qual seria a reao dele se soubesse que ela estava sob tutela e que toda a sua vida no passava de um maldito ninho 
de ratos.
    
    
    Percebeu que no queria mal a ele. Mikael fora simplesmente a pessoa de quem ela dispunha para descarregar sua raiva, sobretudo quando sentia vontade de matar 
algum. No adiantava nada culp-lo.
    Sentia-se estranhamente ambgua em relao a ele.
    Ele metia o nariz em toda parte, fuava a vida privada dela e... Mas ela tambm tinha gostado de trabalhar com ele. E essa era uma sensao estranha  trabalhar 
com algum! No tinha esse hbito, mas fora algo surpreendentemente sem dor. Ele no ficava martelando nos ouvidos dela, no ficava tentando lhe dizer como deveria 
viver sua vida.
    E fora ela que o seduzira, no o contrrio.
    Sem contar que havia sido bom.
    Ento por que essa vontade de chut-lo?
    Suspirou e contemplou com olhos infelizes um caminho enorme que passava pela rodovia E4.
    

    Mikael ainda estava no jardim por volta das oito da noite quando ouviu o barulho da moto e viu Lisbeth Salander passar pela ponte. Ela estacionou e tirou o capacete. 
Aproximou-se da mesa do jardim e examinou a cafeteira, que estava fria e vazia. Mikael olhou para ela surpreso. Ela pegou a cafeteira e entrou na casa. Quando voltou, 
havia tirado o macaco de couro e posto um jeans e uma camiseta com a inscrio I can be a regular bitch. Just try me.
     Achei que j estivesse em Estocolmo  disse Mikael.
     Dei meia-volta em Uppsala.
     Um passeio longo.
     Estou com a bunda dolorida.
     Por que deu meia-volta?
    Ela no respondeu. Mikael no insistiu e esperou que ela falasse enquanto tomavam o caf. Passados dez minutos, ela rompeu o silncio.
     Gosto da sua companhia  ela reconheceu a contragosto. Eram palavras que nunca havia pronunciado.
     Foi... interessante trabalhar com voc nesse caso.
     Tambm gostei de trabalhar com voc  disse Mikael.
     Humm.
     Nunca trabalhei com um pesquisador to competente. Certo, sei que voc  uma hacker terrvel e conhece crculos suspeitos com os quais, depois de um simples 
telefonema, pode montar urna escuta telefnica em Londres em vinte e quatro horas, mas de fato voc obtm resultados.
    Ela o olhou pela primeira vez desde que se sentara ali. Ele conhecia muitos dos seus segredos. Como era possvel?
     E simples. Conheo computadores. Nunca tive problema para ler um texto e entender exatamente o que est escrito l.
     E a sua memria fotogrfica  ele disse tranquilamente.
     Acho que sim. No sei bem como a coisa funciona. No  s com computadores e redes telefnicas, mas tambm com o motor da minha moto, aparelhos de tev, aspiradores 
de p, processos qumicos e frmulas astrofsicas. Admito, sou meio maluca, uma verdadeira freak.
    Mikael franziu as sobrancelhas. No disse nada por um bom tempo.
    A sndrome de Asperger, pensou. Ou algo parecido. Um talento para ver esquemas e entender raciocnios abstraas onde os outros no vem seno a mais completa 
desordem.
    Lisbeth olhou fixamente a mesa.
     A maioria das pessoas pagaria caro para ter esse dom.
     No quero falar sobre isso.
     Tudo bem, deixa pra l. Por que voc voltou?
     No sei. Talvez tenha sido um erro. Ele a perscrutou com o olhar.
     Lisbeth, pode me dar uma definio da palavra "amizade"?
     Gostar muito de algum.
     Sim, mas o que faz gostar muito de algum? Ela encolheu os ombros.
     Minha definio da amizade se baseia em duas coisas  ele disse.  O respeito e a confiana. Esses dois fatores precisam necessariamente estai presentes. E 
deve ser recproco. Pode-se ter respeito por algum, mas se no houver confiana, a amizade vira p.
    Ela continuou calada.
     Tudo bem voc no querer falar de si mesma comigo; s que, mais cedo ou mais tarde, vai precisar decidir se tem confiana em mim ou no. Quero que sejamos 
amigos, mas no posso ser seu amigo sozinho.
     Gosto de trepar com voc.
     O sexo no tem nada a ver com a amizade. Claro que amigos podem fazer amor, mas oua, Lisbeth: se eu tiver que escolher entre sexo e amizade com voc, sei 
muito bem o que escolherei.
     No entendo. Quer fazer amor comigo ou no? 
    Mikael mordeu o lbio. Por fim, suspirou.
     No  bom que pessoas que trabalham juntas faam amor juntas  ele murmurou.  Acaba dando problemas.
     Posso estar enganada, mas me parece que voc e Erika trepam assim que surge uma chance. E alm disso ela  casada.
    Mikael ficou um momento em silncio.
     Eu e Erika... temos uma histria que comeou muito antes de trabalharmos juntos. O fato de ela ser casada no lhe diz respeito.
     Est vendo? Agora  voc que no quer falar dos seus assuntos. A amizade no era uma questo de confiana?...
     Sim, mas o que eu quero dizer  que no falo de uma amiga nas costas dela. Seria trair sua confiana. Tambm no falaria de voc com Erika nas suas costas.
    Lisbeth Salander pensou sobre o que ele disse. A conversa havia ficado complicada e ela no gostava de conversas complicadas.
     Gosto de trepar com voc  repetiu.
     E eu tambm... mas j tenho idade para ser seu pai.
     No dou a mnima para a sua idade.
     Voc no pode ignorar nossa diferena de idade. Ela no  um bom ponto de partida para uma relao duradoura.
     Quem falou de algo duradouro?  disse Lisbeth.  Acabamos de resolver um caso em que homens com uma sexualidade pervertida de merda desempenharam um papel 
e tanto. Se dependesse de mim, homens como esses seriam exterminados, todos.
     Bem, pelo menos voc no faz concesses.
     No  disse ela, com seu sorriso enviesado que no era bem um sorriso.  Mas voc no  como eles.
    Levantou-se.
     Vou tomar um banho e depois pretendo me deitar nua na sua cama. Se voc se sente muito velho, pode ir dormir na cama de armar.
    Mikael olhou para ela. Quaisquer que fossem os problemas de Lisbeth Salander, a timidez no era um deles. Ele sempre saa perdendo nas discusses que tinha com 
ela. Foi lavar as xcaras de caf e depois entrou no quarto.
    
    
    Levantaram-se por volta das dez, tomaram banho juntos e se instalaram no jardim para o caf-da-manh. Aproximadamente s onze horas, Dirch Frode telefonou e 
disse que o enterro seria s duas. Perguntou se tinham a inteno de ir.
     Acho que no  disse Mikael.
    Frode perguntou se poderia passar por volta das seis da tarde para terem uma conversa. Mikael disse que no havia problema.
    Passou algumas horas guardando os papis nas pastas e depois levando-as ao escritrio de Henrik. Por fim, restaram s seus prprios cadernos de anotaes e as 
duas pastas sobre o caso Hans-Erik Wennerstrm, que havia seis meses ele no abria. Suspirou e colocou-as na mala.
    
    
    Dirch Frode se atrasou e s chegou s oito da noite. Ainda vestia a roupa de enterro e parecia muito preocupado quando se sentou no banco da cozinha. Aceitou 
com prazer a xcara de caf que Lisbeth lhe serviu. Ela se sentou na outra mesa e concentrou-se em seu computador, enquanto Mikael perguntava como a ressurreio 
de Harriet repercutira na famlia.
     Pode-se dizer que eclipsou a morte de Martin. Mas a mdia tambm ficou sabendo do caso dela.
     E como vocs esto explicando a situao?
     Harriet conversou com um jornalista do Kuriren. Sua verso c que fugiu de casa porque no se entendia com a famlia, mas que, afinal, acabou se dando bem, 
pois hoje dirige uma empresa com um volume de negcios to grande quanto o do grupo Vanger.
    Mikael assobiou.
     Percebi que ovelhas australianas davam dinheiro, mas no sabia que chegava a tanto.
     A criao de ovelhas vai muito bem, mas no  a nica fonte de renda. As empresas Cochran possuem tambm minas, refinam opalas, atuam no setor de transporte, 
de eletrnica e se dedicam a uma srie de outras coisas.
     No diga! E como foi a sequncia dos acontecimentos?
     Para dizer a verdade, no sei. Pessoas foram chegando no transcorrer do dia e a famlia est reunida pela primeira vez depois de muitos anos. Vm tanto do 
lado de Fredrik Vanger quanto do de Johann Vanger, e h muitos da nova gerao, os que tm entre vinte e trinta anos. Deve haver uns quarenta Vanger em Hedestad 
agora  noite; uma metade est no hospital com Henrik, esgotando-o, e a outra metade no Grande Hotel, conversando com Harriet.
     Harriet  a grande sensao. Quantas pessoas esto sabendo da verdade sobre Martin?
     Por enquanto, somente eu, Henrik e Harriet. Tivemos uma longa conversa a ss. Essa histria de Martin e de... suas perverses  a nossa principal preocupao 
hoje. A morte de Martin gerou uma crise enorme no grupo.
     Entendo.
     No h um sucessor natural, mas Harriet vai ficar em Hedestad durante algum tempo. Entre outras coisas, precisamos ver quem possui o qu, como as heranas 
sero divididas, coisas do gnero. Harriet tem direito a uma parte da herana, que teria sido bem maior se ela tivesse ficado aqui o tempo todo. E uma situao complicada.
    Mikael riu. Dirch Frode permaneceu srio.
     Isabella passou mal no enterro. Foi hospitalizada. Harriet se recusa a v-la.
     Entendo.
     Por outro lado, Anita vai chegar de Londres. Convocamos um conselho de famlia para a prxima semana. Ser a primeira vez em vinte e cinco anos que ela participa.
     Quem ser o novo diretor-executivo?
     Birger luta pelo cargo, mas est fora de questo. O que vai acontecer  que Henrik reassumir como diretor temporrio at que algum de fora seja contratado, 
ou ento algum da famlia...
    No terminou a frase. Mikael levantou as sobrancelhas.
     Harriet? No est falando srio.
     Por que no? E uma mulher de negcios muito competente e respeitada.
     Ela tem uma empresa para dirigir na Austrlia.
     Sim, mas seu filho Jeff Cochran dirige o negcio na ausncia dela.
     Ele  studs manager numa criao de ovelhas. Se entendi direito, cuida para que as ovelhas se reproduzam bem.
     Tambm diplomou-se em economia pela Oxford e em direito em Melbourne.
    Mikael pensou no homem musculoso e sem camisa que o conduzira pelo despenhadeiro e tentou imagin-lo de terno e gravata. Por que no?
     Isso no se resolver de uma hora para a outra  disse Frode.  Mas ela seria uma diretora-executiva perfeita. Com um apoio apropriado, poderia orientar o 
grupo para uma nova direo.
     Ela no tem experincia...
     E verdade. Claro que Harriet no pode surgir do nada depois de dcadas e comear a dirigir tudo em detalhe. Mas o grupo Vanger  internacional e poderamos 
trazer para c um executivo americano que no fala uma palavra de sueco... para tocar o business, como dizem.
     Cedo ou tarde vocs vo ter que enfrentar o problema do poro de Martin.
     Eu sei. Mas no podemos revelar nada sem arruinar Harriet... Alegro-me de no ser eu a ter que tomar uma deciso sobre isso.
     Que merda, Dirch! Vocs no podem silenciar sobre Martin ter sido um assassino serial.
    Dirch Frode contorceu-se em silncio. Mikael sentiu de repente um gosto ruim na boca.
     Mikael, encontro-me numa... situao muito desconfortvel. 
     Fale.
     Tenho um recado de Henrik.  muito simples. Ele agradece a voc pelo seu trabalho e diz que considera o contrato encerrado. Isso significa que o est liberando 
de outras obrigaes e que voc no est mais obrigado a viver e a trabalhar aqui em Hedestad et cetera. Ou seja, pode partir imediatamente para Estocolmo e dedicar-se 
a seus compromissos.
     Ele quer que eu desaparea de cena?
     De modo nenhum. Quer que mais tarde venha visit-lo para conversarem sobre o assunto. Disse que espera poder manter sem restries seus compromissos na direo 
da Millennium. Mas...
    Dirch Frode pareceu ainda mais constrangido.
     Mas no quer mais que eu escreva uma crnica sobre a famlia Vanger, no ?
    Frode assentiu com a cabea. Pegou um caderno, abriu-o e entregou a Mikael.
     Ele escreveu esta carta para voc.
    

Prezado Mikael!
    Tenho o maior respeito pela sua integridade e no vou ofend-lo tentando ditar o que deve escrever. Pode escrever e publicar exatamente o que quiser, no tenho 
a inteno de exercer a menor presso sobre voc.
    Nosso contrato permanece em vigor, se quiser reivindic-lo. Tem elementos suficientes para terminar a crnica sobre a famlia Vanger. Mikael, nunca implorei 
nada a ningum em toda a minha vida. Sempre achei que um homem deve seguir sua moral e sua convico. Mas desta vez no tenho escolha.
    Peco-lhe, tanto como amigo quanto como co-proprietrio da Millennium, que no revele a verdade sobre Gottfried e Martin. Sei que no  correto, mas no vejo 
nenhuma sada nessa escurido. Devo escolher entre dois males, e s h perdedores.
    Peco-lhe que no escreva nada que prejudique Harriet. Voc viveu isso na pele, sabe o que significa ser objeto de uma campanha da imprensa. A campanha dirigida 
contra voc foi de propores relativamente modestas, mas imagine o que ser de Harriet se a verdade for conhecida. Ela viveu um calvrio durante quarenta anos e 
no precisa sofrer ainda mais pelos atos que o irmo e o pai dela cometeram. Ento eu lhe peo que reflita nas consequncias que essa histria poder ter para milhares 
de funcionrios do grupo. Isso destruiria Harriet e nos aniquilaria.
    
    Henrik
    
     Henrik disse tambm que, se voc quiser exigir uma indenizao pelas perdas ocasionadas pela no-publicao da histria, ele est totalmente aberto a discutir 
isso. Pode propor as condies financeiras que quiser.
     Henrik Vanger est tentando me comprar. Diga-lhe que eu teria preferido que ele nunca tivesse me feito essa oferta.
     Essa situao  to penosa para Henrik quanto para voc. Ele gosta imensamente de voc e o considera um amigo.
     Henrik Vanger  um sujeito esperto  disse Mikael, voltando a se irritar.  Ele quer abafar a histria. Joga com os meus sentimentos e sabe que eu tambm gosto 
dele. O que ele est dizendo  que na prtica eu tenho as mos livres para publicar o que quiser, mas, se eu fizer isso, ele ser obrigado a rever sua postura com 
relao  Millennium.
     Tudo mudou depois que Harriet reapareceu.
     E agora Henrik quer saber qual  o meu preo. No vou entregar Harriet s feras, mas algum precisa falar sobre as mulheres que Martin levou para o poro. 
Dirch, no sabemos quantas mulheres ele massacrou. Quem vai falar em nome delas?
    Lisbeth Salander levantou de repente os olhos do computador. Sua voz tinha uma doura desagradvel quando ela se virou para Dirch Frode.
     No grupo de vocs no h ningum com a inteno de comprar a mim tambm?
    Frode olhou-a surpreso. Mais uma vez, ele havia ignorado a existncia dela.
     Se Martin Vanger estivesse vivo neste instante, eu o entregaria s feras  ela prosseguiu.  Seja qual fosse o arranjo de vocs com Mikael, eu iria contar 
tudo sobre ele ao jornal mais prximo. E, se pudesse, o arrastaria  sua prpria sala de tortura, o prenderia naquela mesa e lhe enfiaria agulhas nos colhes. Mas 
ele est morto.
    Ela se virou para Mikael antes de continuar.
     O arranjo podre deles me convm. Nada do que fizermos poder reparar o mal que Martin Vanger causou a suas vtimas. Mas por outro lado surgiu uma situao 
interessante. Voc est numa posio em que pode continuar prejudicando mulheres inocentes, especialmente essa Harriet que voc defendeu to calorosamente quando 
voltvamos de carro para c. Minha questo  a seguinte: o que  pior? Que Martin Vanger a tenha violentado na cabana ou que voc faa isso em papel impresso? Voc 
est diante de um belo dilema. O comit de tica da Associao dos Jornalistas talvez possa te dar uma ideia de que caminho seguir.
    Ela fez uma pausa. Mikael no conseguiu mais sustentar o olhar de Lisbeth Salander. Baixou os olhos para a mesa.
     S que eu no sou jornalista  disse ela por fim.
     O que est querendo?  perguntou Dirch Frode soltando um suspiro
     Martin filmou suas vtimas. Quero que tentem identificar o maior nmero possvel dessas mulheres e dem s famlias delas uma compensao apropriada. E depois 
quero que o grupo Vanger faa uma doao anual e permanente de dois milhes de coroas ao SOS-Mulheres Vtimas de Maus-tratos. Por um minuto, Dirch Frode meditou 
no preo a pagar. Depois assentiu com a cabea.
     Pode viver com isso, Mikael?  perguntou Lisbeth.
    Mikael sentiu-se subitamente desesperado. Passara toda a sua vida profissional denunciando o que outros tentavam esconder, e sua moral o proibia de participar 
da ocultao dos crimes terrveis cometidos no poro de Martin Vanger. O objetivo de seu trabalho era justamente denunciar o que ele sabia. No hesitava em criticar 
colegas que no contassem a verdade. No entanto, ali estava ele discutindo o abafamento do caso mais macabro de que jamais ouvira falar.
    Permaneceu calado por um bom tempo. Depois tambm assentiu com a cabea.
     Melhor assim.  Dirch Frode virou-se para Mikael.  E quanto  oferta de Henrik de uma compensao financeira...
     Enfie naquele lugar  disse Mikael.  E agora quero que v embora, Dirch. Entendo sua posio, mas neste momento estou to furioso com voc, com Henrik e com 
Harriet que, se ficar, vamos deixar de ser amigos.
    
    
    Dirch Frode permaneceu sentado  mesa sem fazer meno de se levantar.
     Ainda no posso ir  disse.  No terminei. Tenho outro recado que voc tambm no vai gostar. Henrik insistiu para que eu o transmitisse esta noite. Amanh 
voc pode ir ao hospital esfol-lo, se quiser.
    Mikael levantou devagar a cabea e olhou Dirch bem nos olhos.
     E provavelmente a coisa mais difcil que j precisei fazer na vida  disse Frode.  Mas acho que agora apenas uma sinceridade total e todas as cartas na mesa 
podem salvar a situao.
     Diga logo.
     Quando Henrik o convenceu a aceitar esse trabalho no Natal passado, nem ele nem eu pensamos que iria dar em alguma coisa. Foi exatamente o que ele disse: queria 
fazer uma ltima tentativa. Ele examinou minuciosamente a sua situao, baseando-se muito no relatrio feito pela senhorita Salander. Contou com seu isolamento, 
props uma boa remunerao e utilizou uma boa isca.
     Wennerstrm  disse Mikael. Frode assentiu com a cabea.
     Vocs blefaram?
     No.
    Lisbeth Salander levantou uma sobrancelha, interessada.
     Henrik vai cumprir todas as suas promessas  continuou Frode. Dar uma entrevista e lanar publicamente um ataque frontal contra Wennerstrm. Voc ter todos 
os detalhes mais tarde, mas em linhas gerais o fato  o seguinte: quando Wennerstrm esteve ligado ao departamento financeiro do grupo Vanger, ele utilizou vrios 
milhes de coroas para especular com moedas estrangeiras. Isso bem antes desse tipo de especulao se generalizar. Agiu por conta prpria, sem pedir a autorizao 
da direo. Os negcios no iam bem e ele se viu de uma hora para a outra com um dficit de sete milhes de coroas, que tentou cobrir, de um lado, mexendo na contabilidade 
e, de outro, especulando ainda mais. Foi desmascarado e despedido.
     Ele obteve ganhos pessoais nessas operaes?
     Sim, desviou cerca de meio milho de coroas, e o mais cmico dessa histria, se  que se pode dizer assim,  que essa quantia serviu para fundar o grupo Wennerstrm. 
Temos provas de tudo. Voc pode utilizar essa informao  vontade e Henrik sustentar publicamente suas afirmaes. Mas...
     Mas essa informao no tem o menor valor!  disse Mikael, batendo com a mo na mesa.
    Dirch Frode assentiu com a cabea.
     Aconteceu h trinta anos e  um captulo encerrado  disse Mikael.
     Mas voc ter a confirmao de que Wennerstrm  um escroque.
     Wennerstrm se aborrecer que isso venha a pblico, porm no ser atingido mais que por uma bolinha de papel soprada num canudo. Dar de ombros e divulgar 
um comunicado de imprensa dizendo que Henrik Vanger  um velho ultrapassado que implica com ele sem motivo, depois afirmar que na verdade agiu por ordem de Henrik. 
Mesmo que no possa provar sua inocncia, saber espalhar fumaa suficiente para que a histria logo perca o interesse.
    Dirch Frode tinha um aspecto sinceramente pesaroso.
     Vocs me enganaram  disse Mikael por fim.
     Mikael... no era nossa inteno.
     A culpa  minha. Eu buscava indcios de falsidade e deveria ter entendido que esse era um deles.  Deu uma risada brusca, um riso seco.  Henrik  um velho 
tubaro. Tinha um produto para vender e me disse o que eu precisava ouvir.
    Mikael levantou-se e foi at a bancada da cozinha. Virou-se para Frode e resumiu seus sentimentos em duas palavras.
     V embora.
     Mikael... lamento que...
     Caia fora, Dirch!
    
    Lisbeth Salander no sabia se devia se aproximar de Mikael ou deix-lo em paz. Ele resolveu o problema para ela ao pegar de repente a jaqueta, sem dizer nada, 
e bater a porta atrs de si.
    Durante mais de uma hora, ela andou de um lado para o outro na cozinha. Sentia-se to inquieta que limpou a mesa e lavou a loua  tarefa que normalmente deixava 
para Mikael. Vrias vezes foi at a janela espiar. Por fim, resolveu pr sua jaqueta de couro e ir procur-lo.
    Primeiro foi at o porto de recreio, onde havia luzes ainda nas janelas, mas no viu sinal de Mikael. Seguiu o caminho da praia, onde eles faziam seus passeios 
noturnos. A casa de Martin Vanger estava s escuras e j se notava que no era mais habitada. Foi at a pedra do promontrio, onde Mikael e ela costumavam se sentar, 
depois retornou para casa. Ele ainda no tinha voltado.
    Lisbeth foi procurar do lado da igreja. Nenhum sinal de Mikael tambm. Ela hesitou um momento, perguntando-se o que devia fazer. Resolveu pegar a moto, ps uma 
lanterna no estojo debaixo do assento e partiu pelo caminho da praia outra vez. Demorou um pouco at pegar o atalho invadido em parte pela vegetao e mais algum 
tempo at encontrar a trilha que conduzia  cabana de Gottfried. Avistou-a de repente na escurido, atrs de algumas rvores, quando estava quase chegando. No viu 
Mikael na varanda e a porta estava trancada.
    J ia voltar ao povoado, quando se deteve ao avistar a silhueta de Mikael no escuro, no ponto onde Harriet afogara o pai. Deu um suspiro de alvio.
    Mikael percebeu que ela se aproximava pelo barulho das tbuas e se virou. Ela sentou ao lado dele sem dizer nada. Por fim ele rompeu o silncio.
     Desculpe. Eu precisava ficar um pouco sozinho.
     Eu entendo.
    Ela acendeu dois cigarros e estendeu um a ele. Mikael olhou para ela. Lisbeth Salander era a pessoa mais anti-social que ele conhecera; recusava-se a falar de 
coisas pessoais e nunca aceitara a menor demonstrao de simpatia dele. Tinha salvado sua vida e agora saa no meio da noite para procur-lo pela ilha. Ele ps um 
brao em torno dela.
     Agora sei o quanto valho. Abandonamos todas aquelas mulheres  disse.  Eles vo abafar a histria. Tudo que h no poro de Martin vai desaparecer.
    Lisbeth no respondeu.
     Erika tinha razo  ele continuou.  Teria sido melhor se eu tivesse ido  Espanha dormir com as espanholas por um ms, depois voltar a me encarregar de Wennerstrm. 
Foram meses jogados fora.
     Se voc tivesse ido  Espanha, Martin Vanger continuaria agindo no seu poro.
    Silncio. Eles ficaram ali juntos por bastante tempo at que Mikael se levantou e props que voltassem.
    Mikael adormeceu antes de Lisbeth. Ela ficou acordada escutando a respirao dele. Esperou um momento, depois foi  cozinha fazer caf. Sentou-se no banco, no 
escuro, e fumou vrios cigarros enquanto refletia intensamente. Para ela, era evidente que Vanger e Frode iam enganar Mikael. Essa gente era assim por natureza. 
Mas o problema era de Mikael, e no dela. Ou era?
    Acabou tomando uma deciso. Esmagou o cigarro, foi para junto de Mikael, acendeu a lmpada de cabeceira e sacudiu-o at que despertasse. Eram duas e meia da 
manh.
     Que foi?
     Tenho uma pergunta pra te fazer. Sente-se. Mikael sentou-se, ainda sonolento.
     Quando voc foi condenado por difamao, por que no se defendeu? Mikael sacudiu a cabea e olhou para ela. Depois olhou para o despertador.
      uma longa histria, Lisbeth.
     Conte. No tenho pressa.
    
    
    Ele permaneceu um bom tempo em silncio, refletindo sobre o que deveria dizer. Por fim decidiu contar a verdade.
     Eu no tinha como me defender. O contedo do artigo estava errado.
     Quando pirateei seu computador e os e-mails que voc trocou com Erika Berger, havia muitas referncias ao caso Wennerstrm, mas sempre para discutir detalhes 
prticos do processo e nunca o que realmente aconteceu. O que foi que no deu certo?
     Lisbeth, no posso revelar a verdadeira histria. Ca numa armadilha. Erika e eu estamos totalmente de acordo que seria ainda mais prejudicial  nossa credibilidade 
se tentssemos contar o que de fato se passou.
     Ento me diga, Super-Blomkvist. Ontem  tarde voc me passou um sermo sobre amizade, confiana e no sei mais o qu. Acha que estou pretendendo divulgar a 
sua histria pela internet?
    
    
    Mikael protestou uma ou duas vezes. Lembrou a Lisbeth que era madrugada e que no tinha nimo para pensar no assunto. Ela permaneceu obstinadamente sentada at 
ele ceder. Mikael foi lavar o rosto e esquentar o caf. Ento voltou para a cama e contou como, dois anos antes, seu ex-colega de classe Robert Lindberg havia despertado 
sua curiosidade na cabine de um veleiro atracado na marina de Arholma.
     Quer dizer que seu colega mentiu?
     No, de modo nenhum. Ele contou exatamente o que sabia e verifiquei cada palavra do que ele disse em documentos existentes no Comit de Apoio Industrial. Cheguei 
a ir  Polnia fotografar o hangar onde a empresa Minos tinha sido instalada. E entrevistei vrias pessoas que haviam sido contratadas. Todas disseram exatamente 
a mesma coisa.
     No entendo.
    Mikael suspirou. Demorou um pouco para prosseguir.
     Eu tinha uma tima histria. Ainda faltava colocar Wennerstrm na parede, mas a histria era consistente e, se eu tivesse publicado na hora, teria desestabilizado 
o cara. Ele talvez no fosse condenado por fraude, o caso j tinha o aval dos auditores, mas pelo menos eu teria abalado sua reputao.
     E o que impediu isso?
     Nesse meio-tempo algum percebeu a jogada e Wennerstrm ficou sabendo da investigao. E um monte de coisas estranhas comearam a acontecer. Primeiro recebi 
ameaas. Telefonemas annimos feitos de cabines pblicas impossveis de localizar. Erika tambm recebeu ameaas. Os absurdos de sempre: pare de investigar seno 
vamos te pegar, coisas desse tipo. Ela evidentemente ficou irritada.
    Ele pegou um dos cigarros de Lisbeth.
     Depois aconteceu algo muito desagradvel. Uma noite, ao sair da re-dao bem tarde, fui atacado por dois sujeitos que me deram uma surra. Eu estava completamente 
desprevenido, eles me espancaram pra valer e desmaiei. No consegui identific-los, mas um deles me pareceu ser um motoqueiro.
     E?
     Bem, todas essas manifestaes de simpatia acabaram deixando Erika mais furiosa e eu mais obstinado. Reforamos a segurana da Millennium. O problema  que 
eram ataques desproporcionais em relao ao contedo da nossa histria. No entendamos por que tudo aquilo estava acontecendo.
     Mas a histria que voc publicou era muito diferente.
     Exato. De repente descobrimos uma brecha. Fizemos contato com uma fonte, um Garganta Profunda do crculo de Wennerstrm. O sujeito estava borrado de medo e 
s nos encontrvamos com ele em quartos de hotis annimos. Contou que o dinheiro do caso Minos fora utilizado para comprar armas destinadas  guerra na Jugoslvia. 
Wennerstrm tinha feito negcios com o grupo de direita croata Ustacha. E mais: o cara nos deu cpias de documentos que confirmavam suas denncias.
     E vocs acreditaram?
     Ele foi habilidoso. Tambm nos passou informaes suficientes para nos levar a uma outra fonte que podia confirmar a histria. Tivemos inclusive uma foto que 
mostrava um dos mais prximos colaboradores de Wennerstrm apertando a mo do comprador, diante de caixas com a etiqueta "Explosivos". Tudo parecia verdico, e publicamos.
     Era uma isca.
    
    
     Uma isca do comeo ao fim  confirmou Mikael.  Os documentos haviam sido habilmente falsificados. E o advogado de Wennerstrm provou que a foto do subalterno 
de Wennerstrm e do chefe da Ustacha era uma montagem de duas fotos diferentes feita no Photoshop.
    
     Fascinante  disse Lisbeth Salander, assentindo com a cabea pensativamente. Tudo estava muito claro para ela.
     No  mesmo? Depois foi fcil ver como havamos sido manipulados. Nossa histria original teria prejudicado Wennerstrm, no entanto ela se perdeu numa falsificao 
e caiu numa armadilha. Publicamos uma histria que permitiu a Wennerstrm desmantel-la ponto por ponto e provar sua inocncia. Foi um golpe de mestre.
     E vocs no podiam voltar atrs e contar a verdade. No tinham nenhuma prova de que Wennerstrm fizera a falsificao.
     Pior que isso. Se tentssemos contar a verdade e cometssemos a imbecilidade de acusar Wennerstrm de estar por trs de tudo, ningum acreditaria em ns. Interpretariam 
isso apenas como uma tentativa desesperada de culpar um grande empresrio inocente. Seramos vistos como uns obcecados por compl e doidos completos.
     Entendo.
     Wennerstrm estava duplamente protegido. Se o truque fosse revelado, ele poderia dizer que um de seus inimigos quisera arrast-lo para a lama. E ns da Millennium 
perderamos mais uma vez a credibilidade, pois teramos engolido informaes que depois se revelaram falsas.
     Ento voc escolheu no se defender e encarar uma pena de priso.
     Mereci a pena  disse Mikael com voz amarga.  Fui culpado por difamao.  isso, agora voc j sabe. Posso dormir?
    
    
    Mikael apagou a luz e fechou os olhos. Lisbeth estendeu-se ao lado dele. No disse nada por um momento.
     Wennerstrm  um gngster.
     Eu sei.
     No, eu quis dizer que eu sei que ele  um gngster. Ele negocia com tudo, desde a mfia russa at o cartel de Medelln na Colmbia.
     O que est querendo dizer?
     Quando entreguei meu relatrio a Frode, ele me incumbiu de uma misso suplementar. Pediu que eu tentasse descobrir o que realmente havia acontecido no processo. 
Eu estava envolvida nisso quando Armanskij me chamou para cancelar o trabalho.
     Suponho que no precisavam mais da investigao depois que voc aceitou a proposta de Henrik Vanger. No havia mais interesse.
     Sim, e da?
     Bem, no gosto de deixar as coisas pela metade. Tive algumas semanas... digamos, livres na primavera, num perodo em que Armanskij no tinha trabalho para 
mim. Ento, para me distrair, comecei a escavar o caso Wennerstrm.
    Mikael empertigou-se, acendeu a lmpada e olhou para Lisbeth. Os olhares dos dois se cruzaram. Ela parecia realmente algum que tinha feito algo errado.
     Descobriu alguma coisa?
     Tenho todo o disco rgido dele no meu computador. Se te interessa, posso fornecer quantas provas voc quiser de que ele  um verdadeiro gngster.
    
   
28.         TERA-FEIRA 29 DE JULHO 
    SEXTA-FEIRA 24 DE OUTUBRO

    
    Fazia trs dias que Mikael Blomkvist estava debruado sobre as cpias dos fichrios de Lisbeth Salander  pastas repletas de documentos. O problema  que as 
evidncias seguiam em todas as direes. Uma negociao com ttulos em Londres, outra com moedas estrangeiras em Paris atravs de um agente. Uma empresa-fantasma 
em Gibraltar. O saldo de uma conta no Chase Manhattan Bank, em Nova York, de repente multiplicado por dois.
    E tambm vrios pontos de interrogao: uma empresa comercial com duzentas mil coroas numa conta sem movimentao aberta cinco anos antes em Santiago do Chile 
 uma entre trinta outras semelhantes em doze pases diferentes  e sem a menor indicao da atividade principal. Empresas em estado latente? A espera de qu? Biombos 
para ocultar outras atividades? O computador no fornecia respostas para o que Wennerstrm guardava na cabea, e que certamente era muito evidente para que precisasse 
estar num documento eletrnico.
    Salander tinha se convencido de que jamais encontrariam resposta para a maior parte dessas questes. Eles podiam ver a mensagem, mas no podiam interpretar seu 
sentido sem o cdigo. O imprio Wennerstrm era como uma cebola cujas peles podiam ser retiradas uma a uma; um conjunto de empresas proprietrias umas das outras. 
Companhias, contas, fundos, valores. Eles constatavam que ningum, nem mesmo Wennerstrm, conseguiria ter uma viso global. O imprio Wennerstrm era dotado de vida 
prpria.
    Havia uma estrutura, ou pelo menos um esboo de estrutura. Um labirinto de empresas interdependentes. O imprio Wennerstrm podia ser avaliado, de acordo com 
a pessoa que fizesse o clculo e de acordo com a maneira de calcular, entre 100 bilhes e 400 bilhes de coroas. Mas, no caso de empresas proprietrias umas das 
outras, que valor tm, afinal, essas empresas?
    Quando Lisbeth lanou a pergunta, Mikael olhou-a com um ar atormentado.
     Tudo isso  esotrico  respondeu ele antes de passar ao exame das contas bancrias.
    

    Eles deixaram a ilha de Hedeby s pressas, de manh, depois que Lisbeth Salander soltou a bomba que agora absorvia Mikael o tempo todo. Foram direto para a casa 
de Lisbeth e passaram dois dias e duas noites diante do computador dela, enquanto Mikael era conduzido ao universo de Wennerstrm. Ele tinha muitas perguntas a fazer. 
Uma delas por pura curiosidade.
     Lisbeth, como voc pode pilotar o computador dele?
     E uma pequena inveno fabricada pelo meu colega Praga. Wennerstrm trabalha num laptop IBM, tanto em casa como no escritrio. Isso quer dizer que toda a informao 
fica guardada num nico disco rgido. O cabo de banda larga est na casa dele. Praga inventou uma espcie de tubo que se conecta ao cabo propriamente dito e que 
venho testando para ele; tudo o que Wennerstrm v  registrado por esse tubo, que envia a informao a um servidor em algum lugar.
     Ele no tem um firewall?
     Sim, tem, mas a ideia  que o prprio tubo funcione tambm como uma espcie de firewall. Demora um pouco para piratear desse modo. Digamos que Wennerstrm 
receba um e-mail; ele chega primeiro ao tubo de Praga e podemos l-lo antes mesmo que seja captado pelo firewall de Wennerstrm. Mas o engenhoso  que a mensagem 
 reescrita e injetamos alguns bytes de um cdigo-fonte. A operao repete-se toda vez que ele faz um download em seu computador. A coisa funciona ainda melhor com 
imagens. Ele navega muito na internet. Sempre que baixa uma foto porn ou abre um novo site, acrescentamos alguns sinais desse cdigo-fonte. Depois de um certo tempo, 
algumas horas ou dias, conforme o uso que ele fizer do computador, Wennerstrm ter baixado um programa inteiro de cerca de trs megabytes, em que os bits foram 
se somando uns aos outros. 
     E?
     Depois que os ltimos bits foram instalados, o programa se integra ao navegador da internet do laptop. Ele pensa que o computador travou e  obrigado a reiniciar. 
Ao fazer isso, est carregando um novo programa. Wennerstrm usa o Microsoft Explorer. Na prxima vez que abrir o Explorer, na verdade abrir um programa diferente, 
invisvel no seu computador e semelhante ao Explorer. Funciona como o Explorer, mas faz tambm um monte de outras coisas. Esse programa comea a escanear o computador 
e envia bits de informao sempre que Wennerstrm clica no mouse ao navegar. Depois de um tempo, e dependendo do perodo que ele passa navegando, acumulamos um espelho 
completo do contedo do disco rgido dele num outro servidor. E ento que o TH intervm.
     TH?
      como Praga chamou: Takeover hostil.
     Ah!
     O engenhoso  o que vem a seguir. Quando a estrutura est pronta, Wennerstrm tem dois discos rgidos completos, um em sua prpria mquina e outro no nosso 
servidor. Na verdade, quando ele inicia o computador, est iniciando o computador-espelho. No trabalha mais no prprio computador, e sim no nosso servidor. Seu 
computador vai rodar um pouco mais lento, mas nem se percebe. E, quando estou conectada ao servidor, posso acompanhar o computador dele em tempo real. Toda vez que 
Wennerstrm digita uma tecla, aparece no meu monitor.
     Vejo que o seu colega tambm  um hacker.
     Foi ele que montou a escuta telefnica em Londres. Socialmente falando,  um incompetente, mas na internet  legendrio.
     Certo  disse Mikael com um sorriso resignado.  Pergunta nmero dois: por que no me falou de Wennerstrm antes?
     Voc nunca me pediu.
     E se eu nunca tivesse pedido  digamos que no tivssemos nos conhecido  ento voc teria se calado sobre as atividades ilcitas de Wennerstrm, enquanto 
a Millennium caa em desgraa?
     Ningum nunca me pediu para denunciar Wennerstrm  respondeu Lisbeth com uma voz sentenciosa.
     Mas e se pedissem?
     Ora, j contei a voc!  ela retrucou na defensiva. Mikael deixou o assunto de lado.

    
    Mikael estava totalmente absorvido pelo que descobria no computador de Wennerstrm. Lisbeth gravara o contedo do disco rgido de Wennerstrm
     cerca de cinco gigabytes  nuns dez CDs, e tinha mais ou menos a impresso de ter se mudado para a casa de Mikael. Esperava pacientemente e respondia s perguntas 
que ele no parava de fazer.
     No entendo como ele pode ser to imbecil a ponto de guardar todas as informaes dos seus negcios suspeitos num disco rgido  disse Mikael.
     Se casse nas mos da polcia...
     As pessoas no so racionais. Eu diria que ele nem imagina que a polcia possa querer confiscar seu computador.
     Acima de qualquer suspeita. Concordo que ele  um sujeito arrogante, mas deve estar bem cercado de consultores em segurana que lhe dizem como lidar com seu 
computador. Vi arquivos de 1993.
     O computador  bastante recente. Foi fabricado h um ano, mas Wennerstrm parece ter transferido toda a sua velha correspondncia e coisas do gnero para o 
disco rgido, em vez de salvar em CDs. Mas ele se previne com programas de encriptao.
     Precauo totalmente intil, j que voc est dentro do computador dele e l as senhas toda vez que ele digita.
    

    Fazia quatro dias que eles tinham voltado a Estocolmo, quando Christer Malm ligou para o celular de Mikael e o despertou s trs da manh.
     Henry Cortez foi a uma festa com uma namorada esta noite.
     Ah, sim?  respondeu Mikael, ainda tonto de sono.
     Antes de voltarem para casa, passaram no bar da Estao central.
     No  o melhor lugar para namorar.
     Escuta esta: Janne Dahlman est de frias e Henry o viu numa mesa junto com um homem.
     E?
     Henry reconheceu imediatamente o tal homem. Krister Sder.
     O nome me diz alguma coisa, mas...
     Trabalha no Finansmagasinet Monopol, que pertence ao grupo Wennerstrm  prosseguiu Malm.
    Mikael ergueu-se na cama.
     Est me ouvindo?
     Sim, estou. Pode no significar nada. Sder  jornalista, talvez seja um velho colega de Dahlman.
     Talvez eu esteja sendo meio paranico, mas h trs meses a Millennium comprou a reportagem de um freelancer. Uma semana antes de ns a publicarmos, Sder publicou 
uma notcia quase idntica. Era o mesmo assunto sobre um fabricante de celulares. Ele ocultava a informao de que utilizavam um componente defeituoso que pode causar 
curtos-circuitos.
     Entendo. Mas essas coisas acontecem. Comentou isso com Erika?
     No, ela est viajando, s volta a semana que vem.
     No faz mal. Volto a te ligar  disse Mikael e desligou o celular.
     Problemas?  perguntou Lisbeth Salander.
     A Millennium  disse Mikael.  Preciso dar uma sada. Quer vir comigo?

    
    A redao estava deserta s quatro da manh. Lisbeth precisou de trs minutos para descobrir o cdigo de acesso do computador de Janne Dahlman e mais dois para 
transferir seu contedo para o notebook de Mikael.
    A maior parte dos e-mails, porm, achava-se no laptop pessoal de Dahlman, ao qual no tinham acesso. Mas no computador dele na Millennium Lisbeth encontrou um 
endereo hotmail de Dahlman, e ela levou seis minutos para entrar na conta dele e transferir toda a sua correspondncia do ano anterior. Cinco minutos depois, Mikael 
tinha provas de que Janne Dahlman deixara vazar informaes sobre a situao da Millennium e de que informara o redator do Finansmagasinet Monopol sobre as reportagens 
que Erika programava publicar nos prximos nmeros. A espionagem prosseguira pelo menos at o outono anterior.
    Eles desligaram os computadores e voltaram ao apartamento de Mikael para dormir mais algumas horas. Ele chamou Christer Malm por volta das dez da manh.
     Tenho provas de que Dahlman trabalha para Wennerstrm.
     Eu tinha certeza disso. Certo, vou despedir esse canalha ainda hoje.
     No faa isso. No faa absolutamente nada.  Nada?
     Christer, confie em mim. At quando Dahlman estar de frias?
     Ele volta na segunda-feira de manh.
     H quantas pessoas na redao hoje?
     Mais ou menos a metade.
     Ser que pode anunciar uma reunio para as duas da tarde? No diga qual o assunto. Estarei a.

    
    Seis pessoas estavam sentadas em volta da mesa de reunio diante de Mikael. Christer Malm tinha um ar cansado. Henry Cortez exibia aquela felicidade que s os 
jovens apaixonados de vinte e quatro anos conseguem sentir. Monika Nilsson parecia ansiosa,  espera de revelaes bombsticas; Christer Malm no dissera uma palavra 
sobre o tema da reunio, mas ela j trabalhava na redao havia bastante tempo para entender que algo incomum estava sendo tramado, e no saber de nada a deixava 
aborrecida. A nica que exibia um comportamento normal era Ingela Oskarsson, funcionria de tempo parcial encarregada da administrao, das assinaturas e de outras 
tarefas que lhe ocupavam dois dias da sua semana, embora ela no parecesse muito folgada desde que se tornara me dois anos antes. A outra funcionria de tempo parcial 
era a jornalista freelancer Lotta Karim, com um contrato semelhante ao de Henry Cortez e que acabava de voltar de frias. Christer tambm conseguira trazer para 
a reunio Sonny Magnusson, embora ele ainda estivesse de frias.
    Mikael comeou cumprimentando a todos e desculpando-se por ter estado fora durante o ano.
     Nem Christer nem eu tivemos tempo de informar Erika sobre o que nos preocupa hoje, mas posso garantir que nesse assunto falo tambm em nome dela. Hoje vamos 
decidir o futuro da Millennium.
    Fez uma pausa e deixou as palavras produzirem efeito. Ningum fez perguntas.
     Este ano foi pesado. Estou surpreso de que nenhum de vocs tenha ido procurar emprego em outro lugar. S posso concluir que vocs so ou completamente loucos 
ou excepcionalmente leais e que gostam de trabalhar na revista. Por isso vou botar as cartas na mesa e pedir uma ltima contribuio.
     Ultima contribuio?  espantou-se Monika Nilsson.   como se voc tivesse a inteno de fechar a Millennium.
     Isso mesmo  respondeu Mikael.  Quando voltar das frias, Erika convocar ns todos para uma triste reunio, na qual anunciar que a Millennium vai deixar 
de circular no Natal e que todos sero dispensados.
    Desta vez, uma certa inquietao se espalhou no ar. Mesmo Christer Malm acreditou, por um segundo, que Mikael falava srio, antes de notar seu sorriso satisfeito.
     Durante este outono, vocs vo desempenhar um duplo papel. Devo dizer que o nosso caro secretrio de redao, Janne Dahlman, andou passando informaes nossas 
para Hans-Erik Wennerstrm. O que significa que o inimigo est sempre muito bem informado do que se passa aqui, e isso explica muitos dos reveses que sofremos neste 
ano. Sobretudo voc, Sonny, pois alguns anunciantes que pareciam firmes se retiraram subitamente.
     Dahlman, aquele merda! No me surpreende  disse Monika Nilsson.
    Janne Dahlman nunca fora muito popular na redao e a revelao no chegou a chocar ningum. Mikael interrompeu os murmrios.
     S estou contando isso porque tenho inteira confiana em vocs. Trabalhamos juntos h vrios anos e sei que vocs tm a cabea no lugar, por isso sei tambm 
que aceitaro participar desse jogo, no importa o que acontecer neste outono. E fundamental que Wennerstrm seja levado a acreditar que a Millennium est afundando. 
E o trabalho de vocs ser faz-lo acreditar nisso.
     Qual  a nossa verdadeira situao?  perguntou Henry Cortez.
     Resumindo: foi um perodo difcil para todos e ainda no estamos livres das dificuldades. Tudo levava a crer que a Millennium ia acabar. Mas garanto que isso 
no vai acontecer. A Millennium hoje est mais forte do que h um ano. Depois desta reunio, vou desaparecer novamente por dois meses. L pelo fim de outubro estarei 
de volta. Ento cortaremos as asas de Hans-Erik Wennerstrm.
     De que maneira?  quis saber Cortez.
     Sinto muito, mas no posso revelar detalhes. Vou escrever uma nova histria sobre Wennerstrm, s que desta vez faremos tudo direitinho. Ento comearemos 
a preparar a festa de Natal da revista. Espero ter como prato principal do cardpio Wennerstrm assado e diversos crticos como sobremesa.
    A descontrao logo tomou conta do ambiente. Mikael se perguntou como estaria se sentindo se estivesse ali, sentado, escutando a si mesmo naquela mesa de reunio. 
Ctico? Provavelmente. Mas parecia que ele contava com um capital de confiana entre os colaboradores da Millennium. Levantou a mo outra vez.
     Para que isso acontea,  importante que Wennerstrm acredite que a Millennium est afundando. No quero que ele monte uma campanha defensiva ou que elimine 
provas no ltimo minuto. Por isso vamos traar um roteiro para os prximos meses. Em primeiro lugar,  fundamental que nada do que discutimos aqui hoje seja registrado 
por escrito em e-mails ou comunicado a algum fora desta sala. No sabemos at que ponto Dahlman tem acesso aos nossos computadores, e descobri que  bastante fcil 
ler os e-mails particulares dos colaboradores. Portanto, faremos tudo verbalmente. Se nas prximas semanas quiserem discutir alguma coisa, falem com Christer na 
casa dele. Com extrema discrio.
    Mikael escreveu numa lousa: nenhuma mensagem eletrnica.
     Em segundo lugar, vocs faro fofocas. Quero que comecem a me denegrir toda vez que Janne Dahlman estiver por perto. No exagerem. Apenas dem vazo ao ego 
naturalmente avacalhador de vocs. Christer, gostaria que voc e Erika tivessem uma discusso sria. Usem a imaginao e guardem mistrio sobre as razes, mas dem 
a impresso de que a revista est rachando e que todos esto se indispondo uns contra os outros.
    Ele escreveu Avacalhem na lousa.
     Em terceiro lugar: quando Erika voltar, voc, Christer, a informar sobre a trama. Caber a ela, em seguida, fazer Janne Dahlman acreditar que nosso acordo 
com o grupo Vanger, que nos mantm  tona no momento, afundou porque Henrik Vanger est gravemente doente e porque Martin Vanger morreu num acidente de carro.
    

    Escreveu a palavra Desinformao.
     Ento isso significa que o acordo  slido?  perguntou Monika Nilsson.
     Pode acreditar em mim  disse Mikael srio.  O grupo Vanger est empenhado em que a Millennium sobreviva. Daqui a algumas semanas, digamos, no final de agosto, 
Erika convocar uma reunio para avisar das dispensas. E importante que todos entendam que  uma isca e que o nico a desaparecer daqui ser Janne Dahlman. Mas vocs 
precisam continuar fingindo. Comecem a dizer que esto procurando emprego e falem da referncia ruim que a Millennium representa no currculo.
     E voc acha que essa comdia vai salvar a Millennium?  perguntou Sonny Magnusson.
     Tenho certeza que sim. Sonny, quero que faa um relatrio mensal fictcio mostrando que a tendncia dos anunciantes se inverteu nos ltimos meses e que o nmero 
de assinantes caiu outra vez.
     Vai ser divertido  disse Monika.  Isso vai ficar s dentro da redao ou deixaremos vazar para outras mdias?
     S dentro da redao. Se a histria vazar, saberemos quem  o responsvel. Se daqui a alguns meses algum nos pedir explicaes, poderemos simplesmente dizer: 
No, meu velho, voc ouviu boatos sem fundamento; de modo nenhum, nunca se falou em fechar a Millennium. O melhor que pode acontecer  Dahlman ventilar a informao 
para outras mdias. Ento, ele  que passar por imbecil. Se puderem soprar a Dahlman uma histria plausvel mas completamente idiota, tm carta branca.
    Passaram duas horas montando um roteiro e distribuindo o papel de cada um.
    

    Depois da reunio, Mikael foi tomar um caf com Christer Malm no Java, no centro da cidade.
     Christer,  muito importante que v esperar Erika no aeroporto, para coloc-la a par da situao. Ter que convenc-la a jogar o jogo. Se eu bem a conheo, 
ela vai querer se confrontar com Dahlman imediatamente, mas isso no pode acontecer. No quero que Wennerstrm suspeite de alguma coisa e d sumio nas provas.
     Certo.
     E diga a Erika que se mantenha longe do correio eletrnico at ter instalado o encriptador PGP e ter aprendido a utiliz-lo. E provvel que, atravs de Dahlman, 
Wennerstrm esteja lendo todos os nossos e-mails internos. Quero que usem o PGP, voc e todo mundo na redao. Como se fosse a coisa mais natural. Darei o nome de 
um tcnico de informtica, voc vai cham-lo e ele vir dar uma olhada na rede interna e nos computadores da redao. Deixe-o instalar o programa como se fosse um 
servio normal.
     Farei o melhor possvel. Mas diga, Mikael, o que voc est tramando exatamente?
     Vou acabar com a carreira de Wennerstrm.
     De que maneira?
     Sinto muito, por enquanto  segredo. S posso dizer que tenho informaes sobre ele que faro nossa denncia anterior parecer uma coisa -toa.
    Christer Malm pareceu incomodado.
     Sempre confiei em voc, Mikael. Voc no confia em mim? Mikael riu.
     Claro que confio. Mas neste momento estou envolvido numa atividade criminosa muito sria, que pode me valer uns dois anos de priso.  que os procedimentos 
da minha pesquisa so, por assim dizer, um pouco duvidosos... Utilizo mtodos to ilcitos quanto os de Wennerstrm. No quero que nem voc nem Erika nem ningum 
da Millennium se envolva nisso.
     Voc tem o dom de me deixar preocupado.
     Fique tranquilo. E pode dizer a Erika que essa histria vai repercutir. Muito.
     Erika vai querer saber o que voc est tramando... Mikael refletiu um segundo, depois sorriu.
     Diga a ela que, na ltima primavera, ela deixou muito claro para mim, quando assinou o contrato com Henrik Vanger  minha revelia, que eu no passava de um 
reles e mortal freelancer, sem lugar no conselho administrativo da revista e sem nenhuma influncia na linha seguida pela Millennium. Isso tambm significa que no 
sou obrigado a inform-la de nada. Mas prometo que, se ela se comportar direitinho, vai ser a primeira a saber da histria.
    Christer deu uma risada.
     Ela vai ficar furiosa  comentou, divertido.

*  *  *
    Mikael sabia muito bem que no dissera a verdade a Christer Malm: ele estava evitando Erika propositalmente. O normal teria sido avis-la de imediato das informaes 
de que dispunha. Mas Mikael no queria falar com ela. Chegou a digitar seu nmero uma dezena de vezes no celular. Sempre desistia.
    Sabia qual era o problema: no podia olh-la nos olhos.
    Ter concordado em abafar o caso de Hedestad era jornalisticamente imperdovel. Ele no sabia como explicar isso sem mentir, e se havia uma coisa que nunca queria 
fazer era mentir para Erika Berger.
    Alm do mais, no tinha coragem de enfrentar esse problema e ao mesmo tempo atacar Wennerstrm. Assim adiou o confronto, desligou o celular e poupou-se de falar 
com ela. Sabia que era um descanso de curta durao.

    
    Logo depois da reunio da redao, Mikael foi se instalar em sua cabana em Sandhamn, onde no punha os ps havia mais de um ano. Na bagagem, levou duas caixas 
de folhas impressas e os CDs que Lisbeth lhe dera. Fez provises, trancou-se ali, abriu o notebook e ps-se a escrever. Todos os dias saa para passear e aproveitava 
para comprar jornais e mantimentos. Ainda havia muitos veleiros no porto, e vrios daqueles jovens que tinham pedido emprestado o barco do papai estavam, como sempre, 
enchendo a cara no Bar do Mergulhador. Alheio a tudo a sua volta, Mikael passava os dias na frente do computador, desde o momento em que abria os olhos at cair 
de cansao  noite.
    Mensagem eletrnica encriptada da diretora de publicao erika.berger@millennium.se ao editor licenciado mikael.blomkvist@millennium.se:
[Mikael. Preciso saber o que est acontecendo  entenda, voltei de frias e ca em pleno caos. Primeiro fico sabendo o que Janne Dahlman andou fazendo, depois o 
jogo duplo que voc bolou. Martin Vanger est morto. Harriet Vanger est viva. O que est havendo em Hedeby? Onde voc est? Temos uma histria para publicar? Por 
que no atende o celular? E.
P. S. Entendi a sua alfinetada que Christer divertiu-se muito em me transmitir. Voc me paga. Est zangado comigo de verdade?]
    
De mikael.blomkvist@millennium.se 
A erika.berger@millennium.se:
[Oi, Ricky. No, fique tranquila, no estou zangado. Perdoe-me por no ter tido tempo de esclarecer as coisas para voc,  que nos ltimos meses minha vida virou 
uma montanha-russa. Contarei tudo quando nos virmos, mas no por e-mail. Agora estou em Sandhamn. H uma histria para ser publicada, mas no se trata de Harriet 
Vanger. Vou ficar aqui enfurnado por algum tempo. At terminar, confie em mim. Bjs. M.]

De erika.berger@millennium.se 
A mikael.blomkvist@ millennium.se:
[Sandhamn? Vou a te ver assim que eu puder.]

De mikael.blomkvist@millennium.se 
A erika.berger@ millennium.se:
[No venha j. Espere algumas semanas, pelo menos at eu ter um texto consistente. Alm disso, estou esperando uma visita.]

De erika.berger@millennium.se 
A mikael.blomkvist@millennium.se:
[Certo, no vou impor a minha presena, claro. Mas tenho o direito de saber o que est acontecendo. Henrik Vanger tornou-se membro do conselho, mas ele no responde 
quando chamo. Se o acordo com Vanger deu em nada, voc precisa me dizer. No sei o que fazer. Preciso saber se a revista vai continuar ou no. Ricky.
P. S. Como ela se chama?]

De mikael.blomkvist@millennium.se 
A erika.berger@millennium.se:
[Primeiro: fique tranquila, Henrik no vai sair. Mas ele teve um infarto srio e s tem trabalhado poucas horas por dia, e suponho que o impacto causado pela morte 
de Martin e a ressurreio de Harriet absorveu todas as suas foras.
Segundo: a Millennium vai continuar. Estou trabalhando na reportagem mais importante da nossa vida e, quando a publicarmos, liquidaremos Wennerstrm de uma vez por 
todas.
Terceiro: minha vida est de pernas para o ar neste momento, mas entre mim, voc e a Millennium nada mudou. Confie em mim. Bjs. Mikael.
P. S. Te apresentarei a ela assim que der. Voc vai se surpreender.]

    Quando Lisbeth Salander chegou a Sandhamn, foi recebida por um Mikael de olheiras e com uma barba de alguns dias. Ele a abraou rapidamente e pediu que preparasse 
um caf enquanto terminava uma passagem do texto.
    Lisbeth deu uma olhada na cabana e percebeu quase imediatamente que se sentia bem ali. O chalezinho ficava junto a um ponto, com o mar a dois metros da porta. 
Media apenas seis metros por cinco, mas a construo tinha altura suficiente para um mezanino, ao qual se chegava por uma escada em caracol. Lisbeth podia ficar 
de p ali, porm Mikael era obrigado a baixar um pouco a cabea. Ela inspecionou a cama e constatou que era suficientemente larga para os dois.
    A cabana tinha uma janela ampla que dava para o mar, bem ao lado da porta de entrada. A mesa da cozinha tambm servia como mesa de trabalho para Mikael. Na parede 
ao lado dela, havia uma pequena prateleira com um aparelho de CD e alguns discos de Elvis Presley e de hard rock, dois gneros que ela no teria posto no topo da 
sua lista.
    Num canto havia um aquecedor a lenha. O resto da moblia resumia-se a um grande armrio embutido, para guardar roupas, lenis e toalhas, e uma bancada de cozinha 
que prosseguia, separada por uma cortina, at uma pia e um chuveiro. Acima da bancada abria-se uma pequena janela. Sob a escada em caracol, Mikael montara um banheiro 
com vaso sanitrio. Toda a cabana lembrava a cabine de um barco, com arranjos e compartimentos engenhosos.
    Na sua investigao particular sobre Mikael Blomkvist, ela dissera que ele mesmo havia reformado a cabana e cuidado da decorao  deduo baseada no e-mail 
que um amigo de Mikael, impressionado com sua habilidade, lhe enviara aps uma visita a Sandhamn. Tudo era limpo, modesto e simples, quase espartano. Ela entendeu 
por que gostava tanto daquela cabana.
    Depois de duas horas, ela conseguiu distrair a ateno de Mikael do trabalho. Ele deixou o computador com ar frustrado, barbeou-se c levou-a para conhecer Sandhamn. 
O tempo estava chuvoso e ventava, e eles logo foram para o albergue. Mikael contou o que havia escrito, e Lisbeth lhe entregou um CD com informaes atualizadas 
do PC de Wennerstrm.
    Depois voltaram para a cabana, e no mezanino ela conseguiu despi-lo e distra-lo ainda mais. Lisbeth despertou tarde da noite sozinha na cama e, ao dar uma espiada 
para baixo, o viu debruado sobre o teclado. Ficou um bom tempo com a cabea apoiada na mo, olhando-o. Ele parecia feliz e ela, por sua vez, sentiu-se estranhamente 
satisfeita com a vida.
    

    Lisbeth s ficou cinco dias. Depois voltou a Estocolmo, atendendo a um chamado de Dragan Armanskij ao telefone, que, desesperado, a convocava para um novo trabalho. 
Dedicou a esse trabalho onze dias, fez seu relatrio e regressou a Sandhamn. A pilha de folhas impressas ao lado do notebook de Mikael crescera.
    Desta vez ficou quatro semanas. Eles acabaram criando uma espcie de rotina. Levantavam-se s oito e tomavam o caf-da-manh juntos por uma hora. A seguir, Mikael 
trabalhava intensamente at depois do meio-dia quando, ento, saam para passear e conversar. Lisbeth passava a maior parte do dia na cama lendo livros ou navegando 
na internet pelo modem ADSL de Mikael. Evitava perturb-lo durante o dia. Jantavam bem tarde e somente ento Lisbeth tomava a iniciativa e o forava a subir at 
o mezanino, onde queria todo tipo de ateno dele.
    Lisbeth tinha a impresso de viver as primeiras frias de sua vida.
    Mensagem eletrnica encriptada de erika.berger@millennium.se a mikael.blomkvist@millennium.se:
[Oi, Mikael. E oficial agora, Janne Dahlinan pediu demisso e comea a trabalhar no Finansmagasinet Monopol dentro de trs semanas. Segui suas instrues, no disse 
nada e todos esto representando a farsa. E.
P. S. De qualquer maneira, todos esto se divertindo um bocado. Outro dia, Henry e Lotta trocaram injrias a ponto de quase se agredir. Levaram a brincadeira to 
longe com Dahlman que me espanta ele no ter sacado que era um blefe.]

De mikael.blomkvist@millennium.se 
A erika.berger@millennium.se:
[Deseje-lhe boa sorte e deixe-o ir embora. Mas guarde a prataria num armrio fechado a chave. Bjs. M.]

De erika.berger@millennium.se 
A mikael.blomkvist@millennium.se:
[Estou sem secretrio de redao a duas semanas de sair o prximo nmero e meu reprter investigativo est recolhido em Sandhamn e se recusa a falar comigo. Micke, 
ponho-me de joelhos. Ser que pode nos ajudar? Erika.]

De mikael.blomkvist@millennium.se 
A erika.berger@millennium.se:
[Aguente mais algumas semanas, e a chegaremos a um porto tranquilo. E comece a preparar o nmero de dezembro, que ser diferente de tudo o que j publicamos. Meu 
texto ocupar cerca de quarenta pginas da revista. M.]

De erika.berger@millennium.se 
A mikael.blomkvist@millennium.se:
[Quarenta pginas!!! Voc ficou louco?]

De mikael.blomkvist@millennium.se 
A erika.berger@millennium.se:
[Ser uma edio temtica. Preciso de mais trs semanas. Ser que voc pode: (1) criar uma estrutura editorial em nome da Millennium, (2) conseguir um nmero ISBN, 
(3) pedir a Clirister a criao de um belo logotipo para nossa nova editora e (4) encontrar uma boa grfica que possa lanar um livro de bolso rpido e barato? Alis, 
precisaremos de dinheiro para os custos de impresso do nosso primeiro livro. Bjs. Mikael.]

De erika.berger@millennium.se 
A mikael.blomkvist@ millennium.se:
[Edio temtica. Editora. Custos de impresso. As suas ordens, meu comandante. Que mais quer que eu taa? Danar nua na Slussplan? E.
P. S. Suponho que saiba o que est fazendo. Mas o que eu fao com Dahl-man?]
    
De mikael.blomkvist@millennium.se 
A erika.berger@millennium.se:
[No faa nada com Dahlman. Deixe-o ir embora. O Monopol no sobreviver por muito tempo. Arranje substitutos para esse nmero. E contrate uni novo secretrio de 
redao, pelo amor de Deus! M.
P. S. Gostaria muito de te ver danar nua na Slussplan,]

De erika.berger@millennium.se 
A mikael.blomkvist@millennium.se:
[Para o strip-tease em pblico, no conte comigo. Mas sempre fizemos as contrataes juntos. Ricky.]

De mikael.blomkvist@millennium.se 
A erika.berger@millennium.se:
[Sempre estivemos de acordo sobre a pessoa a contratar. E continuaremos de acordo, seja quem for que voc contrate. Vamos encurralar Wennerstrm. A histria toda 
 essa. Mas deixe-me termin-la em paz. M.)
    
    No comeo de outubro, Lisbeth Salander leu um pequeno artigo que encontrou no site do Hedestads-Kuriren, e informou Mikael. Isabella Vanger havia falecido aps 
uma breve doena. Sua morte era lamentada pela filha, Harriet Vanger, que recentemente voltara da Austrlia.

    Mensagem eletrnica encriptada de erika.berger@millennium.se a mikael.blomkvist@millennium.se.
    
[Oi, Mikael.
Harriet Vanger passou hoje na redao para me ver. Telefonou cinco minutos antes de chegar e me pegou totalmente desprevenida. Uma bela mulher, muito elegante e 
de olhar frio.
Veio anunciar que participaria do conselho administrativo no lugar de Martin Vanger, que estava substituindo Henrik. Mostrou-se corts, amvel, e me garantiu que 
o grupo Vanger no tem nenhuma inteno de abandonar nosso acordo; ao contrrio, a famlia apoia os compromissos de Henrik com a revista. Pediu para ver a redao 
e quis saber como estavam as coisas.
Eu disse a verdade. Que tenho a impresso de estar andando sobre areia movedia, que voc me proibiu de ir a Sandhamn e que eu no sei sobre o que voc est escrevendo, 
a no ser que espera encurralar Wennerstrm. (Acho que eu podia dizer isso. Afinal, ela faz parte do conselho.) Ela levantou uma sobrancelha, sorriu e perguntou 
se eu tinha dvidas sobre o seu xito. Como responder a essa pergunta? Eu disse que estaria bem mais calma se soubesse o que voc est tramando. E que evidentemente 
confio em voc, mas que voc me deixa louca!
Perguntei se ela sabia o que voc est escrevendo. Ela respondeu que no, mas acrescentou que o achava muito perspicaz, com uma maneira de refletir inovadora (palavras 
dela).
Eu tambm disse ter concludo que algo de dramtico havia acontecido em Hedestad no passado, e que estava muito curiosa para saber mais. Ela respondeu que eu e voc 
parecamos ter uma relao especial e que voc me contaria tudo assim que tivesse tempo. Depois me perguntou se podia confiar em mim. O que eu podia dizer? Ela faz 
parte do conselho da Millennium e voc no me deu nenhuma informao para que eu pudesse estabelecer uma conduta nesse caso.
Ento ela disse uma coisa estranha: me pediu que eu no julgasse nem a ela nem a voc com demasiada severidade. Que tinha uma dvida de gratido com voc e que gostaria 
muito de que ela e eu fssemos amigas. E prometeu me contar a histria oportunamente, se voc no contasse. Acho que gosto muito dela, mas no sei muito bom se posso 
confiar. Erika.
P. S. Sinto sua falta. Tenho a impresso de que aconteceu algo terrvel em Hedestad. Christer disse que voc est com uma marca estranha  de estrangulamento?  
no pescoo.]

De mikael.blomkvist@millennium.se
A erika.berger@millennium.se:
[Oi, Ricky. A histria de Harriet  to triste, to lamentvel, que voc nem vai acreditar. Seria melhor que ela mesma te contasse. De minha parte, coloquei-a um 
pouco de lado na minha cabea.
Mas pode confiar em Harriet Vanger, eu garanto. Ela  sincera quando diz ter uma dvida de gratido comigo, e pode crer que ela nunca far nada que possa prejudicar 
a Millennium. Se gosta dela, seja sua amiga; se no gosta, deixe pra l. Mas ela merece respeito.  uma mulher que passou por duras provas e sinto uma grande simpatia 
por ela. M.]
    
    No dia seguinte, Mikael recebeu mais um e-mail.

De harriet.vanger@vangerindustries.com 
a mikael.blomkvist@millennium.se:
[Oi, Mikael. H semanas venho tentando encontrar uma horinha para te dar notcias, mas o tempo passa rpido. Voc saiu to depressa de Hedeby que nem pude me despedir.
Desde que voltei  Sucia, estou soterrada por uma quantidade de impresses e por muito trabalho. As empresas Vanger esto um caos s, e trabalhei duro com Henrik 
para pr ordem nos negcios. Ontem visitei a Millennium; daqui em diante representarei Henrik no conselho. Ele me descreveu em detalhe a situao da revista e a 
sua.
Espero que aceite me ver desembarcar assim. Se no me quer no conselho (ou a algum mais da famlia), vou entender, mas garanto que farei tudo para servir a Millennium. 
Tenho uma enorme dvida com voc e asseguro que minhas intenes sero sempre as melhores. Conheci sua amiga Erika Berger. No sei muito bem qual foi a opinio dela 
a meu respeito e fiquei surpresa de que no tenha contado a ela o que aconteceu.
Quero muito ser sua amiga. Se est disposto,  claro, a frequentar os membros da famlia Vanger. Um abrao. Harriet.
P. S. Erika deu a entender que voc pretende atacar novamente Wennerstrm. Dirch Frode me contou como Henrik te levou na conversa. Que posso dizer? Apenas que sinto 
muito. Se houver algo que eu possa fazer, diga-me.]

De mikael.blomkvist@millennium.se 
A harriet.vanger@vangerindustries.com
[Oi, Harriet. Desapareci de repente de Hedeby e neste momento estou trabalhando no que deveria ter feito este ano. Voc ser informada antes de o texto ir para a 
impresso, mas acho que posso adiantar que os problemas deste ltimo ano logo vo terminar.
Espero que voc e Erika se tornem amigas e evidentemente no h problema nenhum de voc "desembarcar" no conselho da Millennium. Vou contar o que aconteceu a Erika. 
S que neste momento no tenho disposio nem tempo, ainda gostaria de manter uma certa distncia.
Continuamos em contato. Um abrao. Mikael.]
    
    Lisbeth no mostrava muito interesse pelo que Mikael estava escrevendo. Ela levantou a cabea do seu livro. Mikael acabara de dizer algo que ela no ouvira. 
Pediu que ele repetisse.
     Desculpe. Estava pensando em voz alta. Eu dizia que  o cmulo.
     O que  o cmulo?
     Wennerstrm teve um caso com uma servente de vinte e dois anos que ele engravidou. No leu a correspondncia dele com o advogado?
     Querido Mikael, existem dez anos de correspondncias, e-mails, contratos, relatrios de viagens e no sei mais o que no disco rgido. O seu Wennerstrm no 
me fascina a ponto de eu querer guardar na cabea seis gigas de bobagens. Li uma parte nfima, apenas para satisfazer a minha curiosidade, e foi o suficiente para 
entender que esse cara  um gngster.
     Concordo. Mas escute isso: ele a engravidou em 1997. Quando ela exigiu uma compensao, os advogados de Wennerstrm despacharam algum para convenc-la a abortar. 
Suponho que a inteno era oferecer-lhe dinheiro, mas ela no aceitou. Ento a persuaso tomou outro caminho: um capanga qualquer manteve a cabea dela mergulhada 
numa banheira at que aceitasse deixar Wennerstrm em paz. E esse advogado idiota do Wennerstrm escreveu isso num e-mail! Encriptado,  verdade, mas mesmo assim... 
O nvel de inteligncia dessa gente  muito baixo.
     O que aconteceu com a moa?
     Abortou. Wennerstrm ficou satisfeito.
    Lisbeth Salander no disse nada durante dez minutos. Seus olhos ficaram de repente sombrios.
     Mais um homem que odiava as mulheres  murmurou enfim. Mikael no a ouviu.
    Ela pegou os CDs e passou os dias seguintes vasculhando o correio eletrnico de Wennerstrm, assim como outros documentos. Enquanto Mikael continuava seu trabalho, 
Lisbeth estava no mezanino com seu Powerbook sobre os joelhos, refletindo sobre o estranho imprio Wennerstrm.
    Ocorrera-lhe um pensamento curioso, do qual agora no conseguia mais se afastar. Antes de mais nada, perguntou-se por que no havia tido essa ideia antes.
    

    Num dia de fins de outubro, Mikael imprimiu a ltima pgina e desligou o computador por volta das onze da manh. Sem uma palavra, subiu at o mezanino e entregou 
a Lisbeth uma pilha de papis. Depois foi dormir. Ela o despertou no final da tarde e passou-lhe suas observaes.
    Pouco depois das duas da manh, Mikael fez uma ltima correo no texto.
    No dia seguinte, fechou as janelas da cabana e trancou a porta. As frias de Lisbeth haviam terminado. Voltaram juntos para Estocolmo.

    
    Antes de chegar a Estocolmo, Mikael precisava conversar com Lisbeth sobre uma questo delicada. Entrou no assunto quando tomavam caf na balsa de Vaxholm.
     A questo  o que devo contar a Erika. Ela vai se recusar a publicar isto se eu no explicar como obtive as informaes.
    Erika Berger! A amante de Mikael h muitos anos e sua chefe. Lisbeth nunca a vira e no tinha muita certeza se queria v-la. Erika Berger era um ligeiro aborrecimento 
em sua vida.
     O que ela sabe de mim?
     Nada.  Ele suspirou.  Venho evitando Erika desde o vero. No consegui contar a ela o que houve em Hedestad porque estou muito envergonhado. Ela est frustrada 
com a pouca informao que lhe dei. Sabe, evidentemente, que me recolhi em Sandhamn para escrever esse texto, mas no faz ideia do seu contedo.
     Humm.
     Daqui a algumas horas ela estar com o texto nas mos e vai me encher de perguntas. A questo : o que devo dizer a ela?
     O que voc tem vontade de dizer?
     A verdade.
    Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas de Lisbeth.
     Escute, Lisbeth: eu e Erika discutimos o tempo todo, isso j  um hbito nosso. Mas temos uma confiana ilimitada um no outro. Ela  absolutamente confivel. 
Voc  uma fonte. Ela preferiria morrer a tra-la.
     E a quem mais voc vai precisar contar?
     A ningum mais. Ns dois levaremos isso para o tmulo. Se voc se opuser, no revelarei o segredo a ela. Contudo, no tenho a inteno de mentir para Erika 
e de inventar uma fonte.
    Lisbeth refletiu at a balsa atracar ao p do Grande Hotel. Anlise das consequncias. Com relutncia, ela acabou permitindo que Mikael a apresentasse a Erika. 
Ele ligou o celular e chamou.
    
    
    Erika recebeu o telefonema de Mikael em meio a um almoo profissional com Malu Eriksson, que ela pretendia contratar como secretria de redao. Malu tinha vinte 
e nove anos e havia trabalhado como substituta durante cinco anos. Nunca teve emprego fixo e comeava a perder as esperanas de encontrar um. Nenhum anncio havia 
sido feito para o cargo; Erika entrou em contato com Malu atravs de um velho colega jornalista. Chamou-a no mesmo dia em que Malu terminava uma substituio, para 
saber se lhe interessava um bico na Millennium.
      apenas por trs meses  disse Erika.  Mas, se der certo, posso vir a contrat-la.
     Ouvi boatos de que a Millennium em breve vai fechar.
     No acredite em boatos.
     Esse Dahlman que devo substituir...  Malu hesitou.  Ele vai para um dos jornais de Hans-Erik Wennerstrm...
    Erika assentiu com a cabea.
     No  segredo para ningum nesse meio que estamos em litgio com Wennerstrm. Ele no gosta de pessoas que trabalham na Millennium.
     Isso significa que, se eu aceitar o cargo, tambm vou ser includa nessa categoria.
      muito provvel que sim.
     Mas Dahlman conseguiu trabalho no Finansmagasinet...
     Pode-se dizer que  a retribuio de Wennerstrm pelos servios prestados por Dahlman. Ainda est interessada?
    Malu refletiu um instante e depois assentiu com a cabea.
     Quer que eu comece quando?
    Foi nesse momento que Mikael Blomkvist chamou, interrompendo a entrevista de contratao.

    
    Erika utilizou as prprias chaves para abrir a porta do apartamento de Mikael. Era a primeira vez, desde a breve apario dele no final de junho, que ela o encontrava. 
Entrou na sala e viu uma jovem de uma magreza anorxica sentada no sof, vestindo uma jaqueta de couro gasto e com os ps apoiados na mesinha de centro. A princpio, 
deu uns quinze anos  moa, at ver seus olhos. Contemplava essa apario quando Mikael chegou trazendo caf e biscoitos.
    Mikael e Erika se examinaram.
     Desculpe meu comportamento estranho  disse Mikael.
    Erika inclinou a cabea para o lado. Alguma coisa havia mudado em Mikael. Parecia mais sofrido, mais magro. Seus olhos estavam envergonhados, e por um breve 
segundo ele evitou o olhar dela. Erika olhou para o pescoo, onde se via uma mancha amarelada, plida mas muito distinta.
     Andei evitando voc.  uma longa histria e no estou muito orgulhoso do meu papel nela. Mas falaremos disso mais tarde... Agora, gostaria de apresent-la 
a essa jovem. Erika, essa  Lisbeth Salander. Lisbeth, Erika Berger  a diretora de publicao da Millennium e minha melhor amiga.
    Lisbeth observou as roupas elegantes e a aparncia segura de Erika, e em menos de dez segundos concluiu que ela no seria sua melhor amiga.

    
    A reunio durou cinco horas. Erika telefonou duas vezes para desmarcar outras reunies. Dedicou uma hora  leitura de algumas partes do texto que Mikael lhe 
ps nas mos. Tinha mil perguntas a fazer, mas percebeu que levaria semanas antes de obter uma resposta. O importante era o texto, que ela acabou colocando a seu 
lado. Se uma parte mnima daquelas afirmaes fosse correta, eles estavam diante de uma situao totalmente nova.
    Erika olhou para Mikael. Nunca duvidara da honestidade dele, mas bastou um segundo para sentir uma vertigem e se perguntar se o caso Wennerstrm no teria afetado 
a mente dele  se no o fizera imaginar coisas. No mesmo instante, Mikael lhe mostrou duas caixas cheias de dados impressos. Erika empalideceu. Naturalmente quis 
saber como havia obtido aquele material.
    Foi preciso um bom tempo para convenc-la de que a estranha jovem, que ainda no pronunciara uma s palavra, tinha acesso irrestrito ao computador de Hans-Erik 
Wennerstrm. E no s isso: tambm havia pirateado vrios dos computadores de seus advogados e colaboradores prximos.
    A reao natural de Erika foi dizer que eles no podiam utilizar esse material, pois fora obtido por meios ilcitos.
    Mas isso no era um empecilho. Mikael lembrou-a de que eles no eram obrigados a declarar como haviam obtido as informaes. Podiam muito bem contar com uma 
fonte que tivera acesso ao computador de Wennerstrm e copiara seu disco rgido em alguns CDs.
    Erika logo se deu conta da arma que tinha nas mos. Sentia-se exausta e gostaria de fazer algumas perguntas, mas no sabia por onde comear. Por fim, deixou-se 
cair no sof e balanou a cabea.
     Mikael, o que aconteceu em Hedestad?
    Lisbeth Salander levantou vivamente a cabea. Mikael ficou em silncio por um longo tempo. Respondeu fazendo outra pergunta.
     Como est se entendendo com Harriet Vanger?
     Bem, eu acho. Estive com ela duas vezes. Christer e eu fomos a Hedestad na semana passada para uma reunio do conselho administrativo. Exageramos um pouco 
no vinho, ficamos bem embriagados.
     E como foi a reunio?
     Harriet cumpre suas promessas.
     Ricky, sei que voc est frustrada de ver que estou me esquivando e inventando pretextos para no falar. Nunca tivemos segredos um para o outro e, de repente, 
tenho seis meses da minha vida que... no consigo te contar.
    Erika olhou Mikael bem nos olhos. Conhecia-o de cor, mas o que viu em seus olhos era algo completamente novo. Ele parecia suplicar, implorar que ela no perguntasse. 
Ela abriu a boca e olhou para ele totalmente desamparada. Lisbeth observava essa conversa muda com um olhar neutro. No se intrometeu.
     Foi to catastrfico assim?
     Pior. Tenho medo dessa conversa. Prometo te contar, mas passei vrios meses reprimindo meus sentimentos e deixando meu interesse se voltar todo para Wennerstrm... 
Ainda no estou inteiramente preparado. Preferiria que Harriet tivesse te contado.
     O que so essas marcas no pescoo?
     Lisbeth salvou a minha vida. Se no fosse ela, eu estaria morto agora. Erika arregalou os olhos. Ela olhou a moa da jaqueta de couro.
     E agora voc precisa fazer um acordo com ela. Ela  a nossa fonte. Erika ficou imvel durante um bom tempo, refletindo. Ento fez uma coisa que desconcertou 
Mikael e chocou Lisbeth, e que surpreendeu a ela prpria tambm. O tempo todo em que estivera junto  mesa da sala de Mikael, ela sentira o olhar de Lisbeth Salander. 
Uma moa taciturna com vibraes hostis.
    Erika levantou-se, contornou a mesa e tomou Lisbeth nos braos. Lisbeth defendeu-se como uma minhoca sendo enfiada num anzol.
    
   
29.         SBADO 1 DE NOVEMBRO 
    TERA-FEIRA 25 DE NOVEMBRO

    
    Lisbeth Salander navegava no ciberimprio de Hans-Erik Wennerstrm, Estava grudada  tela do computador havia mais de onze horas. A ideia vaga que se materializara 
num canto inexplorado de seu crebro, na ltima semana em Sandhamn, transformara-se numa atividade obsessiva. Durante quatro semanas, isolou-se em seu apartamento 
e ignorou todos os chamados de Dragan Armanskij. Passou de doze a quinze horas por dia na frente do monitor e, no resto do tempo em que estava acordada, pensava 
no mesmo problema.
    Ao longo do ms, teve contatos espordicos com Mikael Blomkvist; ele estava to obcecado e ocupado quanto ela com seu trabalho na redao da Millennium. Duas 
ou trs vezes por semana conversavam por telefone e ela o mantinha continuamente informado sobre a correspondncia de Wennerstrm e de seus outros negcios.
    Pela centsima vez, repassou cada detalhe. No temia ter esquecido alguma coisa, mas no estava certa de haver entendido o que reunia todas aquelas conexes 
complexas.
    O imprio Wennerstrm, to badalado na mdia, era um organismo vivo, informe, pulsante, que no parava de mudar de aparncia. Consistia em ttulos, aes, parcerias, 
juros de emprstimos, juros de receita, hipotecas, contas, transferncias e uma srie de outras operaes. Uma parte imensa dos ativos estava aplicada em empresas-fantasmas 
imbricadas umas nas outras.
    As anlises mais entusiasmadas dos economistas calculavam o valor do grupo Wennerstrm em mais de novecentos bilhes de coroas. Era um blefe, ou pelo menos um 
nmero muito exagerado. Mas Wennerstrm certamente no tinha do que se queixar. Lisbeth Salander calculou os verdadeiros recursos em noventa ou mesmo cem bilhes 
de coroas, o que tambm no era pouco. Um exame srio do grupo exigiria anos. Ao todo, Salander identificou cerca de trs mil contas e ativos bancrios diferentes 
no mundo inteiro. Wennestrm dedicava-se  fraude em to grande escala que no se tratava mais de crime, e sim de negcios.
    Em alguma parte desse organismo Wennerstrmiano, havia tambm substncia. Trs fundos apareciam continuamente na hierarquia. Os ativos suecos eram inatacveis 
e autnticos e estavam disponveis para o exame de todos, com balanos e auditorias. A atividade americana era slida, e um banco em Nova York servia de base para 
a movimentao de todo o dinheiro. Mas o interessante da histria eram as empresas-fantasmas em cantos do mundo como Gibraltar, Chipre e Macau. Wennerstrm era como 
um bazar onde se praticava o trfico de armas, a lavagem de dinheiro de empresas suspeitas na Colmbia e de negcios muito pouco ortodoxos na Rssia.
    Uma conta annima nas ilhas Caims tinha uma particularidade: era controlada pessoalmente por Wennerstrm e no estava conectada s demais empresas. Algumas 
fraes de milsimo de cada negcio feito por Wennerstrm pingava o tempo todo na conta das ilhas Caims atravs das empresas-fantasmas.
    Salander trabalhava como que hipnotizada. Contas  clique  e-mails  clique  balanos  clique. Anotou as ltimas transferncias. Acompanhou a trajetria de 
uma pequena transao do Japo a Cingapura, depois para as ilhas Caims atravs de Luxemburgo. Percebeu seu funcionamento. Ela era como uma parte dos impulsos do 
ciberespao. Minsculas mudanas. O ltimo e-mail, uma breve mensagem que tratava de uma questo acessria, fora enviado s dez da noite. O programa de encriptao 
PGP era uma piada para ela, que parasitava o computador. Leu claramente a mensagem:
[Berger parou de correr atrs de anncios. Ela desistiu ou tem outra coisa no bolso? O informante na redao confirmou que eles esto em queda livre, mas parece 
que contrataram algum. Informe-se sobre o que est havendo. Blomkvist passou as ltimas semanas escrevendo como um louco em Sandhamn, mas ningum sabe o qu. Ele 
apareceu na redao h poucos dias. Pode me conseguir as provas do prximo nmero? HEW.]

    Nada de dramtico. Ele que fique matutando.  Voc j t fodido, meu caro!
    s cinco e meia ela se desconectou, desligou o computador e procurou outro mao de cigarros. Havia bebido cinco Cocas durante a noite, foi pegar uma sexta e 
instalou-se no sof. Vestia s calcinha e camiseta de camuflagem desbotada da Soldier of Fortune Magazine, com os dizeres: Kill them all and let God sort them out. 
Comeou a sentir frio e pegou uma manta para se cobrir.
    Sentia-se meio chapada, como se tivesse ingerido algum entorpecente. Fixou o olhar numa lmpada diante da janela e ficou sem se mexer enquanto seu crebro trabalhava 
sob presso. Mame  clique  irmzinha  clique  Mimmi  clique  Holger Palmgren. Evil Fingers. E Armanskij. O trabalho. Harriet Vanger. Clique. Martin Vanger. 
Clique. O taco de golfe. Clique. Dr. Nils Bjurman. Clique. Um monte de detalhes que ela no conseguia esquecer nem se tentasse.
    Perguntou-se se Bjurman ainda estaria se despindo diante de uma mulher e, nesse caso, como estaria explicando a tatuagem na barriga. E como faria para no tirar 
a roupa da prxima vez que fosse ao mdico.
    E depois Mikael Blomkvist. Clique.
    Ela o considerava um homem bom, em alguns momentos com um complexo de primeiro aluno da classe um pouco exagerado. E, infelizmente, de uma ingenuidade insuportvel 
em algumas questes morais elementares. Ele tinha uma natureza indulgente e pronta a perdoar, que buscava explicaes e desculpas psicolgicas para as atitudes dos 
outros e que jamais entenderia que as feras deste mundo s conhecem uma linguagem. Ela sentia quase um desconfortvel instinto de proteo quando pensava nele.
    No se lembrou em que momento adormeceu, mas despertou s nove da manh seguinte com torcicolo, a cabea apoiada de mau jeito na parede atrs do sof. Foi cambaleando 
para o quarto e voltou a dormir.

*  *  *
    Sem dvida nenhuma, era a reportagem da vida deles. Pela primeira vez em um ano e meio, Erika estava feliz como s pode estar um proprietrio de veculo que 
tem um furo sensacional no forno. Ela revisava uma ltima vez o texto com Mikael, quando Lisbeth Salander o chamou no celular.
     Esqueci de te dizer que Wennerstrm est comeando a se preocupar com o que voc andou escrevendo nesse tempo e pediu as provas do prximo nmero.
     Como  que voc soube... Ah, esquea! Tem ideia do que ele pretende fazer?
     No. Apenas uma suposio lgica. Mikael refletiu alguns instantes.
     A grfica!  exclamou. Erika levantou as sobrancelhas.
     Se o pessoal da redao ficou mesmo de boca fechada, no h muitas outras possibilidades. A menos que um dos capangas dele faa uma visita noturna  redao.
    Mikael virou-se para Erika.
     Arranje outra grfica para a prxima edio. Agora. E ligue para Dragan Armanskij: quero vigias noturnos para a semana que vem.
    Ligou de volta para Lisbeth.
     Obrigado, Sally.
     Isso vale quanto?
     O que quer dizer?
     A informao, quanto vale?
     Quanto quer?
     Gostaria que discutssemos isso tomando um caf. Agora.
    
    
    
    Encontraram-se no Bar-Caf na Hornsgatan. Salander tinha um ar to srio que Mikael, ao sentar-se no banquinho ao lado dela, sentiu uma certa inquietao. Como 
sempre, ela foi direto ao ponto.
     Preciso de um dinheiro emprestado.
    Mikael exibiu um de seus sorrisos mais retardados e puxou a carteira.
     Claro. Quanto quer?
     Cento e vinte mil coroas.
     Uau!  Reps a carteira no bolso.  No tenho tanto assim comigo.
     No estou brincando. Preciso de um emprstimo de cento e vinte mil coroas por... digamos, seis semanas. Surgiu uma oportunidade de investimento, mas no tenho 
a quem recorrer. Voc tem uma conta com cento e quarenta mil coroas no momento. Devolverei o dinheiro.
    Mikael no comentou nada sobre Lisbeth ter quebrado o sigilo bancrio de sua conta e descoberto quanto dinheiro ele tinha. Ele acessava o banco pela internet 
e a resposta era evidente.
     No precisa me pedir dinheiro emprestado  ele respondeu.  Ainda no discutimos a sua parte, mas ela  bem maior do que esse emprstimo que est querendo.
     Que parte?
     Sally, tenho honorrios insanos para receber de Henrik Vanger e vamos acertar isso no final do ano. Sem voc eu estaria morto e a Millennium teria afundado. 
Pretendo dividir meu pagamento com voc. Meio a meio.
    Lisbeth Salander o examinou com o olhar. Havia uma ruga em sua testa. Mikael j estava se habituando com essas pausas silenciosas. Por fim ela balanou a cabea.
     No quero o seu dinheiro.
     Mas...
     No quero uma nica coroa.  Ela sorriu de esguelha, de repente.  A menos que elas venham sob a forma de um presente de aniversrio.
     Agora  que me dei conta que no sei quando  o seu aniversrio.
     O jornalista  voc. Descubra.
     Sinceramente, Sally, estou falando srio quando digo que quero dividir o dinheiro com voc.
     Eu tambm estou falando srio. No quero o seu dinheiro. Quero as cento e vinte mil coroas emprestadas, e preciso delas para amanh.
    Mikael Blomkvist calou-se. Ela nem quer saber qual  o valor da sua parte.
     Sally, irei hoje ao banco com voc e emprestarei o que voc me pede. Mas no fim do ano teremos uma outra conversa sobre a sua parte.  Ele levantou a mo. 
 Por falar nisso, quando  o seu aniversrio?
     Trinta de abril  ela respondeu.  No  perfeito? Sempre saio com uma vassoura entre as pernas para festejar com as feiticeiras a noite de santa Walpurgis.
    
    
    Ela aterrissou em Zurique s sete e meia da noite e tomou um txi at o hotel Matterhorn. Havia feito uma reserva sob o nome de Irene Nesser e apresentou um 
passaporte noruegus com esse nome. Irene Nesser tinha cabelos louros um pouco compridos. Ela comprara a peruca em Estocolmo e utilizara dez mil coroas do emprstimo 
de Mikael Blomkvist para adquirir dois passaportes atravs de seus contatos obscuros com a rede internacional de Praga.
    Subiu para o seu quarto, trancou a porta e se despiu. Estendeu-se na cama e ficou olhando para o teto do quarto, cuja diria era de mil e seiscentas coroas. 
Sentiu-se vazia. J havia gasto a metade da quantia que Mikael emprestara e, embora tivesse juntado o que tinha em sua prpria poupana, seu oramento era estreito. 
Parou de pensar e adormeceu imediatamente.
    Despertou pouco depois das cinco da manh. Primeiro tomou um banho e depois passou um bom tempo camuflando a tatuagem do pescoo com uma espessa camada de base 
e p. O segundo item da lista era uma hora marcada num salo de beleza, no saguo de um hotel consideravelmente bem mais caro, s seis e meia. Comprou mais uma peruca 
loura, com franja reta, depois foi  manicure para aplicar falsas unhas vermelhas sobre suas unhas rodas, falsos clios, mais p, blush, batom e outros embelezamentos. 
Custo: um pouco mais de oito mil coroas.
    Pagou com um carto de crdito de Vernica Sholes e apresentou como identidade um passaporte ingls com esse nome.
    A parada seguinte foi na Camille's House of Fashion, cento e cinquenta metros adiante. Uma hora depois, saiu vestida com botas pretas, saia cor de areia combinando 
com a blusa, casaco curto e boina. Apenas peas caras, de grife. Teve o cuidado de deixar que a vendedora escolhesse as roupas. Comprou ainda uma luxuosa maleta 
de couro e uma bolsa de mo Samsonite. Para completar, brincos discretos e uma corrente de ouro ao redor do pescoo. O carto de crdito acusou um dbito de quarenta 
e quatro mil coroas.
    Pela primeira vez na vida, Lisbeth Salander tinha tambm um busto que, quando se olhou no espelho da porta, a fez perder a respirao. Os seios eram to falsos 
como a identidade de Vernica Sholes. Eram de borracha e tinham sido comprados numa loja de Copenhague frequentada por travestis.
    
    
    Lisbeth Salander estava pronta para o combate.
    Pouco depois das nove, ela caminhou duas quadras at o respeitvel hotel Zimmertal, onde reservara um quarto em nome de Vernica Sholes. Deu o equivalente a 
cem coroas de gorjeta a um rapaz que carregou a maleta que acabara de comprar e onde estava sua sacola de viagem. A sute era pequena e a diria era de apenas vinte 
e duas mil coroas. Ela fizera a reserva para uma noite. Quando ficou sozinha, olhou ao redor. A janela oferecia uma vista esplndida para o lago de Zurique, o que 
no a interessou nem um pouco. Passou os cinco minutos seguintes examinando-se, de olhos arregalados, num espelho. Via uma pessoa totalmente diferente. Vernica 
Sholes, de peitos generosos e cabelos com franja reta, tinha mais maquiagem no rosto que a que Lisbeth usaria em um ms. Ela parecia... diferente.
    s nove e meia, desceu ao bar do hotel para tomar o caf-da-manh, que consistiu em duas xcaras de caf e um bagel com gelia. Custo: duzentas e dez coroas. 
Mas no so mesmo doidas as pessoas que pagam isso?
    
    
    Pouco antes das dez da manh, Vernica Sholes pousou sua xcara de caf na mesa, pegou seu telefone celular e digitou um nmero que a conectava ao Hava. Depois 
de trs chamadas, ouviu um sinal que confirmava a conexo via modem. Vernica Sholes respondeu digitando um cdigo de seis algarismos no celular e enviou uma mensagem 
de texto com a instruo para que fosse aberto um programa que Lisbeth Salander havia preparado exatamente para essa finalidade.
    Em Honolulu, o programa foi acionado num site annimo de um servidor formalmente situado na universidade. O programa era simples. Sua nica funo consistia 
em enviar instrues que abriam outro programa em outro servidor, no caso um site comercial muito conhecido que oferecia servios pela internet na Holanda. Esse 
programa, por sua vez, tinha como tarefa procurar o disco rgido espelhado de Hans-Erik Wennerstrm e assumir o comando do programa que gerenciava o contedo de 
mais de trs mil contas bancrias no mundo inteiro.
    Somente uma apresentava algum interesse. Lisbeth Salander observara que Wennerstrm verificava essa conta duas ou trs vezes por semana. Se ele fosse buscar 
justamente esse arquivo em seu computador, tudo pareceria normal. O programa assinalava pequenas mudanas esperadas, calculadas segundo a evoluo da conta nos ltimos 
seis meses. Se Wennerstrm entrasse na conta nas prximas quarenta e oito horas e emitisse ordens de pagamento ou de transferncia, o programa registraria obedientemente 
esses pedidos. Mas na verdade a mudana ocorreria apenas no disco rgido espelhado na Holanda.
    Vernica Sholes desligou seu celular no momento em que ouviu quatro breves sinais confirmando que o programa fora acionado.

    
    Ela deixou o Zimmertal e foi at o Bank Hauser General, em frente ao hotel, onde havia marcado um encontro com um certo Herr Wagner, diretor, s dez da manh. 
Chegou trs minutos antes e utilizou esse tempo de espera para ficar bem em frente  cmera de segurana, que a fotografou quando ela se dirigiu s salas de consultas 
privadas.
    Estou precisando de ajuda para algumas transaes  disse Vernica Sholes num impecvel ingls de Oxford. Quando abriu sua pasta de documentos, deixou cair 
sem querer uma caneta com o logotipo do hotel Zimmerhil, que indicava que ela estava hospedada l. O diretor Wagner gentilmente pegou a caneta e lhe devolveu. Ela 
lanou-lhe um sorriso malicioso e anotou o nmero da conta num bloco colocado  sua frente na mesa.
    O diretor Wagner a examinou rapidamente e a classificou como a filha mimada de algum ricao.
     So algumas contas no Banco de Kroenenfeld nas ilhas Caims. Transferncia automtica mediante cdigos de compensao bancria.
     Frulein Sholes, imagino que a senhorita tenha todos os cdigos de compensao...
     Aber natrlich  ela respondeu, com um sotaque to pronunciado que ficou evidente seu conhecimento mnimo do alemo.
    Ela comeou a recitar sries de nmeros de dezesseis algarismos sem recorrer ao papel uma nica vez. O diretor Wagner viu que a manh ia ser trabalhosa, mas 
por quatro por cento sobre as transferncias estava disposto a atrasar o almoo.
    Levou mais tempo do que ela previa. E somente depois do meio-dia, um pouco atrasada em seus horrios,  que Vernica Sholes deixou o Bank Hauser General para 
retornar ao hotel Zimmertal. Exibiu-se na recepo antes de subir ao quarto e tirar as roupas que acabara de comprar. Conservou os seios de borracha, mas substituiu 
a peruca pela de cabelos louros mais compridos de Irene Nesser. Vestiu roupas mais familiares: botas de salto alto, cala preta, uma blusa e uma elegante jaqueta 
de couro comprada na Malungsboden, em Estocolmo. Examinou-se no espelho. Sua aparncia continuava bem-cuidada, mas sem sinais da herdeira rica. Antes de deixar o 
quarto, Irene Nesser contou algumas debntures, que acomodou numa pequena pasta.
     uma e cinco da tarde, com alguns minutos de atraso, entrou no Bank Dorffmann, situado a cerca de setenta metros do Bank Hauser General. Irene Nesser marcara 
um encontro com um certo Herr Hasselmann, diretor. Desculpou-se pelo atraso num alemo perfeito com sotaque noruegus.
     No h problema, Frulein  disse o diretor Hasselmann.  Em que posso ajud-la?
     Gostaria de abrir uma conta. Tenho algumas debntures que desejo resgatar.
    Irene Nesser ps a pasta em cima da mesa.
    O diretor Hasselmann percorreu o contedo, primeiro bem depressa, depois mais e mais devagar. Levantou uma sobrancelha e sorriu educadamente.
    Ela abriu cinco contas que podia movimentar pela internet e cujo titular era uma empresa-fantasma particularmente annima em Gibraltar, que um intermedirio 
local abrira para ela mediante cinquenta mil coroas emprestadas de Mikael Blomkvist. Ela converteu cinquenta debntures em dinheiro, que foi depositado nas contas. 
Cada debnture tinha o valor de um milho de coroas.
    
    
    Seus negcios no Bank Dorffmann demoraram muito tempo e ela se atrasou ainda mais no seu cronograma. No teria tempo para concluir as demais operaes antes 
do fechamento dos bancos no dia. Irene Nesser voltou ento ao hotel Matterhorn, onde passou uma hora exibindo-se e marcando presena. Mas estava com dor de cabea 
e em seguida se retirou. Comprou analgsicos na recepo, pediu para ser acordada s oito da manh seguinte e voltou ao quarto.
    
    
    Eram quase cinco da tarde e todos os bancos da Europa j estavam fechados. No continente americano, porm, os bancos acabavam de abrir. Ela ps seu Powerbook 
para funcionar e conectou-se  internet pelo celular. Passou uma hora esvaziando as contas recm-abertas no Bank Dorffmann.
    O dinheiro foi dividido em partes e utilizado para pagar faturas de um grande nmero de empresas-fantasmas no mundo inteiro. Quando terminou, o dinheiro fora 
curiosamente transferido de novo para o Bank of Kroenenfeld nas ilhas Caims, mas desta vez numa conta diferente daquela de onde sara mais cedo naquele mesmo dia.
    Irene Nesser considerou que essa primeira etapa estava segura e que era quase impossvel de ser rastreada. Fez uma nica retirada dessa conta; um pouco mais 
de um milho de coroas foi transferido para uma conta vinculada a um carto de crdito que ela utilizava. O titular da conta era uma sociedade annima com o nome 
Wasp Enterprises, registrada em Gibraltar.
    
    
    Alguns minutos depois, uma loura de franja deixou o Mattherhorn por uma porta lateral do bar do hotel. Vernica Sholes foi ao hotel Zimmertal, cumprimentou o 
recepcionista com um educado gesto de cabea, pegou o elevador e subiu at seu quarto.
    Dedicou-se ento a vestir o uniforme de combate de Vernica Sholes, refazendo a maquiagem e pondo uma camada suplementar de base sobre a tatuagem, antes de descer 
ao restaurante do hotel para comer um delicioso peixe. Pediu uma garrafa de vinho do Porto do qual nunca ouvira falar mas que custava mil e duzentas coroas, bebeu 
apenas um copo e deixou negligentemente o resto, antes de dirigir-se ao bar do hotel. Distribuiu quinhentas coroas de gorjeta, o que lhe valeu a ateno dos atendentes.
    Passou trs horas flertando com um jovem italiano bbado, com um nome aristocrtico que ela nem se deu o trabalho de guardar. Dividiram duas garrafas de champanhe, 
das quais ela consumiu apenas um copo.
    Por volta das onze da noite, o sedutor de bigodes inclinou-se e apalpou seus seios sem o menor constrangimento. Satisfeita, ela afastou sua mo. Ele parecia 
no ter notado que apalpara seios de borracha. Em vrios momentos, comportaram-se de maneira bastante indiscreta para causar uma certa indignao nos outros hspedes. 
Pouco antes da meia-noite, notando que o segurana comeava a ficar de olho neles, Vernica Sholes ajudou seu amigo italiano a subir ao quarto dele.
    Enquanto ele estava no banheiro, serviu-lhe um ltimo copo de vinho tinto. Abriu um saquinho de papel e adicionou ao vinho uni comprimido de sonfero triturado. 
Ele bebeu e, um minuto depois, jazia de bruos sobre a cama. Ela desatou-lhe o n da gravata, tirou seus sapatos, lavou os copos no banheiro e os enxugou. Ento 
deixou o quarto.
    
    
    No dia seguinte, Vernica Sholes tomou o caf-da-manh em seu quarto s seis, deixou uma gorjeta generosa, pagou a conta e foi embora do Zirnmertal quando no 
eram ainda sete horas. Antes de deixar o quarto, passou cinco minutos apagando as impresses digitais em maanetas de porta, armrios, pia do banheiro, aparelho 
de telefone e em outros objetos que havia tocado.
    Irene Nesser fechou sua conta no hotel Matterhorn por volta das oito e meia, pouco depois de acordar. Tomou uni txi e deixou suas malas num guarda-volumes da 
estao ferroviria. Passou as horas seguintes indo a nove bancos, nos quais depositou partes das debntures das ilhas Caims. s trs da tarde, havia convertido 
cerca de dez por cento das debentures em dinheiro, depositado em cerca de trinta contas. Guardou o restante dos ttulos num cofre bancrio.
    Irene Nesser teria de voltar a Zurique, mas no havia pressa.
    
    
    s quatro e meia, Irene Nesser tomou um txi at o aeroporto. Foi ao banheiro e com uma tesoura destruiu o passaporte e o carto de crdito de Vernica Sholes, 
fazendo-os sumir com a descarga de gua na privada. Jogou a tesoura num cesto de lixo. Depois do 11 de setembro de 2001, no era aconselhvel chamar a ateno com 
objetos pontiagudos na bagagem de mo.
    Irene Nesser embarcou no voo CD 890 da Lufthansa para Oslo, depois pegou um nibus at a estao ferroviria central da cidade, onde foi ao banheiro fazer uma 
triagem de suas roupas. Ps todos os pertences da personagem Vernica Sholes  a peruca e as roupas de grife  em trs sacos plsticos, que jogou em diferentes lixeiras 
da estao. Deixou a bolsa Samsonite, vazia, num compartimento aberto do guarda-volumes. A corrente de ouro e os brincos eram objetos de designer cuja pista poderia 
ser seguida; ela os fez sumir numa boca de lobo.
    Aps um momento de uma angustiada hesitao, Irene Nesser decidiu conservar os seios falsos de borracha.
    Dispondo de pouco tempo, fez um lanche rpido, um hambrguer no McDonald's, enquanto transferia o contedo da luxuosa maleta de couro para sua sacola de viagem. 
Ao sair, deixou a maleta vazia em cima da mesa. Comprou um copo de caff latte num quiosque e correu para pegar o trem noturno com destino a Estocolmo bem no momento 
em que anunciavam a partida. Havia reservado uma cabine no vago-leito.
    S depois que trancou a porta da cabine  que sentiu sua adrenalina baixar a um nvel normal pela primeira vez em dois dias. Abriu a janela e, desrespeitando 
a proibio de fumar, acendeu um cigarro para acompanhar o caf enquanto o trem se afastava de Oslo.
    Repassou mentalmente sua cheklist, para ter certeza de que no esquecera nenhum detalhe. Um momento depois, franziu o cenho e tateou os bolsos da jaqueta. Tirou 
de l a caneta do hotel Zimmertal, avaliou-a pensativamente por um minuto ou dois e em seguida jogou-a pela janela.
    Quinze minutos depois, esticou-se no leito e dormiu quase instantaneamente.
    

EPLOGO: ACERTO DE CONTAS
   QUINTA-FEIRA 27 DE NOVEMBRO A TERA-FEIRA 30 DE DEZEMBRO
    
    
    A edio temtica da Millennium sobre Hans-Erik Wennerstrm tinha quarenta e seis pginas e caiu como uma bomba na ltima semana de novembro. A matria principal 
era assinada por Mikael Blomkvist e Erika Berger. Nas primeiras horas, a imprensa no soube muito bem como lidar com esse furo; um texto do mesmo gnero, publicado 
um ano antes, condenara Mikael Blomkvist a uma pena de priso por difamao e ocasionara seu aparente afastamento da revista Millennium. Sua credibilidade, portanto, 
era bastante frgil. E eis que o mesmo jornalista voltava na mesma revista com uma histria carregada de acusaes bem mais pesadas que o texto pelo qual fora condenado. 
O contedo parecia s vezes to absurdo que alguns suspeitaram da sade mental dos autores. Assim, a imprensa sueca permaneceu desconfiada e na expectativa.
    Mas, no comeo da noite, o programa Ela, da TV4, mostrou seus trunfos, resumindo em onze minutos os pontos fortes das acusaes de Blomkvist. Erika Berger almoara 
com a apresentadora do programa dias antes e lhe apresentara as provas com exclusividade.
    O furo dado pela TV4 eclipsou as tevs pblicas, que s mencionaram as informaes nos noticirios das nove da noite. A TT emitiu um primeiro comunicado, prudentemente 
intitulado: "Jornalista condenado acusa financista de crimes graves". O texto retomava o essencial da reportagem da TV4, mas o fato de a TT abordar o assunto desencadeou 
uma atividade febril nas redaes do jornal matutino conservador e de uma dzia de outros grandes dirios da provncia, que decidiram modificar s pressas sua primeira 
pgina antes que as rotativas comeassem a rodar. At ento os jornais haviam mais ou menos decidido ignorar as acusaes da Millennium.
    O jornal matutino liberal comentou o furo da Millennium num editorial escrito pelo prprio redator-chefe na mesma tarde. Esse redator compareceu depois a um 
jantar no momento em que iam ao ar as informaes da TV4 e ignorou os insistentes apelos de seu secretrio de redao  para quem "podia haver alguma coisa" nas 
afirmaes de Blomkvist  com uma frase que ficaria famosa: "Bobagem, nossos reprteres de economia j teriam descoberto isso h muito tempo". Resultado: seu jornal 
foi a nica voz na mdia do pas a negar totalmente as afirmaes da Millennium. O editorial continha expresses como perseguio pessoal, imprensa marrom, atitude 
criminosa, e reclamava medidas contra os que lanam afirmaes contrrias  lei e atacam cidados honestos. Mas foi a nica contribuio desse redator-chefe ao debate 
que comearia a seguir.
    Ningum arredou p da redao da Millennium  noite. Estava previsto que apenas Erika Berger e Maln Eriksson, a nova secretria de redao, ficariam para atender 
eventuais chamados. Mas s nove da noite todos os colaboradores ainda estavam por ali, alm de quatro ex-associados e meia dzia de freelancers fiis. Por volta 
da meia-noite, Christer Malm abriu uma garrafa de champanhe, depois que um velho amigo de um jornal vespertino lhe passou uma primeira cpia de um dossi de dezesseis 
pginas dedicado ao caso Wennerstrm sob o ttulo "A mfia das finanas". Quando os jornais vespertinos saram no dia seguinte, uma investigao sem precedente havia 
comeado na mdia.
    A secretria de redao Malu Eriksson concluiu que ia se divertir muito na Mllennium.
    
    
    Nos dias seguintes, a Bolsa da Sucia tremeu quando o departamento de polcia especializado em crimes financeiros comeou a se envolver no caso, com procuradores 
sendo chamados para participar do inqurito, e uma lufada de pnico desencadeou uma onda de vendas. Dois dias aps a denncia, o caso Wennerstrm transformou-se 
em assunto governamental, obrigando o ministro da Indstria a se pronunciar.
    A investigao no significou que a mdia engoliu as denncias da Millennium sem questionamento  eram revelaes srias demais para isso. Mas, diferentemente 
do primeiro caso Wennerstrm, desta vez a Millennium respaldou seu dossi com provas muito consistentes: o correio eletrnico pessoal de Wennerstrm e cpias do 
contedo de seu computador, com movimentos de fundos secretos nas ilhas Caims e em vinte e tantos outros pases, acordos sigilosos e outros disparates que um criminoso 
mais prudente jamais teria deixado no disco rgido de seu computador. Ficou rapidamente estabelecido que, se as afirmaes da Millennium fossem levadas  Corte Suprema 
 e todos concordavam que cedo ou tarde o caso acabaria chegando l , seria sem dvida nenhuma a maior bomba a explodir no mundo sueco das finanas desde o colapso 
financeiro de Kreuger em 1932. Em comparao com o caso Wennerstrm, as negociatas do Banco Gota e a fraude de Trustor pareciam amenas. Tratava-se agora de um crime 
de dimenses to amplas que ningum ousava sequer especular sobre o nmero de infraes  lei que ele implicava.
    Pela primeira vez no jornalismo econmico sueco foram usadas expresses tais como criminalidade sistemtica, mfia e reinado de gngsteres. Wennerstrm e seu 
crculo de jovens corretores, associados e advogados em traje Armani foram comparados a um bando qualquer de assaltantes de banco ou traficantes de droga.
    
    Durante os primeiros dias da investigao na mdia, Mikael Blomkvist permaneceu invisvel. No respondia a e-mails nem atendia telefone. Todas as declaraes 
foram dadas por Erika Berger, que ronronava como um gato ao ser entrevistada por representantes das principais mdias do pas, por jornais de provncias importantes 
e, aos poucos, tambm pela imprensa internacional. Sempre que lhe perguntavam como a Millennium tivera acesso quela documentao interna altamente privada, ela 
respondia com um sorriso misterioso que se transformava depressa em cortina de fumaa: "No podemos, evidentemente, revelar nossas fontes".
    Quando lhe perguntavam por que a denncia do ano anterior contra Wennerstrm fora um fiasco, ela se mostrava ainda mais enigmtica. No mentia, mas tambm no 
dizia toda a verdade. Off the record, quando no tinha um microfone sob o nariz, deixava escapar algumas frases impenetrveis que, quando ligadas entre si, incitavam 
a concluses apressadas. Assim, surgiu um boato que logo adquiriu propores legendrias, segundo o qual Mikael Blomkvist no se defendera no processo e deixara-se 
voluntariamente condenar a uma pena de priso para proteger a sua fonte. Ele foi comparado a modelos da mdia americana que preferem a priso a ter que revelar uma 
fonte, e descreveram-no como um heri em termos to lisonjeiros que ele se aborreceu. Mas no era momento de desmentir mal-entendidos.
    Todos concordavam sobre uma coisa: a pessoa que passara as informaes era certamente algum do crculo mais ntimo de confiana de Wennerstrm. Assim teve incio 
um debate paralelo interminvel para saber quem seria o "Garganta Profunda". Colaboradores descontentes, advogados, e mesmo a filha viciada em cocana de Wennerstrm 
e outros membros de sua famlia foram apontados como possveis informantes. Nem Mikael Blomkvist nem Erika Berger disseram nada. Nunca comentavam o assunto.
    Erika exibiu um grande sorriso de satisfao e soube que eles haviam ganhado quando um dos jornais vespertinos, no terceiro dia da investigao, deu a manchete 
"A revanche da Millennium". O texto apresentava uma imagem muito positiva da revista e de seus colaboradores e era ilustrado com uma foto em que Erika aparecia muito 
bem. Ela era chamada de a rainha do jornalismo investigativo. Isso significava pontos na hierarquia das personalidades colunveis e j se cogitava no Grande Prmio 
de Jornalismo.
    
    
    Cinco dias depois de a Millennium ter disparado a primeira salva de canho, o livro de Mikael Blomkvist, O banqueiro da mfia, chegou s livrarias. O livro, 
escrito durante os dias febris em Sandhamn nos meses de setembro e outubro, fora impresso a toque de caixa e no maior sigilo pela Hallvigs Reklam em Morgongava, 
uma grfica de folhetos: publicitrios. Era o primeiro livro lanado por uma nova editora que trazia o logotipo Millennium. A dedicatria era misteriosa: A Sally, 
que me apresentou aos benefcios do golfe.
    Tratava-se de um calhamao de seiscentas e quinze pginas em formato de bolso. A pequena tiragem de dois mil exemplares antevia um lanamento a fundo perdido, 
mas a primeira edio esgotou-se em poucos dias e Erika rapidamente providenciou uma reimpresso de mais dois mil exemplares.
    Os crticos constataram que desta vez Mikael Blomkvist no havia economizado munio no que se referia  divulgao de suas fontes, e nisso tinham toda a razo. 
Dois teros do livro eram dedicados a anexos, com cpias diretas da documentao proveniente do computador de Wennerstrm. Juntamente com a publicao do livro, 
a Millennium disponibilizou em seu site trechos dessas pginas sob forma de dados que podiam ser baixados no formato PDF. Qualquer um que se interessasse podia ter 
acesso a esses dados.
    A estranha ausncia de Mikael Blomkvist fazia parte da estratgia de mdia que Erika e ele haviam montado. Todos os jornais do pas o procuravam. Para o lanamento 
do livro, porm, Mikael concedeu uma entrevista exclusiva ao programa Ela da TV4, que mais uma vez saiu na frente das tevs pblicas. No se tratava, porm, de uma 
conversa entre amigos, e as perguntas foram tudo menos obsequiosas.
    Ao assistir ao vdeo da entrevista, Mikael ficou particularmente satisfeito com seu desempenho numa troca de rplicas. A entrevista fora realizada ao vivo no 
momento em que a Bolsa de Estocolmo estava em queda livre e jovens arrivistas do mundo financeiro ameaavam se jogar pela janela. Perguntaram-lhe sobre a responsabilidade 
da Millennium no naufrgio da economia sueca que ocorria naquele momento.
     Afirmar que a economia da Sucia est naufragando  um contra-senso  respondeu Mikael sem pestanejar.
    A entrevistadora da TV4 mostrou-se perplexa. A resposta no seguia o esquema previsto e ela foi obrigada a improvisar. A pergunta seguinte foi exata-mente a 
que Mikael esperava: "Estamos passando pelo maior desastre individual da histria da Bolsa sueca e o senhor afirma que  um contra-senso?".
     Veja, no podemos misturar estas duas coisas: a economia sueca e o mercado da Bolsa sueca. A economia sueca  a soma de todas as mercadorias e de todos os 
servios produzidos neste pas diariamente. So os telefones da Ericsson, os veculos da Volvo, os frangos da Scan e os transportes martimos de Kiruna a Skvde. 
Essa  a economia sueca, e hoje ela continua to forte ou to fraca quanto uma semana atrs.
    Fez uma pausa retrica e bebeu um gole de gua.
     A Bolsa  algo bem diferente. Nela no h economia, nenhuma produo de mercadorias ou de servios. H somente fantasias nas quais, de uma hora para outra, 
decide-se que essa ou aquela empresa vale alguns bilhes a mais ou a menos. Isso no tem nada a ver com a realidade nem com a economia sueca.
     Quer dizer ento que no tem a menor importncia que a Bolsa esteja cm plena queda livre?
     Isso mesmo, no tem a menor importncia  respondeu Mikael com uma voz to cansada e resignada que ele parecia uma espcie de orculo. Sua frase seguinte seria 
citada mais de uma vez ao longo do ano. Ele prosseguiu:  Significa apenas que os grandes especuladores esto transferindo suas aplicaes financeiras em empresas 
suecas para empresas alems. Se comportam como as hienas das finanas que um reprter um pouco mais corajoso deveria saber identificar e levar ao pelourinho como 
traidores da ptria. So eles que, de forma sistemtica e deliberada, minam a economia sueca para satisfazer os interesses de seus clientes.
    Em seguida, a entrevistadora da TV4 cometeu o erro de fazer exatamente a pergunta que Mikael desejava ouvir.
     Ento est querendo dizer que a mdia no tem nenhuma responsabilidade?
     Ao contrrio, a mdia tem uma enorme responsabilidade. Durante pelo menos vinte anos, um grande nmero de jornalistas econmicos se omitiu de examinar o caso 
Hans-Erik Wennerstrm. Em vez disso, esses jornalistas ajudaram a construir o prestgio dele atravs de retratos idlatras e delirantes. Se tivessem trabalhado corretamente 
durante todos esses anos, no estaramos nessa situao hoje.
    
    
    Sua apario significou uma mudana de atitude. Erika foi percebendo que somente no instante em que Mikael defendia calmamente suas acusaes na televiso  
que a imprensa sueca ia entendendo, embora a Millennium figurasse nas manchetes havia uma semana, que a histria era consistente e que as alegaes da revista eram 
de fato reais. A atitude dele determinou o rumo da histria.
    Depois dessa entrevista, o caso Wennerstrm passou imperceptivelmente da rea de economia para a da reportagem policial. Houve tambm uma mudana na maneira 
de pensar da imprensa. Antes, os reprteres policiais raramente, ou nunca, escreviam sobre crimes econmicos, exceto para falar da mfia russa ou dos contrabandistas 
de cigarros iugoslavos. No se esperava que reprteres policiais investigassem as operaes escusas da Bolsa. Um jornal vespertino chegou a levar ao p da letra 
o que Mikael havia dito e abriu duas pginas duplas com fotos de um dos corretores mais importantes de agncias financeiras adquirindo ttulos alemes. A manchete 
do jornal: "Eles esto vendendo o pas". Os corretores foram convidados a comentar as acusaes. Todos se recusaram. Mas o volume de transaes diminuiu consideravelmente 
nesse dia e alguns corretores desejosos de parecer progressistas comearam a remar contra a corrente. Mikael Blomkvist divertia-se a valer.
    A presso foi to forte que homens srios de terno escuro assumiram um ar grave e pecaram contra a regra nmero um do crculo mais fechado das finanas suecas 
 pronunciaram-se sobre um colega. De repente, dirigentes aposentados da Volvo, industriais e diretores de banco apareceram na tev respondendo s perguntas e tentando 
diminuir os prejuzos. Todos admitiam a gravidade da situao e queriam se distanciar o mais rpido possvel do grupo Wennerstrm, desembaraando-se de suas aes. 
Wennerstrm (eles constataram quase por unanimidade) no era um verdadeiro industrial e nunca fora inteiramente aceito no "clube". Algum lembrou que, no fundo, 
era apenas um filho de operrio do Norrland que talvez tivesse se deixado levar pelo sucesso. Outro descreveu suas aes como uma tragdia pessoal. No faltou quem 
dissesse que sempre duvidara de Wennerstrm  era muito arrogante e mal-educado.
    Nas semanas seguintes,  medida que os documentos que a Millennium apresentara eram examinados com lupa e o quebra-cabea remontado, foi estabelecida a ligao 
entre o imprio wernnerstrmiano de empresas obscuras e a mfia internacional, que englobava tudo, desde o trfico de armas e a lavagem de dinheiro vindo do trfico 
sul-americano de drogas at a prostituio em Nova York e at mesmo, indiretamente, o comrcio sexual de crianas no Mxico. Uma empresa de Wennerstrm sediada em 
Chipre suscitou uma indignao colossal quando se divulgou que ela havia tentado comprar urnio enriquecido no mercado negro da Ucrnia. Por toda parte, uma ou outra 
das inmeras empresas-fantasmas de Wennerstrm parecia surgir num contexto nebuloso.
    
    
    Erika Berger constatou que o livro sobre Wennerstrm era o que Mikael j havia escrito de melhor. O estilo era desigual e a prpria linguagem era pobre em alguns 
momentos  ele no tivera tempo de cuidar da forma , mas Mikael dava o troco e o livro inteiro era movido por uma raiva que seria forosamente percebida por qualquer 
leitor.
    
    
    Por acaso, Mikael Blomkvist topou com seu antagonista, o ex-reprter de economia William Borg,  porta do Moulin, onde Mikael, Erika Berger e Christer Malm foram 
festejar com seus colaboradores o Dia de Santa Luzia, numa noitada generosamente regada a bebidas, patrocinada pela revista. Borg estava acompanhado de uma garota 
completamente bbada, da idade de Lisbeth Salander.
    Mikael deteve-se e o encarou. Borg sempre lhe despertara seus piores impulsos e ele foi obrigado a se controlar para no dizer ou fazer algo inconveniente. Os 
dois mediram-se com o olhar sem dizer uma palavra.
    A averso de Mikael por Borg era visvel. Erika interrompeu esse comportamento de machos tomando Mikael pelo brao e conduzindo-o para dentro do bar.
    Mikael decidiu que, numa prxima ocasio, pediria que Lisbeth Salander fixasse uma de suas investigaes pessoais sobre Borg. Apenas formalidade.
    
    
    Durante toda a tempestade na mdia, o personagem principal do drama, o financista Hans-Erik Wennerstrm, permaneceu praticamente invisvel. No dia cm que a reportagem 
da Millennium saiu, o magnata das finanas comentou o texto numa entrevista coletiva de imprensa j marcada para tratar de outro assunto. Wennerstrm declarou que 
as acusaes no tinham fundamento e que a documentao apresentada era falsa. Lembrou que o mesmo reprter fora condenado por difamao um ano antes.
    Depois disso, somente os advogados de Wennerstrm responderam s perguntas da imprensa. Dois dias aps o lanamento do livro de Mikael Blomkvist, rumores insistentes 
indicavam que Wennerstrm havia deixado a Sucia. Os jornais vespertinos usaram a palavra "fuga" nas manchetes. Quando, durante a segunda semana, a polcia de crimes 
financeiros tentou entrar em contato com Wennerstrm, constatou-se que ele no se encontrava mais no pas. Em meados de dezembro, a polcia confirmou que Wennerstrm 
estava sendo procurado e, na vspera do Dia de So Silvestre, um comunicado de busca formal foi expedido para as polcias internacionais. Nesse mesmo dia, um dos 
conselheiros prximos de Wennerstrm foi detido quando tentava pegar um avio para Londres.
    Vrias semanas depois, um turista sueco disse ter visto Hans-Erik Wennerstrm entrando num carro em Bridgetown, capital de Barbada, nas Pequenas Antilhas. Para 
provar o que dizia, o turista enviou uma foto tirada a grande distncia que mostrava um homem de culos escuros vestindo uma camisa branca desabotoada e cala clara. 
O homem no podia ser identificado com certeza, mas os jornais vespertinos enviaram reprteres que tentaram, sem xito, seguir a pista de Wennerstrm nas ilhas antilhanas. 
Foi o comeo de uma perseguio fotogrfica do bilionrio em fuga.
    Seis meses mais tarde, a caada foi interrompida. Hans-Erik Wennerstrm foi encontrado morto num apartamento em Marbella, na Espanha, onde residia sob o nome 
de Victor Fleming. Fora morto com trs tiros na nuca disparados  queima-roupa. A polcia espanhola seguiu a hiptese de que ele fora vtima de um assaltante.
    
    
    A morte de Wennerstrm no foi surpresa para Lisbeth Salander. Ela tinha boas razes para suspeitar que sua morte estava relacionada ao fato de ele no ter mais 
acesso ao dinheiro de um certo banco nas ilhas Caims, que teria necessitado para pagar algumas dvidas na Colmbia.
    Se algum tivesse se dado o trabalho de pedir a ajuda de Lisbeth Salander para localizar Wennerstrm, ela teria podido dizer exatamente onde ele estava quase 
todos os dias. Ela acompanhara pela internet sua fuga desesperada por cerca de dez pases e observara seu pnico crescente atravs do correio eletrnico, quando 
ele conectava seu computador em algum lugar. Mas nem Mikael Blomkvist teria acreditado que o ex-bilionrio em fuga fosse to cretino a ponto de levar consigo o mesmo 
computador que fora to cuidadosamente invadido.
    Depois de seis meses, Lisbeth cansou-se de seguir Wennerstrm. A pergunta que ela devia responder agora era at onde ia seu envolvimento.
    
    
    Wennerstrm era certamente um vigarista de primeira categoria, mas no era seu inimigo pessoal; ela no tinha interesse em interferir na vida dele. Poderia avisar 
Mikael Blomkvist, mas ele se contentaria em publicar uma boa histria. Poderia avisar a polcia, mas a probabilidade de Wennerstrm ser avisado a tempo e desaparecer 
era muito grande. Alm disso, por princpio ela no falava com a polcia.
    Mas havia outras contas a acertar. Ela pensava na servente de vinte e dois anos cuja cabea fora mantida mergulhada na banheira.
    Quatro dias antes de encontrarem o corpo de Wennerstrm, ela tomou uma deciso. De seu celular, ligou para um advogado em Miami, na Flrida, que parecia ser 
uma das pessoas que Wennerstrm mais tentava evitar. Falou com uma secretria e pediu que lhe transmitisse uma mensagem sibilina. Um nome, Wennerstrm, e um endereo 
em Marbella. Nada mais.
    Quando a tev anunciou a morte de Wennerstrm, ela abandonou a reportagem pela metade. Foi preparar um caf e um sanduche de pat de fgado com pepinos em conserva.
    
    
    Erika Berger e Christer Malm ocupavam-se dos costumeiros preparativos para o Natal. Sentado na cadeira de Erika, Mikael olhava os dois enquanto bebia um vinho 
quente. Todos os colaboradores c muitos dos freelancers regulares receberam de presente de fim de ano uma sacola de couro com o logotipo da Mlllennium. Depois de 
prepararem os pacotes, eles se lanaram ao trabalho de escrever e selar mais de duzentos cartes de Natal destinados  imprensa, fotgrafos e colegas.
    Mikael tentou resistir  tentao, mas no conseguiu. Pegou um ltimo carto de Natal e escreveu: Feliz Natal e Feliz Ano Novo. Obrigado por sua inestimvel 
contribuio no longo deste ano.
    Assinou e endereou o carto a Janne Dahlman, aos cuidados da redao do Finansmagasinet Monopol.
    Quando Mikael voltou para casa  noite, encontrou um aviso do correio na caixa de correspondncia. Foi buscar a encomenda na manh seguinte e a abriu assim que 
chegou  redao. O pacote continha um repelente contra mosquito e meia garrafa de Reimersholm Aquavita. Um bilhete dizia: Se no tiver programa melhor, estarei 
ancorado em Arholma no prximo solstcio de vero. Estava assinado por seu ex-colega de classe Robert Lindberg.
    
    
    Tradicionalmente, a redao da Millennium parava de trabalhar antes do Natal e durante as festas de fim de ano. Desta vez as coisas no puderam ser assim; a 
pequena redao estava sendo muito solicitada, e jornalistas do mundo inteiro continuavam a procur-la diariamente. Dois dias antes do Natal, Mikael Blomkvist leu 
quase por acaso um artigo no Financial Times que resumia a situao atual da comisso bancria c financeira internacional, constituda s pressas para investigar 
o imprio Wennerstrm. O artigo dizia que a comisso trabalhava com a hiptese de que Wennerstrm recebera no ltimo momento uma advertncia de que seria desmascarado.
    De fato, suas contas no Bank of Kroenenfeld nas ilhas Caims, com duzentos e sessenta milhes de dlares, haviam sido esvaziadas na vspera da denncia publicada 
pela Millemium.
    Esse dinheiro encontrava-se em contas que somente Wennerstrm podia movimentar. Ele nem tinha necessidade de ir ao banco; bastava apresentar uma srie de cdigos 
de compensao para que o dinheiro fosse transferido a qualquer banco de qualquer lugar do mundo. O dinheiro fora transferido para a Sua, onde uma colaboradora 
convertera a soma em obrigaes nominativas annimas. Todos os cdigos de compensao estavam em ordem.
    A Europol expedira um comunicado de busca internacional da mulher desconhecida que utilizara um passaporte ingls roubado em nome de Vernica Sholes e que teria 
se hospedado num dos hotis mais caros de Zurique. Uma foto relativamente ntida, tirada por uma cmera de segurana, mostrava uma mulher de baixa estatura com cabelos 
de franja reta, uma boca grande, seios generosos, roupas de grife e jias de ouro.
    Mikael Blomkvist examinou a foto, primeiro com uma rpida olhada, depois com expresso cada vez mais ctica. Passados alguns segundos, pegou uma lupa na gaveta 
de sua mesa e tentou distinguir detalhes do rasto na foto do jornal.
    Por fim, largou o jornal e ficou de boca aberta por alguns minutos, at soltar unia gargalhada to histrica que Christer Malm levantou a cabea e perguntou 
o que estava acontecendo. Mikael conseguiu apenas agitar a mo como resposta.
    
*  *  *
    Na manh da vspera de Natal, Mikael foi a Arsta se encontrar com a ex-mulher e a filha Pernilla para a troca de presentes. Pernilla recebeu o computador que 
estava no topo da sua lista e que Mikael e Monika haviam comprado juntos. Mikael ganhou uma gravata de Monika e, da filha, um romance policial de Ake Edwardson. 
Diferentemente do Natal anterior, todos estavam excitados com a ateno que a Millennium despertava na imprensa.
    Almoaram juntos. Mikael olhava Pernilla com o rabo do olho. No via a filha desde que ela passara por Hedestad. Deu-se conta de que no havia conversado com 
Monika sobre a atrao de Pernilla por aquela seita tradicionalista em Skelleftea. Tampouco podia contar que foram os conhecimentos bblicos dela que o puseram finalmente 
na pista certa sobre o desaparecimento de Harriet Vanger. No havia falado com a filha desde ento e sentia uma ponta de remorso.
    Ele no era um bom pai.
    Depois do almoo, despediu-se da filha com um beijo e foi se encontrar com Lisbeth Salander no Slussen, para irem juntos a Sandhamn. Pouco haviam se visto desde 
que a Millennium soltara a bomba. Chegaram l tarde da noite e ficaram at depois do Natal.
    
    
    Como sempre, Mikael era uma companhia divertida, mas Lisbeth Salander teve a desagradvel sensao de que ele a olhou de um modo particularmente estranho quando 
ela devolveu, com um cheque de cento e vinte mil coroas, o dinheiro que ele lhe emprestara. Mikael se absteve, porm, de qualquer comentrio.
    Fizeram um passeio at Trovill (o que Lisbeth considerou uma perda de tempo) e na volta compartilharam a ceia de Natal no albergue. Depois recolheram-se  cabana 
de Mikael, acenderam o aquecedor a lenha, puseram um disco de Elvis e se entregaram a brincadeiras sexuais tranquilas. De tempo em tempo, quando Lisbeth voltava 
 tona, ela tentava compreender o que estava sentindo.
    Ela no tinha nenhum problema com Mikael como amante. Eles se divertiam na cama, era um entendimento fsico muito espontneo. E ele nunca tentava se impor.
    O problema  que ela no entendia o que sentia por ele. Desde a puberdade, nunca baixara a guarda desse modo, deixando outra pessoa se aproximar tanto. Mikael 
Blomkvist tinha uma capacidade impressionante de transpor seus mecanismos de defesa e de lev-la, mais de uma vez, a falar de assuntos e sentimentos pessoais. Mesmo 
tendo o bom senso de ignorar a maior parte das perguntas dele, ela falava de si mesma como no podia imaginar que o faria com algum, nem se ameaada de morte. Isso 
a inquietava e a fazia se sentir nua e entregue  vontade dele.
    Ao mesmo tempo  quando o olhava adormecido e escutava os seus roncos , sentia que nunca confiara to incondicionalmente em algum. Sabia com uma certeza absoluta 
que Mikael Blomkvist jamais se aproveitaria do que sabia dela para feri-la. No fazia parte da natureza dele.
    A nica coisa de que no falavam era da relao deles. Lisbeth no ousava falar e Mikael nunca tocava no assunto.
    Na manh seguinte  noite de Natal, tudo lhe pareceu de uma clareza assustadora. Ignorava como isso havia acontecido e tampouco no sabia o que iria fazer. Estava 
apaixonada pela primeira vez na vida.
    Pouco importava que ele tivesse quase o dobro da sua idade. Nem que ele fosse, no momento, uma das pessoas mais badaladas da Sucia, que tinha inclusive sido 
capa da Newsweek  tudo no passava de blablabl. Mikael Blomkvist, porm, no era nem uma fantasia ertica nem um sonho acordado. Aquilo teria um fim e no poderia 
dar certo. Que necessidade ele tinha dela? A rigor, ela era apenas um passatempo enquanto ele aguardava a chegada de algum cuja vida no fosse um maldito ninho 
de ratos.
    De repente ela percebeu que o amor era o instante em que o corao fica a ponto de explodir.
    Quando Mikael acordou, quase no final da manh, ela j havia preparado o caf e posto a mesa para o desjejum. Ele a acompanhou  mesa e logo percebeu que alguma 
coisa mudara na atitude dela  ela estava um pouco mais reservada. Quando ele perguntou o que havia, ela o olhou com uma expresso indefinida, como quem no est 
entendendo.
    
    
    Depois do Natal, Mikael Blomkvist tomou o trem para Hedestad. Estava bem agasalhado e com verdadeiros calados de inverno quando Dirch Frode foi busc-lo na 
estao e o felicitou em voz baixa por seu sucesso jornalstico. Desde agosto no vinha a Hedestad e fazia quase uni ano que aparecera ali pela primeira vez. Os 
dois trocaram um aperto de mo, trataram-se cortesmente, mas havia entre eles muitas coisas no ditas, e Mikael sentia-se pouco  vontade.
    Tudo fora preparado e a transao na casa de Dirch Frode durou apenas alguns minutos. Frode props que o dinheiro fosse depositado numa conta no exterior, mas 
Mikael quis que o pagamento fosse feito como honorrios comuns.
     No disponho de meios para receber o pagamento de outra forma  respondeu, seco, quando Frode insistiu.
    No era uma visita de natureza meramente econmica. Mikael tinha deixado roupas, livros e alguns objetos pessoais na casa dos convidados, quando ele e Lisbeth 
saram s pressas de Hedeby.
    Henrik Vanger continuava frgil desde o infarto, mas deixara o hospital de Hedestad e estava de volta  sua casa. Era constantemente acompanhado por uma enfermeira 
particular que o proibia de fazer longas caminhadas, subir escadas c discutir qualquer coisa que pudesse lhe causar fortes emoes. Bem naqueles dias ele pegara 
um resfriado e tinha ordens de no sair da cama.
     Alm de tudo, ela custa caro  queixou-se Henrik Vanger. Mikael Blomkvist no ficou especialmente comovido; achou que o velho tinha condies de pagar, considerando 
o nmero de coroas que sonegara na vida. Henrik Vanger olhou para ele, contrariado, mas logo comeou a rir.
     Dane-se! Voc valeu todo esse dinheiro. Eu sabia.
     Para falar a verdade, no achei que pudesse resolver o mistrio.
     No pretendo te agradecer  disse Henrik.
     E eu nem esperava por isso  respondeu Mikael.
     Voc foi regiamente pago.
     No me queixo.
     Fez um trabalho para mim e o salrio deveria bastar como agradecimento.
     Vim apenas para dizer que considero o trabalho encerrado. Henrik Vanger fez um trejeito de fingida contrariedade.
     Voc ainda no terminou o trabalho  disse.
     Eu sei.
     No escreveu a crnica da famlia Vanger, como est no nosso acordo.
    
     Eu sei. E no vou escrever.
    Refletiram em silncio sobre essa quebra de contrato. Depois Mikael continuou:
     No posso escrever essa histria. No posso falar da famlia Vanger e deixar deliberadamente de lado os acontecimentos essenciais das ltimas dcadas: Harriet, 
seu pai, seu irmo e os assassinatos. Como poderia escrever um captulo sobre o empresrio Martin Vanger e fazer de conta que no sei o que havia no poro da casa 
dele? E tampouco posso escrever a histria sem destruir mais uma vez a vida de Harriet.
     Entendo seu dilema e agradeo a escolha que fez.
     Portanto vou jogar essa histria no lixo. Henrik Vanger assentiu com a cabea.
     Parabns  disse Mikael. Voc conseguiu me corromper. Vou destruir todas as minhas anotaes e os registros das nossas conversas.
     No acho que tenha sido corrompido  disse Henrik.
     E como estou me sentindo. E acho que  isso mesmo.
     Precisou escolher entre seu trabalho como jornalista e seu trabalho como ser humano. Eu no teria conseguido comprar seu silncio. Tenho certeza de que teria 
escolhido seu papel de jornalista e nos exposto  degradao pblica, se Harriet estivesse de algum modo implicada no caso ou se voc me considerasse uma pessoa 
baixa.
    Mikael no disse nada. Henrik olhava para ele.
     Informamos Ceclia de tudo. Em breve Dirch Frode e eu no estaremos mais aqui e Harriet vai precisar do apoio de alguns membros da famlia. Ceclia passar 
a participar de forma ativa do conselho administrativo. Ela e Harriet  que dirigiro o grupo no futuro.
     Como ela reagiu quando soube?
     Ficou chocada, evidentemente. Viajou ao exterior por algumas semanas. Achei que no fosse voltar.
     Mas voltou.
     Martin era um dos raros membros da famlia com quem Ceclia sempre havia se dado bem. Foi duro para ela saber a verdade a respeito dele. Ceclia agora tambm 
sabe o que voc fez por nossa famlia.
    Mikael encolheu os ombros.
     Obrigado, Mikael  disse Henrik Vanger.
    Mikael encolheu novamente os ombros e depois falou:
     De qualquer forma, eu no conseguiria escrever essa histria. A famlia Vanger me d nuseas.
    Refletiram um pouco, antes de Mikael mudar de assunto.
     Qual a sensao de voltar a ser diretor-executivo depois de vinte e cinco anos?
     E temporrio, mas... eu gostaria de ser mais jovem. Agora s trabalho trs horas por dia. Todas as reunies se realizam aqui neste cmodo e Dirch Frode reassumiu 
seu lugar como meu homem de confiana, caso haja algum problema.
     Os jovens executivos devem estar tremendo. Demorei para entender que Dirch Frode no era apenas um fiel conselheiro econmico, mas algum que resolve problemas 
para voc.
     Exatamente. Mas todas as decises so tomadas com Harriet,  ela quem fica no escritrio.
     Como ela est?  perguntou Mikael.
     Herdou as partes do irmo e da me. Juntos controlamos mais de trinta e trs por cento do grupo.
      o suficiente?
     No sei. Birger est resistindo e tentando faz-la tropear. Alexander descobriu que tem uma possibilidade de ser importante c aliou-se a Birger. Meu irmo 
Harald tem um cncer e no vai viver muito. E ele que ocupa o segundo lugar com sete por cento das aes, que passaro aos filhos. Mas Ceclia e Anita vo se aliar 
com Harriet.
     Ento controlaro mais de quarenta por cento.
     Nunca houve uma tal aliana de votos na famlia. E h muitos pequenos acionistas, com um ou dois por cento, que votaro conosco. Harriet dever me suceder 
como diretora em fevereiro.
     Fia no fitar feliz.
     No, mas  necessrio. Precisamos de novos parceiros c de sangue novo. Temos tambm a possibilidade de trabalhar com o grupo dela na Austrlia. Os meios existem.
     Onde est Harriet agora?
     Voc no teve sorte. Ela est em Londres. Mas tem muita vontade de ver voc.
     Eu a verei na reunio do conselho da Millennium em janeiro, se ela o substituir.
     Certo.
     Diga-lhe que nunca falarei com ningum sobre o que aconteceu em 1966, exceto com Erika Berger.
     Sei disso, e Harriet tambm sabe. Voc  um homem honesto, Mikael.
     Mas diga-lhe tambm que tudo o que fizer a partir de agora pode aparecer nas pginas da revista se ela no tomar cuidado. O grupo Vanger no estar livre de 
observao.
     Eu a prevenirei.
    Mikael deixou Henrik Vanger quando ele comeou a pegar no sono. Ps seus pertences em duas malas. Fechou a porta da casa dos convidados pela ltima vez, hesitou 
um instante, depois foi bater na porta de Ceclia Vanger. Ela no estava. Ele pegou sua agenda de bolso, arrancou uma pgina e rabiscou algumas palavras. Perdoe-me. 
Desejo-lhe uma vida feliz. Deixou a folhinha de papel com seu carto de visita na caixa de correspondncia. A casa de Martin Vanger estava vazia. Havia uma luminria 
de Natal acesa na janela da cozinha.
    Ele voltou a Estocolmo no trem da noite.
    
    
    Entre o Natal e o Ano-novo, Lisbeth Salander desconectou-se do mundo. No atendeu o telefone e no ligou o computador. Passou dois dias lavando suas roupas e 
arrumando o apartamento. Embalagens de pizza e jornais velhos de um ano foram empacotados e jogados fora. Ao todo, utilizou nessa triagem seis sacos pretos de plstico, 
grandes, e uns vinte sacos de papel com jornais. Parecia ter decidido comear vida nova. Pretendia comprar um apartamento  quando encontrasse um que lhe conviesse 
, mas at l seu apartamento atual estaria to reluzente como ela no se lembrava de ter visto.
    Depois, ficou como que paralisada, refletindo. Nunca sentira uma vontade como aquela. Queria que Mikael Blomkvist tocasse a campainha e... o qu? Que a erguesse 
nos braos? Que a levasse apaixonadamente at o quarto e arrancasse suas roupas? No, na verdade desejava apenas a companhia dele. Queria ouvi-lo dizer que gostava 
dela como ela era. Que ela era uma pessoa especial no mundo e na vida dele. Queria que lhe fizesse um gesto de amor, no apenas de amizade e camaradagem. Estou ficando 
doida, pensou.
    
    
    Ela duvidava de si mesma. Mikael Blomkvist vivia num mundo habitado por pessoas com profisses respeitveis, que tinham vidas organizadas e talentos de gente 
adulta. Os amigos de Mikael faziam coisas, apareciam na tev e produziam grandes manchetes. Para que eu serviria? O maior terror de Lisbeth Salander, to grande 
e negro que assumia propores fbicas, era que as pessoas rissem de seus sentimentos. E de repente teve a impresso de que todo o seu amor-prprio, to laboriosamente 
construdo, desmoronava.
    Ento decidiu-se. Levou vrias horas mobilizando a coragem necessria, mas sentia-se na obrigao de v-lo e de dizer a ele o que sentia.
    Todo o resto era insuportvel.
    Ela precisava de um pretexto para ir  casa dele. No lhe dera uni presente de Natal, mas sabia o que comprar. Tinha visto num antiqurio uma srie de cartazes 
publicitrios de metal dos anos 1950, com figuras em relevo. Um dos cartazes mostrava Elvis Presley apoiando a guitarra no quadril e os dizeres: Heartbreak Hotel, 
Hotel do Corao Partido. Ela no tinha o menor jeito para a decorao, mas sabia que o cartaz caberia perfeitamente na cabana de Sandhamn. Custava setecentas e 
oitenta coroas e, por princpio, regateou o preo c baixou para setecentas. Fizeram-lhe um pacote, ela o ps debaixo do brao e foi a p para o apartamento de Mikael 
na Bellmansgatan.
    Quando passava pela Hornsgatan, olhou para o Bar-Caf e viu Mikael saindo dali acompanhado de Erika Berger. Ele disse alguma coisa, Erika riu, passou o brao 
pela cintura dele e beijou seu rosto. Eles desapareceram pela Brannkyrkagatan em direo  Bellmansgatan. A linguagem corporal dos dois no dava margem a falsas 
interpretaes  era bvio o que eles tinham em mente.
    A dor foi to instantnea e insuportvel que Lisbeth se deteve imediatamente, incapaz de se mexer. Uma parte dela quis correr para alcan-los. Ela queria usar 
a borda afiada do cartaz de metal para cortar a cabea de Erika Berger. No fez nada, enquanto os pensamentos se agitavam em sua cabea. Anlise das consequncias. 
Acabou se acalmando.
    Salander, que ridcula, que idiota voc !, disse a si mesma em voz alta.
    Virou as costas e tomou o caminho de volta ao seu reluzente apartamento. Passava pelo hotel Zinkensdamm quando comeou a nevar. Jogou o Elvis num coletor de 
lixo.



http://groups.google.com.br/group/digitalsource
http://groups.google.com/group/viciados-em-livros1


      
